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quinta-feira, 26 de julho de 2012

A Tosca




A Tosca

Quando chegámos ao quartel da Sétima, na Gabela, tínhamos à nossa espera, além dos camaradas que íamos render, uma cadelinha ainda jovem, que foi de imediato alistada na Messe dos Sargentos.

Não me recordo se já tinha sido “baptizada”, mas se tinha, foi “crismada” e ficou com outro nome: Tosca.

O nome que lhe foi dado parece estranho, para um animal tão dócil, lindo e perfeito.

Acontece que, por razões que desconheço (se alguma vez as soube, esqueci-me), o Mourão e o Miranda Dias quando chegaram de Tancos, onde fizeram o curso de Minas e Armadilhas, vinham com a mania de chamar “tosca” ou “tosco” a tudo e mais alguma coisa, incluindo um ao outro e às próprias namoradas (com quem viriam a casar – espero que não sejam minhas leitoras).

E com o”tosco para cá, tosca para lá”, foram contagiando os camaradas, que começaram a alinhar na brincadeira.

Explicada a origem do nome, passo a contar o disparate que se meteu na cabeça de alguns, com a conivência ou a indiferença dos outros, que não isenta a responsabilidade de nenhum.

A partir de certa altura, alguém lançou a ideia de que o cruzamento entre a Tosca – uma pequena cadela de raça indefinida – e o Lucunga, o cão pastor alemão do alferes Morgado. (*) 


Sanzala Sétima, que acabaria por dar o nome ao quartel, que se encontra ao fundo, quase invsível

(Foto do gabelense Óscar)

E, apesar da dificuldade em conseguir conciliar as diferenças de tamanho entre os dois animais, sendo que a pobre Tosca parecia uma anã junto ao Lucunga, a verdade é que dois ou três dos nossos camaradas conseguiram levar avante os seus intentos.

O que ninguém conseguiu prever (o mais certo foi nem se ter pensado nisso) foram as consequências de um cruzamento entre dois animais de tão dispar corpulência. A Tosca acabaria por parir dois lindos e enormes cachorros, mas morreu de parto, para grande tristeza de todos, e profundo arrependimento de alguns.

Os cachorros cresceram e, pelo menos um deles viajou connosco no regresso a Lisboa, adoptado pelo Mourão. Não me recordo qual foi o destino do outro cachorro (penso que ficou com os camaradas da Companhia que nos rendeu), porque quando a CArt 738 saiu da Gabela, eu já estava em Luanda, no Hospital Militar, quase há um mês.

Nunca mais me esqueci da Tosca, nem do disparate que lhe causou a morte.

(*) O Lucunga era filho da Swazee e do Taninga, pastores alemães altamente adestrados pelo seu dono, o capitão Rubi Marques.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Porto Amboim



Vista panorâmica de Porto Amboim

Tinha planeado escrever hoje um texto sobre Porto Amboim onde estive durante um mês por troca com o Miranda Dias, que, tendo a profissão de desenhador da construção civil, foi para a Gabela para fazer o projecto para a construção da Casa do Soldado.

Escolhidas as fotografias para ilustrar o post, e chegada a hora de começar a escrever, descubro que o baú da minha memória está quase vazio no que se refere a essa estadia, com a agravante de que tenho consciência de que gostei de lá estar, e de ter sido muito bem recebido por todos os meus camaradas.

Sei que estive lá no tempo do cacimbo (portanto, entre Maio e Outubro de 1966), porque na praia não havia veraneantes durante os meus passeios de fim da tarde, quase diários, na companhia do Fernando Babo.


Porto Amboim - Ponte cais

Em Porto Amboim estava destacado, desde a nossa chegada ao Quanza-Sul, o 4º pelotão da CArt 738, sob o comando do alferes-miliciano Sebastião Fagundes, que tinha como comandantes de secção o segundo-sargento Ramiro, e os furriéis-milicianos Miranda Dias e Fernando Babo.

A localidade era, então, uma pacata vila piscatória onde, de vez em quando, aportavam navios da marinha mercante nacional, que fundeavam ao largo, por falta de cais acostável.

Lembro-me de ter ido, acompanhado pelo alferes Fagundes e pelo furriel Babo (creio que o Ramiro não foi), fazer uma visita de cortesia a uma família que fazia parte dos notáveis locais, constituida por um casal com uma filha ainda jovem, onde nos foi servido um chá, num requintado serviço de fina porcelana. Confesso que, na oportunidade, me teria sabido melhor uma ou duas Cucas fresquinhas.


Porto Amboim - Baía

Não me recordo do nome dessa família. Se não me falha a memória, o dono da casa era filho de um conhecido empresário da província do Quanza-Sul.

Durante essa estadia, durante um jogo de futebol de cinco, tive de sair do campo com uma violenta dor no peito do pé, que eu julgava fruto de algum choque ou entorse, coisa natural durante as incidências do jogo.

