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sábado, 22 de dezembro de 2012

"Adeus, até ao meu regresso"




Entre 1961 e 1974, nesta quadra, era habitual a RTP e a Emissora Nacional (E.N.), emitirem programas com mensagens de Natal dos militares mobilizados na Guiné, Angola e Moçambique.

Estas mensagens tinham como finalidade elevar a moral, quer dos que sofriam pelos riscos que corriam os seus familiares, quer dos próprios combatentes.

Nas mensagens gravadas, com som e imagem na RTP, ou apenas com som na E.N., apesar dos ensaios prévios, era habitual alguma atrapalhação, fruto do natural nervosismo de quem nunca se tinha visto naquelas andanças, sendo da praxe referir o bom estado de saúde do militar, os votos de Feliz Natal, o desejo de prosperidades para o ano que se aproximava, além de uma breve frase de despedida, antes de dar lugar ao próximo “cliente”.

Claro que as filmagens não fugiam a uma certa encenação, querendo dar a entender que estavam a ser feitas, de modo mais ou menos improvisado, durante as operações militares. Num destes dois vídeos é particularmente desajeitada a forma como apresentam o espectáculo dos saltos da ponte para um curso de água, que acabam por se revestir de alguma comicidade, que não estava por certo nas intenções do “realizador”.

Na altura, alguma suposta elite nacional gracejava, de forma jocosa, com a frase que dá o título a este texto e que, algumas vezes – mas não tantas como se fazia crer, e os vídeos que aqui incluo, provam-no – encerrava a mensagem.

Outra frase ridicularizada entre os “bem pensantes” da praça, mas que a realidade mostra que não era também tão frequente como se pretendia, era a que manifestava o desejo de que quem por cá tinha ficado tivesse um novo ano “cheio de propriedades”, em que se trocava “prosperidades” por “propriedades”. (*)

Com o tempo, estas duas frases passaram a fazer parte do anedotário nacional.


É certo que a emissão destes programas servia os interesses políticos do Governo do Estado Novo. Mas também não é menos verdade, que os familiares dos “actores” ficavam agarrados ao écran da televisão, ou de ouvidos à escuta na E.N., à espera de ver e de ouvir filhos, maridos, pais, etc.

Numa época em que não se sonhava com a existência do Skype, ou do telefone-satélite (às vezes nem as comunicações entre as unidades, no terreno, funcionavam), e em que para fazer chamadas telefónicas de Luanda para Lisboa cheguei a esperar mais de duas horas na estação dos correios, a visão dos entes queridos na TV, ou a audição na E.N. era um bálsamo que aliviava a ansiedade e a aflição em que viviam por cá os familiares mais próximos de quem estava no mato. E estou certo de que o seu Natal era um pouco menos triste.

Salvo uma eventual falha de memória, não passou por Lucunga nenhuma destas equipas. É certo que durante a época em que as gravações eram feitas – muito antes do Natal – eu estive duas vezes ausente. Primeiro, no Hospital Militar, em Luanda, em tratamento a uma fractura num braço, durante seis semanas, entre Agosto e Setembro de 1966; e depois, um mês, entre Outubro e Novembro, em gozo de férias. Mas creio que se por lá tivesse andado alguma equipa a gravar, algum dos meus camaradas me teria falado disso mais tarde.


(*) (Não devemos esquecer-nos de que naquele tempo pelo menos 20% dos soldados eram analfabetos. Numa recruta que dei na Serra da Carregueira, ao preencher as fichas na recepção dos recrutas da minha Companhia verifiquei, com grande surpresa, que a percentagem de analfabetos era superior a 25%. Era esta a realidade, embora, legalmente, a frequência da escola primária fosse obrigatória.)

P.S. - Pese embora estarmos a viver um clima mais de depressão do que de festa, não quero deixar de desejar a todos os que visitam este blogue, um Natal Feliz.

Quanto ao ano de 2013, espero que o consigamos atravessar sem naufragarmos.





terça-feira, 18 de setembro de 2012

Tragicomédia na Aricanga



Aviso à navegação: Este texto contém expressões que podem ofender algum leitor mais sensível ao vernáculo em que a Língua Portuguesa é rica. Se esse é o seu caso, peço-lhe que termine aqui a sua visita a esta página.

Embora me pareça pouco provável que os três intervenientes no episódio que me proponho narrar venham a ter conhecimento da existência deste blogue (na realidade nem sequer sei se ainda pertencem ao mundo dos vivos), resolvi recriar os seus nomes.

Depois da chegada ao quartel da Gabela, uma boa parte do pessoal foi, pouco a pouco, criando novas amizades com a população local, procurando, preferencialmente, estabelecer um relacionamento mais próximo com residentes do sexo oposto. Não é impunemente que se tem pouco mais de 20 anos, e muito sangue na guelra.


Jardim da Gabela que não existia quando a CArt 738 lá esteve aquartelada. Foi construído em 1969 ou 1970. Ao fundo os célebres morros da Gabela

Ora, nessa busca de aproximação, o nosso camarada “Raimundo”, resolveu um dia fazer uma incursão pelo bairro da Aricanga. Este bairro, situado à saida da cidade, em direcção à Quibala, era um exemplo de harmoniosa convivência inter-racial. Lá residiam negros, embora em minoria, brancos e mulatos. Mas, a referência maior eram as suas mulatas, famosas em toda a região, pela sua beleza.

