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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fotos do Mário Abreu


O furriel-miliciano Mário Abreu, que me enviou as fotos que podem ver mais abaixo, além de ter a especialidade de atirador, fez, no quartel de Lamego, o Curso de Operações Especiais. Os camaradas que completavam este curso – cuja dureza levava muitos dos convocados para as provas de selecção a fazer “ronha” (falo por experiência própria) – eram habitualmente chamados “rangers”, porque a instrução naquele quartel era baseada na dos militares americanos pertencentes a uma unidade especializada, que tinha aquela denominação.

O Abreu comandava uma secção do 3º pelotão (em zona de conflito, como era o caso de Lucunga, os pelotões adoptavam a designação de “grupos de combate”).


(Clique nas fotos para aumentar)

Nesta fotografia, embora a maior parte dos rostos me seja familiar, apenas consigo identificar dois: o Abreu, que tem o braço apoiado no ombro do Eusébio, que é o único com uma camisa de caqui.

O Eusébio era um transmontano que chegou ao RAL 1, onde se formou o Batalhão de Artilharia 741, com fama de ser um valentão com mau feitio, fama que acabou por criar alguns mitos.

Ainda no último convívio, em Fátima, um dos camaradas dizia numa roda onde eu estava : “lembram-se do Eusébio, do 3º pelotão, ter andado à pancada com o capitão Rubi Marques?”

Avivei-lhe a memória, lembrando que ninguém andara à pancada com o capitão Rubi Marques, recordando, como faço agora, o episódio a que se referia.

Logo nos primeiros dias de instrução operacional, durante uma acção num terreno lavrado, próximo do quartel, foi dada ordem para rastejar num determinado percurso.

O Eusébio, que era de facto um bocado fanfarrão e conflituoso, recalcitrou, afirmando que naquele terreno quem não rastejava era ele. Devia vir mal habituado da recruta, feita em Aveiro.

O capitão Rubi Marques, que o tinha ouvido, aproximou-se e, depois de lhe massajar o rosto de forma muito persuasiva, fê-lo compreender, ao que parece definitivamente, que na CArt 738 não havia lugar para tropa fandanga, pelo que, dada uma ordem, não havia margem para discussão.

E o incidente ficou por ali, com o Eusébio a rastejar como os outros.



Na falta de uma ponte, que viria a ser construida no início da década de 1970, atravessávamos o rio Coji nesta jangada.

Além do condutor do Unimog, que me parece ser o Francisco Tavares, mais conhecido por Marova, só me lembro do nome do Abreu, que se encontra de pé, com um rádio portátil na mão.



Um outro aspecto da travessia do rio, aqui com um ângulo mais aberto. À esquerda, dois camaradas dão à manivela que vai enrolando o cabo que, fixo nas margens, movimenta a jangada.



Na Ilha de Luanda, em Fevereiro de 1966, durante o fim-de-semana em que lá ficámos, em trânsito do Norte de Angola para o Quanza-Sul. Também aqui não me lembro do nome do furriel-miliciano da CArt 740, que está à esquerda. Eu estou ao centro, e à direita está o Mário Abreu.



No ribeiro onde enchiamos os tambores para abastecimento de água ao quartel, em Lucunga, aproveitávamos para nos refrescarmos.

A partir da esquerda: o Miranda Dias, o Morais Soares, o Mário Abreu e o António Sousa.




Passeando na picada junto ao quartel em Lucunga, o Vaz, o Mourão (de cachimbo, que estava na moda, em Lucunga. Eu ainda tenho o meu, embora não fume há mais de 30 anos), o Sousa, o Miranda e o Abreu.

As camisolas da farda que o Mourão e o Miranda tinham vestidas são sinal de que devíamos estar na época do cacimbo.

domingo, 31 de julho de 2011

As Emboscadas

Em primeiro plano, o autor do blogue; No jeep, o furriel-miliciano mecânico Sousa e o soldado clarim do 2º pelotão, Gomes

Segundo uma nota que escrevi no verso, esta fotografia foi tirada pouco depois de eu ter regressado de uma emboscada. Não tenho mais pormenores. Não sei, por isso, nem a data, nem as circunstâncias da operação em causa.

Tenho o cabelo cortado curto, como usei sempre durante o tempo que estive em Lucunga, e há um detalhe na foto que me intriga: que diabo fazia a caneta (ou esferográfica) que se vê no bolso esquerdo da camisa, numa emboscada? Será que levei um bloco e aproveitei o longo tempo de inacção para pôr a escrita em dia? É uma dúvida que não vai ter solução.

A fotografia deve ter sido feita nos primeiros meses da nossa permanência em Lucunga, porque nela aparece a bandeira nacional, hasteada, mas não mostra o “monumento” da Companhia que entretanto foi construido, e que devia aparecer neste enquadramento.

As emboscadas, em que procurávamos surpreender o inimigo, tinham uma duração que variava de um até quatro dias, e eram uma estopada de todo o tamanho, sobretudo quando tinham uma duração superior a um dia. Ficávamos ali, quietos, em silêncio, ou se necessário falando num murmúrio, a comer ração de combate (excepto se ficássemos apenas um dia, caso em que levávamos sanduíches feitas com meio pão casqueiro, para cada refeição – quase sempre com atum -, que era também a ementa para batidas de curta duração), com água racionada, já que não tínhamos como reabastecer os cantis, numa espera enervante pela chegada de “convidados” que, na maior parte das vezes, tinham a “deselegância” de não comparecer ao encontro.

