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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Já lá vão 48 anos







Pouco antes da largada

Completam-se hoje 48 anos sobre a data em que o Vera Cruz zarpou do Cais da Rocha Conde de Óbidos, com destino a Luanda, levando a bordo quase três mil militares, dos quais cerca de 800 constituíam o Batalhão de Artilharia 741, de que fazia parte a Companhia de Artilharia 738. A minha Companhia.

Desse dia já lembrei quase tudo no texto que há dois anos escrevi aqui, quando iniciei neste blogue o relato de alguns episódios que sobraram na minha memória, e que fazem parte da minha história pessoal, bem como da dos 163 homens que formavam a CArt 738.

Nessa manhã, depois do desfile, de embarcar, e de guardar as bagagens, muitos camaradas voltaram ao cais para as derradeiras despedidas. Também eu tinha a intenção de voltar a terra, mas depois de subir até à amurada e de contemplar o “mar” de lágrimas que inundava o cais, decidi poupar-me e já não voltei a desembarcar, limitando-me a acenar para os familiares e amigos.


O Vera Cruz inicia a viagem

Não me serviu de muito, porque quando soltaram as amarras do navio, e ele começou a afastar-se do cais, houve como que um fenómeno de emoção colectiva a que não escapei, e também as lágrimas, mansas, mas intensas, deslizaram pelas minhas faces.

E lá fomos, rio abaixo, mar fora, rumo a Luanda, onde aportaríamos 9 dias depois.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fotos do Mário Abreu


O furriel-miliciano Mário Abreu, que me enviou as fotos que podem ver mais abaixo, além de ter a especialidade de atirador, fez, no quartel de Lamego, o Curso de Operações Especiais. Os camaradas que completavam este curso – cuja dureza levava muitos dos convocados para as provas de selecção a fazer “ronha” (falo por experiência própria) – eram habitualmente chamados “rangers”, porque a instrução naquele quartel era baseada na dos militares americanos pertencentes a uma unidade especializada, que tinha aquela denominação.

O Abreu comandava uma secção do 3º pelotão (em zona de conflito, como era o caso de Lucunga, os pelotões adoptavam a designação de “grupos de combate”).


(Clique nas fotos para aumentar)

Nesta fotografia, embora a maior parte dos rostos me seja familiar, apenas consigo identificar dois: o Abreu, que tem o braço apoiado no ombro do Eusébio, que é o único com uma camisa de caqui.

O Eusébio era um transmontano que chegou ao RAL 1, onde se formou o Batalhão de Artilharia 741, com fama de ser um valentão com mau feitio, fama que acabou por criar alguns mitos.

Ainda no último convívio, em Fátima, um dos camaradas dizia numa roda onde eu estava : “lembram-se do Eusébio, do 3º pelotão, ter andado à pancada com o capitão Rubi Marques?”

Avivei-lhe a memória, lembrando que ninguém andara à pancada com o capitão Rubi Marques, recordando, como faço agora, o episódio a que se referia.

Logo nos primeiros dias de instrução operacional, durante uma acção num terreno lavrado, próximo do quartel, foi dada ordem para rastejar num determinado percurso.

O Eusébio, que era de facto um bocado fanfarrão e conflituoso, recalcitrou, afirmando que naquele terreno quem não rastejava era ele. Devia vir mal habituado da recruta, feita em Aveiro.

O capitão Rubi Marques, que o tinha ouvido, aproximou-se e, depois de lhe massajar o rosto de forma muito persuasiva, fê-lo compreender, ao que parece definitivamente, que na CArt 738 não havia lugar para tropa fandanga, pelo que, dada uma ordem, não havia margem para discussão.

E o incidente ficou por ali, com o Eusébio a rastejar como os outros.



Na falta de uma ponte, que viria a ser construida no início da década de 1970, atravessávamos o rio Coji nesta jangada.

Além do condutor do Unimog, que me parece ser o Francisco Tavares, mais conhecido por Marova, só me lembro do nome do Abreu, que se encontra de pé, com um rádio portátil na mão.



Um outro aspecto da travessia do rio, aqui com um ângulo mais aberto. À esquerda, dois camaradas dão à manivela que vai enrolando o cabo que, fixo nas margens, movimenta a jangada.



