SPM 8146 era o endereço postal da Companhia de Artilharia 738 (CArt 738). Esta unidade embarcou para Angola integrada no Batalhão de Artilharia 741, em 9 de Janeiro de 1965. Chegou a Luanda em 18 do mesmo mês e a Lucunga no dia 25, onde ficou até 18 de Fevereiro de 1966. Foi depois transferida para a Gabela onde ficou de Fevereiro de 1966, até Fevereiro de 1967, tendo embarcado de regresso a Lisboa em 28 de Fevereiro de 1967. Chegaria ao Cais da Rocha Conde d'Óbidos a 9 de Março.
... pelo menos na minha memória. Aquela manhã de 9 de Janeiro de 1965 permanece viva em todos os seus pormenores, apesar dos 49 anos passados, que voaram como se de um cometa se tratasse.
Lembro-me do choro e de alguns gritos dos que ficavam, provocados pela incerteza do futuro. O receio de familiares e amigos de que aquele fosse o último abraço, o último beijo, eram, de resto, partilhados por quase todos os que partiam. A incerteza pelo que nos esperava era enorme.
Nalguns casos, esses receios viriam a tornar-se uma dolorosa realidade. Infelizmente, nem todos voltámos. E, dos que voltaram, nenhum era o mesmo quando regressou. Grande parte da inocência dos nossos vinte anos ficou por terras africanas.
Gare Marítima da Rocha Conde d' Óbidos
Mas também de lá trouxemos coisas positivas. Crescemos, e viemos com a certeza de que a amizade, a camaradagem e a solidariedade, não eram apenas palavras de dicionários. Foram vividas nas dificuldades do dia a dia.
Voltámos igualmente com a mágoa e a saudade dos que não conseguimos evitar que lá ficassem. Foram heróis - esquecidos pelos políticos, porque não lhes rendem votos -, que não tiveram direito a "Panteões", mas que nunca se apagarão da nossa memória.
Entre
1961 e 1974, nesta quadra, era habitual a RTP e a Emissora Nacional
(E.N.) emitirem programas com mensagens de Natal dos militares
mobilizados na Guiné, Angola, ou Moçambique.
Estas
mensagens tinham como finalidade elevar a moral, quer dos que, por cá, sofriam
pelos riscos que corriam os seus familiares, quer dos próprios
combatentes.
Nas
mensagens gravadas, com som e imagem na RTP, ou apenas com som na
E.N., apesar dos ensaios prévios era habitual existir alguma atrapalhação,
fruto do natural nervosismo de quem nunca se tinha visto naquelas
andanças, sendo da praxe referir o bom estado de saúde do militar,
os votos de Feliz Natal, o desejo de prosperidades para o ano que se
aproximava, além de uma breve frase de despedida, antes de dar lugar
ao próximo “cliente”.
Claro
que as filmagens não fugiam a uma certa forma de encenação, pretendendo dar a
entender que estavam a ser feitas de modo mais ou menos improvisado
durante as operações militares. Num destes dois vídeos é
particularmente desajeitada a forma como apresentam o espectáculo
dos saltos da ponte para um curso de água, que acabam por se
revestir de alguma comicidade, que não estava por certo nas
intenções do “realizador”.
Na
altura, alguma suposta elite nacional gracejava, de forma jocosa, com
a frase que dá o título a este texto e que, algumas vezes – mas
não tantas como se fazia crer, e os vídeos que aqui incluo
provam-no – encerrava a mensagem.
Outra
frase ridicularizada entre os “bem pensantes” da praça, mas que
a realidade mostra que não era também tão frequente como se
pretendia, era a que manifestava o desejo de que quem por cá tinha
ficado tivesse um novo ano “cheio de propriedades”, em que se
trocava “prosperidades” por “propriedades”. (*) Com
o tempo, estas duas frases passaram a fazer parte do anedotário
nacional.
É
certo que a emissão destes programas servia os interesses políticos
do Governo do Estado Novo. Mas também não é menos verdade que os
familiares dos “actores” ficavam agarrados ao écran da
televisão, ou de ouvidos à escuta na E.N. à espera de ver e de
ouvir filhos, maridos, pais, etc.
Numa
época em que não se sonhava com a existência do Skype, ou do
telefone-satélite (às vezes nem as comunicações entre as
unidades, no terreno, funcionavam), e em que para fazer chamadas
telefónicas de Luanda para Lisboa cheguei a esperar mais de duas
horas na estação dos correios, a visão dos entes queridos na TV,
ou a audição na E.N. era um bálsamo que aliviava a ansiedade e a
aflição em que viviam por cá os familiares mais próximos de quem
estava no mato. E estou certo de que o seu Natal era um pouco menos
triste.
Salvo
uma eventual falha de memória, não passou por Lucunga nenhuma
destas equipas. É certo que durante a época em que as gravações
eram feitas – muito antes do Natal – eu estive duas vezes
ausente. Primeiro, no Hospital Militar, em Luanda, em tratamento a
uma fractura num braço, durante seis semanas, entre Agosto e
Setembro de 1965; e depois, um mês, entre Outubro e Novembro, em
gozo de férias. Mas creio que se por lá tivesse andado alguma
equipa a gravar, algum dos meus camaradas me teria falado disso mais
tarde.
(*)
(Não devemos esquecer-nos de que naquele tempo pelo menos 20% dos
soldados eram analfabetos. Numa recruta que dei na Serra da
Carregueira, ao preencher as fichas na recepção dos recrutas da
minha Companhia verifiquei, com grande surpresa, que a percentagem de
analfabetos era superior a 25%. Era esta a realidade, embora
legalmente a frequência da escola primária fosse obrigatória.)
P.S.
- Pese embora estarmos a viver um clima mais de depressão do que de festa,
não quero deixar de desejar a todos os que visitam este blogue, um
Natal Feliz. Quanto ao ano de 2013, espero que o consigamos atravessar sem naufragarmos.