Quis o acaso que o Raimundo durante a sua deambulação pelo bairro, tivesse conhecido a “Inácia”, uma dessas formosas mulatas. Conversa vai, conversa vem, o Raimundo ficou a saber que a Inácia vivia de casa e pucarinho com o “Luciano” que, sendo camionista de profissão, se ausentava por períodos mais ou menos longos.

Sensível como era, os bons sentimentos do Raimundo levaram-no a oferecer-se, solidariamente, para minorar a solidão da Inácia, fazendo-lhe companhia nos longos serões em que ela ficava sozinha.

Nessas ocasiões, o Raimundo não nos acompanhava, quer nas sessões de cinema, quer nas outras distracções, que, em qualquer dos casos, costumavam terminar no bar Tropical, à volta de umas Cucas, Nocais e de uns petiscos para fazer boca.  Depois de cumprida a sua humanitária missão, o Raimundo vinha ter connosco para apanhar boleia para o quartel.

Com o passar do tempo, o Raimundo passou, com frequência, a fazer companhia à bela mulata até ao inicio do dia, altura em que voltava ao quartel, a pé, atalhando caminho pela sanzala Sétima.

Mas como não há bem que sempre dure, uma noite, finda a sessão de cinema, ficámos espantados quando, à saída, encontrámos o Raimundo à porta, com cara de caso.

Não tardou a contar-nos o que se tinha passado. Algumas vozes malévolas acabaram por soprar aos ouvidos do Luciano o que se passava na sua ausência e, nesse dia, o Luciano despediu-se da Inácia, para, supostamente, iniciar mais uma viagem. Só que a viagem foi mais curta.


Outra imagem da Gabela com os morros em fundo

E, descalços até ao pescoço, o Raimundo e a Inácia foram surprendidos por violentos murros na porta, enquanto ouviam o Luciano aos berros : “Abre a porta, minha puta de merda! Sei bem que estás com um cabrão aí dentro! Vou dar-vos cabo do coirão! Se não abres, arrombo-a com o camião!”

Sem grande alternativa, o Raimundo, que entretanto se tinha vestido, pegou na pistola Walther, que habitualmente nos acompanhava em situações que pudessem envolver algum risco, e foi ele abrir a porta de pistola em punho.

Aberta a porta, o Luciano olhou para o Raimundo, para a pistola, e estendeu a mão, dizendo: “Ah! É o meu furriel? Como está o senhor? Peço desculpa pelo que lhe chamei. O senhor não tem culpa nenhuma que eu tenha escolhido uma puta para viver comigo. É homem, e um homem não desperdiça as oportunidades que lhe aparecem! Mas esta vaca vai ter que ajustar contas comigo!”

Não ajustou, porque o Raimundo depois de ter procurado acalmá-lo – e uma pistola de guerra pode ser uma óptima forma de dissuasão - antes de se vir embora, foi levar a Inácia a casa de uma irmã que residia nas proximidades, sem deixar que o Luciano pusesse as contas em dia.

E, passadas umas semanas, tudo viria a acabar bem. Como, de resto, acontecia de vez em quando por lá (talvez eu venha a contar outro episódio com algumas semelhanças com este, confirmando que, basicamente, o povo era sereno), o Luciano relevou o passo em falso da Inácia e voltaram a viver juntos.

O Raimundo é que nunca mais se aproximou da Aricanga.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

As Sessões Fotográficas


Como já devem ter notado os meus amigos que por aqui vão passando, este blogue encontra-se em regime de serviços mínimos.

Por um lado, porque tenho andado ocupado com outras escritas, por outro, porque tendo optado por contar apenas episódios menos “pesados” da comissão da CArt 738 por terras angolanas, os temas começam a minguar. Se conseguir encontrar o ponto de equilíbrio mais ajustado, escreverei mais duas ou três histórias que tenho em agenda.

Por hoje, vou falar das nossas sessões fotográficas. Em maior ou menor dose – dependendo da disponibilidade financeira de cada um, que as fotos eram carotas, bem como da boa vontade dos proprietários das Kodak (que por acaso eram maioritariamente Canon's, compradas a bordo do Vera Cruz) – ninguém escapava à pose, para mandar para as namoradas, esposas, pais, mães, madrinhas de guerra, etc. etc.

(Clicar nas fotos para aumentar)



Nesta foto, estou no meio do capim, mas na vizinhança do quartel, de espingarda FN em posição de disparo, embora só se veja a ponta do cano, simulando uma situação de combate.

Esta era uma pose clássica, a que quase ninguém escapava.

As fotos dos oficiais da minha Companhia (que embora em situações diferentes também não escaparam às sessões fotográficas) que vão ver a seguir, foram roubadas ao Veterano.




Nem o nosso comandante de Companhia, capitão Rubi Marques, se furtou à pose, junto ao ribeiro que abastecia de água o quartel de Lucunga.

Quando vi esta imagem fiquei surpreendido, por duas razões. Em primeiro lugar porque nunca pensei que ele, militar calejado, também fosse adepto deste tipo de fotos. Depois, porque, não só nunca imaginei vê-lo com uma FN a substituir a pistola Walter, que normalmente usava à cintura, mas também pela posição da FN ao ombro, isto é, “à cowboy”, o que não fazia nada o seu género.

Sem desprimor para nenhum dos comandantes que tive durante a minha carreira (relativamente longa, para um miliciano), pela maioria dos quais nutro grande respeito, o capitão Rubi Marques foi a grande referência da minha vida militar. Um exemplo e uma inspiração, não só para mim, como para a maioria dos meus camaradas. Isso é claramente visível no misto de respeito, carinho e afecto de que se vê rodeado nos nossos convívios anuais, a que só falta por motivos de força maior.



