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quinta-feira, 10 de maio de 2012

No pinhal do Tojalinho



Em 1964 não havia construções tão próximas do pinhal, nem estradas a atravessá-lo

(Foto do Google Earth)

A maior parte dos exercícios de campo que fomos realizando durante os meses de Outubro e Novembro de 1964, teve lugar pelos campos e montes do concelho de Loures (durante os quais descobri, entre outras coisas, que Carcavelos não era apenas uma praia do concelho de Cascais. Havia também – e ainda há – uma pequena povoação com o mesmo nome, próximo de Lousa, onde na altura se comiam excelentes queijos frescos).

As semanas de campo da Instrução de Aperfeiçoamento Operacional – penso que era assim que se chamava – tiveram como base um pinhal, situado nas imediações da aldeia do Tojalinho, onde montámos as nossas tendas durante cerca de três semanas, no início de Dezembro. A distância entre o RAL 1, na Encarnação, e o pinhal, foi percorrida “pedibus calcandibus”, isto é, a pé.

Dali saíamos, calcorreando montes e vales, para treinar os diversos exercícios, tentando antecipar, de modo tão aproximado quanto possível, as operações que, julgávamos nós, nos esperavam em Angola, durante todo o dia e algumas vezes à noite.



Encontrei esta foto por puro acaso, quando procurava imagens para este post. Lembrei-me de imediato da tarde em que o meu pelotão aqui parou para matarmos a sede, tendo o pessoal ficado um bocado a descansar na relva. A estrada não era asfaltada, nessa época, nem o lavadouro estava tão cuidado.

(Foto de Carlos Varelas)

Aqueles dias serviram sobretudo para reforçar a nossa identificação com as situações de desconforto e de penosidade que caracterizariam a nossa missão em Angola. Cada uma das pequenas tendas servia de alojamento a três militares, a alimentação era confeccionada em cozinhas de campanha, e cada um comia onde calhava, depois de, em fila, recolher o “petisco”.

Quanto à higiene pessoal, fazíamos o que podíamos com a água de um tanque existente num terreno contíguo, que naquela época do ano estava "gelada". Uma imagem que guardo dessa altura, é a do nosso comandante de Companhia, capitão Rubi Marques, sob o frio intenso das primeiras horas da manhã, de tronco nu, a lavar-se e a barbear-se, pouco faltando para tomar um banho completo. Só de ver, dava arrepios. Era com gestos como esse, que foi, ao longo do tempo, conquistando o respeito e a admiração dos homens que comandava.


Era num restaurante deste largo de Pinheiro de Loures que jantávamos, às vezes.

(Foto do Google Earth)

A zona do pinhal que ocupávamos funcionava como um quartel, com os serviços habituais, de oficial e sargento de dia, bem como o serviço de guarda, com sentinelas devidamente distribuídas.

Embora não fosse permitida a saída do local, a não ser em serviço, um pequeno grupo, de que faziam parte, pelo menos, o Vaz, o Morais Soares, o Miranda Dias, o Mourão, eu próprio, e um cabo-miliciano enfermeiro, de cujo nome não me lembro, e que acabaria por ser substituído, antes do embarque, pelo Augusto Fernandes (com clara vantagem para a nossa saúde, embora tivéssemos perdido um compincha sempre disponível para as farras), resolveu criar um esquema de exercícios adicionais, que consistia no “desenfianço” diário (excepto em dias de “trabalho” nocturno), para jantar em restaurantes, ou tascas, de povoações próximas. O mais frequentado situava-se em Pinheiro de Loures, mas também íamos a Guerreiros e a Botica matar a fome.


Guerreiros

(Foto do Google Earth)

No percurso para Pinheiro de Loures, tínhamos uma paragem “obrigatória” na única taberna da aldeia do Tojalinho, onde começávamos a fazer boca com queijinhos frescos e um copo de vinho da pipa. Este caminho era também a rota das viaturas do Batalhão, pelo que seguíamos sempre com atenção redobrada, escondendo-nos de cada vez que, ao longe, avistávamos faróis, que se fossem de viaturas militares, traziam com certeza oficiais a bordo.

Numa parte em que estrada era ladeada por campos – o aumento desenfreado da construção ainda vinha longe – saltávamos a vegetação e escondiamo-nos, mesmo sabendo que a maior parte das viaturas eram civis. Felizmente, nessa época, não havia muita gente com automóvel, e numa região pobre como era o caso, ainda menos, pelo que eram raros os carros com que nos cruzávamos.

Em Pinheiro de Loures jantávamos num pequeno restaurante no largo principal, e depois, com todo o desplante, pois andávamos fardados com o camuflado, que podia ser tudo, menos discreto, ainda íamos a um café situado no mesmo largo, onde jogávamos bilhar, antes de regressarmos, já a noite ia adiantada.

Mas desplante ainda maior foi termos ido aos bailes da Sociedade Filarmónica local, em dois domingos seguidos, onde alguns de nós deram animadamente ao pé pela noite dentro (nem as botas atrapalhavam).