O alferes Fagundes sugeriu que fosse à “consulta” de um especialista local – um mulato chamado Quitério - que depois de apalpar o pé concluiu que eu tinha “as linhas do pé trocadas”, mas que ia remediar isso, o que fez massajando repetidamente com uma substância oleosa previamente aquecida.



Porto Amboim - Marginal

Senti algumas melhoras, mas não voltei a jogar durante a minha permanência em Porto Amboim, porque a recuperação foi lenta. O máximo que consegui, foi arbitrar dois ou três jogos, suficientes para perceber que a arbitragem não era a minha vocação, tantas foram as reclamações das equipas. Pelo menos era imparcial, já que errava para os dois lados.

E é tudo. Resta-me a esperança de que o Sebastião Fagundes leia isto, e faça um dos seus habituais comentários, que acabe por valorizar (e justificar) a publicação deste texto.

Ou então (e ainda melhor) que resolva escrever um ou mais textos, tendo Porto Amboim como tema, que terei todo o prazer em publicar. Fica o convite.


Vera Cruz no Cais da Rocha, em 9 de Janeiro de 1965, pouco antes da partida

P.S. - Em 9 de Janeiro de 1965 – completam-se hoje 47 anos – embarcaram no navio Vera Cruz, no Cais da Rocha Conde d' Óbidos, com destino a Angola, três Batalhões e algumas Companhias independentes, totalizando quase 3.000 militares.

Entre eles encontrava-se o Batalhão de Artilharia 741, de que fiz parte.

Nem todos os que embarcaram regressaram connosco, 27 meses depois, porque a morte abreviou a sua ainda curta vida.

Lembrá-los, nunca é demais. É o que faço, hoje, aqui. 


domingo, 6 de novembro de 2011

Euclides Morais



O Morais Soares enviou-me recentemente quatro fotografias, cuja publicação inicio hoje, com a foto do Euclides Morais, que foi primeiro-cabo no 4º pelotão da CArt 738.

No texto que intitulei “Novas de Toronto” escrevi que ele tinha emigrado para o Canadá, onde o Morais Soares o tinha encontrado algumas vezes, embora não soubesse dele há muito tempo.

Entretanto, o Morais Soares contactou uma irmã do Euclides que o informou que este morrera há alguns anos, ao mesmo tempo que prometeu enviar-lhe uma fotografia do tempo em que esteve em Angola. É essa foto que encima este post.

Apesar da sua juventude, o Euclides Morais já era, na época em que prestou serviço militar, um profissional da construção civil de reconhecido mérito. Essas qualidades foram realçadas num comentário que o Sebastião Fagundes, que foi seu comandante de pelotão, fez ao texto acima referido:

Um viva pela chegada do Morais Soares. Dado o seu trato afável e normal boa disposição, penso que todos se lembram dele. Vamos folgar com a sua participação no próximo convívio.

Gostei de ter notícias,embora parcas, do Euclides Morais. Era 1º Cabo do meu pelotão e da secção do Miranda Dias. Era um competente profissional da construção civil e, por isso, esteve intimamente ligado às obras de reconstrução de Lucunga e à construção do monumento da companhia e de um utilíssimo forno. Por esta actividade não militar era, por vezes, poupado a determinadas operações o que não era muito bem visto por alguns (poucos) camaradas. Era muito bom moço.”


Além da importância do seu trabalho na melhoria das nossas condições de alojamento em Lucunga, referida pelo Sebastião Fagundes, a sua intervenção foi igualmente determinante na construção da “Casa do Soldado”, na Gabela.

Embora o 4º pelotão estivesse aquartelado em Porto Amboim, o Euclides Morais foi requisitado pelo comandante de Companhia e, durante o tempo que duraram as obras, permaneceu na Gabela.

Com este texto, porventura modesto para os seus méritos, quero prestar a minha homenagem ao Euclides.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Desporto na Gabela



Equipas formadas antes do jogo de Andebol. Da equipa da Escola Técnica, identifico o João (o mais alto) e, à sua esquerda parece o Carioca; depois, o árbitro, Morais Soares, Simões da Silva, Pereira, Fagundes, Miranda Dias, Mourão, Vaz e Fonseca

À semelhança do que acontecia em Lucunga, também na Gabela a actividade desportiva constituia uma prática diária, embora com algumas condicionantes. Desde logo porque a área ocupada pelo quartel era muito diminuta em comparação com Lucunga. Por outro lado, porque os reduzidos terrenos planos disponíveis inviabilizavam a construção de espaços para a prática desportiva (um campo de Andebol, por exemplo), para complementar o pequeno campo de futebol existente que estava longe de possuir as dimensões mínimas, se bem que esta limitação acabasse por não ser inteiramente má. De facto, embora lá disputássemos renhidas partidas, raramente se encontravam disponíveis jogadores em número suficiente para se formarem equipas com onze de cada lado. Muitas vezes, para jogarmos sete contra sete, ou oito contra oito, incluiamos jovens moradores das sanzalas vizinhas.

