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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Parece que foi ontem...

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Pouco antes da partida

... pelo menos na minha memória. Aquela manhã de 9 de Janeiro de 1965 permanece viva em todos os seus pormenores, apesar dos 49 anos passados, que voaram como se de um cometa se tratasse.

Lembro-me do choro e de alguns gritos dos que ficavam, provocados pela incerteza do futuro. O receio de familiares e amigos de que aquele fosse o último abraço, o último beijo, eram, de resto, partilhados por quase todos os que partiam. A incerteza pelo que nos esperava era enorme.

Nalguns casos, esses receios viriam a tornar-se uma dolorosa realidade. Infelizmente, nem todos voltámos. E, dos que voltaram, nenhum era o mesmo quando regressou. Grande parte da inocência dos nossos vinte anos ficou por terras africanas.


Gare Marítima da Rocha Conde d' Óbidos

Mas também de lá trouxemos coisas positivas. Crescemos, e viemos com a certeza de que a amizade, a camaradagem e a solidariedade, não eram apenas palavras de dicionários. Foram vividas nas dificuldades do dia a dia. 

Voltámos igualmente com a mágoa e a saudade dos que não conseguimos evitar que lá ficassem. Foram heróis - esquecidos pelos políticos, porque não lhes rendem votos -, que não tiveram direito a "Panteões", mas que nunca se apagarão da nossa memória. 




sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O Baterista



Quando escrevi sobre as peripécias da viagem do Vera Cruz a caminho de Luanda, referi que os nossos serões eram animados, alternadamente, com uma sessão de cinema, ou com a exibição de um conjunto musical, que então defini como fracote.

Constituído por meia dúzia de músicos mais habituados a tocar bailes de sociedades recreativas, eram entre nós alvo de comentários depreciativos, porventura injustos e de alguma arrogância, que apenas a verdura da juventude podia explicar, que não justificar.

Numa noite em que talvez já houvesse álcool a mais, um camarada de outro Batalhão “pediu” ao baterista para tocar um solo. O pobre homem, a quem estava ser pedido demasiado para as suas capacidades, foi-se escusando, com desculpas, cada uma menos convincente do que a anterior. Entretanto, ao peticionário inicial juntaram-se mais alguns, não já a pedir, mas a exigir o tal solo.

Muitos de nós perceberam que, a partir de certa altura, o baterista estava a sentir-se humilhado e confuso, e antes que as coisas dessem para o torto (mais do que já estavam a dar) resolvemos intervir, convencendo os mais exaltados a deixarem o homem em paz.

E, se não posso dizer que tudo acabou em bem, porque o ambiente ficou um pouco turvo no resto do serão, a verdade é que não voltaram a registar-se situações semelhantes.

Lembrei-me disto hoje, porque me mandaram o vídeo que podem ver abaixo.

Se a Companhia Colonial de Navegação, proprietária do navio, tivesse puxado pelos cordões à bolsa, e tivesse contratado um baterista como este, nem precisava dos outros músicos, e ainda poupava dinheiro.


O homem é um verdadeiro “entertainer”, que, sozinho, era capaz de animar os três mil passageiros daquela viagem.



quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Já lá vão 48 anos







Pouco antes da largada

Completam-se hoje 48 anos sobre a data em que o Vera Cruz zarpou do Cais da Rocha Conde de Óbidos, com destino a Luanda, levando a bordo quase três mil militares, dos quais cerca de 800 constituíam o Batalhão de Artilharia 741, de que fazia parte a Companhia de Artilharia 738. A minha Companhia.

Desse dia já lembrei quase tudo no texto que há dois anos escrevi aqui, quando iniciei neste blogue o relato de alguns episódios que sobraram na minha memória, e que fazem parte da minha história pessoal, bem como da dos 163 homens que formavam a CArt 738.