Na Ilha de Luanda, em Fevereiro de 1966, durante o fim-de-semana em que lá ficámos, em trânsito do Norte de Angola para o Quanza-Sul. Também aqui não me lembro do nome do furriel-miliciano da CArt 740, que está à esquerda. Eu estou ao centro, e à direita está o Mário Abreu.



No ribeiro onde enchiamos os tambores para abastecimento de água ao quartel, em Lucunga, aproveitávamos para nos refrescarmos.

A partir da esquerda: o Miranda Dias, o Morais Soares, o Mário Abreu e o António Sousa.




Passeando na picada junto ao quartel em Lucunga, o Vaz, o Mourão (de cachimbo, que estava na moda, em Lucunga. Eu ainda tenho o meu, embora não fume há mais de 30 anos), o Sousa, o Miranda e o Abreu.

As camisolas da farda que o Mourão e o Miranda tinham vestidas são sinal de que devíamos estar na época do cacimbo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Porto Amboim



Vista panorâmica de Porto Amboim

Tinha planeado escrever hoje um texto sobre Porto Amboim onde estive durante um mês por troca com o Miranda Dias, que, tendo a profissão de desenhador da construção civil, foi para a Gabela para fazer o projecto para a construção da Casa do Soldado.

Escolhidas as fotografias para ilustrar o post, e chegada a hora de começar a escrever, descubro que o baú da minha memória está quase vazio no que se refere a essa estadia, com a agravante de que tenho consciência de que gostei de lá estar, e de ter sido muito bem recebido por todos os meus camaradas.

Sei que estive lá no tempo do cacimbo (portanto, entre Maio e Outubro de 1966), porque na praia não havia veraneantes durante os meus passeios de fim da tarde, quase diários, na companhia do Fernando Babo.


Porto Amboim - Ponte cais

Em Porto Amboim estava destacado, desde a nossa chegada ao Quanza-Sul, o 4º pelotão da CArt 738, sob o comando do alferes-miliciano Sebastião Fagundes, que tinha como comandantes de secção o segundo-sargento Ramiro, e os furriéis-milicianos Miranda Dias e Fernando Babo.

A localidade era, então, uma pacata vila piscatória onde, de vez em quando, aportavam navios da marinha mercante nacional, que fundeavam ao largo, por falta de cais acostável.

Lembro-me de ter ido, acompanhado pelo alferes Fagundes e pelo furriel Babo (creio que o Ramiro não foi), fazer uma visita de cortesia a uma família que fazia parte dos notáveis locais, constituida por um casal com uma filha ainda jovem, onde nos foi servido um chá, num requintado serviço de fina porcelana. Confesso que, na oportunidade, me teria sabido melhor uma ou duas Cucas fresquinhas.


Porto Amboim - Baía

Não me recordo do nome dessa família. Se não me falha a memória, o dono da casa era filho de um conhecido empresário da província do Quanza-Sul.

Durante essa estadia, durante um jogo de futebol de cinco, tive de sair do campo com uma violenta dor no peito do pé, que eu julgava fruto de algum choque ou entorse, coisa natural durante as incidências do jogo.

O alferes Fagundes sugeriu que fosse à “consulta” de um especialista local – um mulato chamado Quitério - que depois de apalpar o pé concluiu que eu tinha “as linhas do pé trocadas”, mas que ia remediar isso, o que fez massajando repetidamente com uma substância oleosa previamente aquecida.



Porto Amboim - Marginal

Senti algumas melhoras, mas não voltei a jogar durante a minha permanência em Porto Amboim, porque a recuperação foi lenta. O máximo que consegui, foi arbitrar dois ou três jogos, suficientes para perceber que a arbitragem não era a minha vocação, tantas foram as reclamações das equipas. Pelo menos era imparcial, já que errava para os dois lados.

E é tudo. Resta-me a esperança de que o Sebastião Fagundes leia isto, e faça um dos seus habituais comentários, que acabe por valorizar (e justificar) a publicação deste texto.

Ou então (e ainda melhor) que resolva escrever um ou mais textos, tendo Porto Amboim como tema, que terei todo o prazer em publicar. Fica o convite.