A falta de futebolistas, em contraste com a realidade de Lucunga, justificava-se porque apenas dois pelotões estavam aquartelados na Gabela (o 4º pelotão fora colocado logo de início em Porto Amboim, e o 3º cedo foi para Vila Nova de Seles, tendo mais tarde sido deslocado para o Calulo), além de uma parte do pessoal estar ocupada com os diversos serviços indispensáveis ao funcionamento da Companhia, ou em serviço externo.


Antes do jogo. De pé: Mourão, Simões da Silva, Pereira e Fagundes; em baixo: Fonseca e Miranda Dias
(Falta aqui o Vaz)

Todavia, estas limitações não impediam que tomássemos parte nas diversas actividades desportivas da comunidade local.

Além de termos seis futebolistas integrados na equipa do principal clube local – ARA-Associação Recreativa do Amboim – que na época anterior tinha ascendido ao principal escalão do futebol angolano, disputámos durante o ano em que permanecemos na cidade, pelo menos, dois torneios de futebol de 5 (a que hoje se chama futsal, e que tem regras um pouco diferentes), apresentando duas equipas – uma constituida por cabos e soldados, que ganhou os dois torneios, e outra por oficiais e sargentos, que ficou em segundo lugar – que competiram com equipas de várias empresas. Porém, os jogos mais badalados eram os que nos opunham às equipas da Escola Técnica ou do Colégio Infante de Sagres. Quando jogávamos com estas equipas, o ambiente era de grande rivalidade desportiva, pelo que havia sempre grande afluência de público.


Fase do jogo de Voleibol. Da CArt 738: ao fundo, Fonseca; a bater a bola, Morgado; de costas, Simões da Silva
Do Colégio, apenas identifico o Rui Amaral, em segundo plano

Para lá destas competições, tinham lugar, às vezes, tardes desportivas isoladas, isto é, sem estarem integradas num qualquer torneio.

Foi o que aconteceu num fim de semana, cuja data não consigo precisar, mas que situo em Maio ou Junho, visto que das equipas fazia parte o tenente Simões da Silva, que era então o comandante de Companhia. No campo de jogos da Escola Técnica, disputámos um jogo de Andebol, tendo como oponente uma equipa constituida por alunos da referida Escola, e outro jogo, de Voleibol, em que defrontámos um conjunto do Colégio Infante de Sagres.


Campo onde se disputavam os jogos de Futebol de 5, propriedade da ARA 

Vencemos os dois jogos, e não fizemos mais do que a nossa obrigação, principalmente no que se refere ao Andebol, pois faziam parte da equipa dois jogadores que, antes de serem incorporados no serviço militar, eram praticantes da modalidade, jogando em equipas de topo: o alferes Fagundes, que era andebolista do Benfica, e o furriel Miranda Dias, que pertencia ao Belenenses, que para este jogo se deslocaram de Porto Amboim, onde estavam colocados.

Alguns meses mais tarde, disputámos desafios de Futebol de 5 e de Andebol, nas festas de Novo Redondo. Não me recordo do resultado do Andebol, embora pense que ganhámos, com forte oposição da equipa local, mas recordo-me que no futebol fomos claramente derrotados, para grande alegria dos nossos jovens adversários, tendo eu contribuido decisivamente para o resultado final, com a minha desastrosa actuação na defesa da baliza.


Da esq. para a dta.: Casimiro, Fonseca (que posição tão estranha!), Morgado, Pereira e Simões da Silva

(o Fagundes e o Miranda Dias, já deviam ir de volta para Porto Amboim)

Mas, pela satisfação que lhes proporcionei, valeu a pena a frangalhada que dei naquela noite. Aliás, se o comandante de Batalhão ainda fosse o tenente-coronel Cabrita Gil, quem sabe se ele não teria interpretado a minha actuação em benefício da população como uma forma de pôr em prática a Acção Psico-Social, e acabasse por me dar, no mínimo, um louvor.   

sexta-feira, 15 de julho de 2011

In Memoriam - Fernando Babo



Antes de um jogo de futebol; de calções, o Babo

Em finais de Março de 2010 fui surpreendido pela notícia de que o Fernando Babo nos tinha deixado, no ano anterior.

Encontrei-me pela primeira vez com o Fernando Babo – Fernando Pinto da Rocha Babo, de seu nome completo – quando, em Setembro de 1964, me apresentei no RAL 1, para integrar o BArt 741.

Quis o acaso que ficássemos a pertencer à mesma Companhia (a CArt 738) acabando por desenvolver uma sã camaradagem, que com o tempo se transformou em amizade. De resto, não era difícil ser amigo do Babo. Estou certo de que não serei desmentido, ao afirmar que não havia um único militar da Companhia que não sentisse simpatia por aquele furriel-miliciano equilibrado e sensato.

A estas qualidades juntava-se uma esmerada educação, bem como uma apurada sensibilidade. Vou referir duas “histórias”, que confirmam isso mesmo.