Botica

(Foto do Google Earth)

Guerreiros e Botica ficavam mais próximo do pinhal e, neste caso, o caminho fazia-se a corta-mato através dos campos, o que às vezes dava origem a percalços, um dos quais foi recordado pelo Morais Soares, numa conversa recente. Caminhávamos numa noite sem luar, de regresso às tendas, quando o ouvimos soltar uma imprecação irreproduzível aqui: tinha metido a bota num excremento de boi. Claro que tudo acabou numa risota pegada.

Conseguimos, assim, amenizar aquelas três semanas, que pareciam nunca mais acabar, sem termos sido apanhados (embora eu continue a pensar que um ou outro dos comandantes de pelotão sabia da marosca).

Terminados os exercícios, foi altura de o pessoal deitar pés ao caminho, tendo como destino o Campo de Tiro da Serra da Carregueira, para fazer exercícios de tiro.

Valendo-me do facto de, supostamente, conhecer bem a zona – antes da formação do Batalhão estivera dois meses a dar uma recruta naquele quartel – ofereci-me para ir no camião da frente (que serviria de guia à coluna), orientando o condutor que desconhecia por completo aqueles caminhos, oferta que foi aceite. E, desta vez, escapei à caminhada. Felizmente as estradas estavam devidamente sinalizadas, pelo que a minha missão foi coroada de êxito. E ninguém descobriu que eu nunca tinha passado pela maior parte daqueles caminhos.

No regresso ao RAL 1, por Belas, Queluz, Amadora e Benfica, não havia necessidade de guia, pelo que voltei a palmilhar todo o percurso. Era uma boa forma de manter a linha.

Dois ou três dias antes do Natal entrámos em gozo de licença de embarque, até ao princípio de 1965.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fotos do Mário Abreu


O furriel-miliciano Mário Abreu, que me enviou as fotos que podem ver mais abaixo, além de ter a especialidade de atirador, fez, no quartel de Lamego, o Curso de Operações Especiais. Os camaradas que completavam este curso – cuja dureza levava muitos dos convocados para as provas de selecção a fazer “ronha” (falo por experiência própria) – eram habitualmente chamados “rangers”, porque a instrução naquele quartel era baseada na dos militares americanos pertencentes a uma unidade especializada, que tinha aquela denominação.

O Abreu comandava uma secção do 3º pelotão (em zona de conflito, como era o caso de Lucunga, os pelotões adoptavam a designação de “grupos de combate”).


(Clique nas fotos para aumentar)

Nesta fotografia, embora a maior parte dos rostos me seja familiar, apenas consigo identificar dois: o Abreu, que tem o braço apoiado no ombro do Eusébio, que é o único com uma camisa de caqui.

O Eusébio era um transmontano que chegou ao RAL 1, onde se formou o Batalhão de Artilharia 741, com fama de ser um valentão com mau feitio, fama que acabou por criar alguns mitos.

Ainda no último convívio, em Fátima, um dos camaradas dizia numa roda onde eu estava : “lembram-se do Eusébio, do 3º pelotão, ter andado à pancada com o capitão Rubi Marques?”

Avivei-lhe a memória, lembrando que ninguém andara à pancada com o capitão Rubi Marques, recordando, como faço agora, o episódio a que se referia.

Logo nos primeiros dias de instrução operacional, durante uma acção num terreno lavrado, próximo do quartel, foi dada ordem para rastejar num determinado percurso.

O Eusébio, que era de facto um bocado fanfarrão e conflituoso, recalcitrou, afirmando que naquele terreno quem não rastejava era ele. Devia vir mal habituado da recruta, feita em Aveiro.

O capitão Rubi Marques, que o tinha ouvido, aproximou-se e, depois de lhe massajar o rosto de forma muito persuasiva, fê-lo compreender, ao que parece definitivamente, que na CArt 738 não havia lugar para tropa fandanga, pelo que, dada uma ordem, não havia margem para discussão.

E o incidente ficou por ali, com o Eusébio a rastejar como os outros.



Na falta de uma ponte, que viria a ser construida no início da década de 1970, atravessávamos o rio Coji nesta jangada.

Além do condutor do Unimog, que me parece ser o Francisco Tavares, mais conhecido por Marova, só me lembro do nome do Abreu, que se encontra de pé, com um rádio portátil na mão.



Um outro aspecto da travessia do rio, aqui com um ângulo mais aberto. À esquerda, dois camaradas dão à manivela que vai enrolando o cabo que, fixo nas margens, movimenta a jangada.



Na Ilha de Luanda, em Fevereiro de 1966, durante o fim-de-semana em que lá ficámos, em trânsito do Norte de Angola para o Quanza-Sul. Também aqui não me lembro do nome do furriel-miliciano da CArt 740, que está à esquerda. Eu estou ao centro, e à direita está o Mário Abreu.



