Pesquisar neste blogue

domingo, 29 de maio de 2011

Na Varanda da Flórida



Da esquerda para a direita:
Em primeiro plano, meio desfocados: Morais Soares e Mourão (atrás do Mourão, um camarada da CCaç 715, que não consigo identificar);
Sentados: Carvalho (CCaç 715), Torres (CCaç 715), Rodrigues e outro camarada da Ccaç 715), cujo nome “fugiu”;
De pé: Ramiro e Fonseca
Na janela: Miranda Dias e Babo



Embora esta seja uma das “minhas” fotografias mais desastradas (parece que estou ausente ou a dormir), gosto particularmente dela.

Foi tirada na espaçosa varanda da Flórida, onde estavam alojados alguns furriéis. As cadeiras eram feitas com madeira de barris de vinho, que depois de vazios eram reaproveitados.

A imagem tem a particularidade de retratar alguns dos meus camaradas com quem tive, ou ainda tenho, especiais laços de amizade.

A começar pelo Torres que - soube-o recentemente -, faleceu já há alguns anos.

Foi meu colega de turma, no Liceu D. João III, além de ter sido meu companheiro de viagem habitual no comboio que todos os dias nos transportava das localidades onde residíamos, para Coimbra.

Reencontrámo-nos em Agosto de 1963, no quartel de Tavira, onde frequentámos o Curso de Sargentos Milicianos.

Conheci o Miranda Dias, cuja memória evoquei aqui, aos 16 anos, quando disputámos o Campeonato de Andebol de Lisboa, em Juniores, em representação de clubes diferentes. Mas só viriamos a criar laços de amizade quando nos reencontrámos no RAL 1, na formação do Batalhão.

O Carvalho foi outro camarada que conheci em Tavira, e com quem fiz amizade. Tinha uma acentuada pronúncia “à Porto”. Com ele aprendi um termo novo da nossa Língua, quando ele, na caserna, me perguntou se eu não tinha um “aloquete” a mais. Sabia lá eu que um aloquete era aquilo que eu conhecia como cadeado! Mas fiquei a saber.

O Babo, também já nos deixou (por cruel coincidência vítima de uma doença degenerativa, tal como aconteceu com o Miranda Dias, seu amigo e camarada do 4º pelotão), e espero homenageá-lo num dos próximos posts.

Continuo a manter contactos regulares com o Ramiro, que costuma estar presente nos nossos convívios.

Do Morais Soares dei conta neste texto, e espero que cumpra o prometido e apareça no próximo ano.

O José Rodrigues, que ficou em Angola - onde casou com uma moça da Gabela, para onde fomos depois de Lucunga -, regressou mais tarde a Portugal, e foi bancário em Vila Nova de Gaia, onde residia. Veio pelo menos a um dos almoços na Ponte de Asseca. Entretanto, o seu número de telefone foi alterado e perdi o contacto.

O Mourão afastou-se depois do regresso. Encontrei-o ocasionalmente três vezes, alguns anos depois do nosso regresso, mas embora tivesse conversado de forma cordial, nunca mostrou vontade de frequentar os nossos convívios.

A foto foi tirada por altura de um jogo de futebol, em Lucunga.




terça-feira, 24 de maio de 2011

O Petromax


Há dias, durante uma daquelas viagens sem destino que de vez em quando faço pelos caminhos da Internet, tropecei nesta fotografia. Há quanto tempo não via nem me lembrava dos velhos ”Petromaxes”, que em Lucunga foram de grande utilidade.

Habitualmente, a iluminação era assegurada por um cansado gerador que, de vez em quando, se recusava a trabalhar. Na maior parte das vezes em que isso sucedia, a nunca por demais elogiada competência do pessoal da “Ferrugem”, encarregava-se de resolver o problema.

Porém, chegou o dia em que nem a capacidade do “Zé da Pipa” (anjo da guarda de tudo o que tivesse motor) para desenrascar peças de substituição, chegou para resolver a avaria. Foi necessário requisitar o material indispensável para uma reparação eficaz.

Por incrível que pareça, as peças demoraram muito tempo a chegar. Não tenho já a certeza, mas julgo que foram mais de dois meses de espera. Talvez algum leitor, de entre a enorme minoria de antigos camaradas que me lê, possa esclarecer este pormenor.