É do conhecimento geral que nos quartéis era normal o uso de uma linguagem que não só não primava pela elegância, mas também ultrapassava, uma vez por outra, a fronteira da boa educação, não sendo invulgar o uso do palavrão. A excepção, na nossa Companhia, era o Fernando Babo. Quando achava que alguma das nossas brincadeiras estava a passar das marcas, utilizava uma expressão que nunca mais esqueci, e ao mesmo tempo que encarava o “abusador”, dizia-lhe na sua pronúncia muito característica (que creio que nunca perdeu): “Vai morder o S. João na pila!”. Note-se que não estou a adoçar a frase, usando um termo mais suave; era mesmo assim, com delicadeza, que se expressava.

A sua peculiar sensibilidade manifestou-se, por exemplo, na comemoração do seu aniversário, em Lucunga.

Tinha-se criado o hábito de cada oficial ou sargento oferecer um jantar com ementa melhorada – normalmente frango de churrasco - a todos os outros oficiais e sargentos.


Num convívio com a CCaç 715; o Babo está ao centro, com uma garrafa na mão

Era uma ocasião em que o comandante da Companhia, capitão Rubi Marques, afrouxava a rigidez do RDM (Regulamento de Disciplina Militar) pelo que oficiais e sargentos convíviam, incluindo, naturalmente, o próprio comandante. Por norma, cabia-lhe a missão de, em nome de todos, pronunciar algumas palavras na altura do brinde, o que também aconteceu no aniversário do Babo.

Depois, foi a vez de o Babo tomar a palavra para agradecer. Ao referir o significado que para ele tinha aquele jantar, frisou que, para todos os efeitos, naquele dia tão especial nós constituíamos o lenitivo que, naquela data tão especial, substituia a sua família, forçadamente ausente, acentuando que, dadas as circunstâncias, o cap. Rubi Marques era uma espécie de segundo pai.

Foi então que, comovido, o nosso comandante – que tinha fama de ser um militar puro e duro – mostrou a sua faceta mais humanista. Comovido pela sensibilidade natural que o Fernando Babo pusera nas palavras que acabava de pronunciar, e não querendo chorar diante de todos nós, levantou-se, abandonou a sala, saltou para a bicicleta do sargento de dia que estava encostada à parede, e a pedalar vigorosamente saiu do quartel – e da protecção do arame farpado - pela estrada (picada) fora, perante a surpresa de todos.

Acabámos por ir buscar uma viatura e recolhê-lo mais à frente, por uma questão de segurança.

Era esta uma das formas como se manifestava a delicadeza tocante que o Babo produzia nos outros.


A bordo do "Vera Cruz"; o Babo é o segundo a contar da direita

Convivi com ele quase diariamente de Setembro de 1964 até Fevereiro de 1966, altura em que o BArt 741 foi transferido para o Quanza-Sul. A CArt 738 ficou aquartelada na Gabela, mas o 4º pelotão, a que pertencia a secção que o Babo comandava, foi colocada em Porto Amboim.

Nesse último ano de comissão, apenas convivíamos algumas horas, quando lhe cabia comandar a “coluna” que vinha à Gabela. A excepção foi o mês inteiro que estive em Porto Amboim, por troca com o Miranda Dias que, tendo a profissão de desenhador de contrução civil, esteve na Gabela a desenhar o projecto para a construção da Casa do Soldado. Voltariamos nessa altura a ter muitas horas de conversa, quase sempre sentados em frente ao mar. Era então que falávamos da lentidão na passagem dos dias e, já casado, ele se queixava das saudades que sentia da sua Fernanda.

Terminada a comissão, não voltou connosco. A chamado de familiares, viajou para Moçambique (com a esposa que, entretanto, se lhe tinha juntado em Luanda), onde ficaria até à independência daquele país.

Embora tivessemos falado algumas vezes ao telefone, só voltámos a encontrar-nos em 1994, no restaurante do José Alves, em Fafe, no decorrer de um almoço com um pequeno grupo de ex-militares da CArt 738, onde compareceu acompanhado pela esposa.

Com este texto quero homenagear um amigo, que era também um Homem bom.

domingo, 29 de maio de 2011

Na Varanda da Flórida



Da esquerda para a direita:
Em primeiro plano, meio desfocados: Morais Soares e Mourão (atrás do Mourão, um camarada da CCaç 715, que não consigo identificar);
Sentados: Carvalho (CCaç 715), Torres (CCaç 715), Rodrigues e outro camarada da Ccaç 715), cujo nome “fugiu”;
De pé: Ramiro e Fonseca
Na janela: Miranda Dias e Babo



Embora esta seja uma das “minhas” fotografias mais desastradas (parece que estou ausente ou a dormir), gosto particularmente dela.

Foi tirada na espaçosa varanda da Flórida, onde estavam alojados alguns furriéis. As cadeiras eram feitas com madeira de barris de vinho, que depois de vazios eram reaproveitados.