Vera Cruz no Cais da Rocha, em 9 de Janeiro de 1965, pouco antes da partida

P.S. - Em 9 de Janeiro de 1965 – completam-se hoje 47 anos – embarcaram no navio Vera Cruz, no Cais da Rocha Conde d' Óbidos, com destino a Angola, três Batalhões e algumas Companhias independentes, totalizando quase 3.000 militares.

Entre eles encontrava-se o Batalhão de Artilharia 741, de que fiz parte.

Nem todos os que embarcaram regressaram connosco, 27 meses depois, porque a morte abreviou a sua ainda curta vida.

Lembrá-los, nunca é demais. É o que faço, hoje, aqui. 


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Coronel José Francisco Soares


Coronel José Francisco Soares

(Foto de Veterano)


Passou ontem um ano sobre a data da morte do coronel José Francisco Soares, que foi, sucessivamente, segundo-comandante, ainda com o posto de major, e, já tenente-coronel, comandante do Batalhão de Artilharia 741.


Na ausência do tenente-coronel Cabrita Gil, que na altura exercia as funções de segundo-comandante de um Batalhão colocado em Zala – à época uma das zonas operacionais mais difíceis e perigosas do Norte de Angola – coube ao então major Soares a árdua tarefa de coordenar o treino operacional dos militares do BArt 741, durante os meses que antecederam o nosso embarque.


Dadas as muito diferentes funções e postos que tínhamos no Batalhão, não tive um relacionamento próximo com ele, quer antes de embarcarmos, quer durante a permanência do comando no Vale do Loge.


No entanto, não pude deixar de registar que, nos contactos que mantinha com os militares do Batalhão, independentemente da sua graduação, vinham ao de cima os valores humanistas que marcavam a sua forma de estar. Como sabem os que, pelo menos nesse tempo, fizeram o serviço militar, essa não era a prática corrente dos oficiais superiores.

Para não tornar demasiado longo este texto, vou aqui deixar dois dos episódios em que fui interveniente, e que de alguma forma ilustram o que acima escrevi.


De uma das vezes em que me desloquei em serviço a Novo Redondo, onde se situava a sede do Batalhão, sentei-me numa esplanada daquela cidade acompanhado por dois furriéis da CCS, e enquanto iamos conversando sobre “a chuva e o bom tempo”, aproveitámos para beber uns “finos”, antes de eu regressar à Gabela.


A dada altura vimos o tenente-coronel Soares que se aproximava do lugar onde estávamos. Depois de nos levantarmos e de fazermos a saudação da ordem, mandou-nos sentar e sentou-se também na nossa mesa, ficando connosco, numa conversa amena, enquanto esperava pela esposa, que se encontrava num cabeleireiro, localizado em frente.

Quantos oficiais com o seu posto e responsabilidades de comando eram capazes de um gesto semelhante? 


Alguns meses mais tarde, o comando do Batalhão foi transferido para o Lobito, quase de um dia para o outro. Não podendo o quartel de Novo Redondo ficar desocupado, foi decidido que a minha Companhia enviaria para lá um pequeno destacamento (cerca de 20 militares), enquanto o comando da Companhia não se mudasse para lá. Claro que, como sempre acontecia quando apareciam estes serviços extraordinários (e não era prémio, embora neste caso tenha sido, se bem que involuntário), lá fui eu comandar esse pequeno grupo.


Durante a nossa estadia, cerca de metade do pessoal estava ocupado com o serviço de funcionamento do quartel. Para que os outros não ficassem sem fazer nada, resolvi que o melhor seria levá-los para a praia, que ficava a 300 ou 400 metros do quartel, e dar-lhes instrução (de banhos marinhos e de muito trabalho para o bronze).

Num desses dias, a meio da manhã, estava eu a nadar quando ouço alguém a chamar-me e, quando olho, vejo à beira da água o motorista do tenente-coronel Soares, dizendo que o comandante estava à minha espera na Marginal, junto ao Land-Rover, depois de ter ido ao quartel e de lhe terem dito que eu estava na praia.

Lá vim eu a correr e a escorrer água, enquanto ia engrolando uma justificação qualquer, que o nosso comandante não se mostrou interessado em ouvir. O que ele pretendia era que eu assinasse a guia de marcha, comprovando que “o Exmo. Comandante passou por esta unidade”. O que fiz em cima do capot. E ele seguiu viagem, desejando-me “boa praia”, com um sorriso.