No ribeiro onde enchiamos os tambores para abastecimento de água ao quartel, em Lucunga, aproveitávamos para nos refrescarmos.

A partir da esquerda: o Miranda Dias, o Morais Soares, o Mário Abreu e o António Sousa.




Passeando na picada junto ao quartel em Lucunga, o Vaz, o Mourão (de cachimbo, que estava na moda, em Lucunga. Eu ainda tenho o meu, embora não fume há mais de 30 anos), o Sousa, o Miranda e o Abreu.

As camisolas da farda que o Mourão e o Miranda tinham vestidas são sinal de que devíamos estar na época do cacimbo.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Acidente - Conclusão


Finda a comissão de serviço do Batalhão, o regresso a casa estava marcado para 28 de Fevereiro, e, tal como na ida para Angola, a viagem seria feita a bordo do “Vera Cruz”.

Não me recordo da data exacta da chegada do Batalhão a Luanda, mas julgo que terá tido lugar uma semana antes do embarque.

Entretanto, e depois de ter sido informado pelo advogado que referi no texto anterior, de que nada impedia o meu regresso juntamente com a minha Companhia, falei com o ortopedista do Hospital Militar, que também não levantou nenhum obstáculo de ordem clínica à viagem, devendo apenas dirigir-me em Lisboa ao Hospital Militar, para tirar o gesso, em meados de Março. Ficou combinado que me daria alta três dias antes do embarque.

Na tarde do dia da chegada do Batalhão ao Campo Militar do Grafanil, fui lá, não só para rever os meus camaradas (e fazer contas com o Rodrigues e com o Vaz, que tinham feito pagamentos por minha conta), mas também para me informar junto do alferes que estava a instruir os autos, sobre a data em que lhe convinha ouvir as minhas declarações, além de lhe sugerir o encontro com o advogado, a que também já me referi anteriormente.


Grafanil - Altar construído na base de um imbondeiro

Além disso, aproveitei para falar sobre a minha situação, quer com o primeiro-sargento Ramalho, quer com o capitão Carvalho, que me disseram, de forma taxativa, que eu não fazia parte da lista de embarque do Batalhão, em virtude de ter autos pendentes. Além disso, o capitão intimou-me a retirar da Companhia os meus pertences, que incluiam uma mala de porão.

Na CCS (Companhia de Comando e Serviços) do Batalhão, onde fora elaborada a lista de embarque, estavam colocados alguns tenentes muito experientes – tinham iniciado a sua vida militar como soldados, e foram subindo na escala hierárquica – e, julgava eu, conhecedores profundos dos meandros da legislação militar, com quem fui falar a seguir, mas que, apesar dessa sabedoria, consideravam igualmente que eu não podia embarcar.

Por outro lado, senti um clima de alguma hostilidade, tanto no comando da Companhia, como no comando da CCS. Como se eu fosse uma espécie de proscrito.

Regressei a Luanda de táxi com os meus sacos e malas, mas depois de os deixar no hotel, segui no mesmo táxi para casa do advogado, a quem relatei o que se tinha passado no Grafanil.

Acalmou-me, confirmando que, eventualmente, o meu nome podia não constar da lista do Batalhão, mas ele tinha-se assegurado de que constava da lista da 1ª Repartição do Quartel-General. Adiantou ainda que, se por qualquer baixa manobra dilatória dos meus “amigos” do Batalhão eu não embarcasse no dia 28, estaria à espera deles no Cais da Rocha, à chegada, porque ele tomaria as providências necessárias para que eu fizesse a viagem de avião nos primeiros dias de Março.


Luanda - Fortaleza de S. Miguel, vista da baía

Não deixava de ser uma perspectiva tentadora, mas eu queria muito ganhar aquela “guerra”, embarcando com os meus camaradas no dia 28.

Neste interim, prestei declarações nos autos e fiquei a saber que o condutor do jeep, tinha afirmado, mentindo no seu depoimento, que eu o obrigara a ceder-me o volante. Se vingasse essa tese, a minha situação, que já não era boa, ficaria seriamente complicada. Felizmente o testemunho dos outros dois ocupantes da viatura correspondendo à verdade dos factos, corroborava inteiramente a minha versão.

Dois ou três dias antes do embarque tive alta do Hospital, e o Depósito de Adidos passou a guia de marcha para me apresentar na minha Companhia. Chegado ao Grafanil, apresentei-me ao capitão Soares, que me disse que não valia a pena ter-me dado ao trabalho, porque a 28, enquanto o pessoal do Batalhão embarcava, eu voltaria a apresentar-me no Depósito de Adidos.

Nesse mesmo dia foram pagas as ajudas de custo de embarque, cujo valor, para a classe de sargentos, era de 3.000$00. O meu nome não constava na folha de pagamento.

Pouco depois da chegada, eu e os furriéis Miranda Dias, Mourão e creio que o Vaz, tínhamos alugado um Ford Cortina, para as nossas deslocações pela cidade. Com este aluguer poupei uma pipa de massa em táxis, porque naqueles últimos dias andei numa roda viva de um lado para o outro.