Aqui, o alferes Pereira, comandante do 1º pelotão - que foi o meu durante quase toda a comissão - e que estava de oficial de dia ao quartel, como comprova a braçadeira (vermelha (*), embora aqui não se note) no braço esquerdo.



 


O alferes Morgado, comandante do 2º pelotão, era locutor na Rádio Ribatejo antes de ir para a tropa. Quando havia espectáculos com os artistas que se deslocavam a Angola, e que incluíam a Gabela nos seus roteiros, era sempre ele quem fazia a apresentação em palco.

Foi meu comandante de pelotão, na Gabela, entre Dezembro de 1966 e Fevereiro de 1967.



Alferes Casimiro, comandante do 3º pelotão. Este pelotão depois da transferência para o Quanza-Sul, andou com a “trouxa às costas” de um lado para o outro. Começou por ficar aquartelado na Gabela, mas passado algum tempo foi enviado para Vila Nova de Seles, se bem me lembro para substituir um pelotão da CCS do Batalhão. Mais tarde, em consequência da transferência da CArt 739 para a Região Leste, o pelotão seria colocado no Calulo, onde ficaria até ao fim da comissão.

O alferes Casimiro era (e, tanto quanto sei, continua a ser) um notável intérprete do Fado de Coimbra.



Alferes Fagundes, comandante do 4º pelotão.

Na província do Quanza-Sul, este pelotão foi colocado em Porto Amboim, onde ficou até ao fim da comissão. De trato fácil, foi no quartel desta localidade, onde estive deslocado durante cerca de um mês, por troca com o Miranda Dias, que mais convivi com ele. Curiosamente ele não tem a menor recordação dessa minha estadia. Partidas que a memória nos prega.


Alferes-médico Salazar Leite


(*) Rectificado depois da oportuna chamada de atenção do camarada Silva Pereira, alferes-miliciano da CArt 739

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A Tosca




A Tosca

Quando chegámos ao quartel da Sétima, na Gabela, tínhamos à nossa espera, além dos camaradas que íamos render, uma cadelinha ainda jovem, que foi de imediato alistada na Messe dos Sargentos.

Não me recordo se já tinha sido “baptizada”, mas se tinha, foi “crismada” e ficou com outro nome: Tosca.

O nome que lhe foi dado parece estranho, para um animal tão dócil, lindo e perfeito.

Acontece que, por razões que desconheço (se alguma vez as soube, esqueci-me), o Mourão e o Miranda Dias quando chegaram de Tancos, onde fizeram o curso de Minas e Armadilhas, vinham com a mania de chamar “tosca” ou “tosco” a tudo e mais alguma coisa, incluindo um ao outro e às próprias namoradas (com quem viriam a casar – espero que não sejam minhas leitoras).

E com o”tosco para cá, tosca para lá”, foram contagiando os camaradas, que começaram a alinhar na brincadeira.

Explicada a origem do nome, passo a contar o disparate que se meteu na cabeça de alguns, com a conivência ou a indiferença dos outros, que não isenta a responsabilidade de nenhum.

A partir de certa altura, alguém lançou a ideia de que o cruzamento entre a Tosca – uma pequena cadela de raça indefinida – e o Lucunga, o cão pastor alemão do alferes Morgado. (*) 


Sanzala Sétima, que acabaria por dar o nome ao quartel, que se encontra ao fundo, quase invsível

(Foto do gabelense Óscar)

E, apesar da dificuldade em conseguir conciliar as diferenças de tamanho entre os dois animais, sendo que a pobre Tosca parecia uma anã junto ao Lucunga, a verdade é que dois ou três dos nossos camaradas conseguiram levar avante os seus intentos.

O que ninguém conseguiu prever (o mais certo foi nem se ter pensado nisso) foram as consequências de um cruzamento entre dois animais de tão dispar corpulência. A Tosca acabaria por parir dois lindos e enormes cachorros, mas morreu de parto, para grande tristeza de todos, e profundo arrependimento de alguns.

Os cachorros cresceram e, pelo menos um deles viajou connosco no regresso a Lisboa, adoptado pelo Mourão. Não me recordo qual foi o destino do outro cachorro (penso que ficou com os camaradas da Companhia que nos rendeu), porque quando a CArt 738 saiu da Gabela, eu já estava em Luanda, no Hospital Militar, quase há um mês.

Nunca mais me esqueci da Tosca, nem do disparate que lhe causou a morte.

(*) O Lucunga era filho da Swazee e do Taninga, pastores alemães altamente adestrados pelo seu dono, o capitão Rubi Marques.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

José Fernando da Silva Pereira Vaz




O Vaz e a esposa no último encontro em que esteve presente, em Couto de Esteves - Março de 2010

Faz hoje um ano que morreu o Vaz. E há um ano que planeio escrever um texto em que fale da nossa amizade, que começou quando ele chegou ao RAL 1, para ser incorporado no BArt 741, passando a fazer parte da minha Companhia – a CArt 738 – com o posto de furriel-miliciano, tendo a especialidade de vagomestre.

Há um ano que venho adiando esse momento, porque continua a custar-me a acreditar que ele nos deixou tão prematuramente.

Decidi que, bem ou mal, chegou o dia de o fazer.

Está enraizado nos nossos costumes o hábito de tornar toda a gente “santa” depois de morrer. Não é isso que pretendo fazer neste post, nem, estou certo, o Vaz gostaria que eu o fizesse.

