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quinta-feira, 26 de julho de 2012

A Tosca




A Tosca

Quando chegámos ao quartel da Sétima, na Gabela, tínhamos à nossa espera, além dos camaradas que íamos render, uma cadelinha ainda jovem, que foi de imediato alistada na Messe dos Sargentos.

Não me recordo se já tinha sido “baptizada”, mas se tinha, foi “crismada” e ficou com outro nome: Tosca.

O nome que lhe foi dado parece estranho, para um animal tão dócil, lindo e perfeito.

Acontece que, por razões que desconheço (se alguma vez as soube, esqueci-me), o Mourão e o Miranda Dias quando chegaram de Tancos, onde fizeram o curso de Minas e Armadilhas, vinham com a mania de chamar “tosca” ou “tosco” a tudo e mais alguma coisa, incluindo um ao outro e às próprias namoradas (com quem viriam a casar – espero que não sejam minhas leitoras).

E com o”tosco para cá, tosca para lá”, foram contagiando os camaradas, que começaram a alinhar na brincadeira.

Explicada a origem do nome, passo a contar o disparate que se meteu na cabeça de alguns, com a conivência ou a indiferença dos outros, que não isenta a responsabilidade de nenhum.

A partir de certa altura, alguém lançou a ideia de que o cruzamento entre a Tosca – uma pequena cadela de raça indefinida – e o Lucunga, o cão pastor alemão do alferes Morgado. (*) 


Sanzala Sétima, que acabaria por dar o nome ao quartel, que se encontra ao fundo, quase invsível

(Foto do gabelense Óscar)

E, apesar da dificuldade em conseguir conciliar as diferenças de tamanho entre os dois animais, sendo que a pobre Tosca parecia uma anã junto ao Lucunga, a verdade é que dois ou três dos nossos camaradas conseguiram levar avante os seus intentos.

O que ninguém conseguiu prever (o mais certo foi nem se ter pensado nisso) foram as consequências de um cruzamento entre dois animais de tão dispar corpulência. A Tosca acabaria por parir dois lindos e enormes cachorros, mas morreu de parto, para grande tristeza de todos, e profundo arrependimento de alguns.

Os cachorros cresceram e, pelo menos um deles viajou connosco no regresso a Lisboa, adoptado pelo Mourão. Não me recordo qual foi o destino do outro cachorro (penso que ficou com os camaradas da Companhia que nos rendeu), porque quando a CArt 738 saiu da Gabela, eu já estava em Luanda, no Hospital Militar, quase há um mês.

Nunca mais me esqueci da Tosca, nem do disparate que lhe causou a morte.

(*) O Lucunga era filho da Swazee e do Taninga, pastores alemães altamente adestrados pelo seu dono, o capitão Rubi Marques.

sábado, 9 de julho de 2011

Gabela - Olh'ó Passarinho!

(Clique na imagem para aumentar)


1-(?); 2-Albino Marinho; 3-(?); 4-(?); 5-Manuel Magalhães; 6 a 11 (?); 12-Pedro; 13 a 16 (?); 17 Tarcísio Alves?; 18 e 19 (?); 20-Manuel Morgado; 21-Morais Soares; 22-Hilário Grilo; 23-Custódio; 24-João Silva; 25-Brandão Pacheco; 26 a 28(?); 29-António Passarinho; 30-Manuel Morais; 31-João Redondo; 32 e 33 (?); 34-Manuel Rato; 35 e 35-A (?);  36-José Alves; 37 (?); 38 - António Luzia; 39-Nunes da Silva; 40-Carlos Fonseca; 41 e 42 (?); 43-Armindo Boleto; 44-José Bastos; 45-Augusto C. Fernandes; 46-António Gomes; 47 (?); 48-António Sousa; 49-Manuel Dias; 50-Ferreira da Silva; 51-José Claudino; 52-Joaquim Ramalho; 53-Ivo Resende; 54-Leonídio Torcato;  55-José Oliveira; 56-João Magro; 57-Simões da Silva; 58-(?); 59-José Rodrigues; 60-(?); 61-Francisco Morgado; 62(?); 63-Manuel Lopes; 64-António Azevedo; 65 e 66(?); 67-Manuel Ferreira; 68(?); 69-Casimiro Cerqueira; 70-José Pereira; 71-(?); 72-Francisco Tavares; 73(?); 74-Pereira




A foto que encima este texto foi-me enviada pelo Morais Soares, e foi tirada no quartel da Gabela, em frente ao edifício do comando. Nela estão fotografados 75 militares da Cart 738, que constituiam um pouco menos de metade dos efectivos da Companhia.