Na antevéspera do embarque, logo depois do almoço, o advogado deixou-me um recado no hotel a confirmar que eu ia mesmo embarcar. Como a bagagem de porão teria que ser colocada no cais de embarque na manhã do dia seguinte, véspera da partida, meti a mala na bagageira do Cortina e, como sempre com um deles a conduzir, fui levá-la ao Grafanil, para ser marcada e seguir, junto com as bagagens dos meus camaradas para o porto de Luanda. Não fui autorizado a deixar a mala porque o primeiro-sargento, na ausência do capitão Soares, insistiu que eu não iria embarcar.


Luanda - Capela do depósito de Adidos

Finalmente, na sexta-feira de manhã, os manda-chuvas do Batalhão e da Companhia, renderam-se à evidência: tinham perdido a “batalha” e eu ia mesmo embarcar. Ainda antes do almoço pagaram-me as ajudas de custo, mas já não podia pôr a minha mala junto com a bagagem de porão do pessoal da Companhia. Desforrei-me, talvez de forma indecente, mais tarde, em Lisboa, como poderão ler algumas linhas abaixo.

Nessa tarde andei numa roda viva. Levei a mala de porão ao cais, onde foi colocada a bordo, misturada com a bagagem de outra unidade, fiz compras, fui aos Correios mandar um telegrama para casa a confirmar que chegaria no dia 9 de Março a Lisboa, e fui pagar e agradecer ao advogado, que se revelara decisivo no apoio que me deu.

À noite, depois do jantar que ofereci a alguns camaradas mais chegados, voltei cedo para o hotel porque queria escrever algumas cartas a anunciar o meu regresso.

Estas cartas acabaram por ter um destino inesperado que só descobri quase dois anos depois, por acaso.

Como tinha de estar cedo no cais, sem tempo para esperar pela abertura dos Correios, pedi ao recepcionista do hotel que, mais tarde, mandasse um mandarete aos Correios comprar os selos e enviar as cartas. O custo total dos selos era de 12$50, e eu deixei 50$00, ficando o remanescente para beberem uma Cucas.

Quase dois anos depois, e por acaso, descobri que nenhuma das cartas fora enviada. O recepcionista e (ou) o mandarete, ficaram com os 50$00.


O navio Vera Cruz a chegar a Lisboa, transportando militares de regresso de África

O capitão Soares de Carvalho, que tinha ido comandar a nossa Companhia em rendição individual, ainda tinha ano e meio de comissão para cumprir, pelo que não regressou connosco. Antes do barco zarpar, promoveu uma reunião na sala de 2ª classe do “Vera Cruz” para se despedir dos sargentos da Companhia. Não compareci à reunião, mas o Vaz veio ter comigo à amurada, onde eu ia assistindo à azáfama do pessoal no cais, dizendo-me que o capitão me tinha mandado chamar para se despedir. Pedi-lhe que lhe transmitisse que se era uma ordem, eu iria, mas que, se não era, eu não estava interessado em me despedir dele. Não terá sido bonito, mas correspondia ao meu estado de espírito naquela ocasião. O Vaz não voltou, e mais tarde soube que ele tinha dito que não me tinha encontrado.

À chegada a Lisboa, o facto de eu não ir desfilar, por estar de braço engessado, serviu de pretexto para me encarregarem de superintender no carregamento das bagagens da Companhia, e do acompanhamento das camionetas até ao quartel do RAL 1, na Encarnação.

Como a descarga do navio ainda iria demorar, fui com alguns dos familiares e amigos almoçar ao Bonjardim, que à época servia os melhores frangos assados de Lisboa, e, quando voltei ao cais, a meio da tarde, a confusão era enorme (além de que não era nada fácil encontrar a minha mala, misturada com a bagagem de outra Companhia). Decidi então mandar regressar as camionetas ao quartel, adiando o levantamento da bagagem para o dia seguinte.


Esplanada do Restaurante Bonjardim

(Em 1967 não havia esplanada, nem sequer espaço para ela. A travessa era estreita, e passavam lá os carros eléctricos)

Quando cheguei ao RAL 1 a minha decisão não foi muito bem recebida, porque isso implicava que uma minoria, mais ou menos escolhida a dedo, residente longe de Lisboa, teria de ficar mais um dia na capital. Misturando ironia com algum cinismo (nunca disse que era perfeito), disse-lhes que pensava que iam gostar de ficar mais uma noite na civilização. Quanto aos outros, que me eram mais chegados, seguiram viagem para suas casas nesse dia, deixando-me os seus endereço. No dia seguinte, depois de voltar ao cais da Rocha para levantar bagagens, aluguei uma camioneta que transportou todas as suas malas e caixas do quartel para a estação de Santa Apolónia, onde as despachei.