Era um homem com qualidades e defeitos, como todos nós. Acontece que, apesar da sua juventude, não foi difícil perceber que tinha mais qualidades e menos defeitos do que a maioria dos seus camaradas, onde naturalmente me incluo. A começar por uma maturidade e bom senso, raros para a sua idade, que lhe possibilitavam exercer, com êxito, o papel de moderador, em situações de conflito, que se geram facilmente em ambientes “fechados”, como aquele em que vivíamos no Norte de Angola.


Momentos de boa disposição em Lucunga 
Da esq. para a dta.: O autor do blogue, Vaz e Miranda Dias

Outro aspecto em que fomos afortunados com a sua inclusão na nossa Companhia, teve a ver com a forma como ele, enquanto responsável pela alimentação do pessoal, desempenhou essa função.

Todos os militares que, durante esses anos em que quase não houve nenhum português jovem que não tivesse passado por África, em cumprimento de comissões de serviço militar, ouviram, ou sentiram na pele – e sobretudo no estômago – histórias de mau passadio, porque alguns (demasiados) vagomestres criavam esquemas para aumentar o seu pecúlio pessoal, em detrimento da qualidade e quantidade da alimentação fornecida.

Dizia-se à boca pequena que, nesses esquemas, tinham cumplicidades de outros responsáveis com quem dividiam os lucros indevidos.

Na CArt 738, excluindo a frequência com que o arroz entrava nas ementas, cuja responsabilidade cabia aos fornecimentos da Manutenção Militar, a satisfação com a alimentação era geral. Todos os que lá estiveram se recordam com certeza, de que, a partir de certa altura, quando todos estávamos fartos das detestáveis rações de combate que levávamos quando íamos para o mato, o Vaz providenciou a confecção de refeições alternativas, que podiam não ter os requisitos calóricos e vitamínicos das rações, mas que todos nós preferíamos.


Gabela, no jardim da piscina
Da esq. para a dta.: Rodrigues, Vaz e o autor do blogue

Alimentar todos os dias 163 pessoas não era uma tarefa fácil. Sei-o por experiência própria.

Quando, em 1966, já na Gabela, o Vaz veio de férias, pediu-me que o ficasse a substituir. Confesso que tentei esquivar-me, argumentando que não tinha a menor ideia do complexo funcionamento da “coisa”, e que, por certo, havia camaradas mais talhados para a função. Desde logo o 2º sargento Ferreira da Silva, que, sendo do quadro, conhecia, praticamente, todos os meandros do funcionamento do quartel; ou mesmo o Rodrigues, que sendo embora miliciano como eu, tinha já duas comissões e maior experiência.

Insistiu, evocou a nossa amizade, e acabei por aceitar.

Durante as duas semanas que antecederam a sua partida, fui a sombra do mestre em que ele se tornou, a procurar adquirir o máximo de experiência, de forma a poder levar a barca a bom porto. Teve uma paciência incrível, a esclarecer todas as minhas dúvidas, e quase conseguiu dar-me uma equivalência à sua especialidade.

Confesso, porém, que além de tudo o que ele me ensinou, foi muito importante para o modo como consegui manter a normalidade possível na cozinha e no refeitório, a colaboração do 1º cabo cozinheiro, de cujo nome, infelizmente, não me recordo.

Quando, em consequência do acidente a que já me referi em posts anteriores, fui evacuado para o hospital em Luanda, sem ter regressado à Gabela, foi o Vaz que se encarregou de recuperar e de providenciar o transporte de todos os meus haveres que lá tinham ficado.

Depois de regressarmos, finda a comissão, estive cerca de 20 anos sem estabelecer qualquer contacto com ele. Aliás, o mesmo viria a acontecer com a generalidade dos outros camaradas. As excepções contam-se pelos dedos das mãos, e talvez ainda sobre algum, e constituíram sempre encontros ocasionais, sem continuação.

Quando se iniciaram os convívios do Batalhão, ainda na década de 1980, retomei os contactos com muitos dos antigos camaradas. Mas com o Vaz, que até ao ano passado nunca tinha falhado um encontro, que me lembre, os contactos passaram a ser mais frequentes. Além das conversas telefónicas que mantínhamos de forma mais assídua, fui fidalgamente recebido na sua casa, em Guimarães, tendo-o também recebido na minha casa, em Lisboa.

Só nunca se concretizou a sua, repetidamente prometida, visita à minha casa no Algarve.

Só eu sei quanto o lamento!





quinta-feira, 10 de maio de 2012

No pinhal do Tojalinho



Em 1964 não havia construções tão próximas do pinhal, nem estradas a atravessá-lo

(Foto do Google Earth)

A maior parte dos exercícios de campo que fomos realizando durante os meses de Outubro e Novembro de 1964, teve lugar pelos campos e montes do concelho de Loures (durante os quais descobri, entre outras coisas, que Carcavelos não era apenas uma praia do concelho de Cascais. Havia também – e ainda há – uma pequena povoação com o mesmo nome, próximo de Lousa, onde na altura se comiam excelentes queijos frescos).

As semanas de campo da Instrução de Aperfeiçoamento Operacional – penso que era assim que se chamava – tiveram como base um pinhal, situado nas imediações da aldeia do Tojalinho, onde montámos as nossas tendas durante cerca de três semanas, no início de Dezembro. A distância entre o RAL 1, na Encarnação, e o pinhal, foi percorrida “pedibus calcandibus”, isto é, a pé.

Dali saíamos, calcorreando montes e vales, para treinar os diversos exercícios, tentando antecipar, de modo tão aproximado quanto possível, as operações que, julgávamos nós, nos esperavam em Angola, durante todo o dia e algumas vezes à noite.