E foi aqui que entraram em cena os petromaxes. Também já não me lembro de onde vieram tantos candeeiros, mas a verdade é que em todos os alojamentos havia um, pelo menos.

Produziam uma excelente iluminação, mas tinham um “calcanhar de Aquiles”: as camisas duravam pouco, pelo que tinham de ser substituídas com frequência.

P.S. - Para poupar o trabalho de pesquisa a quem nunca ouviu falar neste precioso auxiliar de iluminação, deixo a descrição da Wikipedia:

O petromax consta de um depósito, onde está introduzida uma bomba de pressão, do qual sai um tubo tendo na extremidade um vaporizador e fixa a este uma camisa em seda em forma de lâmpada, protegida por um cilindro em vidro. No cimo tem uma chaminé por onde saem os gases.”




quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Dornier (DO 27)







O Dornier, DO 27 para os amigos, era um pequeno monomotor de seis lugares, que aterrava num “palmo” de terra batida, tendo sido utilizado na Guerra de África para transporte de passageiros e de correio, reconhecimentos aéreos, acompanhamento de operações (altura que normalmente o comandante de Batalhão aproveitava para, lá do alto e confortavelmente instalado, mandar “bocas”. Por exemplo, criticando o que ele considerava atrasos na progressão, sem ter em conta os obstáculos com que nos deparávamos no terreno), evacuação de feridos (eu próprio viria a ser evacuado em Fevereiro de 1967, num destes aparelhos. Contarei o episódio lá mais para diante). Em caso de necessidade, era usado em missões ofensivas de apoio a operações, sendo, então, montados lança-foguetes nas suas asas.

Durante o tempo em que estivémos em Lucunga tivemos algumas visitas destes aviões. A fotografia que ilustra este post foi feita numa dessas visitas, em que alguns de nós aproveitámos o pretexto para mais um “boneco”.

Não sei se terá sido dessa vez, mas recordo que numa das viagens as passageiras eram duas jovens enfermeiras pára-quedistas, com o posto de 2º (ou 2ª?) sargento.

Foi um alvoroço. Os oficiais pretendiam convidá-las para tomarem uma bebida na sua messe. Nós, sargentos, não estávamos pelos ajustes: em conformidade com as normas, as bebidas deviam ter lugar na messe de sargentos. Aliás, se em vez de enfermeiras fossem enfermeiros, os nossos solícitos oficiais estavam-se borrifando.

Acabou por se chegar a um consenso, e o breve convívio acabou por ter lugar, com a presença de oficiais e sargentos, na sala de refeições dos sargentos, que era mais espaçosa.

Hoje dá vontade de sorrir, mas sabem lá a importância que estas pequenas coisas tinham naquele tempo e lugar.

domingo, 15 de maio de 2011

Inauguração da Casa do Soldado




Nesta fotografia, que foi tirada na véspera do Natal de 1966, no quartel da Gabela, durante a inauguração da Casa do Soldado, podemos ver, da esquerda para a direita, o alferes Morgado, os furriéis Morais Soares, Azevedo, Fonseca e o 2º-sargento Rodrigues. Julgo que o cachorro é um dos filhotes da "Tosca" (que adoptámos quando chegámos à Gabela, e que morreu de parto) e do "Lucunga" (o pastor-alemão do alferes Morgado).

Já me tinha referido anteriormente a esta inauguração na legenda de outra fotografia da mesma data (mas tirada mais tarde, depois de terminado o serviço diário, o que justifica o traje diferente) no post "Novas de Toronto". Entretanto, o Morais Soares enviou-me esta foto que eu não possuia (nem me recordava dela), embora seja um dos fotografados.

Todos os materiais utilizados na construção, bem como o mobiliário e o primeiro fornecimento de bebidas (para as quais quase não foi suficiente o espaço para armazenagem existente), foram fornecidos pelas senhoras do Movimento Nacional Feminino da Gabela, que durante alguns meses dinamizaram uma campanha de angariação de fundos, quer junto das empresas da região, quer junto dos proprietários de fazendas de café.



P.S. - Ausente da minha residência habitual durante as próximas duas semanas (pelo menos), limitações de ordem logística “obrigam-me” a aligeirar as intervenções bloguísticas, que durante esse período terão uma configuração semelhante a esta, isto é, uma fotografia e um pequeno texto explicativo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

As Parelhas



Ao ler o título deste texto a primeira coisa que acudiu ao pensamento do prezado leitor foi, certamente, a palavra “cavalos”. De facto, se consultarmos a maior parte dos dicionários - e se não digo todos, é porque não os conheço na totalidade - o primeiro sinónimo que encontrará é “par, referindo-se a cavalos ou muares”.