Nessa manhã, depois do desfile, de embarcar, e de guardar as bagagens, muitos camaradas voltaram ao cais para as derradeiras despedidas. Também eu tinha a intenção de voltar a terra, mas depois de subir até à amurada e de contemplar o “mar” de lágrimas que inundava o cais, decidi poupar-me e já não voltei a desembarcar, limitando-me a acenar para os familiares e amigos.


O Vera Cruz inicia a viagem

Não me serviu de muito, porque quando soltaram as amarras do navio, e ele começou a afastar-se do cais, houve como que um fenómeno de emoção colectiva a que não escapei, e também as lágrimas, mansas, mas intensas, deslizaram pelas minhas faces.

E lá fomos, rio abaixo, mar fora, rumo a Luanda, onde aportaríamos 9 dias depois.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Mais fotografias angolanas



(Clique nas fotografias para aumentar)

Não tenho dados que me permitam informar se esta fotografia, tirada a bordo do Vera Cruz, foi feita na viagem de ida para Angola, ou se já vínhamos de regresso. Mas, pelo ar de maçaricos, quer do Augusto Fernandes – o nosso furriel-miliciano enfermeiro, e um verdadeiro anjo da guarda do nosso bem-estar – quer do furriel-miliciano de transmissões, Morais Soares, presumo que íamos a caminho de um mundo desconhecido.




Deste grupo, amesendado à espera do petisco, apenas reconheço três comensais, embora não me lembre do nome de um deles. Os outros dois não pertenciam à CArt 738 (nem provavelmente ao Bart 741).

Da esquerda para a direita podemos ver o 1º cabo-clarim José Alves, (?), o Morais Soares, (?) e (?).




Junto a um rio de caudal turbulento posam, aparentemente distraídos, o Morais Soares, o primeiro-sargento Joaquim Ramalho (o Maravilhas) e o furriel-miliciano vagomestre José Vaz.



Na varanda da moradia Flórida (onde tinham os seus luxuosos aposentos), relaxando das agruras da comissão de serviço, o Morais Soares sorri para a câmara, o 2º sargento Ruas, parece implorar o favor dos deuses (o rádio em cima da mesa faz-me suspeitar que devia ser domingo e estavam a ouvir um relato de futebol. Provavelmente o Sporting – salvo erro, o clube do Ruas – teria sofrido ou falhado um golo), o furriel-miliciano Abreu, de boina à “malandro” (talvez para impressionar alguma madrinha de guerra) faz um ar sério e compenetrado, enquanto o furriel-miliciano José Rodrigues (o mais experiente de todos, pois já ia na segunda comissão) olha de lado com ar desconfiado. Que estaria ele a ver?




Da esquerda para a direita: dois rostos de que me lembro bem, o que já não acontece com os nomes; a seguir, o Morais Soares, o José Vaz e o José Rodrigues; sentado no banco do Unimog, o Verdasca, com cara de poucos amigos, o que configura uma situação excepcional, porque ele era um tipo bem disposto, e de sorriso (quase) permanente.

P.S- . Estas fotografias foram-me enviadas pelo Morais Soares, a quem agradeço.




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Acidente - Conclusão


Finda a comissão de serviço do Batalhão, o regresso a casa estava marcado para 28 de Fevereiro, e, tal como na ida para Angola, a viagem seria feita a bordo do “Vera Cruz”.

Não me recordo da data exacta da chegada do Batalhão a Luanda, mas julgo que terá tido lugar uma semana antes do embarque.

Entretanto, e depois de ter sido informado pelo advogado que referi no texto anterior, de que nada impedia o meu regresso juntamente com a minha Companhia, falei com o ortopedista do Hospital Militar, que também não levantou nenhum obstáculo de ordem clínica à viagem, devendo apenas dirigir-me em Lisboa ao Hospital Militar, para tirar o gesso, em meados de Março. Ficou combinado que me daria alta três dias antes do embarque.