Encontrei esta foto por puro acaso, quando procurava imagens para este post. Lembrei-me de imediato da tarde em que o meu pelotão aqui parou para matarmos a sede, tendo o pessoal ficado um bocado a descansar na relva. A estrada não era asfaltada, nessa época, nem o lavadouro estava tão cuidado.

(Foto de Carlos Varelas)

Aqueles dias serviram sobretudo para reforçar a nossa identificação com as situações de desconforto e de penosidade que caracterizariam a nossa missão em Angola. Cada uma das pequenas tendas servia de alojamento a três militares, a alimentação era confeccionada em cozinhas de campanha, e cada um comia onde calhava, depois de, em fila, recolher o “petisco”.

Quanto à higiene pessoal, fazíamos o que podíamos com a água de um tanque existente num terreno contíguo, que naquela época do ano estava "gelada". Uma imagem que guardo dessa altura, é a do nosso comandante de Companhia, capitão Rubi Marques, sob o frio intenso das primeiras horas da manhã, de tronco nu, a lavar-se e a barbear-se, pouco faltando para tomar um banho completo. Só de ver, dava arrepios. Era com gestos como esse, que foi, ao longo do tempo, conquistando o respeito e a admiração dos homens que comandava.


Era num restaurante deste largo de Pinheiro de Loures que jantávamos, às vezes.

(Foto do Google Earth)

A zona do pinhal que ocupávamos funcionava como um quartel, com os serviços habituais, de oficial e sargento de dia, bem como o serviço de guarda, com sentinelas devidamente distribuídas.

Embora não fosse permitida a saída do local, a não ser em serviço, um pequeno grupo, de que faziam parte, pelo menos, o Vaz, o Morais Soares, o Miranda Dias, o Mourão, eu próprio, e um cabo-miliciano enfermeiro, de cujo nome não me lembro, e que acabaria por ser substituído, antes do embarque, pelo Augusto Fernandes (com clara vantagem para a nossa saúde, embora tivéssemos perdido um compincha sempre disponível para as farras), resolveu criar um esquema de exercícios adicionais, que consistia no “desenfianço” diário (excepto em dias de “trabalho” nocturno), para jantar em restaurantes, ou tascas, de povoações próximas. O mais frequentado situava-se em Pinheiro de Loures, mas também íamos a Guerreiros e a Botica matar a fome.


Guerreiros

(Foto do Google Earth)

No percurso para Pinheiro de Loures, tínhamos uma paragem “obrigatória” na única taberna da aldeia do Tojalinho, onde começávamos a fazer boca com queijinhos frescos e um copo de vinho da pipa. Este caminho era também a rota das viaturas do Batalhão, pelo que seguíamos sempre com atenção redobrada, escondendo-nos de cada vez que, ao longe, avistávamos faróis, que se fossem de viaturas militares, traziam com certeza oficiais a bordo.

Numa parte em que estrada era ladeada por campos – o aumento desenfreado da construção ainda vinha longe – saltávamos a vegetação e escondiamo-nos, mesmo sabendo que a maior parte das viaturas eram civis. Felizmente, nessa época, não havia muita gente com automóvel, e numa região pobre como era o caso, ainda menos, pelo que eram raros os carros com que nos cruzávamos.

Em Pinheiro de Loures jantávamos num pequeno restaurante no largo principal, e depois, com todo o desplante, pois andávamos fardados com o camuflado, que podia ser tudo, menos discreto, ainda íamos a um café situado no mesmo largo, onde jogávamos bilhar, antes de regressarmos, já a noite ia adiantada.

Mas desplante ainda maior foi termos ido aos bailes da Sociedade Filarmónica local, em dois domingos seguidos, onde alguns de nós deram animadamente ao pé pela noite dentro (nem as botas atrapalhavam).



Botica

(Foto do Google Earth)

Guerreiros e Botica ficavam mais próximo do pinhal e, neste caso, o caminho fazia-se a corta-mato através dos campos, o que às vezes dava origem a percalços, um dos quais foi recordado pelo Morais Soares, numa conversa recente. Caminhávamos numa noite sem luar, de regresso às tendas, quando o ouvimos soltar uma imprecação irreproduzível aqui: tinha metido a bota num excremento de boi. Claro que tudo acabou numa risota pegada.

Conseguimos, assim, amenizar aquelas três semanas, que pareciam nunca mais acabar, sem termos sido apanhados (embora eu continue a pensar que um ou outro dos comandantes de pelotão sabia da marosca).

Terminados os exercícios, foi altura de o pessoal deitar pés ao caminho, tendo como destino o Campo de Tiro da Serra da Carregueira, para fazer exercícios de tiro.

Valendo-me do facto de, supostamente, conhecer bem a zona – antes da formação do Batalhão estivera dois meses a dar uma recruta naquele quartel – ofereci-me para ir no camião da frente (que serviria de guia à coluna), orientando o condutor que desconhecia por completo aqueles caminhos, oferta que foi aceite. E, desta vez, escapei à caminhada. Felizmente as estradas estavam devidamente sinalizadas, pelo que a minha missão foi coroada de êxito. E ninguém descobriu que eu nunca tinha passado pela maior parte daqueles caminhos.

No regresso ao RAL 1, por Belas, Queluz, Amadora e Benfica, não havia necessidade de guia, pelo que voltei a palmilhar todo o percurso. Era uma boa forma de manter a linha.