Não creio que houvesse muitos, pelo menos dos que conheci, que no seu lugar se tivessem mostrado tão tolerantes.



Que descanse em paz, este Homem bom!



P.S. - Na altura da sua morte, o Veterano homenageou o nosso comandante com um texto que pode ser lido aqui.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

CISMI - TAVIRA


(Clique para aumentar)



Fujo hoje ao tema deste blogue, que consiste, como sabe quem o frequenta habitualmente, no relato de pequenas histórias vividas durante a comissão de serviço que fiz em Angola de 1965 a 1967. Resolvi fazê-lo, em primeiro lugar, porque esta é também a história de como tudo começou. Em segundo lugar, porque me dá a oportunidade de referir as circunstâncias em que, por uma curiosa coincidência, ouvi falar pela primeira vez no primeiro comandante do Batalhão de Artilharia 741.

Tinha planeado publicar este texto em 9 de Agosto último, data em que se completaram 48 anos sobre a data em que me apresentei no CISMI (Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria), em Tavira, para iniciar o cumprimento do meu serviço militar obrigatório, que viria a terminar em 23 de Fevereiro de 1968, mais de quatro anos e meio depois.

Porém, encontrando-me naquela data ausente da minha residência habitual, concluí, tarde demais, que embora tivesse copiado para uma pen os ficheiros de que iria necessitar, tinha falhado a cópia da fotografia do meu pelotão da recruta, que considero ser um testemunho indispensável.

Na referida fotografia, que encima este post, estão os soldados-instruendos (também havia quem nos chamasse “soldados-milicianos”) que faziam parte do 2º pelotão, da 3ª Companhia.

Não me recordo do nome de todos (nem ando lá perto) e, para agravar a situação, lembro-me de nomes que não consigo ligar a nenhum destes rostos. Dos esquecidos destaco, lamentando o meu esquecimento, o Alberto Villaverde Cabral, não por ter sido uma figura pública com largo destaque na Comunicação Social a seguir ao 25 de Abril de 1974, mas por pertencer ao grupo que me era muito próximo.

Outro dos meus amigos “tavirenses” era o jovem que na foto aparece identificado com o nº 20. Respondia pelo nome de Mário Cabrita Gil (era fanático do “braço de ferro”, que praticávamos numa das longas mesas existentes no corredor da caserna), e nenhum de nós imaginava que o pai dele, de quem raramente falava, mas o suficiente para eu saber quem ele era, viria a ser o primeiro comandante do meu Batalhão, em Angola.

O Cabrita Gil saiu de Tavira no fim da recruta porque, para suprir a falta de oficiais, o Exército seleccionava os que mais se distinguiam - quer pelo aproveitamento teórico e desempenho físico, quer pela chamada “aptidão militar” - na recruta do Curso de Sargentos Milicianos, para frequentarem o Curso de Oficiais Milicianos. Creio que dos cerca de 900 recrutas do meu Curso não terão sido escolhidos mais de 20. Desses, dois pertenciam ao meu pelotão: o Cabrita Gil, e o jovem que identifico com o nº 32, um portuense cujo nome não recordo.


Tenente-Coronel Cabrita Gil

(Foto "rapinada" ao blogue do Batalhão)

A má língua da caserna (que aparece sempre nestas alturas, invariavelmente acompanhada pela inveja), murmurava que o Cabrita Gil tinha sido escolhido por influência do pai, e não por mérito próprio. Julgava então, e continuo a julgar hoje, que qualquer dos dois camaradas escolhidos o foram por mérito pessoal absoluto, não tendo havido qualquer espécie de favoritismo na sua selecção.

Depois de terminada a recruta, cada um foi à sua vida e não voltei a ter notícias do Mário, o que quer dizer que nunca pude devolver-lhe o livro de Almeida Garrett que me emprestara, e que não aceitou que lhe devolvesse, porque ainda não terminara a leitura. Ficava para depois, quando nos encontrássemos, dizia ele. Não houve depois, porque nunca mais o vi.

O nº 2 da fotografia é o Vacas (de Carvalho?), um jovem de Montemor-o-Novo que era pegador de touros no Grupo de Forcados da terra, e tinha fotos do Grupo que o comprovavam. Mas o Matos (nº 10) ,que era lá da zona, dizia, achávamos que para se meter com ele, que ele só se vestia de forcado para tirar o retrato.