Não sei a data exacta em que teve lugar a sessão fotográfica, mas presumo que tenha sido entre Março e Julho de 1966, visto que na fotografia também figura o então tenente Simões da Silva (57) (que já nos deixou, vítima de cancro), que foi nosso comandante de Companhia durante aquele período, mais semana, menos semana.


A razão para apenas figurarem na foto 75 elementos, sendo certo que o efectivo da Cart 738 era de 163 militares, radica no facto de apenas estarem aquartelados na Gabela dois pelotões, bem como os indispensáveis serviços de apoio (cozinheiros, operadores de transmissões, condutores-auto, enfermeiros, etc.). O 4º pelotão estava instalado em Porto Amboim desde o início da mudança para o Quanza-Sul, em Fevereiro, e o 3º pelotão, ou estava em Vila Nova de Seles – que hoje se chama Uku Seles – , para onde foi deslocado algum tempo depois de chegarmos à Gabela, ou já tinha seguido para o Calulo, onde foi substituir CArt 739, entretanto transferida daquela localidade para o Leste de Angola. Ainda assim faltam alguns dos camaradas que permaneciam na Gabela, ou porque estavam a desempenhar tarefas inadiáveis (serviço de guarda, por exemplo), ou por estarem de férias (o que seria, provavelmente, o caso dos furriéis Vaz e Mourão, que embora pertencessem à Gabela, não estão na fotografia).

Nenhum dos rostos dos camaradas fotografados me é estranho, mas não consigo juntar o nome ao rosto de todos. Solicito, por isso, aos poucos camaradas que visitam o blogue (a maior dos que o visitam não fizeram parte do Bart 741), que me ajudem a completar a legenda, enviando o nome dos que identificarem - ou corrigindo algum que esteja trocado -  para o endereço cart738@gmail.com.

Estou a lembrar-me, entre outros, do Mário Abreu, que, embora “escondido", figura como seguidor do blogue e com quem tentei contactar telefonicamente para o nº que me deu quando nos encontrámos no almoço do Batalhão que se realizou na Barragem da Aguieira, mas sem êxito.

E, se algum dos leitores tiver (e quiser) enviar fotos desse tempo para publicação – à semelhança do que já fizeram o Sebastião Fagundes, o Morais Soares e o Jorge Isidoro, este último furriel-miliciano da Companhia que nos rendeu na Gabela –, ficarei grato.


domingo, 29 de maio de 2011

Na Varanda da Flórida



Da esquerda para a direita:
Em primeiro plano, meio desfocados: Morais Soares e Mourão (atrás do Mourão, um camarada da CCaç 715, que não consigo identificar);
Sentados: Carvalho (CCaç 715), Torres (CCaç 715), Rodrigues e outro camarada da Ccaç 715), cujo nome “fugiu”;
De pé: Ramiro e Fonseca
Na janela: Miranda Dias e Babo



Embora esta seja uma das “minhas” fotografias mais desastradas (parece que estou ausente ou a dormir), gosto particularmente dela.

Foi tirada na espaçosa varanda da Flórida, onde estavam alojados alguns furriéis. As cadeiras eram feitas com madeira de barris de vinho, que depois de vazios eram reaproveitados.

A imagem tem a particularidade de retratar alguns dos meus camaradas com quem tive, ou ainda tenho, especiais laços de amizade.

A começar pelo Torres que - soube-o recentemente -, faleceu já há alguns anos.

Foi meu colega de turma, no Liceu D. João III, além de ter sido meu companheiro de viagem habitual no comboio que todos os dias nos transportava das localidades onde residíamos, para Coimbra.

Reencontrámo-nos em Agosto de 1963, no quartel de Tavira, onde frequentámos o Curso de Sargentos Milicianos.

Conheci o Miranda Dias, cuja memória evoquei aqui, aos 16 anos, quando disputámos o Campeonato de Andebol de Lisboa, em Juniores, em representação de clubes diferentes. Mas só viriamos a criar laços de amizade quando nos reencontrámos no RAL 1, na formação do Batalhão.