Se procurar na palavra “par”, então já encontrará o sinónimo “parceiro”.

Foi neste sentido do termo que o capitão Rubi Marques criou informalmente sub-grupos que eram constituídos por dois militares, a que deu o nome de parelhas. Todos tínhamos um parceiro que designávamos como a nossa parelha e, na prática, funcionávamos como se fossemos guarda-costas um do outro, quando estávamos em operações.



Rubi Marques e José Alves, em foto recente

Com o tempo, acabou por se criar um elo especial entre a maior parte das parelhas, que acabava por ultrapassar a duração das operações. Um dos casos mais flagrantes é o do próprio capitão Rubi Marques, cuja ligação com a sua parelha – o primeiro-cabo clarim, José Alves – perdurou até à actualidade.

A minha parelha era o soldado nº 958, Manuel de Lima Fernandes Lopes, natural do concelho de Ponte de Lima, do qual não voltei a ter notícias depois do regresso, apesar de ter feito algumas tentativas para o localizar, principalmente através de outros camaradas.

Durante o tempo que durou a nossa comissão, o Lopes teve um papel importante no meu dia-a-dia, encarregando-se de algumas tarefas pessoais para as quais eu não tinha grande apetência (para não lhe chamar preguiça, que não ficava bem), e de outras em que a minha falta de jeito era gritante. Por exemplo, a desarrumação das minhas coisas (que punha os cabelos em pé ao Nunes da Silva, meu companheiro de quarto, que tinha sempre os seus pertences em perfeita ordem) só não era maior porque o Lopes me substituia nessa (e noutras) tarefa.

Como recompensa, não solicitada, eu pagava-lhe algumas pequenas despesas proporcionando alguma poupança à sua minguada bolsa (os soldados em Angola recebiam apenas quinhentos escudos mensais, sendo que parte desse dinheiro era recebido na Metrópole, pelos familiares).

O serviço militar foi desenraizar o Lopes do seu Minho natal, e de uma calma, embora fatigante, vida no campo, onde trabalhava com os pais. Era um jovem inteligente, de uma inocência sem ponta de malícia, e sem alguns dos defeitos e “vícios” comuns a outros jovens mais vividos.


Manuel Lopes

Por exemplo, aquando da visita da terapeuta, a que me referi aqui, o Lopes pertenceu ao grupo dos que não frequentaram as suas “consultas”.

Em determinada ocasião resolvi brincar com ele, pregando-lhe uma partida. Combinei com a Ana, a minha lavadeira em Lucunga, que ela iria entregar a minha roupa lavada quando ele estivesse a arrumar o quarto. Depois, fecharia a porta e faria menção de o abraçar.

A Ana seguiu o “guião” à risca, mas quando se aproximou do Lopes, ele esquivou-se, passou por cima da cama, e saltou pela janela aberta, para a varanda, onde estava eu e mais dois ou três dos meus “co-residentes” para “gozar o prato”.

Vi logo, pela cara dele, que tinha feito asneira. E fiquei completamente sem jeito quando, logo a seguir, fui ter ao alojamento dele e o encontrei quase a chorar. Depois do mal feito, pouco mais podia fazer do que pedir-lhe desculpa e dizer-lhe que se ele não quisesse voltar a fazer aqueles pequenos (mas importantes para mim) serviços, eu compreendia.

Fosse pelo meu arrependimento, ou por qualquer outro motivo, o certo é que ele continuou a dar-me o seu precioso apoio.


A "minha" secção

Em baixo, da esq. para a dta.: João Palhares, Manuel Lopes, Brandão Pacheco e Albino Marinho
Em cima, da esq. para a dta.: Manuel Morgado, Carlos Fonseca, Casimiro Cerqueira e Armindo Pacheco

Um outro episódio que ele protagonizou podia ter acabado mal.

O meu pelotão tinha sido escalado para fazer uma emboscada numa mata situada sensivelmente a meio caminho entre o rio Cogi e a estrada Lucunga/Damba, onde permaneceriamos quatro noites e quatro dias.