Passadas duas semanas fui ao quartel pedir uma guia para ir ao Hospital da Estrela tirar o gesso. Porém, tive uma desagradável surpresa. Fizeram uma radiografia ao braço, que revelou que a intervenção em Luanda tinha sido mal feita. Em vez de reduzir correctamente a fractura, o ortopedista tinha sobreposto os ossos, deixando-os “acavalados” .

Resumindo, fui submetido a mais duas intervenções, com anestesia geral, fiz sessões de fisioterapia e acabei por ter alta onze meses depois, quando, farto do hospital, forcei a alta faltando às sessões de fisioterapia, que, de resto, quase ninguém levava a sério.

No Hospital Militar de Lisboa – Anexo de Campolide – conheci muitos camaradas evacuados dos vários teatros da guerra que, embora sobrevivendo aos ferimentos, tinham ficado seriamente estropiados. Muitos aguardavam pela viagem à Alemanha onde lhes seriam colocadas próteses; outros já tinham regressado, com próteses tão perfeitas, sobretudo nos membros inferiores, que lhes permitiam fazer uma vida quase normal, incluindo a condução automóvel.


Lisboa - Hospital Militar Principal, em foto recente

Em 23 de Fevereiro de 1968 fui a uma junta médica, que me deu alta. E foi assim que, quase 55 meses depois de ter assentado praça em Tavira, chegou ao fim a minha vida militar.

Quanto aos autos, acabaram por ter um fim de todo inesperado.

Em consequência da deslocação do papa Paulo VI a Fátima, em 13 de Maio de 1967, o Governo decretou uma amnistia geral. Nos termos dessa amnistia, os militares com autos pendentes em resultado de infracções que tivessem causado ao Estado um prejuízo de valor inferior a 3.000$00, veriam os seus autos arquivados, sem mais consequências. Nos casos em que o valor se situasse entre os 3.000$00 e os 6.000$00, os autos também seriam arquivados, desde que o infractor indemnizasse o Estado dentro de um determinado prazo.

Os danos que o desastre provocara no jeep eram, na opinião do furriel-mecânico Sousa, superiores a 15.000$00, o que me colocava fora da amnistia.

Ora, por um daqueles acasos que às vezes acontecem, tinha assumido o comando do Agrupamento do Serviço de Material de Luanda, para onde foi transportada a viatura danificada, para peritagem e posterior reparação, um oficial que eu conhecera em casa da família de uns amigos meus, de quem ele era também amigo.

Tendo tido conhecimento do que sucedera, esses amigos escreveram a esse oficial intercedendo a meu favor, e, provavelmente por sua influência, a peritagem considerou que do desastre tinham resultado danos na viatura no valor de 5.800$00. Isto é, os meus autos seriam arquivados se eu pagasse ao Estado 3.480$00. O que fiz, ficando desse modo livre de ir parar à Trafaria durante 30 dias, pelo menos.

Pode dizer-se que tive muita sorte. E, claro, fiquei com uma grande admiração pelo papa.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Coronel José Francisco Soares


Coronel José Francisco Soares

(Foto de Veterano)


Passou ontem um ano sobre a data da morte do coronel José Francisco Soares, que foi, sucessivamente, segundo-comandante, ainda com o posto de major, e, já tenente-coronel, comandante do Batalhão de Artilharia 741.


Na ausência do tenente-coronel Cabrita Gil, que na altura exercia as funções de segundo-comandante de um Batalhão colocado em Zala – à época uma das zonas operacionais mais difíceis e perigosas do Norte de Angola – coube ao então major Soares a árdua tarefa de coordenar o treino operacional dos militares do BArt 741, durante os meses que antecederam o nosso embarque.


Dadas as muito diferentes funções e postos que tínhamos no Batalhão, não tive um relacionamento próximo com ele, quer antes de embarcarmos, quer durante a permanência do comando no Vale do Loge.


No entanto, não pude deixar de registar que, nos contactos que mantinha com os militares do Batalhão, independentemente da sua graduação, vinham ao de cima os valores humanistas que marcavam a sua forma de estar. Como sabem os que, pelo menos nesse tempo, fizeram o serviço militar, essa não era a prática corrente dos oficiais superiores.

Para não tornar demasiado longo este texto, vou aqui deixar dois dos episódios em que fui interveniente, e que de alguma forma ilustram o que acima escrevi.


De uma das vezes em que me desloquei em serviço a Novo Redondo, onde se situava a sede do Batalhão, sentei-me numa esplanada daquela cidade acompanhado por dois furriéis da CCS, e enquanto iamos conversando sobre “a chuva e o bom tempo”, aproveitámos para beber uns “finos”, antes de eu regressar à Gabela.


A dada altura vimos o tenente-coronel Soares que se aproximava do lugar onde estávamos. Depois de nos levantarmos e de fazermos a saudação da ordem, mandou-nos sentar e sentou-se também na nossa mesa, ficando connosco, numa conversa amena, enquanto esperava pela esposa, que se encontrava num cabeleireiro, localizado em frente.

Quantos oficiais com o seu posto e responsabilidades de comando eram capazes de um gesto semelhante? 