O Carvalho foi outro camarada que conheci em Tavira, e com quem fiz amizade. Tinha uma acentuada pronúncia “à Porto”. Com ele aprendi um termo novo da nossa Língua, quando ele, na caserna, me perguntou se eu não tinha um “aloquete” a mais. Sabia lá eu que um aloquete era aquilo que eu conhecia como cadeado! Mas fiquei a saber.

O Babo, também já nos deixou (por cruel coincidência vítima de uma doença degenerativa, tal como aconteceu com o Miranda Dias, seu amigo e camarada do 4º pelotão), e espero homenageá-lo num dos próximos posts.

Continuo a manter contactos regulares com o Ramiro, que costuma estar presente nos nossos convívios.

Do Morais Soares dei conta neste texto, e espero que cumpra o prometido e apareça no próximo ano.

O José Rodrigues, que ficou em Angola - onde casou com uma moça da Gabela, para onde fomos depois de Lucunga -, regressou mais tarde a Portugal, e foi bancário em Vila Nova de Gaia, onde residia. Veio pelo menos a um dos almoços na Ponte de Asseca. Entretanto, o seu número de telefone foi alterado e perdi o contacto.

O Mourão afastou-se depois do regresso. Encontrei-o ocasionalmente três vezes, alguns anos depois do nosso regresso, mas embora tivesse conversado de forma cordial, nunca mostrou vontade de frequentar os nossos convívios.

A foto foi tirada por altura de um jogo de futebol, em Lucunga.




terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Caça

Na região de Lucunga abundavam as pacaças, as quissemas (também conhecidas por "burros de mato", porque a única particularidade que as distingue dos burros são os chifres que possuem), os antílopes (*) (aos quais, fosse qual fosse a designação correcta do animal caçado, e eram muitas,  chamávamos sempre, generalizando, "veados"), os javalis-africanos, também chamados javalis-facocheros, ou simplesmente facocheros, as galinhas de mato e as saborosas perdizes.


Javalis-africanos pastando

Perante esta dádiva aproveitávamos algum do nosso tempo livre para caçar, contribuindo dessa forma para variar, e ao mesmo tempo melhorar, a qualidade das feições.

Porém, esse benefício só contemplava toda a gente se o animal caçado fosse uma pacaça ou uma quissema. Quanto aos "veados" o seu consumo só podia ser generalizado a toda a Companhia se fossem abatidos, pelo menos, três exemplares (o que não era fácil) e, mesmo neste caso, a fartura não era muita.



Quissema

Já no que se refere às galinhas de mato e às perdizes o seu consumo era restrito e pouco frequente, não só pelo seu reduzido tamanho, mas também porque quando se caçavam à bala, ficavam normalmente desfeitas e sem préstimo. E, espingardas-caçadeiras, mais adequadas a este género de caça, havia apenas duas no quartel: uma do furriel-mecânico António Sousa e outra do alferes-médico Salazar Leite. Não é de estranhar por isso que, quando iam parar ao tacho, o petisco apenas fosse saboreado por um grupo reduzido. Umas vezes calhava a uns, outras vezes a outros. 

Devo dizer que apesar da abundância de javalis-africanos, não tenho memória de que alguma vez se tenha conseguido caçar algum. Na zona do curso de água onde nos abastecíamos havia muitos, e não foram poucas as vezes em que tentei apanhar ao menos um, para provar a carne que me diziam ter um paladar delicioso. Avistei vários, de fugida, mas mal levantava a FN para fazer pontaria, eles desapareciam a uma velocidade impressionante para o seu peso. 

Resultado da caçada
Da esq. para a dta.: Gomes, Fonseca, "Porreiro da Vida" (de cócoras), Abreu e (?)

Como era um bocado piegas, deixei de tentar caçá-los depois de ter visto (e ouvido) a aflição de uma fêmea a tentar fugir com a sua ninhada de leitõezinhos. E foi assim que fiquei sem saber qual era o seu paladar.

Numa dessas expedições de caça de que não fiz parte, foram abatidas duas pacaças o que criou um problema ao Vaz, o nosso vagomestre, que não tinha espaço suficiente nas arcas para guardar os dois animais e, com a elevada temperatura africana, a carne ficaria rapidamente imprópria para consumo.