Quando faziamos batidas, levávamos apenas um cantil com capacidade para um litro de água, que iamos reabastecendo, nos cursos de água que encontrávamos no caminho, ou mesmo em charcos onde os animais também se dessentavam. Nas emboscadas, em que ficávamos sempre no mesmo local, levávamos um cantil para cada dia, pelo que, neste caso, levámos quatro cantis cada um.

Com a alta temperatura, habitual naquela zona, a água tinha que ser racionada, pelo que estávamos quase sempre em carência, e com uma sensação de secura na boca.

No fim da tarde do terceiro dia um dos camaradas da minha secção veio dizer-me que o Lopes estava a passar mal, e que já não tinha nem uma gota nos cantis que levara. A maior parte dos outros também já tinha encetado o quarto cantil. Acompanhado pelo comandante do pelotão fui ter com ele e concluí que se não lhe acudíssemos entraria rapidamente em desidratação.

Dei-lhe o meu cantil com o resto da água que tinha para esse dia, e que ele foi bebendo aos poucos. Melhorou, mas punha-se o problema de termos ainda uma noite e um dia pela frente. Eu tinha levado quatro latas de sumo de fruta, que eram fabricadas na África do Sul e vendidas na nossa cantina (ou seria na loja do Sr. Santos?). Ainda tinha três, que lhe fui dando e, entretanto, ele parecia recuperado.




Poncho semelhante aos que usávamos em Angola

Entretanto, alguém – não me recordo quem – levantou a ideia de atarmos os ponchos (impermeáveis) às árvores de forma a tentarmos recolher a água da chuva, que por certo cairia, como tinha caido nos dias anteriores. Assim fizemos e, embora os ponchos utilizados não tivessem armazenado muita água, foi a suficiente para juntamente com o racionamento da que ainda restava nos nossos cantis, levarmos o barco a bom porto.

O Lopes aprendeu a lição, e nunca mais lhe faltou a água. Isto é, faltar, faltou, como nos faltava sempre que andávamos pela mata ou no meio do capim, com as praganas a entrarem pelos pescoços suados, ansiosos por um riacho, onde entrávamos vestidos e calçados, ou ao menos por uma sombra, onde pudessemos descansar cinco minutos.

Falta dizer que, durante todo o tempo que durou a nossa aflição, não pudemos pedir ajuda, porque, apesar de termos levado rádio e o respectivo operador, não foi possível, mais uma vez, pôr o aparelho em funcionamento.

Termino com um pedido. Se alguém souber do Lopes ou da forma de o contactar, agradeço que me informe, ou através da caixa de comentários, ou para cart738@gmail.com.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O aniversário



Creio que no conjunto de oficiais e sargentos da Cart 738, fui o segundo a fazer anos – em Março - depois de chegarmos a Lucunga. Duas semanas antes tinha comemorado o seu aniversário o comandante de Companhia mas, tanto quanto me lembro, a data passou despercebida, pelo menos para mim. Havia dois furriéis que já tinham feito anos nesse ano de 1965: o Nunes da Silva, a 1 de Janeiro, estávamos a gozar os dez dias de férias antes do embarque e, a 12 ou a 13, também de Janeiro, já a bordo do “Vera Cruz”, foi a vez do José Rodrigues (salvo erro).

Era a primeira vez que festejava o meu aniversário longe da família, e resolvi assinalar os meus 23 anos com a “festa” possível, naquelas circunstâncias.

Razões de ordem financeira impediam-me de estender os “festejos” aos 163 militares da Companhia. Resolvi, por isso, oferecer um jantar na messe, aos 22 oficiais e sargentos.


Clube da Damba

A ideia inicial era servir uma ementa tendo como prato principal leitão assado. Infelizmente, e apesar de ter iniciado as diligências necessárias com a devida antecedência, no Bembe, no Toto e no Vale do Loge, não consegui encontrar leitões à venda.

Já com o tempo a fugir, e depois de uma conversa com o furriel vagomestre Vaz, decidi-me pelos frangos, ou mesmo galinhas, de churrasco. Pensávamos nós que os nosso vizinhos da sanzala estariam dispostos a vender-me as aves necessárias. Engano nosso porque, usando as mais variadas desculpas, não se mostraram disponíveis para fazer negócio.

