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segunda-feira, 16 de julho de 2012

José Fernando da Silva Pereira Vaz




O Vaz e a esposa no último encontro em que esteve presente, em Couto de Esteves - Março de 2010

Faz hoje um ano que morreu o Vaz. E há um ano que planeio escrever um texto em que fale da nossa amizade, que começou quando ele chegou ao RAL 1, para ser incorporado no BArt 741, passando a fazer parte da minha Companhia – a CArt 738 – com o posto de furriel-miliciano, tendo a especialidade de vagomestre.

Há um ano que venho adiando esse momento, porque continua a custar-me a acreditar que ele nos deixou tão prematuramente.

Decidi que, bem ou mal, chegou o dia de o fazer.

Está enraizado nos nossos costumes o hábito de tornar toda a gente “santa” depois de morrer. Não é isso que pretendo fazer neste post, nem, estou certo, o Vaz gostaria que eu o fizesse.

Era um homem com qualidades e defeitos, como todos nós. Acontece que, apesar da sua juventude, não foi difícil perceber que tinha mais qualidades e menos defeitos do que a maioria dos seus camaradas, onde naturalmente me incluo. A começar por uma maturidade e bom senso, raros para a sua idade, que lhe possibilitavam exercer, com êxito, o papel de moderador, em situações de conflito, que se geram facilmente em ambientes “fechados”, como aquele em que vivíamos no Norte de Angola.


Momentos de boa disposição em Lucunga 
Da esq. para a dta.: O autor do blogue, Vaz e Miranda Dias

Outro aspecto em que fomos afortunados com a sua inclusão na nossa Companhia, teve a ver com a forma como ele, enquanto responsável pela alimentação do pessoal, desempenhou essa função.

Todos os militares que, durante esses anos em que quase não houve nenhum português jovem que não tivesse passado por África, em cumprimento de comissões de serviço militar, ouviram, ou sentiram na pele – e sobretudo no estômago – histórias de mau passadio, porque alguns (demasiados) vagomestres criavam esquemas para aumentar o seu pecúlio pessoal, em detrimento da qualidade e quantidade da alimentação fornecida.

Dizia-se à boca pequena que, nesses esquemas, tinham cumplicidades de outros responsáveis com quem dividiam os lucros indevidos.

Na CArt 738, excluindo a frequência com que o arroz entrava nas ementas, cuja responsabilidade cabia aos fornecimentos da Manutenção Militar, a satisfação com a alimentação era geral. Todos os que lá estiveram se recordam com certeza, de que, a partir de certa altura, quando todos estávamos fartos das detestáveis rações de combate que levávamos quando íamos para o mato, o Vaz providenciou a confecção de refeições alternativas, que podiam não ter os requisitos calóricos e vitamínicos das rações, mas que todos nós preferíamos.


Gabela, no jardim da piscina
Da esq. para a dta.: Rodrigues, Vaz e o autor do blogue

Alimentar todos os dias 163 pessoas não era uma tarefa fácil. Sei-o por experiência própria.

Quando, em 1966, já na Gabela, o Vaz veio de férias, pediu-me que o ficasse a substituir. Confesso que tentei esquivar-me, argumentando que não tinha a menor ideia do complexo funcionamento da “coisa”, e que, por certo, havia camaradas mais talhados para a função. Desde logo o 2º sargento Ferreira da Silva, que, sendo do quadro, conhecia, praticamente, todos os meandros do funcionamento do quartel; ou mesmo o Rodrigues, que sendo embora miliciano como eu, tinha já duas comissões e maior experiência.

Insistiu, evocou a nossa amizade, e acabei por aceitar.

Durante as duas semanas que antecederam a sua partida, fui a sombra do mestre em que ele se tornou, a procurar adquirir o máximo de experiência, de forma a poder levar a barca a bom porto. Teve uma paciência incrível, a esclarecer todas as minhas dúvidas, e quase conseguiu dar-me uma equivalência à sua especialidade.

Confesso, porém, que além de tudo o que ele me ensinou, foi muito importante para o modo como consegui manter a normalidade possível na cozinha e no refeitório, a colaboração do 1º cabo cozinheiro, de cujo nome, infelizmente, não me recordo.