Alguém teve então a ideia de, numa acção de boa vontade e camaradagem, oferecer uma das pacaças aos camaradas aquartelados em Chimacongo, localizado a cerca de 30 kms., onde tinha chegado há pouco tempo, uma Companhia de "maçaricos". E se o vagomestre de Chimacongo acreditava em milagres, deve ter considerado aquele presente uma dádiva divina porque, talvez por inexperiência, estava com um sério problema, pois o "seu" depósito de géneros não tinha nem um grama de carne. 


Tarde de caça
Da esq. para a dta.; Azevedo, Fonseca, atrás a apontar a caçadeira, o Sousa, Mourão e Silva

Aliás, segundo nos contou o furriel Vaz, pouco mais tinham do que bacalhau e conservas.

Mas, apesar da nossa "boa vontade", o relacionamento entre as duas Companhias nunca foi muito boa. Pelo menos entre os respectivos comandantes. 

Para operarem numa zona da margem esquerda do rio Coji, cuja vigilância era da sua responsabilidade, os militares de Chimacongo tinham de passar pelo nosso quartel para terem acesso à jangada onde efectuavam a travessia do rio.

Sucede que quando o faziam passavam por  Lucunga "como cão por vinha vindimada" (sobretudo quando vinham com o comandante de Companhia), sem sequer fazerem a paragem de cortesia que era da praxe nestes casos. Ora, o capitão Rubi Marques achava que este procedimento consubstanciava uma grave falta de respeito e, na primeira oportunidade, chamou a atenção do comandante de Chimacongo. Sem resultado, porque a reacção deste foi, no mínimo, pouco ou nada amistosa.


Da esq. para a dta.: Fonseca, Azevedo, Sousa, Mourão e Silva
Não consigo identificar os militares em cima do "jipão", por falta de nitidez da foto. Mas o que está mais próximo, de pé, parece o Morgado e, ao lado dele, em baixo parece o soldado-condutor,  Lobo (mais conhecido por Cigano, num tempo em que isso não era politicamente incorrecto)

Para grandes males, grandes remédios. O nosso capitão não esteve com meias medidas e resolveu mandar colocar cancelas nos acessos ao quartel, que ficavam permanentemente fechadas a cadeado. Sempre que alguma viatura precisava de sair ou entrar, o sargento de dia saltava para a bicicleta que tinha  sido comprada para o efeito, e ia abrir a cancela.

A primeira vez que o comandante de Chimacongo chegou e encontrou a cancela fechada foi um Deus nos acuda. Berrou, esbracejou, ameaçou rebentar "com esta merda" - palavras dele -, mas não teve outro remédio se não ir ao posto de comando, falar com o capitão Marques, em conformidade com as ordens que este tinha dado ao sargento de dia.

Lá dentro o diálogo foi tudo menos amigável. Cá fora ouviam-se perfeitamente as vozes alteradas dos dois oficiais.

A verdade é que o sistema da cancela fechada se manteve durante o resto da nossa  permanecemos em Lucunga.




(*) No texto inicial escrevi "cervídeos" em vez de "antílopes".  Entretanto, um biólogo que é visitante habitual do blogue, enviou-me um e-mail chamando a atenção para o facto de não existirem cervídeos em África. O que nós caçávamos eram antílopes, que são bovídeos.


Está feita a devida rectificação.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Lucunga


Lucunga

No dia seguinte à nossa chegada a Lucunga, teve início a "passagem de testemunho" da Companhia que íamos render,  para a nossa.

Os furriéis com as especialidades de transmissões, enfermagem, reabastecimento (vagomestre) e mecânico-auto, começaram a conferir e a receber o material das respectivas áreas.

De uma maneira geral havia falhas  que a habilidade dos "mais experientes" ultrapassou. Neste particular, deixo aqui o relato da recepção de duas cozinhas de campanha.

O nosso vagomestre estranhou que as cozinhas não se encontrassem no mesmo local, mas o camarada que ia ser rendido deu-lhe uma explicação qualquer que ele aceitou como boa. Depois de receber e conferir os utensílios de uma das cozinhas, deslocaram-se para o local onde estava a outra. Mais tarde percebeu que o tempo excessivo que demoraram a chegar a esse local tinha como finalidade dar tempo a que alguém, por outro caminho, levasse peças de uma cozinha para a outra, onde estavam em falta. 

Um ano depois seria a sua vez de ser "habilidoso", fazendo o mesmo. 