Alguns meses mais tarde, o comando do Batalhão foi transferido para o Lobito, quase de um dia para o outro. Não podendo o quartel de Novo Redondo ficar desocupado, foi decidido que a minha Companhia enviaria para lá um pequeno destacamento (cerca de 20 militares), enquanto o comando da Companhia não se mudasse para lá. Claro que, como sempre acontecia quando apareciam estes serviços extraordinários (e não era prémio, embora neste caso tenha sido, se bem que involuntário), lá fui eu comandar esse pequeno grupo.


Durante a nossa estadia, cerca de metade do pessoal estava ocupado com o serviço de funcionamento do quartel. Para que os outros não ficassem sem fazer nada, resolvi que o melhor seria levá-los para a praia, que ficava a 300 ou 400 metros do quartel, e dar-lhes instrução (de banhos marinhos e de muito trabalho para o bronze).

Num desses dias, a meio da manhã, estava eu a nadar quando ouço alguém a chamar-me e, quando olho, vejo à beira da água o motorista do tenente-coronel Soares, dizendo que o comandante estava à minha espera na Marginal, junto ao Land-Rover, depois de ter ido ao quartel e de lhe terem dito que eu estava na praia.

Lá vim eu a correr e a escorrer água, enquanto ia engrolando uma justificação qualquer, que o nosso comandante não se mostrou interessado em ouvir. O que ele pretendia era que eu assinasse a guia de marcha, comprovando que “o Exmo. Comandante passou por esta unidade”. O que fiz em cima do capot. E ele seguiu viagem, desejando-me “boa praia”, com um sorriso.

Não creio que houvesse muitos, pelo menos dos que conheci, que no seu lugar se tivessem mostrado tão tolerantes.



Que descanse em paz, este Homem bom!



P.S. - Na altura da sua morte, o Veterano homenageou o nosso comandante com um texto que pode ser lido aqui.

domingo, 29 de maio de 2011

Na Varanda da Flórida



Da esquerda para a direita:
Em primeiro plano, meio desfocados: Morais Soares e Mourão (atrás do Mourão, um camarada da CCaç 715, que não consigo identificar);
Sentados: Carvalho (CCaç 715), Torres (CCaç 715), Rodrigues e outro camarada da Ccaç 715), cujo nome “fugiu”;
De pé: Ramiro e Fonseca
Na janela: Miranda Dias e Babo



Embora esta seja uma das “minhas” fotografias mais desastradas (parece que estou ausente ou a dormir), gosto particularmente dela.

Foi tirada na espaçosa varanda da Flórida, onde estavam alojados alguns furriéis. As cadeiras eram feitas com madeira de barris de vinho, que depois de vazios eram reaproveitados.

A imagem tem a particularidade de retratar alguns dos meus camaradas com quem tive, ou ainda tenho, especiais laços de amizade.

A começar pelo Torres que - soube-o recentemente -, faleceu já há alguns anos.

Foi meu colega de turma, no Liceu D. João III, além de ter sido meu companheiro de viagem habitual no comboio que todos os dias nos transportava das localidades onde residíamos, para Coimbra.

Reencontrámo-nos em Agosto de 1963, no quartel de Tavira, onde frequentámos o Curso de Sargentos Milicianos.

Conheci o Miranda Dias, cuja memória evoquei aqui, aos 16 anos, quando disputámos o Campeonato de Andebol de Lisboa, em Juniores, em representação de clubes diferentes. Mas só viriamos a criar laços de amizade quando nos reencontrámos no RAL 1, na formação do Batalhão.

O Carvalho foi outro camarada que conheci em Tavira, e com quem fiz amizade. Tinha uma acentuada pronúncia “à Porto”. Com ele aprendi um termo novo da nossa Língua, quando ele, na caserna, me perguntou se eu não tinha um “aloquete” a mais. Sabia lá eu que um aloquete era aquilo que eu conhecia como cadeado! Mas fiquei a saber.

O Babo, também já nos deixou (por cruel coincidência vítima de uma doença degenerativa, tal como aconteceu com o Miranda Dias, seu amigo e camarada do 4º pelotão), e espero homenageá-lo num dos próximos posts.

Continuo a manter contactos regulares com o Ramiro, que costuma estar presente nos nossos convívios.

Do Morais Soares dei conta neste texto, e espero que cumpra o prometido e apareça no próximo ano.

O José Rodrigues, que ficou em Angola - onde casou com uma moça da Gabela, para onde fomos depois de Lucunga -, regressou mais tarde a Portugal, e foi bancário em Vila Nova de Gaia, onde residia. Veio pelo menos a um dos almoços na Ponte de Asseca. Entretanto, o seu número de telefone foi alterado e perdi o contacto.

O Mourão afastou-se depois do regresso. Encontrei-o ocasionalmente três vezes, alguns anos depois do nosso regresso, mas embora tivesse conversado de forma cordial, nunca mostrou vontade de frequentar os nossos convívios.