Com o nº 5 na foto está o Carvalho, que logo no primeiro dia me perguntou se eu não tinha um aloquete a mais. Sabia lá eu que um aloquete era o mesmo objecto a que eu chamava cadeado! Mais tarde, em Janeiro de 1965, fizemos uma festa quando nos reencontrámos em Angola, na Missão do Bembe.

Os nºs. 6 e 7 são os casapianos Olivério e Vítor, respectivamente.

Uma tarde, estávamos na esplanada do Imperial e eu tinha acabado de escrever uma carta, quando o Vítor me disse que eu devia gostar muito de escrever cartas, porque passava a vida a fazê-lo. O que lhe dava jeito, dizia ele, sem saber no que se metia, era que lhe escrevesse uma carta para a namorada, já que ele estava em falta e cheio de preguiça. Eu disse que o faria, mas que ela iria ver que não era a letra dele. “Escreve em maiúsculas”, respondeu ele. “Tudo bem”, retorqui, “mas tu não lês o que eu vou escrever”. “Quero lá saber!”

E eu escrevi. Passados quatro ou cinco dias veio ter comigo com uma encomenda postal na mão, a perguntar que raio é que eu tinha escrito, porque a namorada lhe tinha mandado um pacote com 20 maços de cigarros e uma nota de cinquenta escudos. Pagou-me o jantar no “Sofrutos”, que não era caro e onde se comia bom peixe.


O Quartel de Tavira, continua hoje como era há 48 anos. Mas já não é o CISMI. Hoje é o Regimento de Infantaria nº 1 (quase sem guarnição, ao que me dizem)

(Foto de António Alba)

O 8 era o Carlos Aparício (um viseense que era afilhado de um escritor que eu muito admirava, e admiro: Aquilino Ribeiro), artista de rara sensibilidade, que fez o meu retrato a carvão. Está de sapatilhas porque tinha ido a “doentes” , por ter bolhas de água nos pés (ir a “doentes”, muitas vezes era feito apenas para nos baldarmos aos extenuantes exercícios de Aplicação Militar. Mas, em contrapartida, doente ou não, ficava-se cinco dias a “convalescer”, sem poder sair do quartel).

O nº 12 era o Manuel Palma. Alentejano de Corte do Pinto (Mértola), residia com os pais em Campo de Ourique e, nesse 9 de Agosto, tinha família e amigos a despedirem-se dele no cais da Estação de Sul e Sueste. Quando vi tanta gente a despedir-se, cheguei ao pé dele e perguntei-lhe: “É pá, se isto é assim quando ainda só vais para Tavira, como é que vai ser quando fores para África?”

Ficámos unha com carne durante todo o Curso. 

O nº 13 sou eu.

Na fila do meio, além do Cabrita Gil, só consigo identificar o 21. Era o Carlos, de Meda, que na altura era professor primário em Murça.

Na fila de cima, com o nº 28 está o Alonso. Era um jovem endinheirado, de Vila Nova de Foz Coa, que de vez em quando alugava um táxi para ir ver a família.

Durante um exercício de campo, alguns de nós, entre os quais o Alonso, saltámos um muro para ir a um pomar apanhar laranjas, antes que apodrecessem. Despassarado como era, só quando chegou ao quartel é que o Alonso deu pela falta da baioneta, o que constituia uma falta grave. À noite, fomos em dois táxis, pagos por ele, e munidos com lanternas eléctricas, para o pomar, à procura da baioneta, que encontrámos, juntamente com mais algumas laranjas.

O comandante e instrutor do pelotão, aspirante (seria promovido a alferes pouco tempo depois) Silvério Jónatas, tem o nº 33. Já com o posto de major, andou nas páginas dos jornais pelo papel que teve em Timor, em 1975, durante as disputas entre a Fretilin e a UDT, e que lhe valeu uma precoce passagem à reserva.

À sua esquerda com o nº 34, o furriel-miliciano Moreira, monitor, que tinha uma paciência de santo para as nossas garotices.

Como se chamam os “esquecidos”? O que fazem hoje?