A ideia salvadora voltou a ser do Vaz, que se lembrou da Damba para fazer um dos reabastecimentos semanais, em vez de ir ao Toto. Feita a sugestão ao capitão Rubi Marques, este concordou, e lá fomos.

Durante a viagem pensei que talvez na Damba conseguisse arranjar os leitões. Não consegui os leitões, mas acabei por comprar os galináceos para o churrasco, pelo que o jantar de anos ficou salvo.

Vila de 31 de Janeiro (chamada Nsosso, depois da independência)

Além disso, descobri que na Damba havia um restaurante, propriedade da D. Madalena - uma simpática anfitriã -, onde se comia bem melhor do que no hotel do Toto.

Com grande pena minha, só voltei à Damba duas vezes. De uma delas, a viagem teve prolongamento até à vila de 31 de Janeiro (hoje chamada Nsosso), e teve um episódio que poderia ter tido um fim trágico.

Quando, passada a Damba, seguíamos a caminho daquela localidade, a GMC que fazia parte da coluna ficou sem travões no princípio de uma descida. Do lado direito da estrada havia uma ribanceira. Do lado esquerdo, uma encosta com uma barreira quase a pique e com uma pequena valeta entre a estrada e a barreira. Na iminência do desastre, o condutor (de quem não recordo o nome) teve um sangue frio e uma perícia notáveis. Conseguiu reduzir um pouco a velocidade, trabalhando com a caixa, e foi-se encostando à barreira tão suavemente quanto pode, conseguindo finalmente imobilizar a viatura, sem danos pessoais. Foi um alívio.


O condutor que cito no texto é o 3º, na 1ª fila, a contar da direita (aqui, no almoço de 2010)
(Se alguém se lembrar do nome, agradeço que me informe)

A meio da tarde do dia do meu aniversário já a azáfama era grande na cozinha e, quer o Daniel Ferreira (a quem o 1º sargento Ramalho chamava “o Irmão”, devido às suas convicções religiosas), quer o António Passarinho, aos quais devíamos a qualidade da confecção dos pratos servidos na messe, não tinham mão a medir.

Foi então, no meio daquele bulício, que caiu o balde de água fria. Um rádio do comando do Batalhão, dava conhecimento de uma informação, segundo a qual um grupo inimigo que se dirigia para as suas bases no Zaire, atravessaria o rio Coji na nossa zona (nós já conhecíamos os locais habituais de passagem) nas próximas horas, e era preciso montar uma emboscada para os interceptar. Na escala de serviço o pelotão que ia avançar era o meu.

Quando deu a ordem, o capitão Rubi Marques comunicou que eu estava dispensado da operação. Na altura, fiquei dividido. Por um lado, tinha o jantar de anos. Por outro, sentia-me desconfortável por ficar no bem-bom, enquanto os meus camaradas e, sobretudo, o pessoal da minha secção, iam para o mato, com os riscos inerentes.


Rua principal da Damba

O capitão insistiu (normalmente não dava aso a reclamações quando tomava uma decisão, e detestava ser questionado), e eu fiquei.

O jantar acabou por correr bem. Comeu-se, bebeu-se, cantaram-se os “Parabéns a você”, mesmo sem bolo, recebi, de prenda, um roupão chinês que nunca usei, e houve até quem, horas depois, já não soubesse bem o caminho para o quarto, depois das Cucas e dos Constantinos ingeridos.

Quanto à emboscada, ou a informação transmitida por rádio era falsa, ou os “viajantes” tinham escolhido outro itinerário. O nosso pessoal regressou ao fim da tarde do dia seguinte, sem ver rasto deles.


Damba, nos anos sessenta

E, no jantar desse dia, os ausentes da véspera comemoraram o meu aniversário, comendo o churrasco (confeccionado na hora, não haja confusões) com um dia de atraso.

Involuntariamente, com a iniciativa do jantar, acabei por criar um precedente. A partir daí, em Lucunga, o oficial ou sargento aniversariante passou a oferecer o jantar. É certo que uma minoria, embora não o confessasse, não gostou muito da despesa inesperada. Notou-se.

No ano seguinte, já na Gabela, os jantares de aniversário abertos à comunidade de graduados acabaram. Assumo que terei tido alguma responsabilidade nisso, já que, também lá, fui o primeiro a aniversariar. Não deixei de festejar, mas o grupo de convivas foi mais reduzido.