Na tarde do dia da chegada do Batalhão ao Campo Militar do Grafanil, fui lá, não só para rever os meus camaradas (e fazer contas com o Rodrigues e com o Vaz, que tinham feito pagamentos por minha conta), mas também para me informar junto do alferes que estava a instruir os autos, sobre a data em que lhe convinha ouvir as minhas declarações, além de lhe sugerir o encontro com o advogado, a que também já me referi anteriormente.


Grafanil - Altar construído na base de um imbondeiro

Além disso, aproveitei para falar sobre a minha situação, quer com o primeiro-sargento Ramalho, quer com o capitão Carvalho, que me disseram, de forma taxativa, que eu não fazia parte da lista de embarque do Batalhão, em virtude de ter autos pendentes. Além disso, o capitão intimou-me a retirar da Companhia os meus pertences, que incluiam uma mala de porão.

Na CCS (Companhia de Comando e Serviços) do Batalhão, onde fora elaborada a lista de embarque, estavam colocados alguns tenentes muito experientes – tinham iniciado a sua vida militar como soldados, e foram subindo na escala hierárquica – e, julgava eu, conhecedores profundos dos meandros da legislação militar, com quem fui falar a seguir, mas que, apesar dessa sabedoria, consideravam igualmente que eu não podia embarcar.

Por outro lado, senti um clima de alguma hostilidade, tanto no comando da Companhia, como no comando da CCS. Como se eu fosse uma espécie de proscrito.

Regressei a Luanda de táxi com os meus sacos e malas, mas depois de os deixar no hotel, segui no mesmo táxi para casa do advogado, a quem relatei o que se tinha passado no Grafanil.

Acalmou-me, confirmando que, eventualmente, o meu nome podia não constar da lista do Batalhão, mas ele tinha-se assegurado de que constava da lista da 1ª Repartição do Quartel-General. Adiantou ainda que, se por qualquer baixa manobra dilatória dos meus “amigos” do Batalhão eu não embarcasse no dia 28, estaria à espera deles no Cais da Rocha, à chegada, porque ele tomaria as providências necessárias para que eu fizesse a viagem de avião nos primeiros dias de Março.


Luanda - Fortaleza de S. Miguel, vista da baía

Não deixava de ser uma perspectiva tentadora, mas eu queria muito ganhar aquela “guerra”, embarcando com os meus camaradas no dia 28.

Neste interim, prestei declarações nos autos e fiquei a saber que o condutor do jeep, tinha afirmado, mentindo no seu depoimento, que eu o obrigara a ceder-me o volante. Se vingasse essa tese, a minha situação, que já não era boa, ficaria seriamente complicada. Felizmente o testemunho dos outros dois ocupantes da viatura correspondendo à verdade dos factos, corroborava inteiramente a minha versão.

Dois ou três dias antes do embarque tive alta do Hospital, e o Depósito de Adidos passou a guia de marcha para me apresentar na minha Companhia. Chegado ao Grafanil, apresentei-me ao capitão Soares, que me disse que não valia a pena ter-me dado ao trabalho, porque a 28, enquanto o pessoal do Batalhão embarcava, eu voltaria a apresentar-me no Depósito de Adidos.

Nesse mesmo dia foram pagas as ajudas de custo de embarque, cujo valor, para a classe de sargentos, era de 3.000$00. O meu nome não constava na folha de pagamento.

Pouco depois da chegada, eu e os furriéis Miranda Dias, Mourão e creio que o Vaz, tínhamos alugado um Ford Cortina, para as nossas deslocações pela cidade. Com este aluguer poupei uma pipa de massa em táxis, porque naqueles últimos dias andei numa roda viva de um lado para o outro.

Na antevéspera do embarque, logo depois do almoço, o advogado deixou-me um recado no hotel a confirmar que eu ia mesmo embarcar. Como a bagagem de porão teria que ser colocada no cais de embarque na manhã do dia seguinte, véspera da partida, meti a mala na bagageira do Cortina e, como sempre com um deles a conduzir, fui levá-la ao Grafanil, para ser marcada e seguir, junto com as bagagens dos meus camaradas para o porto de Luanda. Não fui autorizado a deixar a mala porque o primeiro-sargento, na ausência do capitão Soares, insistiu que eu não iria embarcar.