A imagem tem a particularidade de retratar alguns dos meus camaradas com quem tive, ou ainda tenho, especiais laços de amizade.

A começar pelo Torres que - soube-o recentemente -, faleceu já há alguns anos.

Foi meu colega de turma, no Liceu D. João III, além de ter sido meu companheiro de viagem habitual no comboio que todos os dias nos transportava das localidades onde residíamos, para Coimbra.

Reencontrámo-nos em Agosto de 1963, no quartel de Tavira, onde frequentámos o Curso de Sargentos Milicianos.

Conheci o Miranda Dias, cuja memória evoquei aqui, aos 16 anos, quando disputámos o Campeonato de Andebol de Lisboa, em Juniores, em representação de clubes diferentes. Mas só viriamos a criar laços de amizade quando nos reencontrámos no RAL 1, na formação do Batalhão.

O Carvalho foi outro camarada que conheci em Tavira, e com quem fiz amizade. Tinha uma acentuada pronúncia “à Porto”. Com ele aprendi um termo novo da nossa Língua, quando ele, na caserna, me perguntou se eu não tinha um “aloquete” a mais. Sabia lá eu que um aloquete era aquilo que eu conhecia como cadeado! Mas fiquei a saber.

O Babo, também já nos deixou (por cruel coincidência vítima de uma doença degenerativa, tal como aconteceu com o Miranda Dias, seu amigo e camarada do 4º pelotão), e espero homenageá-lo num dos próximos posts.

Continuo a manter contactos regulares com o Ramiro, que costuma estar presente nos nossos convívios.

Do Morais Soares dei conta neste texto, e espero que cumpra o prometido e apareça no próximo ano.

O José Rodrigues, que ficou em Angola - onde casou com uma moça da Gabela, para onde fomos depois de Lucunga -, regressou mais tarde a Portugal, e foi bancário em Vila Nova de Gaia, onde residia. Veio pelo menos a um dos almoços na Ponte de Asseca. Entretanto, o seu número de telefone foi alterado e perdi o contacto.

O Mourão afastou-se depois do regresso. Encontrei-o ocasionalmente três vezes, alguns anos depois do nosso regresso, mas embora tivesse conversado de forma cordial, nunca mostrou vontade de frequentar os nossos convívios.

A foto foi tirada por altura de um jogo de futebol, em Lucunga.




segunda-feira, 18 de abril de 2011

In Memoriam - João Francisco Miranda Dias

Conheci o Miranda Dias em 1958. Tínhamos 16 anos e disputávamos, em representação de clubes diferentes, o Campeonato de Lisboa de Andebol na categoria de Juniores. Fomo-nos encontrando nos anos seguintes quando os nossos clubes jogavam entre si, sem no entanto termos estabelecido um relacionamento especial para além dos cumprimentos habituais no final de cada jogo.

Quis o acaso que voltássemos a encontrar-nos em Setembro de 1964 no RAL 1 (Regimento de Artilharia Ligeira nº 1), em Lisboa, aquando da formação do Batalhão de Artilharia 741, acabando ambos integrados na CArt 738. Ele no quarto pelotão, eu no primeiro.

Era o início de uma amizade que, apesar de termos estado muitos anos sem nos encontrarmos, se manteria até à sua morte, em 1994 (se a memória não me atraiçoa).

Na varanda dos "Sete Magníficos". De farda camuflada, o Miranda Dias

Em Lucunga ficámos alojados na mesma pequena moradia - a que chamávamos “Casa dos Sete Magníficos - com três quartos, que foi a residência de sete furriéis-milicianos durante a nossa estadia naquela localidade. Os longos serões à conversa na varanda tiveram como resultado um conhecimento mais aprofundado, bem como a revelação de vários interesses em comum.

Um deles, como já referi, o Andebol levaria a que, conjuntamente com o alferes-miliciano Fagundes também ele praticante da modalidade, viéssemos a “construir” um campo de Andebol onde disputávamos partidas com outros camaradas, alguns dos quais tinham algumas luzes da modalidade que tinham praticado nas aulas de Educação Física do Ensino Secundário, e outros a quem transmitimos o gosto pelo jogo.

Tínhamos uma outra afinidade, que nos levava à prática de uma “malandrice”, que já resumi aqui.


Antes de um jogo de Andebol, na Gabela. O Miranda Dias é o segundo a contar da esquerda

Depois do regresso nenhum de nós voltou a jogar Andebol e, exceptuando um breve encontro ocasional em Novembro de 1967, estivemos mais de 20 anos sem notícias um do outro.

A causa próxima do reencontro teve origem num dos almoços realizados na Ponte da Asseca, durante uma daquelas conversas sempre presentes nos nossos convívios, em que falamos dos camaradas de quem não temos notícias. Nesse almoço de 1990, o segundo em que compareci, veio à baila o Miranda Dias, e um dos presentes tinha ouvido dizer que ele estava doente, mas não sabia pormenores, além de que ninguém sabia onde morava.