A primeira emboscada que fizemos, pouco depois da chegada a Lucunga, envolveu todo o pelotão (mais tarde houve ocasiões, em que a operação envolvia apenas uma secção), e ainda hoje estou convencido de que não havia previsão de passagem de nenhum grupo adverso. Aquela primeira noite que passámos na mata, destinar-se-ia antes a uma espécie de habituação ao meio. Penso que poucos terão pregado olho; e os que dormiram, acordaram sobressaltados durante a madrugada, com um tiro disparado por um dos camaradas que estava de guarda. Alarme falso: ele deve ter-se assustado com a aproximação de algum animal, que tomou por um “turra” (para usar a terminologia da época).




Jangada do rio Coji
(Cortesia do antigo furriel-miliciano da CCaç 1495,  Jorge Isidoro)

Com o passar dos meses, e com algum imprudente excesso de confiança, as emboscadas, embora não se transformassem num arraial, passaram a ser mais descontraidas. Recordo-me, por exemplo, que quando o Vitória de Setúbal ganhou a Taça de Portugal ao Benfica, na final de 1965, um pequeno grupo, de que fiz parte, afastou-se um pouco para ouvir o relato, embora com o som muito baixo.

E, quando as emboscadas (ao nível de secção) tinham lugar na margem do rio Coji, próximo da jangada, havia quem improvisasse uma cana de pesca, fio, anzol e isco, e pescasse alguns peixes, que eram assados, tão discretamente quanto possível.

Ao menos por uma vez, espero bem que o coronel Rubi Marques não seja leitor deste blogue (julgo que os alferes, comandantes de pelotão, também não tinham conhecimento da façanha).

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O "Monumento"


Tradicionalmente – se a uma prática com meia dúzia de anos se pode chamar tradição - as Companhias erigiam nos locais onde estavam aquarteladas um “monumento” que assinalava a sua presença. Na prática, aquelas pequenas construções tinham um significado equivalente aos dos padrões que os navegadores portugueses erigiram ao longo da costa africana durante a epopeia dos Descobrimentos, salvaguardando as devidas distâncias, como é evidente.

As fotografias que ilustram este texto foram-me enviadas pelo Jorge Isidoro, que foi furriel-miliciano da CCaç 1495, que nos rendeu em Fevereiro de 1966, tendo permanecido em Lucunga durante os 27 meses que durou a sua comissão. Nesta foto, que foi tirada de um ângulo mais favorável do que os de qualquer uma das fotos que eu já tinha do nosso “monumento”, o Jorge está de pé, enquanto, sentado, está o Antunes, igualmente furriel-miliciano daquela Companhia.

Monumento da CArt 738

Na fotografia podem ver-se, ao fundo, a oficina-auto e, em segundo plano, o mastro com a bandeira nacional (mais à direita vê-se também a casa do gerador que nos fornecia energia eléctrica, quando não estava avariado).

No espaço entre o mastro da bandeira e a oficina formavam todos os militares da Companhia, diariamente, às oito horas, para assistir ao hastear da bandeira.


"Casa dos Sete Magníficos"

Esta era a pequena moradia que foi a minha casa – e de mais seis camaradas - de Janeiro de 1965 a Fevereiro de 1966. Aqui, o “jardim” parece pouco cuidado. Deve ter faltado o cumbú* para pagar ao jardineiro.

A zona de intervenção das unidades aquarteladas em Lucunga abrangia uma vasta área na margem esquerda do rio Coji, pelo que, não havendo ainda a ponte o uso de uma jangada era indispensável para o cumprimento das nossas missões. Além do nosso pessoal, a jangada também era utilizada pela Companhia aquartelada em Chimacongo, que ficava cerca de 30 kms. a Leste de Lucunga, e cuja zona incluía igualmente algumas áreas na margem esquerda do rio.

Havia outros utilizadores, entre os quais se incluíam os grupos que então combatíamos, aos quais chamávamos terroristas ou, mais vulgarmente, turras (designações hoje politicamente incorrectas, como sabemos).

De vez em quando, ao chegarmos ao Coji a jangada estava encostada à outra margem. Atendendo ao facto de, no rio, além dos peixes e dos hipopótamos – estes numa zona um pouco mais a jusante – também nadarem crocodilos, antes de um voluntário atravessar o rio a nado para trazer a jangada, era preciso varrer a corrente com algumas rajadas de FN, e lançar duas ou três granadas, para afastar os indesejáveis animais. Claro que essa acção provocava aquilo que hoje se designa por “efeitos colaterais”: no caso, alguns quilos de peixes mortos.




Militares da CCaç 1495 atravessam o Coji na nova jangada

A jangada da fotografia foi reconstruída pelos militares que nos foram render. E, pelo aspecto, fizeram um excelente trabalho. Parece nova


* Dinheiro em quimbundo