Quando, em consequência do acidente a que já me referi em posts anteriores, fui evacuado para o hospital em Luanda, sem ter regressado à Gabela, foi o Vaz que se encarregou de recuperar e de providenciar o transporte de todos os meus haveres que lá tinham ficado.

Depois de regressarmos, finda a comissão, estive cerca de 20 anos sem estabelecer qualquer contacto com ele. Aliás, o mesmo viria a acontecer com a generalidade dos outros camaradas. As excepções contam-se pelos dedos das mãos, e talvez ainda sobre algum, e constituíram sempre encontros ocasionais, sem continuação.

Quando se iniciaram os convívios do Batalhão, ainda na década de 1980, retomei os contactos com muitos dos antigos camaradas. Mas com o Vaz, que até ao ano passado nunca tinha falhado um encontro, que me lembre, os contactos passaram a ser mais frequentes. Além das conversas telefónicas que mantínhamos de forma mais assídua, fui fidalgamente recebido na sua casa, em Guimarães, tendo-o também recebido na minha casa, em Lisboa.

Só nunca se concretizou a sua, repetidamente prometida, visita à minha casa no Algarve.

Só eu sei quanto o lamento!





sexta-feira, 4 de maio de 2012

Mais fotografias angolanas



(Clique nas fotografias para aumentar)

Não tenho dados que me permitam informar se esta fotografia, tirada a bordo do Vera Cruz, foi feita na viagem de ida para Angola, ou se já vínhamos de regresso. Mas, pelo ar de maçaricos, quer do Augusto Fernandes – o nosso furriel-miliciano enfermeiro, e um verdadeiro anjo da guarda do nosso bem-estar – quer do furriel-miliciano de transmissões, Morais Soares, presumo que íamos a caminho de um mundo desconhecido.




Deste grupo, amesendado à espera do petisco, apenas reconheço três comensais, embora não me lembre do nome de um deles. Os outros dois não pertenciam à CArt 738 (nem provavelmente ao Bart 741).

Da esquerda para a direita podemos ver o 1º cabo-clarim José Alves, (?), o Morais Soares, (?) e (?).




Junto a um rio de caudal turbulento posam, aparentemente distraídos, o Morais Soares, o primeiro-sargento Joaquim Ramalho (o Maravilhas) e o furriel-miliciano vagomestre José Vaz.



Na varanda da moradia Flórida (onde tinham os seus luxuosos aposentos), relaxando das agruras da comissão de serviço, o Morais Soares sorri para a câmara, o 2º sargento Ruas, parece implorar o favor dos deuses (o rádio em cima da mesa faz-me suspeitar que devia ser domingo e estavam a ouvir um relato de futebol. Provavelmente o Sporting – salvo erro, o clube do Ruas – teria sofrido ou falhado um golo), o furriel-miliciano Abreu, de boina à “malandro” (talvez para impressionar alguma madrinha de guerra) faz um ar sério e compenetrado, enquanto o furriel-miliciano José Rodrigues (o mais experiente de todos, pois já ia na segunda comissão) olha de lado com ar desconfiado. Que estaria ele a ver?




Da esquerda para a direita: dois rostos de que me lembro bem, o que já não acontece com os nomes; a seguir, o Morais Soares, o José Vaz e o José Rodrigues; sentado no banco do Unimog, o Verdasca, com cara de poucos amigos, o que configura uma situação excepcional, porque ele era um tipo bem disposto, e de sorriso (quase) permanente.

P.S- . Estas fotografias foram-me enviadas pelo Morais Soares, a quem agradeço.




quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na Missão do Bembe




As fotografias que acompanham este texto foram-me enviadas pelo antigo furriel-miliciano da Companhia de Caçadores 715 (CCaç 715), Carlos Cristóvão.

Na mensagem que as acompanhava, o Cristóvão escreveu que não tinha a certeza se a foto acima era da nossa Companhia (CArt 738), tirada quando passámos pela primeira vez na Missão a caminho de Lucunga, ou se seria da Companhia que os foi render quando a CCaç 715 foi transferida para o Leste de Angola.