Hora de refrescar. O Miranda Dias é o primeiro de pé, à direita

Foi fácil encontrá-lo. No regresso a Lisboa consultei a lista telefónica e lá estava o número do telefone. Liguei-lhe e, ultrapassada a emoção que lhe causou a minha chamada, o Miranda Dias confirmou que se encontrava doente há alguns anos. Uma doença degenerativa - esclerose de placas, também chamada esclerose múltipla – tinha-lhe causado uma progressiva diminuição das capacidades físicas, “atirando-o” para uma cadeira de rodas.

A partir dessa altura e até a morte o levar, poucos anos depois, passei a visitá-lo aos sábados, sempre que tinha disponibilidade. Em média, duas vezes por mês.

No ano seguinte ao nosso reencontro convenci-o a acompanhar-me ao almoço de confraternização do Batalhão, onde foi acarinhado por todos os antigos camaradas. Mais tarde disse-me que aquelas horas de convívio tinham constituído uma das maiores alegrias que tinha sentido nos últimos anos.


O Miranda Dias é o primeiro, de pé, à esquerda

Nas muitas horas de conversa desses últimos anos lamentámos o tempo que, sem qualquer razão, deixámos ir passando sem contactos. Como ele costumava dizer, éramos novos, pensávamos que o Mundo era nosso, e que tínhamos uma vida inteira à nossa frente.

Afinal, nem éramos donos do Mundo, nem a “vida inteira” era assim tão longa.

Infelizmente, no seu caso, não só não foi longa, mas foi, também, injustamente cruel.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Futebol em Lucunga




Oficiais e sargentos (incluindo dois suplentes, por causa da falta de ar)

Da esq. para a dta., em baixo: Azevedo, Fernandes, Ruas, Ramiro, Miranda Dias e Casimiro
De pé: Fonseca, Vaz, Morais Soares, Mourão, Pereira, Nunes da Silva e Fagundes

O futebol era, a par dos jogos de cartas, uma das formas mais usuais de ocupação dos tempos livres dos militares da CArt 738.

Exceptuando as ocasiões em que se realizavam operações conjuntas com outras unidades, quando era necessária a utilização de helicópteros que se serviam do campo de futebol como pista de aterragem e de estacionamento (para os pequenos aviões Dornier 27, tínhamos a pista de terra batida), todas as tardes realizávamos renhidos jogos de futebol.

No quartel e salvaguardando os serviços que implicavam um horário alargado (desde logo o serviço de guarda nas “torres” de vigia, a preparação das refeições e, eventualmente, os cuidados de saúde), as várias tarefas diárias tinham lugar entre as oito horas e as dezasseis e trinta, com intervalo para almoço e repouso das doze às quinze horas. (O intervalo para o almoço pode parecer demasiado longo, mas importa considerar que era também a hora em que a temperatura atingia o seu pico, e o capitão Rubi Marques achava que uma sesta depois da refeição ajudava a recuperar energias, no que estávamos todos de acordo. Pudera, não havíamos de estar!)


Oficiais e sargentos*

Da esq. para a dta., em baixo: Pereira, Azevedo, Ruas, Morais Soares e Rubi Marques
Em cima: Miranda Dias, Fonseca (com um fato de treino vermelho berrante, emprestado pelo benfiquista Fagundes), Mourão, Fernandes, Vaz e Fagundes

Das dezasseis e trinta até à cerimónia do arriar da bandeira que tinha lugar às dezoito horas, jogava-se futebol.

Estando quase sempre um pelotão(pelo menos) na mata em operações e dado que nem toda a gente tinha jeito ou gostava de jogar, tornava-se por vezes difícil juntar vinte e dois jogadores com habilidade. Era preciso, então, recrutar aqueles a quem o alferes Pereira chamava os “três pés”, porque, parecendo que tinham pés a menos para jogar a bola, aparecia sempre um pé a mais para dar nas canelas do “adversário”. Por causa de um desses “três pés” sofri uma fractura num osso do braço direito. Em consequência disso estive em tratamento no Hospital Militar de Luanda durante algumas semanas.

Além destas jogatanas, disputávamos de vez em quando jogos em que uma equipa de praças defrontava outra de oficiais e sargentos. Ganhava sempre a equipa de praças, embora a outra equipa desse muita luta.


Jogo com a CCaç 715, da Missão do Bembe (a nossa equipa jogou de tronco nu, porque as nossas camisolas eram da mesma cor das da Missão, embora um pouco mais escuras)

Da esq. para a dta.: Pereira (ou Fagundes?), Mourão, jogador da CCaç 715 (?)**, Fonseca (a defender um canto), encoberto outro jogador da CCaç715 (?), Miranda Dias, Vaz e Casimiro


Também houve um torneio em que os quatro pelotões jogaram entre si. Claro que foi uma disputa muito desigual porque o primeiro pelotão (por coincidência o meu) tinha uma equipa de estrelas que não dava qualquer hipótese aos outros.