A foto foi tirada por altura de um jogo de futebol, em Lucunga.




segunda-feira, 18 de abril de 2011

In Memoriam - João Francisco Miranda Dias

Conheci o Miranda Dias em 1958. Tínhamos 16 anos e disputávamos, em representação de clubes diferentes, o Campeonato de Lisboa de Andebol na categoria de Juniores. Fomo-nos encontrando nos anos seguintes quando os nossos clubes jogavam entre si, sem no entanto termos estabelecido um relacionamento especial para além dos cumprimentos habituais no final de cada jogo.

Quis o acaso que voltássemos a encontrar-nos em Setembro de 1964 no RAL 1 (Regimento de Artilharia Ligeira nº 1), em Lisboa, aquando da formação do Batalhão de Artilharia 741, acabando ambos integrados na CArt 738. Ele no quarto pelotão, eu no primeiro.

Era o início de uma amizade que, apesar de termos estado muitos anos sem nos encontrarmos, se manteria até à sua morte, em 1994 (se a memória não me atraiçoa).

Na varanda dos "Sete Magníficos". De farda camuflada, o Miranda Dias

Em Lucunga ficámos alojados na mesma pequena moradia - a que chamávamos “Casa dos Sete Magníficos - com três quartos, que foi a residência de sete furriéis-milicianos durante a nossa estadia naquela localidade. Os longos serões à conversa na varanda tiveram como resultado um conhecimento mais aprofundado, bem como a revelação de vários interesses em comum.

Um deles, como já referi, o Andebol levaria a que, conjuntamente com o alferes-miliciano Fagundes também ele praticante da modalidade, viéssemos a “construir” um campo de Andebol onde disputávamos partidas com outros camaradas, alguns dos quais tinham algumas luzes da modalidade que tinham praticado nas aulas de Educação Física do Ensino Secundário, e outros a quem transmitimos o gosto pelo jogo.

Tínhamos uma outra afinidade, que nos levava à prática de uma “malandrice”, que já resumi aqui.


Antes de um jogo de Andebol, na Gabela. O Miranda Dias é o segundo a contar da esquerda

Depois do regresso nenhum de nós voltou a jogar Andebol e, exceptuando um breve encontro ocasional em Novembro de 1967, estivemos mais de 20 anos sem notícias um do outro.

A causa próxima do reencontro teve origem num dos almoços realizados na Ponte da Asseca, durante uma daquelas conversas sempre presentes nos nossos convívios, em que falamos dos camaradas de quem não temos notícias. Nesse almoço de 1990, o segundo em que compareci, veio à baila o Miranda Dias, e um dos presentes tinha ouvido dizer que ele estava doente, mas não sabia pormenores, além de que ninguém sabia onde morava.


Hora de refrescar. O Miranda Dias é o primeiro de pé, à direita

Foi fácil encontrá-lo. No regresso a Lisboa consultei a lista telefónica e lá estava o número do telefone. Liguei-lhe e, ultrapassada a emoção que lhe causou a minha chamada, o Miranda Dias confirmou que se encontrava doente há alguns anos. Uma doença degenerativa - esclerose de placas, também chamada esclerose múltipla – tinha-lhe causado uma progressiva diminuição das capacidades físicas, “atirando-o” para uma cadeira de rodas.

A partir dessa altura e até a morte o levar, poucos anos depois, passei a visitá-lo aos sábados, sempre que tinha disponibilidade. Em média, duas vezes por mês.

No ano seguinte ao nosso reencontro convenci-o a acompanhar-me ao almoço de confraternização do Batalhão, onde foi acarinhado por todos os antigos camaradas. Mais tarde disse-me que aquelas horas de convívio tinham constituído uma das maiores alegrias que tinha sentido nos últimos anos.


O Miranda Dias é o primeiro, de pé, à esquerda

Nas muitas horas de conversa desses últimos anos lamentámos o tempo que, sem qualquer razão, deixámos ir passando sem contactos. Como ele costumava dizer, éramos novos, pensávamos que o Mundo era nosso, e que tínhamos uma vida inteira à nossa frente.

Afinal, nem éramos donos do Mundo, nem a “vida inteira” era assim tão longa.

Infelizmente, no seu caso, não só não foi longa, mas foi, também, injustamente cruel.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Luanda - I

Porto de Luanda

Desembarcámos Luanda em 18 de Janeiro de 1965. Já ia distante o ano de 1961, altura em que os primeiros militares que chegaram depois do início da guerra no Norte desfilavam na Avenida Marginal, vitoriados por milhares de residentes.

A situação tinha mudado, e as circunstâncias que rodearam a nossa chegada estiveram longe de contribuir para animar as hostes.

Alguns militares da minha Companhia choravam, desolados, estranhando as barrocas de terra vermelha que caracterizam a aproximação ao porto de Luanda e que constituíam a primeira visão que tinham antes do desembarque. Ao mesmo tempo, queixavam-se da elevada temperatura àquela hora matutina, bem como da pegajosa humidade que se sentia. Era, para quase todos, um enorme “salto” no desconhecido, atendendo aos nossos pouco mais de vinte verdes anos.