Apesar da distância a que se encontrava o fotógrafo, e da consequente má definição dos rostos, parece-me que a fotografia retrata o 2º e o 3º pelotões da CArt 738, e que teve realmente lugar nas circunstâncias referidas pelo Carlos Cristóvão, porque julgo que consigo identificar cinco dos retratados.

Assim, o militar assinalado com o nº 1, é o comandante de Companhia, capitão Rubi Marques. Apesar de se encontar de costas para a objectiva, quer a posição muito peculiar dos braços, quer a do corpo, bem como a inclinação da cabeça, eram características que permitem a sua identificação, quase como se fossem as suas impressões digitais.

Com o nº 2, identifico o alferes-miliciano Francisco Morgado, comandante do 2º pelotão. O nº 3 é o alferes-miliciano Vítor Casimiro (dono de uma excelente voz e especialista do fado de Coimbra), comandante do 3º pelotão. O nº 4 é o furriel-miliciano José Rodrigues, comandante da 2ª secção, do 2º pelotão. Finalmente, o sargento Ferreira da Silva, comandante da 1ª secção, do 2º pelotão, é o nº 5.

Ao fundo, podem ver-se alguns dos camiões onde, “confortavelmente”, viajámos de Luanda para Lucunga, durante dois dias.

Não consigo identificar mais nenhum dos meus antigos camaradas. Se algum dos leitores o conseguir e me quiser informar, agradeço.



A outra fotografia, que o Cristóvão diz referir-se aos preparativos para uma operação onde intervieram várias Companhias, entre as quais teria estado a CArt 738, deixa-me alguma perplexidade, porque ele escreveu que os militares que se encontram à esquerda, “equipados” com capacetes de ferro, pertenciam à minha Companhia, e que os capacetes teriam sido motivo para algum gozo por parte do pessoal das outras unidades .

Ora, acho improvável que seja pessoal da CArt 738, não só porque nunca, antes ou depois, estive em nenhuma operação em que tivessemos usado capacetes (que, de resto, eram completamente inadequados ao tipo de actividades que levávamos a cabo), mas também porque nem sequer me lembro de alguma vez ter visto aquele material na nossa Companhia. Não estou a afirmar que não existiam, apenas digo que não tenho a menor ideia da sua existência (também neste particular, uma ajuda será bem-vinda).

Durante o período que estive em tratamento a uma fractura, no Hospital Militar, em Luanda, que coincidiu parcialmente com a estação seca, a CArt 738 esteve envolvida em várias operações conjuntas com outras unidades e, nalgumas, foram utilizados helicópteros para transporte de pessoal, como foi o caso desta, que pode ter coincidido com o referido período, o que explicaria que, se de facto lá esteve o nosso pessoal, eu não me recorde dela (mas, tendo ouvido relatos de outras operações dessa época, principalmente se o meu pelotão teve intervenção nelas, é estranho que não me falassem desta).

Há por aí alguém disponível para fazer luz sobre esta minha dúvida?

domingo, 15 de maio de 2011

Inauguração da Casa do Soldado




Nesta fotografia, que foi tirada na véspera do Natal de 1966, no quartel da Gabela, durante a inauguração da Casa do Soldado, podemos ver, da esquerda para a direita, o alferes Morgado, os furriéis Morais Soares, Azevedo, Fonseca e o 2º-sargento Rodrigues. Julgo que o cachorro é um dos filhotes da "Tosca" (que adoptámos quando chegámos à Gabela, e que morreu de parto) e do "Lucunga" (o pastor-alemão do alferes Morgado).

Já me tinha referido anteriormente a esta inauguração na legenda de outra fotografia da mesma data (mas tirada mais tarde, depois de terminado o serviço diário, o que justifica o traje diferente) no post "Novas de Toronto". Entretanto, o Morais Soares enviou-me esta foto que eu não possuia (nem me recordava dela), embora seja um dos fotografados.

