Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Guiné. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guiné. Mostrar todas as mensagens

sábado, 22 de dezembro de 2012

"Adeus, até ao meu regresso"




Entre 1961 e 1974, nesta quadra, era habitual a RTP e a Emissora Nacional (E.N.) emitirem programas com mensagens de Natal dos militares mobilizados na Guiné, Angola, ou Moçambique.

Estas mensagens tinham como finalidade elevar a moral, quer dos que, por cá, sofriam pelos riscos que corriam os seus familiares, quer dos próprios combatentes.

Nas mensagens gravadas, com som e imagem na RTP, ou apenas com som na E.N., apesar dos ensaios prévios era habitual existir alguma atrapalhação, fruto do natural nervosismo de quem nunca se tinha visto naquelas andanças, sendo da praxe referir o bom estado de saúde do militar, os votos de Feliz Natal, o desejo de prosperidades para o ano que se aproximava, além de uma breve frase de despedida, antes de dar lugar ao próximo “cliente”.

Claro que as filmagens não fugiam a uma certa forma de encenação, pretendendo dar a entender que estavam a ser feitas de modo mais ou menos improvisado durante as operações militares. Num destes dois vídeos é particularmente desajeitada a forma como apresentam o espectáculo dos saltos da ponte para um curso de água, que acabam por se revestir de alguma comicidade, que não estava por certo nas intenções do “realizador”.

Na altura, alguma suposta elite nacional gracejava, de forma jocosa, com a frase que dá o título a este texto e que, algumas vezes – mas não tantas como se fazia crer, e os vídeos que aqui incluo provam-no – encerrava a mensagem.

Outra frase ridicularizada entre os “bem pensantes” da praça, mas que a realidade mostra que não era também tão frequente como se pretendia, era a que manifestava o desejo de que quem por cá tinha ficado tivesse um novo ano “cheio de propriedades”, em que se trocava “prosperidades” por “propriedades”. (*)

Com o tempo, estas duas frases passaram a fazer parte do anedotário nacional.


É certo que a emissão destes programas servia os interesses políticos do Governo do Estado Novo. Mas também não é menos verdade que os familiares dos “actores” ficavam agarrados ao écran da televisão, ou de ouvidos à escuta na E.N. à espera de ver e de ouvir filhos, maridos, pais, etc.

Numa época em que não se sonhava com a existência do Skype, ou do telefone-satélite (às vezes nem as comunicações entre as unidades, no terreno, funcionavam), e em que para fazer chamadas telefónicas de Luanda para Lisboa cheguei a esperar mais de duas horas na estação dos correios, a visão dos entes queridos na TV, ou a audição na E.N. era um bálsamo que aliviava a ansiedade e a aflição em que viviam por cá os familiares mais próximos de quem estava no mato. E estou certo de que o seu Natal era um pouco menos triste.

Salvo uma eventual falha de memória, não passou por Lucunga nenhuma destas equipas. É certo que durante a época em que as gravações eram feitas – muito antes do Natal – eu estive duas vezes ausente. Primeiro, no Hospital Militar, em Luanda, em tratamento a uma fractura num braço, durante seis semanas, entre Agosto e Setembro de 1965; e depois, um mês, entre Outubro e Novembro, em gozo de férias. Mas creio que se por lá tivesse andado alguma equipa a gravar, algum dos meus camaradas me teria falado disso mais tarde.


(*) (Não devemos esquecer-nos de que naquele tempo pelo menos 20% dos soldados eram analfabetos. Numa recruta que dei na Serra da Carregueira, ao preencher as fichas na recepção dos recrutas da minha Companhia verifiquei, com grande surpresa, que a percentagem de analfabetos era superior a 25%. Era esta a realidade, embora legalmente a frequência da escola primária fosse obrigatória.)

P.S. - Pese embora estarmos a viver um clima mais de depressão do que de festa, não quero deixar de desejar a todos os que visitam este blogue, um Natal Feliz.