Além destes jogos domésticos, também recebemos e visitámos os camaradas das Companhias 715, da Missão do Bembe, e 739, do Toto. Nestes casos, eram encontros de desporto e confraternização que, habitualmente, incluíam outras modalidades, como o Andebol, o Voleibol e o indispensável almoço.

Sobre o Andebol, e a sua introdução nos nossos tempos livres, tenciono escrever lá mais para a frente.

Na época das chuvas era frequente termos de terminar o jogo inopinadamente devido a um curioso fenómeno meteorológico. De repente, na tarde calma e quente, levantava-se uma forte ventania, seguida quase de imediato por chuva tão forte que parecia que o céu tinha aberto as comportas. Em pouco tempo formava-se um caudal que transformava a rua num rio. Pouco depois cessava o “dilúvio”, voltava o sol, e o calor secava tudo tão rapidamente que nem parecia ter chovido.



1º Pelotão

Da esq. para a dta., em baixo: (António Gomes), Grilo, Pereira, Resende, Brandão e (Cerqueira?)
De pé: Fonseca, Redondo, Oliveira,(?),  Azevedo, Dias, e Teles (?)

Mal dávamos pela aparição do vento corríamos a toda a velocidade para a casa mais próxima, mas quem estivesse na zona mais afastada do campo ficava encharcado. Não era que tivesse muita importância, porque, afinal de contas, íamos tomar duche a seguir.

De uma das vezes que entrámos na “casa-refúgio”, que era também o alojamento de alguns militares, alguém deu um berro porque acabava de encontrar uma cobra surucucu enrolada no pé de uma das camas de ferro. Não houve qualquer problema, a não ser para a pobre cobra, que estava no lugar errado, à hora errada, e terminou, assim, os seus dias de forma inglória.

 Surucucu



* Esta parece ser a equipa que defrontou a CCaç 715, o que é estranho, porque inclui apenas oficiais e sargentos, não sendo a nossa melhor equipa. Da melhor equipa faziam parte, entre outros, o Oliveira - talvez o nosso melhor futebolista -, o Resende, o Brandão, o Dias e o Cristóvão.





quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Os Civis de Lucunga


A sanzala de Lucunga, ao fundo; no edifício branco, à esquerda, funcionava o Posto Administrativo 

Os textos que publiquei anteriormente poderão ter deixado a ideia de que todos os habitantes de Lucunga eram militares.

Ora isso não corresponde à verdade, já que também lá residiam civis. Desde logo, os moradores da sanzala. Os seus habitantes eram, na maioria, mulheres, homens idosos e crianças. Escrevo de memória, mas não errarei muito se afirmar que entre eles não havia residentes do sexo masculino com idades entre os 15 e os 45 anos.

Exceptuando s crianças quase todos tinham partido para a mata depois da eclosão do terrorismo, em 15 de Março de 1961, acompanhando – forçados ou voluntariamente – os “insurrectos”. Os que tinham idade para isso, reforçaram as suas fileiras, tornando-se combatentes; as mulheres e os mais velhos ficavam nas bases ocupando-se de tarefas de apoio logístico. Os que eram fisicamente capazes serviam de carregadores de artigos diversos entre o ex-Congo Belga, onde tinham as estruturas de apoio, e as bases angolanas.


Escolhendo amendoim
Da esq. para a dta.: Miranda Dias; meio tapado, o pequeno Pedro (filho da Conceição); Fonseca; Conceição; Azevedo; de costas a Maria(?)

Entretanto, e em consequência da actividade das nossas forças, quer através de operações de assalto às bases, quer através de emboscadas montadas ao longo dos percursos que o inimigo utilizava, muitos desses elementos foram sendo recuperados e reinstalados nos lugares de origem.

Embora enquanto civis dependessem do Chefe do Posto Administrativo – outro civil a residir na povoação -, tinham algum apoio da parte da nossa Companhia, bem como de alguns dos seus militares, individualmente.

Da Companhia recebiam cuidados médicos e de enfermagem e algum dinheiro por pequenos serviços que prestavam. Recebiam igualmente a alimentação que sobrava das nossas refeições. As mulheres lavavam e passavam a ferro a roupa de alguns militares, recebendo em troca o pagamento previamente acordado.



Na sanzala, com o Pedro, filho da Conceição

Havia ainda mais três residentes civis que tinham sido proprietários de fazendas de café na região.

Um deles era o Sr. Santos, homem com grande conhecimento da zona e que no início da comissão nos serviu de guia nalgumas operações. Tinha um pequeno comércio onde comprávamos um ou outro produto que não havia na cantina. Por exemplo, as prendas de anos - um tema de que espero “falar” num futuro post – eram compradas lá.

Acompanhava-nos também nalgumas expedições de caça, dando-nos dicas preciosas, por exemplo sobre os cuidados a ter para evitar as arremetidas de pacaças feridas.

Bom conversador, era capaz de passar horas a contar-nos as suas experiências naquelas terras.