Todos os materiais utilizados na construção, bem como o mobiliário e o primeiro fornecimento de bebidas (para as quais quase não foi suficiente o espaço para armazenagem existente), foram fornecidos pelas senhoras do Movimento Nacional Feminino da Gabela, que durante alguns meses dinamizaram uma campanha de angariação de fundos, quer junto das empresas da região, quer junto dos proprietários de fazendas de café.



P.S. - Ausente da minha residência habitual durante as próximas duas semanas (pelo menos), limitações de ordem logística “obrigam-me” a aligeirar as intervenções bloguísticas, que durante esse período terão uma configuração semelhante a esta, isto é, uma fotografia e um pequeno texto explicativo.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O aniversário



Creio que no conjunto de oficiais e sargentos da Cart 738 fui o segundo a fazer anos – em Março - depois de chegarmos a Lucunga. Duas semanas antes tinha comemorado o seu aniversário o comandante de Companhia, mas, tanto quanto me lembro, a data passou despercebida, pelo menos para a maior parte do pessoal. Dois furriéis já tinham feito anos nesse ano de 1965: o Nunes da Silva, a 1 de Janeiro, estávamos a gozar os dez dias de férias antes do embarque e, a 12 ou a 13, também de Janeiro, já a bordo do “Vera Cruz”, foi a vez do José Rodrigues (salvo erro).

Era a primeira vez que festejava o meu aniversário longe da família, e resolvi assinalar os meus 23 anos com a “festa” possível, naquelas circunstâncias.

Razões de ordem financeira impediam-me de estender os “festejos” aos 163 militares da Companhia. Resolvi, por isso, oferecer um jantar na messe aos 22 oficiais e sargentos.


Clube da Damba

A ideia inicial era servir uma ementa tendo como prato principal leitão assado. Infelizmente, e apesar de ter iniciado as diligências necessárias com a devida antecedência, no Bembe, no Toto e no Vale do Loge, não consegui encontrar leitões disponíveis.

Já com o tempo a fugir, e depois de uma conversa com o furriel vagomestre Vaz, decidi-me pelos frangos, ou mesmo galinhas, de churrasco. Pensávamos nós que os nosso vizinhos da sanzala estariam dispostos a vender-me as aves necessárias. Engano nosso porque, usando as mais variadas desculpas, não se mostraram disponíveis para fazer negócio.

A ideia salvadora voltou a ser do Vaz que se lembrou da Damba para fazer um dos reabastecimentos semanais, em vez de ir ao Toto. Feita a sugestão ao capitão Rubi Marques, este concordou, e lá fomos.

Durante a viagem pensei que talvez na Damba conseguisse arranjar os leitões. Não consegui os leitões, mas acabei por comprar os galináceos para o churrasco, pelo que o jantar de anos ficou salvo.


Vila de 31 de Janeiro (chamada Nsosso, depois da independência)

Além disso descobri que na Damba havia um restaurante, propriedade da D. Madalena - uma simpática anfitriã -, onde se comia bem melhor do que no hotel do Toto.

Com grande pena minha só voltei à Damba duas vezes. De uma delas a viagem teve prolongamento até à vila de 31 de Janeiro (hoje chamada Nsosso), e teve um episódio que poderia ter tido um fim trágico.

Quando, passada a Damba, seguíamos a caminho daquela localidade, a GMC que fazia parte da coluna ficou sem travões no princípio de uma descida. Do lado direito da estrada havia uma ribanceira. Do lado esquerdo, uma encosta com uma barreira quase a pique e com uma pequena valeta entre a estrada e a barreira. Na iminência do desastre o condutor (de quem não recordo o nome) teve um sangue frio e uma perícia notáveis. Conseguiu reduzir um pouco a velocidade trabalhando com a caixa, e foi-se encostando à barreira tão lentamente quanto pode, conseguindo finalmente imobilizar a viatura sem danos pessoais. Foi um alívio.


O condutor que cito no texto é o 3º, na 1ª fila, a contar da direita (aqui, no almoço de 2010)
(Se alguém se lembrar do nome, agradeço que me informe)

A meio da tarde do dia do meu aniversário já a azáfama era grande na cozinha e, quer o Daniel Ferreira (a quem o 1º sargento Ramalho chamava “o Irmão” devido às suas convicções religiosas), quer o António Passarinho, aos quais devíamos a qualidade da confecção dos pratos servidos na messe, não tinham mão a medir.