Luanda - Capela do depósito de Adidos

Finalmente, na sexta-feira de manhã, os manda-chuvas do Batalhão e da Companhia, renderam-se à evidência: tinham perdido a “batalha” e eu ia mesmo embarcar. Ainda antes do almoço pagaram-me as ajudas de custo, mas já não podia pôr a minha mala junto com a bagagem de porão do pessoal da Companhia. Desforrei-me, talvez de forma indecente, mais tarde, em Lisboa, como poderão ler algumas linhas abaixo.

Nessa tarde andei numa roda viva. Levei a mala de porão ao cais, onde foi colocada a bordo, misturada com a bagagem de outra unidade, fiz compras, fui aos Correios mandar um telegrama para casa a confirmar que chegaria no dia 9 de Março a Lisboa, e fui pagar e agradecer ao advogado, que se revelara decisivo no apoio que me deu.

À noite, depois do jantar que ofereci a alguns camaradas mais chegados, voltei cedo para o hotel porque queria escrever algumas cartas a anunciar o meu regresso.

Estas cartas acabaram por ter um destino inesperado que só descobri quase dois anos depois, por acaso.

Como tinha de estar cedo no cais, sem tempo para esperar pela abertura dos Correios, pedi ao recepcionista do hotel que, mais tarde, mandasse um mandarete aos Correios comprar os selos e enviar as cartas. O custo total dos selos era de 12$50, e eu deixei 50$00, ficando o remanescente para beberem uma Cucas.

Quase dois anos depois, e por acaso, descobri que nenhuma das cartas fora enviada. O recepcionista e (ou) o mandarete, ficaram com os 50$00.


O navio Vera Cruz a chegar a Lisboa, transportando militares de regresso de África

O capitão Soares de Carvalho, que tinha ido comandar a nossa Companhia em rendição individual, ainda tinha ano e meio de comissão para cumprir, pelo que não regressou connosco. Antes do barco zarpar, promoveu uma reunião na sala de 2ª classe do “Vera Cruz” para se despedir dos sargentos da Companhia. Não compareci à reunião, mas o Vaz veio ter comigo à amurada, onde eu ia assistindo à azáfama do pessoal no cais, dizendo-me que o capitão me tinha mandado chamar para se despedir. Pedi-lhe que lhe transmitisse que se era uma ordem, eu iria, mas que, se não era, eu não estava interessado em me despedir dele. Não terá sido bonito, mas correspondia ao meu estado de espírito naquela ocasião. O Vaz não voltou, e mais tarde soube que ele tinha dito que não me tinha encontrado.

À chegada a Lisboa, o facto de eu não ir desfilar, por estar de braço engessado, serviu de pretexto para me encarregarem de superintender no carregamento das bagagens da Companhia, e do acompanhamento das camionetas até ao quartel do RAL 1, na Encarnação.

Como a descarga do navio ainda iria demorar, fui com alguns dos familiares e amigos almoçar ao Bonjardim, que à época servia os melhores frangos assados de Lisboa, e, quando voltei ao cais, a meio da tarde, a confusão era enorme (além de que não era nada fácil encontrar a minha mala, misturada com a bagagem de outra Companhia). Decidi então mandar regressar as camionetas ao quartel, adiando o levantamento da bagagem para o dia seguinte.


Esplanada do Restaurante Bonjardim

(Em 1967 não havia esplanada, nem sequer espaço para ela. A travessa era estreita, e passavam lá os carros eléctricos)

Quando cheguei ao RAL 1 a minha decisão não foi muito bem recebida, porque isso implicava que uma minoria, mais ou menos escolhida a dedo, residente longe de Lisboa, teria de ficar mais um dia na capital. Misturando ironia com algum cinismo (nunca disse que era perfeito), disse-lhes que pensava que iam gostar de ficar mais uma noite na civilização. Quanto aos outros, que me eram mais chegados, seguiram viagem para suas casas nesse dia, deixando-me os seus endereço. No dia seguinte, depois de voltar ao cais da Rocha para levantar bagagens, aluguei uma camioneta que transportou todas as suas malas e caixas do quartel para a estação de Santa Apolónia, onde as despachei.