Dois ou três dias antes do Natal entrámos em gozo de licença de embarque, até ao princípio de 1965.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Mais fotografias angolanas



(Clique nas fotografias para aumentar)

Não tenho dados que me permitam informar se esta fotografia, tirada a bordo do Vera Cruz, foi feita na viagem de ida para Angola, ou se já vínhamos de regresso. Mas, pelo ar de maçaricos, quer do Augusto Fernandes – o nosso furriel-miliciano enfermeiro, e um verdadeiro anjo da guarda do nosso bem-estar – quer do furriel-miliciano de transmissões, Morais Soares, presumo que íamos a caminho de um mundo desconhecido.




Deste grupo, amesendado à espera do petisco, apenas reconheço três comensais, embora não me lembre do nome de um deles. Os outros dois não pertenciam à CArt 738 (nem provavelmente ao Bart 741).

Da esquerda para a direita podemos ver o 1º cabo-clarim José Alves, (?), o Morais Soares, (?) e (?).




Junto a um rio de caudal turbulento posam, aparentemente distraídos, o Morais Soares, o primeiro-sargento Joaquim Ramalho (o Maravilhas) e o furriel-miliciano vagomestre José Vaz.



Na varanda da moradia Flórida (onde tinham os seus luxuosos aposentos), relaxando das agruras da comissão de serviço, o Morais Soares sorri para a câmara, o 2º sargento Ruas, parece implorar o favor dos deuses (o rádio em cima da mesa faz-me suspeitar que devia ser domingo e estavam a ouvir um relato de futebol. Provavelmente o Sporting – salvo erro, o clube do Ruas – teria sofrido ou falhado um golo), o furriel-miliciano Abreu, de boina à “malandro” (talvez para impressionar alguma madrinha de guerra) faz um ar sério e compenetrado, enquanto o furriel-miliciano José Rodrigues (o mais experiente de todos, pois já ia na segunda comissão) olha de lado com ar desconfiado. Que estaria ele a ver?




Da esquerda para a direita: dois rostos de que me lembro bem, o que já não acontece com os nomes; a seguir, o Morais Soares, o José Vaz e o José Rodrigues; sentado no banco do Unimog, o Verdasca, com cara de poucos amigos, o que configura uma situação excepcional, porque ele era um tipo bem disposto, e de sorriso (quase) permanente.

P.S- . Estas fotografias foram-me enviadas pelo Morais Soares, a quem agradeço.




terça-feira, 24 de abril de 2012

Carlos Rios


Na impossibilidade de conseguir um vídeo da cerimónia de 1968, escolhi um do ano anterior

No rascunho do post que intitulei “O Acidente (Conclusão)”, incluí dois parágrafos, em que me referia a um camarada em recuperação no Anexo do Hospital Militar, que me tinha impressionado particularmente, quer pelos motivos que o “atiraram” para ali, quer pela forma positiva e bem humorada como parecia superar um “calvário” que provocaria em muitos outros uma profunda depressão.

Depois de reler o que tinha escrito, concluí que o texto estava demasiado extenso (li, algures, que há estudos que concluem que a maioria dos que visitam blogues, gostam de textos curtos), pelo que resolvi retirar os parágrafos relativos ao Carlos Rios, sem, todavia, desistir de voltar ao tema.

É o que faço hoje, regressando ao assunto de forma um pouco mais exaustiva, relativamente, ao que tinha escrito então.

No post acima mencionado referi, de modo genérico, as mazelas de que todos sofriam, embora em diferentes graus. Ninguém se queixava muito, nem, talvez por uma peculiar forma de defesa, era hábito falar, e muito menos aprofundar, as circunstâncias em que cada um tinha ganho as suas “feridas”, algumas para o resto da vida.

Do Rios, soube, quando cheguei ao Anexo de Campolide, em Março de 1967, que tinha ficado gravemente ferido em combate, na Guiné, mas sem quaisquer pormenores adicionais. Era mais um, e, apesar das notórias dificuldades físicas – andava com o auxílio de canadianas e não conseguia dobrar a cintura, pelo que se, por exemplo, se desatasse um atacador dos sapatos, precisava de ajuda – não me parecia um caso tão grave como os de muitos outros internados.

Em 1968, já eu tinha passado à disponibilidade há alguns meses, estando a assistir à transmissão das cerimónias do 10 de Junho, na Praça do Comércio, ouço, com surpresa, o locutor anunciar que o furriel-miliciano Carlos Luís Martins Rios ia ser condecorado com a Cruz de Guerra de 1ª classe, por feitos heróicos em combate. E lá estava ele, a receber a condecoração.

Parecia-me inacreditável, que, estando durante quase um ano todos os dias juntos, saindo do Anexo de Campolide às 14 horas, e continuando o grupo de que ambos fazíamos parte a conviver durante a tarde, ora nas sessões cinematográficas, ora no salão de bilhar do antigo Café Martinho, ele não nos tivesse dito uma palavra sobre a condecoração.

No dia seguinte liguei para o Anexo tentando falar com ele, mas não o apanhei. Porém, um dos camaradas contou-me a saga do Rios, que vim a confirmar mais tarde, com outro companheiro desses tempos.

No decorrer de uma patrulha, ao aproximarem-se de uma tabanca, o Rios avistou um elemento em fuga, pelo que, sem sequer pensar, correu em sua perseguição, não contando com uma emboscada ardilosamente montada pelas forças inimigas, que, disparando diversas rajadas, o atingiram, provocando-lhe uma perfuração no ventre, e destruindo-lhe alguns ossos da bacia.

Ferido com gravidade foi transportado num helicóptero para o Hospital em Bissau, onde, apesar de um diagnóstico pessimista, foi possível estabilizá-lo, e recuperá-lo de forma a permitir a sua evacuação para Lisboa.