Foi então, no meio daquele bulício, que caiu o balde de água fria. Um rádio do comando do Batalhão dava conhecimento de uma informação segundo a qual um grupo inimigo, que se dirigia para as suas bases no Zaire, atravessaria o rio Coji na nossa zona, onde utilizaria um dos seus dois ou três habituais locais de passagem (próximos uns dos outros) nas próximas horas, e era preciso montar com urgência uma emboscada para os interceptar. Na escala da Companhia o pelotão de prevenção, e que teria que avançar, era o meu.

Quando deu a ordem o capitão Rubi Marques comunicou que eu estava dispensado da operação. Na altura fiquei dividido. Por um lado, tinha o jantar de anos. Por outro, sentia-me desconfortável por ficar no bem-bom enquanto os meus camaradas e, sobretudo, o pessoal da minha secção, iam para o mato, com os riscos inerentes.


Rua principal da Damba

O capitão insistiu (normalmente não dava aso a reclamações quando tomava uma decisão, e detestava ser questionado) e eu fiquei.

O jantar acabou por correr bem. Comeu-se, bebeu-se, cantaram-se os “Parabéns a você”, mesmo sem bolo, recebi de prenda um roupão chinês que nunca usei, e houve até quem, horas depois, já não soubesse bem o caminho para o quarto, depois das Cucas e dos Constantinos ingeridos.

Quanto à emboscada, ou a informação transmitida por rádio era falsa, ou os “viajantes” tinham escolhido outro itinerário. O nosso pessoal regressou ao fim da tarde do dia seguinte, sem ver rasto deles.


Damba, nos anos sessenta

No jantar do dia 26 os ausentes da véspera comemoraram o meu aniversário comendo o churrasco (confeccionado na hora, não haja confusões) com um dia de atraso.

Involuntariamente, com a iniciativa do jantar acabei por criar um precedente. A partir daí, em Lucunga, o oficial ou sargento aniversariante passou a oferecer o jantar. É certo que uma minoria, embora não o confessasse, não gostou muito da despesa inesperada. Notou-se.

No ano seguinte, já na Gabela, os jantares de aniversário abertos à comunidade de graduados acabaram. Assumo que terei tido alguma responsabilidade nisso, já que, também lá, fui o primeiro a aniversariar. Não deixei de festejar, mas o grupo de convivas seleccionado foi mais reduzido.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Luanda - I

Porto de Luanda

Desembarcámos Luanda em 18 de Janeiro de 1965. Já ia distante o ano de 1961, altura em que os primeiros militares que chegaram depois do início da guerra no Norte desfilavam na Avenida Marginal, vitoriados por milhares de residentes.

A situação tinha mudado, e as circunstâncias que rodearam a nossa chegada estiveram longe de contribuir para animar as hostes.

Alguns militares da minha Companhia choravam, desolados, estranhando as barrocas de terra vermelha que caracterizam a aproximação ao porto de Luanda e que constituíam a primeira visão que tinham antes do desembarque. Ao mesmo tempo, queixavam-se da elevada temperatura àquela hora matutina, bem como da pegajosa humidade que se sentia. Era, para quase todos, um enorme “salto” no desconhecido, atendendo aos nossos pouco mais de vinte verdes anos.

Musseque

O desapontamento generalizou-se quando verificámos que o comboio que nos transportaria do porto de Luanda até ao quartel, no Grafanil, onde as unidades permaneceriam até à partida para o Norte, tinha apenas meia dúzia de carruagens de passageiros, sendo a restante composição constituída por vagões de mercadorias fechados, com uma larga porta de cada lado onde viajámos de pé em condições mais parecidas com as de um transporte de gado. A via férrea atravessava vários muceques onde a miséria era por demais evidente, e isso também não ajudou a melhorar o nosso estado de espírito. 

Desta forma, facilmente se compreende que o moral não fosse particularmente elevado quando, chegados ao Grafanil, saltámos dos vagões para o terreno arenoso.