Passadas duas semanas fui ao quartel pedir uma guia para ir ao Hospital da Estrela tirar o gesso. Porém, tive uma desagradável surpresa. Fizeram uma radiografia ao braço, que revelou que a intervenção em Luanda tinha sido mal feita. Em vez de reduzir correctamente a fractura, o ortopedista tinha sobreposto os ossos, deixando-os “acavalados” .

Resumindo, fui submetido a mais duas intervenções, com anestesia geral, fiz sessões de fisioterapia e acabei por ter alta onze meses depois, quando, farto do hospital, forcei a alta faltando às sessões de fisioterapia, que, de resto, quase ninguém levava a sério.

No Hospital Militar de Lisboa – Anexo de Campolide – conheci muitos camaradas evacuados dos vários teatros da guerra que, embora sobrevivendo aos ferimentos, tinham ficado seriamente estropiados. Muitos aguardavam pela viagem à Alemanha onde lhes seriam colocadas próteses; outros já tinham regressado, com próteses tão perfeitas, sobretudo nos membros inferiores, que lhes permitiam fazer uma vida quase normal, incluindo a condução automóvel.


Lisboa - Hospital Militar Principal, em foto recente

Em 23 de Fevereiro de 1968 fui a uma junta médica, que me deu alta. E foi assim que, quase 55 meses depois de ter assentado praça em Tavira, chegou ao fim a minha vida militar.

Quanto aos autos, acabaram por ter um fim de todo inesperado.

Em consequência da deslocação do papa Paulo VI a Fátima, em 13 de Maio de 1967, o Governo decretou uma amnistia geral. Nos termos dessa amnistia, os militares com autos pendentes em resultado de infracções que tivessem causado ao Estado um prejuízo de valor inferior a 3.000$00, veriam os seus autos arquivados, sem mais consequências. Nos casos em que o valor se situasse entre os 3.000$00 e os 6.000$00, os autos também seriam arquivados, desde que o infractor indemnizasse o Estado dentro de um determinado prazo.

Os danos que o desastre provocara no jeep eram, na opinião do furriel-mecânico Sousa, superiores a 15.000$00, o que me colocava fora da amnistia.

Ora, por um daqueles acasos que às vezes acontecem, tinha assumido o comando do Agrupamento do Serviço de Material de Luanda, para onde foi transportada a viatura danificada, para peritagem e posterior reparação, um oficial que eu conhecera em casa da família de uns amigos meus, de quem ele era também amigo.

Tendo tido conhecimento do que sucedera, esses amigos escreveram a esse oficial intercedendo a meu favor, e, provavelmente por sua influência, a peritagem considerou que do desastre tinham resultado danos na viatura no valor de 5.800$00. Isto é, os meus autos seriam arquivados se eu pagasse ao Estado 3.480$00. O que fiz, ficando desse modo livre de ir parar à Trafaria durante 30 dias, pelo menos.

Pode dizer-se que tive muita sorte. E, claro, fiquei com uma grande admiração pelo papa.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O embarque


Na noite que antecedeu a nossa partida pouco se dormiu no quartel de Porto Brandão, onde ficámos a aguardar embarque depois de gozarmos os dez dias de férias a que tínhamos direito.

Na véspera tiveram lugar as despedidas de familiares e amigos. Um pequeno grupo de que fiz parte aproveitou as últimas horas para uma deambulação nocturna por Lisboa. Como ainda não havia ponte sobre o Tejo viajámos no último barco para Cacilhas, donde seguimos em dois táxis para Porto Brandão.

À hora tardia a que chegámos já há muito que se tinham fechado os portões do quartel, pelo que entrámos saltando o muro, de fácil transposição.