Musseque

O desapontamento generalizou-se quando verificámos que o comboio que nos transportaria do porto de Luanda até ao quartel, no Grafanil, onde as unidades permaneceriam até à partida para o Norte, tinha apenas meia dúzia de carruagens de passageiros, sendo a restante composição constituída por vagões de mercadorias fechados, com uma larga porta de cada lado onde viajámos de pé em condições mais parecidas com as de um transporte de gado. A via férrea atravessava vários muceques onde a miséria era por demais evidente, e isso também não ajudou a melhorar o nosso estado de espírito. 

Desta forma, facilmente se compreende que o moral não fosse particularmente elevado quando, chegados ao Grafanil, saltámos dos vagões para o terreno arenoso.

Depois de formados à entrada do quartel iniciámos o desfile até ao local onde ficaríamos alojados. 

Entrada do Grafanil

Durante o tempo de instrução no RAL1 fomos treinando, por iniciativa do comandante da Companhia, uma espectacular forma de marchar a que ele chamava  “o passo de parada”. No passado tínhamos marchado assim algumas vezes, a última das quais durante o desfile no Cais da Rocha Conde d'Óbidos. Porém, o desalento naquela manhã era de tal ordem que, sem que tivesse havido combinação prévia, o “passo de parada” não saiu. Apesar das repetidas ordens, cada vez mais gritadas, o pessoal andava mais do que marchava. O nosso comandante de Companhia estava mais que descontente; estava furioso.

Mas, confirmando um velho princípio, quando as coisas podem piorar, pioram mesmo. E foi o caso.

Não esperávamos ter à nossa espera alojamentos luxuosos, mas esperávamos, pelo menos, ficar instalados em edificações pré-fabricadas. Porém, o que tínhamos à nossa espera  para passar os cinco dias que ali iríamos ficar eram pequenas tendas de três panos para alojar, cada uma, três militares com as respectivas bagagens. Aí, e embora  se soubesse que isso não resolveria nada, exercemos aquilo a que, anos mais tarde, um presidente da República chamaria de "direito à indignação", e não calámos o nosso  descontentamento. Cumpridor das normas, o capitão Rubi Marques limitou-se a avisar que todos (incluindo ele próprio) ficariam nas tendas.

Um aspecto do Campo Militar do Grafanil

No entanto, as coisas não se passaram bem assim. Da minha Companhia fazia parte o furriel-miliciano José Rodrigues que, apesar de ser o mais jovem furriel desta unidade ia já na segunda comissão em Angola (por troca com um camarada), pois tinha assentado praça, voluntariamente, aos 18 anos, e a sua experiência seria decisiva para que, ao fim da tarde, um pequeno grupo de que fiz parte, se “desenfiasse”, evitando dormir nas malfadadas tendas.

Conhecendo as rotinas do quartel o Rodrigues sabia que havia sempre viaturas a sair do Grafanil para Luanda, e vice-versa. Sabia também que não havia qualquer tipo de controlo, pelo que bastaria que fossemos até à porta de armas e apanhássemos boleia numa dessas viaturas. Assim fizemos, e em Luanda ficámos numa moradia, na Avenida Marechal Carmona, cuja dona ele já conhecia e que alugava quartos a militares.

Luanda - Avenida Marechal Carmona

Nessa primeira noite (e nos dias seguintes) o Rodrigues revelar-se-ia um precioso cicerone. 

Jantámos na Baixa, na Cervejaria Amazonas (que viria a ser, não só nesses poucos dias mas também nas deslocações que depois fizemos a Luanda, uma espécie de cantina para muitos de nós), e andámos a conhecer algumas boites da cidade (nesse tempo, para nós, discotecas eram lojas que vendiam discos). 



Deitámo-nos tarde, pedindo que nos acordassem às seis horas. Nem tomámos pequeno-almoço. Apanhámos dois táxis e seguimos para o Grafanil, onde aparentemente a nossa ausência não fora notada. É claro que a nossa saída era do conhecimento de alguns. E a notícia da infracção acabou por chegar mais acima, mas sem consequências.

Os camaradas que lá tinham pernoitado pouco ou nada dormiram. Os mosquitos atacaram em massa, deixando na pele do pessoal as marcas da sua acção, acompanhadas por um forte prurido. Dentro da minha tenda, que tinha ficado só com a bagagem, havia uma nuvem de mosquitos. Do que nos livrámos...

Nesse dia, e nos seguintes, as ordens foram alteradas. O comandante da Companhia passou a autorizar as dormidas em Luanda, excepto, naturalmente, para quem estivesse de serviço.

E, nos dias seguintes ao fim da tarde, lá partíamos à descoberta da cidade e à recarga das baterias para a permanência no “mato”, que nos esperava.

Dessa descoberta "falarei" no próximo post.