Depois de formados à entrada do quartel iniciámos o desfile até ao local onde ficaríamos alojados. 

Entrada do Grafanil

Durante o tempo de instrução no RAL1 fomos treinando, por iniciativa do comandante da Companhia, uma espectacular forma de marchar a que ele chamava  “o passo de parada”. No passado tínhamos marchado assim algumas vezes, a última das quais durante o desfile no Cais da Rocha Conde d'Óbidos. Porém, o desalento naquela manhã era de tal ordem que, sem que tivesse havido combinação prévia, o “passo de parada” não saiu. Apesar das repetidas ordens, cada vez mais gritadas, o pessoal andava mais do que marchava. O nosso comandante de Companhia estava mais que descontente; estava furioso.

Mas, confirmando um velho princípio, quando as coisas podem piorar, pioram mesmo. E foi o caso.

Não esperávamos ter à nossa espera alojamentos luxuosos, mas esperávamos, pelo menos, ficar instalados em edificações pré-fabricadas. Porém, o que tínhamos à nossa espera  para passar os cinco dias que ali iríamos ficar eram pequenas tendas de três panos para alojar, cada uma, três militares com as respectivas bagagens. Aí, e embora  se soubesse que isso não resolveria nada, exercemos aquilo a que, anos mais tarde, um presidente da República chamaria de "direito à indignação", e não calámos o nosso  descontentamento. Cumpridor das normas, o capitão Rubi Marques limitou-se a avisar que todos (incluindo ele próprio) ficariam nas tendas.

Um aspecto do Campo Militar do Grafanil

No entanto, as coisas não se passaram bem assim. Da minha Companhia fazia parte o furriel-miliciano José Rodrigues que, apesar de ser o mais jovem furriel desta unidade ia já na segunda comissão em Angola (por troca com um camarada), pois tinha assentado praça, voluntariamente, aos 18 anos, e a sua experiência seria decisiva para que, ao fim da tarde, um pequeno grupo de que fiz parte, se “desenfiasse”, evitando dormir nas malfadadas tendas.

Conhecendo as rotinas do quartel o Rodrigues sabia que havia sempre viaturas a sair do Grafanil para Luanda, e vice-versa. Sabia também que não havia qualquer tipo de controlo, pelo que bastaria que fossemos até à porta de armas e apanhássemos boleia numa dessas viaturas. Assim fizemos, e em Luanda ficámos numa moradia, na Avenida Marechal Carmona, cuja dona ele já conhecia e que alugava quartos a militares.

Luanda - Avenida Marechal Carmona

Nessa primeira noite (e nos dias seguintes) o Rodrigues revelar-se-ia um precioso cicerone. 

Jantámos na Baixa, na Cervejaria Amazonas (que viria a ser, não só nesses poucos dias mas também nas deslocações que depois fizemos a Luanda, uma espécie de cantina para muitos de nós), e andámos a conhecer algumas boites da cidade (nesse tempo, para nós, discotecas eram lojas que vendiam discos). 



Deitámo-nos tarde, pedindo que nos acordassem às seis horas. Nem tomámos pequeno-almoço. Apanhámos dois táxis e seguimos para o Grafanil, onde aparentemente a nossa ausência não fora notada. É claro que a nossa saída era do conhecimento de alguns. E a notícia da infracção acabou por chegar mais acima, mas sem consequências.

Os camaradas que lá tinham pernoitado pouco ou nada dormiram. Os mosquitos atacaram em massa, deixando na pele do pessoal as marcas da sua acção, acompanhadas por um forte prurido. Dentro da minha tenda, que tinha ficado só com a bagagem, havia uma nuvem de mosquitos. Do que nos livrámos...

Nesse dia, e nos seguintes, as ordens foram alteradas. O comandante da Companhia passou a autorizar as dormidas em Luanda, excepto, naturalmente, para quem estivesse de serviço.

E, nos dias seguintes ao fim da tarde, lá partíamos à descoberta da cidade e à recarga das baterias para a permanência no “mato”, que nos esperava.

Dessa descoberta "falarei" no próximo post.