Tendo resolvido escrever um texto mais elaborado, fiz algumas pesquisas sobre o Rios. Fiquei a saber que em virtude das muitas intervenções cirúrgicas a que foi submetido, continuou no Anexo de Campolide, e mais tarde no Depósito de Indisponíveis, no Largo da Graça – às vezes em condições humilhantes, segundo ele próprio diz – até 1972.

E, hoje, em vez do jovem, aparentemente bem disposto e sempre com uma oportuna piada na ponta da língua, capaz de pôr uma plateia a rir, com um comentário a uma cena de um qualquer filme, sei de um homem aparentemente amargurado, “surdo e coxo”, como ele próprio se classifica num comentário que fez, neste blogue.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fotos do Mário Abreu


O furriel-miliciano Mário Abreu, que me enviou as fotos que podem ver mais abaixo, além de ter a especialidade de atirador, fez, no quartel de Lamego, o Curso de Operações Especiais. Os camaradas que completavam este curso – cuja dureza levava muitos dos convocados para as provas de selecção a fazer “ronha” (falo por experiência própria) – eram habitualmente chamados “rangers”, porque a instrução naquele quartel era baseada na dos militares americanos pertencentes a uma unidade especializada, que tinha aquela denominação.

O Abreu comandava uma secção do 3º pelotão (em zona de conflito, como era o caso de Lucunga, os pelotões adoptavam a designação de “grupos de combate”).


(Clique nas fotos para aumentar)

Nesta fotografia, embora a maior parte dos rostos me seja familiar, apenas consigo identificar dois: o Abreu, que tem o braço apoiado no ombro do Eusébio, que é o único com uma camisa de caqui.

O Eusébio era um transmontano que chegou ao RAL 1, onde se formou o Batalhão de Artilharia 741, com fama de ser um valentão com mau feitio, fama que acabou por criar alguns mitos.

Ainda no último convívio, em Fátima, um dos camaradas dizia numa roda onde eu estava : “lembram-se do Eusébio, do 3º pelotão, ter andado à pancada com o capitão Rubi Marques?”

Avivei-lhe a memória, lembrando que ninguém andara à pancada com o capitão Rubi Marques, recordando, como faço agora, o episódio a que se referia.

Logo nos primeiros dias de instrução operacional, durante uma acção num terreno lavrado, próximo do quartel, foi dada ordem para rastejar num determinado percurso.

O Eusébio, que era de facto um bocado fanfarrão e conflituoso, recalcitrou, afirmando que naquele terreno quem não rastejava era ele. Devia vir mal habituado da recruta, feita em Aveiro.

O capitão Rubi Marques, que o tinha ouvido, aproximou-se e, depois de lhe massajar o rosto de forma muito persuasiva, fê-lo compreender, ao que parece definitivamente, que na CArt 738 não havia lugar para tropa fandanga, pelo que, dada uma ordem, não havia margem para discussão.

E o incidente ficou por ali, com o Eusébio a rastejar como os outros.



Na falta de uma ponte, que viria a ser construida no início da década de 1970, atravessávamos o rio Coji nesta jangada.

Além do condutor do Unimog, que me parece ser o Francisco Tavares, mais conhecido por Marova, só me lembro do nome do Abreu, que se encontra de pé, com um rádio portátil na mão.



Um outro aspecto da travessia do rio, aqui com um ângulo mais aberto. À esquerda, dois camaradas dão à manivela que vai enrolando o cabo que, fixo nas margens, movimenta a jangada.



Na Ilha de Luanda, em Fevereiro de 1966, durante o fim-de-semana em que lá ficámos, em trânsito do Norte de Angola para o Quanza-Sul. Também aqui não me lembro do nome do furriel-miliciano da CArt 740, que está à esquerda. Eu estou ao centro, e à direita está o Mário Abreu.



No ribeiro onde enchiamos os tambores para abastecimento de água ao quartel, em Lucunga, aproveitávamos para nos refrescarmos.

A partir da esquerda: o Miranda Dias, o Morais Soares, o Mário Abreu e o António Sousa.




Passeando na picada junto ao quartel em Lucunga, o Vaz, o Mourão (de cachimbo, que estava na moda, em Lucunga. Eu ainda tenho o meu, embora não fume há mais de 30 anos), o Sousa, o Miranda e o Abreu.

As camisolas da farda que o Mourão e o Miranda tinham vestidas são sinal de que devíamos estar na época do cacimbo.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Era uma vez um barril de marufo



Mapa do Quanza-Sul - O círculo localiza o Assango

Embora não me recorde da data exacta do episódio que vou contar, sei que teve lugar em Outubro de 1966, porque pouco depois, em Novembro, entrei de férias.

Num fim de tarde, pouco antes de sair do quartel, fui chamado à sala do comando, onde o capitão Soares de Carvalho se encontrava a conversar com o chefe da polícia.

Dado que na véspera, depois do cinema, e de termos ido aconchegar o estômago no Bar Tropical, um pequeno grupo de furriéis de que eu fazia parte, resolveu animar o serão “cantando” de forma desvirtuada uma conhecida canção de Roberto Carlos, supus que alguém se tivesse queixado.

A canção original tinha o seguinte refrão: “Só quero que você / me aqueça neste Inverno / e que tudo mais / vá p'ró Inferno”. A nossa versão era ligeiramente diferente: “Só quero que você / me ofereça um agasalho / e que tudo o mais / vá para o Inferno”. Claro que embora a nossa versão não rimasse, quem ouvia ficava à espera de outra coisa (que era o que nós pretendiamos).