No posto de transmissões, ingénuo e de boa fé, o nosso camarada conferiu o material constante da lista que lhe apresentaram, sem confirmar se todos os rádios estavam operacionais. Na realidade, a maior parte estava avariada e nunca viria a funcionar, tendo sido muitas as vezes em que fomos para operações sem rádio ou, levando-o, não funcionava impedindo qualquer espécie de contacto com o posto em Lucunga, ou com outros pelotões.



GMC

O parque automóvel não estava melhor. Dos quatro "jipões", do tempo da II Guerra Mundial, só dois circulavam; os outros dois apenas serviam para fornecer peças. Das duas camionetas GMC (também originárias da II Guerra), só uma circulava, e muitas vezes as condições mecânicas eram deficientes. Dos pequenos "jipes" Williams (alguns da mesma época dos anteriormente citados, com duros estofos de lona), só alguns andavam .

Esta situação seria alterada alguns meses depois com a chegada de seis modernas viaturas Unimog, algumas equipadas com guinchos, de grande utilidade nas picadas lamacentas e escorregadias em que circulávamos.

Embora as condições de habitabilidade fossem razoáveis, algumas moradias  necessitavam de obras de reabilitação e, nalguns casos, nem casas de banho tinham.

Houve, por isso,  necessidade de meter mãos à obra, sem prejuízo das operações militares no mato (e no capim, claro). Mãos que foram as dos que na vida civil eram pedreiros, carpinteiros, electricistas, etc., além dos que se tornaram "profissionais" do ramo,  fazendo um apressado "curso de formação " (sem direito a subsídios). 

O dinheiro para o material também apareceu. As empresas fornecedoras de combustível tinham, com periodicidade regular, uma "gentileza" para com as unidades, cujo valor variava em função  dos fornecimentos efectuados. Não sei, nem nunca me interessou saber, como eram utilizadas essas "gentilezas" nas várias unidades que ao longo de 13 anos combateram em Angola. Sei que durante a nossa  permanência em Lucunga, sendo comandante de Companhia o capitão Rubi Marques, essas verbas se destinaram a melhorar as nossas condições de vida. 




Cafeeiros no Amboim, Quanza-Sul

Obtivemos outra fonte de rendimento com a venda de café em grão. A nossa zona tinha muitas fazendas de café, abandonadas. Porém, todos os anos os cafeeiros floriam e davam fruto. Também aí encontrámos outra forma de aumentar as receitas. Depois de maduro apanhámos uma boa parte desse café, aproveitando o tempo que as operações ou o cumprimento de outros serviços nos deixavam livres. Secámo-lo num terreiro improvisado, e depois vendêmo-lo.

Quando saímos de Lucunga em Fevereiro de 1966, todos os alojamentos tinham boas condições de habitabilidade, que incluíam casas de banho.

Na varanda da "nossa casa"

Da esq.para a dta.: Mourão, Luís de Matos, Miranda Dias, Nunes da Silva e Carlos Fonseca 
(Faltam os residentes Mário Abreu e Azevedo)

Fiquei alojado numa pequena moradia (dois quartos, uma sala, uma cozinha e uma casa de banho) com uma varanda, juntamente com mais seis camaradas que aqui recordo: Miranda Dias, já falecido, Nunes da Silva (meu colega de quarto), Mário Abreu, Joaquim Almeida (que viria a ser transferido para outra unidade, tendo sido substituído pelo Luís de Matos) Mourão e António Azevedo. A sala espaçosa foi transformada num quarto, com três camas. A cozinha era a nossa arrecadação.

Como éramos sete, logo alguém baptizou a casa como moradia dos "Sete Magníficos", título de um filme famoso nessa altura.

Começou assim uma nova etapa que duraria treze meses, com dias bons, dias maus e outros assim-assim. Mas nenhum de nós era o mesmo quando, 13 meses depois, partimos rumo ao Quanza-Sul e a uma vida mais descansada.  

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Navegando rumo a Angola

Depois das emoções da despedida a viagem decorreu sem sobressaltos, e até o mar, sempre calmo, ajudou.

O "Vera Cruz" tinha sido construído para transportar cerca de 1.200 passageiros (as fontes informativas que consultei variam entre os 1.182 e os 1.242  viajantes).

Porém, quando fazia a "Linha de África" transportando militares, chegou a ter lotações de mais de 3.000 passageiros.