Não deixava de ter piada que alguns aqui viessem ter, de pára-quedas, e me respondessem.


segunda-feira, 18 de abril de 2011

In Memoriam - João Francisco Miranda Dias

Conheci o Miranda Dias em 1958. Tínhamos 16 anos e disputávamos, em representação de clubes diferentes, o Campeonato de Lisboa de Andebol na categoria de Juniores. Fomo-nos encontrando nos anos seguintes quando os nossos clubes jogavam entre si, sem no entanto termos estabelecido um relacionamento especial para além dos cumprimentos habituais no final de cada jogo.

Quis o acaso que voltássemos a encontrar-nos em Setembro de 1964 no RAL 1 (Regimento de Artilharia Ligeira nº 1), em Lisboa, aquando da formação do Batalhão de Artilharia 741, acabando ambos integrados na CArt 738. Ele no quarto pelotão, eu no primeiro.

Era o início de uma amizade que, apesar de termos estado muitos anos sem nos encontrarmos, se manteria até à sua morte, em 1994 (se a memória não me atraiçoa).

Na varanda dos "Sete Magníficos". De farda camuflada, o Miranda Dias

Em Lucunga ficámos alojados na mesma pequena moradia - a que chamávamos “Casa dos Sete Magníficos - com três quartos, que foi a residência de sete furriéis-milicianos durante a nossa estadia naquela localidade. Os longos serões à conversa na varanda tiveram como resultado um conhecimento mais aprofundado, bem como a revelação de vários interesses em comum.

Um deles, como já referi, o Andebol levaria a que, conjuntamente com o alferes-miliciano Fagundes também ele praticante da modalidade, viéssemos a “construir” um campo de Andebol onde disputávamos partidas com outros camaradas, alguns dos quais tinham algumas luzes da modalidade que tinham praticado nas aulas de Educação Física do Ensino Secundário, e outros a quem transmitimos o gosto pelo jogo.

Tínhamos uma outra afinidade, que nos levava à prática de uma “malandrice”, que já resumi aqui.


Antes de um jogo de Andebol, na Gabela. O Miranda Dias é o segundo a contar da esquerda

Depois do regresso nenhum de nós voltou a jogar Andebol e, exceptuando um breve encontro ocasional em Novembro de 1967, estivemos mais de 20 anos sem notícias um do outro.

A causa próxima do reencontro teve origem num dos almoços realizados na Ponte da Asseca, durante uma daquelas conversas sempre presentes nos nossos convívios, em que falamos dos camaradas de quem não temos notícias. Nesse almoço de 1990, o segundo em que compareci, veio à baila o Miranda Dias, e um dos presentes tinha ouvido dizer que ele estava doente, mas não sabia pormenores, além de que ninguém sabia onde morava.


Hora de refrescar. O Miranda Dias é o primeiro de pé, à direita

Foi fácil encontrá-lo. No regresso a Lisboa consultei a lista telefónica e lá estava o número do telefone. Liguei-lhe e, ultrapassada a emoção que lhe causou a minha chamada, o Miranda Dias confirmou que se encontrava doente há alguns anos. Uma doença degenerativa - esclerose de placas, também chamada esclerose múltipla – tinha-lhe causado uma progressiva diminuição das capacidades físicas, “atirando-o” para uma cadeira de rodas.

A partir dessa altura e até a morte o levar, poucos anos depois, passei a visitá-lo aos sábados, sempre que tinha disponibilidade. Em média, duas vezes por mês.

No ano seguinte ao nosso reencontro convenci-o a acompanhar-me ao almoço de confraternização do Batalhão, onde foi acarinhado por todos os antigos camaradas. Mais tarde disse-me que aquelas horas de convívio tinham constituído uma das maiores alegrias que tinha sentido nos últimos anos.


O Miranda Dias é o primeiro, de pé, à esquerda

Nas muitas horas de conversa desses últimos anos lamentámos o tempo que, sem qualquer razão, deixámos ir passando sem contactos. Como ele costumava dizer, éramos novos, pensávamos que o Mundo era nosso, e que tínhamos uma vida inteira à nossa frente.

Afinal, nem éramos donos do Mundo, nem a “vida inteira” era assim tão longa.

Infelizmente, no seu caso, não só não foi longa, mas foi, também, injustamente cruel.