Quanto ao ano de 2013, espero que o consigamos atravessar sem naufragarmos.





terça-feira, 24 de abril de 2012

Carlos Rios


Na impossibilidade de conseguir um vídeo da cerimónia de 1968, escolhi um do ano anterior

No rascunho do post que intitulei “O Acidente (Conclusão)”, incluí dois parágrafos, em que me referia a um camarada em recuperação no Anexo do Hospital Militar, que me tinha impressionado particularmente, quer pelos motivos que o “atiraram” para ali, quer pela forma positiva e bem humorada como parecia superar um “calvário” que provocaria em muitos outros uma profunda depressão.

Depois de reler o que tinha escrito, concluí que o texto estava demasiado extenso (li, algures, que há estudos que concluem que a maioria dos que visitam blogues, gostam de textos curtos), pelo que resolvi retirar os parágrafos relativos ao Carlos Rios, sem, todavia, desistir de voltar ao tema.

É o que faço hoje, regressando ao assunto de forma um pouco mais exaustiva, relativamente, ao que tinha escrito então.

No post acima mencionado referi, de modo genérico, as mazelas de que todos sofriam, embora em diferentes graus. Ninguém se queixava muito, nem, talvez por uma peculiar forma de defesa, era hábito falar, e muito menos aprofundar, as circunstâncias em que cada um tinha ganho as suas “feridas”, algumas para o resto da vida.

Do Rios, soube, quando cheguei ao Anexo de Campolide, em Março de 1967, que tinha ficado gravemente ferido em combate, na Guiné, mas sem quaisquer pormenores adicionais. Era mais um, e, apesar das notórias dificuldades físicas – andava com o auxílio de canadianas e não conseguia dobrar a cintura, pelo que se, por exemplo, se desatasse um atacador dos sapatos, precisava de ajuda – não me parecia um caso tão grave como os de muitos outros internados.

Em 1968, já eu tinha passado à disponibilidade há alguns meses, estando a assistir à transmissão das cerimónias do 10 de Junho, na Praça do Comércio, ouço, com surpresa, o locutor anunciar que o furriel-miliciano Carlos Luís Martins Rios ia ser condecorado com a Cruz de Guerra de 1ª classe, por feitos heróicos em combate. E lá estava ele, a receber a condecoração.

Parecia-me inacreditável, que, estando durante quase um ano todos os dias juntos, saindo do Anexo de Campolide às 14 horas, e continuando o grupo de que ambos fazíamos parte a conviver durante a tarde, ora nas sessões cinematográficas, ora no salão de bilhar do antigo Café Martinho, ele não nos tivesse dito uma palavra sobre a condecoração.

No dia seguinte liguei para o Anexo tentando falar com ele, mas não o apanhei. Porém, um dos camaradas contou-me a saga do Rios, que vim a confirmar mais tarde, com outro companheiro desses tempos.

No decorrer de uma patrulha, ao aproximarem-se de uma tabanca, o Rios avistou um elemento em fuga, pelo que, sem sequer pensar, correu em sua perseguição, não contando com uma emboscada ardilosamente montada pelas forças inimigas, que, disparando diversas rajadas, o atingiram, provocando-lhe uma perfuração no ventre, e destruindo-lhe alguns ossos da bacia.

Ferido com gravidade foi transportado num helicóptero para o Hospital em Bissau, onde, apesar de um diagnóstico pessimista, foi possível estabilizá-lo, e recuperá-lo de forma a permitir a sua evacuação para Lisboa.

Tendo resolvido escrever um texto mais elaborado, fiz algumas pesquisas sobre o Rios. Fiquei a saber que em virtude das muitas intervenções cirúrgicas a que foi submetido, continuou no Anexo de Campolide, e mais tarde no Depósito de Indisponíveis, no Largo da Graça – às vezes em condições humilhantes, segundo ele próprio diz – até 1972.

E, hoje, em vez do jovem, aparentemente bem disposto e sempre com uma oportuna piada na ponta da língua, capaz de pôr uma plateia a rir, com um comentário a uma cena de um qualquer filme, sei de um homem aparentemente amargurado, “surdo e coxo”, como ele próprio se classifica num comentário que fez, neste blogue.