Na nossa viagem para Luanda seguiram a bordo 3 Batalhões e algumas Companhias e pelotões independentes. Não sei exactamente qual era o número total de passageiros, mas presumo que deveria ultrapassar os 2.500.



Almeida, Fonseca, Babo, Miranda Dias e Mourão

 Os oficiais e os sargentos viajaram instalados em 1ª e 2ª classes, respectivamente. No meu caso, dividi um confortável camarote com o Mário Abreu. 

Não se pode dizer o mesmo quanto à classe de praças; os alojamentos não eram tão confortáveis, sobretudo para os que, não tendo tido a sorte de conseguir um beliche nos já de si sobrelotados camarotes de 3ª classe - nos corredores foram improvisadas "camas" suplementares - se viram obrigados a dormir em "beliches" instalados em tudo o que fosse espaço vago.

Na 2ª classe, não só tínhamos boas acomodações, mas também usufruíamos de um serviço quase luxuoso. A ementa das principais refeições (almoço e jantar), incluía sopa, peixe, carne, fruta ou/e doce, água ou vinho e café. Tínhamos pequeno almoço à escolha do freguês (à inglesa ou continental) e um lanche (a que só compareci uma vez para ver como era), com chá, café, e leite, uma grande variedade de bolos, pães, croissants, etc. 



Salão do navio "Vera Cruz"

Em suma, comia-se à grande e à francesa, talvez para compensar, por antecipação, as inúmeras ocasiões em que, no mato, iríamos ter para comer apenas rações de combate (e alguma fruta que os macacos, magnânimos, nos deixassem nas árvores).
                                                                
Às cinco da tarde abria o bar, onde podíamos escolher toda a espécie de bebidas, incluindo alguns cocktails que a maioria só conhecia dos filmes, ou da leitura de romances.

Ao serão, podíamos assistir à projecção de um filme, ou à exibição de um conjunto musical (fracote). Quer um, quer outro espectáculo tinham lugar alternadamente na 1ª e na 2ª classes.
                                                            
Como não há bela sem senão, também tínhamos um acontecimento diário que todos considerávamos um frete. Depois do almoço tocava a sereia do navio e todos nos dirigíamos para um exercício de salvamento junto das baleeiras, que terminava sempre com o pessoal a cantar em coro a célebre “Angola é nossa” (a maior parte dos “passageiros” pensava que Angola era mesmo nossa. Afinal era engano...).

O resto do tempo era aproveitado ao gosto de cada um. Lia-se, escreviam-se cartas, ouvia-se música, jogava-se (muitas vezes a “doer”)...



Preparativos para a festa a bordo

 Ao fim de três ou quatro dias de viagem a temperatura começou a subir e a piscina começou a registar uma grande afluência. No meu caso, não fui freguês assíduo porque depois da natação não era possível tomar duche com água doce, que era fechada às 9 horas da manhã. A partir dessa hora podíamos tomar os duches que quiséssemos, mas de água salgada.

Além destas formas de entretenimento conversava-se também muito, sobretudo especulando sobre qual seria a zona de Angola que nos estava destinada.

Este era um assunto recorrente na 2ª classe, entre os camaradas dos três batalhões que seguiam a bordo. Sabíamos que havia três destinos: Zala (o mais perigoso de todos e, também, o lugar de Angola onde ninguém queria estar), Vale do Loge, e salvo erro,  Ambriz.

Como o comandante do nosso Batalhão tinha vindo de Zala, onde tinha exercido as funções de segundo-comandante do Batalhão que ia ser substituído, os camaradas dos outros Batalhões achavam que seria esse o nosso destino. Em boa verdade, também nós, no BART 741, achávamos que talvez essa teoria fizesse sentido e receávamos (muito) que a previsão se concretizasse.

O autor do texto com o soldado João "dos comboios" (2º pelotão)


Foi por isso com enorme alívio que, antes da chegada a Luanda, tomámos conhecimento de que o comando do nosso Batalhão (bem como a CCS) ficaria instalado no antigo colonato do Vale do Loge, e que as companhias  teriam os respectivos aquartelamentos em Lucunga (738), Toto (739) e Serra da Inga (740).

Entretanto, o "Vera Cruz" chegava a Luanda. Das particularidades desse dia darei conta noutra ocasião.