Ainda antes de amanhecer já se vivia uma azáfama nervosa no quartel. Estávamos a 9 de Janeiro de 1965, um sábado em que o Sol brilhava, e dentro de poucas horas embarcaríamos rumo a Angola e víamos um futuro que nos dois anos seguintes seria de incertezas, à mistura com muitos receios.


Ferry-boat semelhante ao que nos transportou de Porto Brandão para o cais da Rocha Conde de Óbidos


Do Porto Brandão até ao cais da Rocha Conde de Óbidos, onde nos esperava o navio “Vera Cruz”, a viagem fez-se a bordo de um ferry-boat especialmente fretado para o efeito.

Em conformidade com a legislação em vigor à época, na data do embarque para as comissões de serviço no Ultramar os aspirantes a oficial-miliciano, os cabos-milicianos e alguns soldados, eram promovidos a alferes, furriéis, e cabos, respectivamente. A maior parte dos militares do Batalhão abrangidos por estas promoções limitou-se a colocar os galões ou as divisas do novo posto nas respectivas platinas, nessa manhã, É certo que alguns alguns já as haviam exibido na véspera à noite, durante a despedida de Lisboa. A excepção verificou-se com os militares da Companhia de Artilharia (CArt) 738.

O capitão Rubi Marques, comandante da referida Companhia, determinara que a “cerimónia” das promoções teria lugar a bordo do ferry-boat, obedecendo a um ritual próprio que incluiu uma formatura geral da Companhia no amplo espaço do ferry-boat, habitualmente reservado ao transporte de automóveis.

E então, perante os (sor)risos trocistas dos restantes militares do Batalhão, o comandante da Companhia colocou nas platinas das fardas dos aspirantes a oficial os galões correspondentes ao posto de alferes; por sua vez, os novos alferes colocaram aos cabos-milicianos dos respectivos pelotões, as divisas de furriel; a estes, coube a imposição das divisas aos novos primeiros-cabos.

Foi uma situação que na altura nos causou algum desconforto. Não pela “cerimónia” em si (conhecíamos a propensão do nosso comandante de Companhia para o cumprimento destas formalidades) mas, sobretudo, pelas piadas de que sabíamos vir a ser alvo (e fomos) a seguir.

Mais tarde percebi que estes rituais eram também uma forma de criar o espírito de corpo e de nos fazer sentir diferentes. E, pouco depois, quer a troça, quer o gozo, tinham passado para trás das costas.

O resto da manhã seria cansativo, física e emocionalmente, com as formaturas, as senhoras do Movimento Nacional Feminino a distribuir medalhas religiosas e maços de tabaco, mas, sobretudo, com as penosas despedidas da família e amigos, a que se seguiu o desfile e o embarque.


Navio "Vera Cruz" inicia uma viagem com militares para Angola


No momento em que o navio começou a afastar-se do cais, ao mesmo tempo que uma banda em terra tocava o Hino Nacional, senti como se tivesse havido uma súbita ruptura, uma espécie de elo que se quebrara. Em conversas posteriores, concluí que não fora o único a experimentar essa sensação.

Quando se iniciou a descida do Tejo rumo à foz, cerca das 13 horas, a maior parte dos “viajantes” recolheu aos respectivos alojamentos para arrumar a bagagem. Eu fiquei no convés juntamente com os meus camaradas Mourão e Miranda Dias.

A ponte sobre o Tejo estava então em construção e recordo-me que, lá de cima, alguém gritou deixando-nos mais comovidos do que já estávamos:

“Boa viagem! Que Deus vos leve e traga de volta! Para o ano é a minha vez de ir!”

E ali ficámos a contemplar a costa que íamos deixando para trás, até que, em frente a Oeiras, alguém nos veio perguntar se não descíamos para almoçar. E lá fomos.

Do resto do dia não guardo outras lembranças, a não ser da surpresa pelo excelente serviço de refeições. Mas esse será um tema para outro dia.