Mas a razão da visita do polícia era outra.

Um militar do recrutamento local, a prestar serviço em Nova Lisboa, mas que estava de férias numa pequena localidade perto da Gabela (não tenho a certeza, mas penso que era o Assango), bebera demasiado marufo na véspera, e a bebedeira dera-lhe para fazer desacatos, ameaçando os brancos ali residentes, que na sua maioria viviam da exploração de pequenos estabelecimentos comerciais (actividade que acumulavam com a produção de café, em pequenas roças), acabando mesmo por partir o vidro da porta de uma das lojas.


Preparando o tronco da palmeira

Como já era habitual nestas situações extraordinárias, fui destacado para me deslocar ao local, averiguar o que se tinha passado e, caso se confirmassem os desacatos, trazer o militar para o quartel para eventual procedimento disciplinar.

Noutra ocasião, esta diligência não me aborreceria especialmente, a não ser pelo facto de não gostar de fazer o papel que caberia à polícia, neste caso, militar. Acontecia, porém, que tinha sido convidado para um almoço de aniversário, que teria lugar numa roça próxima da cidade, justamente no dia seguinte e, com esta missão, não poderia estar presente.

Nestas circunstâncias, o meu estado de espírito não era dos melhores quando saí do quartel, acompanhado apenas pelo condutor do pequeno jeep Willys e por um primeiro-cabo, porque era preciso lugar para trazer o “passageiro”. Fiz um desvio pela roça para informar da minha impossibilidade em estar presente no almoço, bem como para deixar o livro que tinha comprado para oferta, e segui para o meu destino.



Estacas que fixam as folhas do capim que servirão de guia à seiva até à garrafa

Chegado ao “local do crime”, fui “assaltado” pelos comerciantes, cada um a querer contar as malfeitorias do desordeiro bêbado. Ouvi as suas versões, tomei algumas notas e, acompanhado por dois deles, segui para a sanzala à procura do militar, que tinha ido para a “lavra” da família.

Acompanhado pelo soba, lá fui à procura dele, que confessou logo que com a bebida se tinha portado mal, mas que estava muito arrependido, e disposto a pagar o vidro partido.

Por mim o assunto ficava resolvido, mas as coisas não eram tão simples, e eu tinha mesmo de o trazer para a Gabela, onde cheguei a meio da tarde.

O capitão Carvalho mandou um jeep à esquadra da PSP chamar o chefe da polícia, que não demorou.


Lavra de mandioca
(Foto de autor desconhecido)

Fiz o meu relatório e, para meu espanto, o fulano negou tudo o que tinha dito antes. Afirmou que não tinha feito nada de mal, e os brancos lá da terra é que não gostavam dele. Quando o confrontei com as declarações anteriores, disse que não falava bem Português e que eu se calhar tinha feito confusão.

Fiquei furioso. Ainda por cima, o capitão decidiu que eu voltasse ao Assango (?) no dia seguinte para pôr tudo “em pratos limpos”. Mais um dia a almoçar ração de combate, porque eu já na véspera tinha decidido não aceitar o convite dos comerciantes para almoçar.

E aí fui eu, de novo.

Chegado lá, comecei por lhe mostrar, de forma um tanto musculada, que ele tinha feito muito mal em gozar com a minha cara. Depois levei-o até ao soba, e perguntei a este onde escondia ele os barris do marufo, cujo fabrico, na época, era rigorosamente proíbido pelas autoridades.

O marufo é feito com a seiva da palmeira. Começa-se por fazer um corte no tronco e deixa-se escorrer para dentro de um recipiente. Bebido ainda fresco, torna-se uma espécie de sumo agradável. Depois de fermentar, transforma-se uma bebida de elevado teor alcoólico.



Enchendo a garrafa

Começando por negar a existência de marufo, o soba acabou, perante os fortes argumentos que lhe apresentei, por revelar onde escondiam três barris do valioso líquido, e conduziu-me até ao esconderijo, sempre acompanhado pelo militar desordeiro. Expliquei-lhe então que ia ficar sem um barril, devido ao comportamento deste, não só pela desordem que tinha criado, mas também por ter mentido e me ter deixado ficar mal, quando chegou ao quartel.

Disse também ao soba que o militar ficava à responsabilidade dele enquanto durassem as férias, pois não ia levá-lo de novo para a Gabela. E que se eu tivesse de lá voltar por causa dele iam os dois arrepender-se.

Entretanto, reuni com alguns comerciantes e disse-lhes que a desordem não se repetiria, além de que os prejuízos seriam pagos pela família do militar. Embora algo renitentes, pois queriam ver o tipo preso, acabaram por concordar.

De volta ao quartel, expliquei ao capitão Carvalho – que parecia também não estar para se aborrecer mais com o assunto – que as coisas não tinham tido tanta gravidade como parecia inicialmente, que o soba se responsabilizara pelo comportamento do militar, e que os comerciantes com quem reunira, tinham ficado mais calmos.


Hotel Guaraná em ruínas
(Foto de autor desconhecido)

Não foi uma coisa muito bonita, mas a última coisa que me apetecia era andar num vai-e-vem da Gabela para o Assango, ainda por cima numa picada em péssimo estado.

Além de que estava farto da ração de combate, a substituir o meu almoço no Hotel Guaraná.

Nota: As fotos que ilustram o “fabrico” do marufo são da autoria de Afonso Loureiro, e foram publicadas no blogue Aerograma (http://afonsoloureiro.net/blog/)


P.S. - Coloquei mais duas fotografias do almoço em Fátima aqui