Os outros dois civis constituíam um casal (homem e mulher, como era usual à época), cujos nomes se perderam nas névoas da minha memória, talvez porque não tivesse convivido muito com eles. Tinham uma espécie de bar, cuja exploração não podia render proventos bastantes para lhes garantir a sobrevivência, atendendo a que os produtos que vendiam podiam ser adquiridos na nossa cantina por metade do preço, ou menos.

A verdade é que havia militares que, uma vez por outra, lhes frequentavam o estabelecimento.

Lá mais para diante contarei a história de outro "morador temporário", que trazia água no bico, sem que disso nos apercebêssemos.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Navegando rumo a Angola

Depois das emoções da despedida a viagem decorreu sem sobressaltos, e até o mar, sempre calmo, ajudou.

O "Vera Cruz" tinha sido construído para transportar cerca de 1.200 passageiros (as fontes informativas que consultei variam entre os 1.182 e os 1.242  viajantes).

Porém, quando fazia a "Linha de África" transportando militares, chegou a ter lotações de mais de 3.000 passageiros.

Na nossa viagem para Luanda seguiram a bordo 3 Batalhões e algumas Companhias e pelotões independentes. Não sei exactamente qual era o número total de passageiros, mas presumo que deveria ultrapassar os 2.500.



Almeida, Fonseca, Babo, Miranda Dias e Mourão

 Os oficiais e os sargentos viajaram instalados em 1ª e 2ª classes, respectivamente. No meu caso, dividi um confortável camarote com o Mário Abreu. 

Não se pode dizer o mesmo quanto à classe de praças; os alojamentos não eram tão confortáveis, sobretudo para os que, não tendo tido a sorte de conseguir um beliche nos já de si sobrelotados camarotes de 3ª classe - nos corredores foram improvisadas "camas" suplementares - se viram obrigados a dormir em "beliches" instalados em tudo o que fosse espaço vago.

Na 2ª classe, não só tínhamos boas acomodações, mas também usufruíamos de um serviço quase luxuoso. A ementa das principais refeições (almoço e jantar), incluía sopa, peixe, carne, fruta ou/e doce, água ou vinho e café. Tínhamos pequeno almoço à escolha do freguês (à inglesa ou continental) e um lanche (a que só compareci uma vez para ver como era), com chá, café, e leite, uma grande variedade de bolos, pães, croissants, etc. 



Salão do navio "Vera Cruz"

Em suma, comia-se à grande e à francesa, talvez para compensar, por antecipação, as inúmeras ocasiões em que, no mato, iríamos ter para comer apenas rações de combate (e alguma fruta que os macacos, magnânimos, nos deixassem nas árvores).
                                                                
Às cinco da tarde abria o bar, onde podíamos escolher toda a espécie de bebidas, incluindo alguns cocktails que a maioria só conhecia dos filmes, ou da leitura de romances.

Ao serão, podíamos assistir à projecção de um filme, ou à exibição de um conjunto musical (fracote). Quer um, quer outro espectáculo tinham lugar alternadamente na 1ª e na 2ª classes.
                                                            
Como não há bela sem senão, também tínhamos um acontecimento diário que todos considerávamos um frete. Depois do almoço tocava a sereia do navio e todos nos dirigíamos para um exercício de salvamento junto das baleeiras, que terminava sempre com o pessoal a cantar em coro a célebre “Angola é nossa” (a maior parte dos “passageiros” pensava que Angola era mesmo nossa. Afinal era engano...).

O resto do tempo era aproveitado ao gosto de cada um. Lia-se, escreviam-se cartas, ouvia-se música, jogava-se (muitas vezes a “doer”)...



Preparativos para a festa a bordo

 Ao fim de três ou quatro dias de viagem a temperatura começou a subir e a piscina começou a registar uma grande afluência. No meu caso, não fui freguês assíduo porque depois da natação não era possível tomar duche com água doce, que era fechada às 9 horas da manhã. A partir dessa hora podíamos tomar os duches que quiséssemos, mas de água salgada.

Além destas formas de entretenimento conversava-se também muito, sobretudo especulando sobre qual seria a zona de Angola que nos estava destinada.

Este era um assunto recorrente na 2ª classe, entre os camaradas dos três batalhões que seguiam a bordo. Sabíamos que havia três destinos: Zala (o mais perigoso de todos e, também, o lugar de Angola onde ninguém queria estar), Vale do Loge, e salvo erro,  Ambriz.

Como o comandante do nosso Batalhão tinha vindo de Zala, onde tinha exercido as funções de segundo-comandante do Batalhão que ia ser substituído, os camaradas dos outros Batalhões achavam que seria esse o nosso destino. Em boa verdade, também nós, no BART 741, achávamos que talvez essa teoria fizesse sentido e receávamos (muito) que a previsão se concretizasse.

O autor do texto com o soldado João "dos comboios" (2º pelotão)


Foi por isso com enorme alívio que, antes da chegada a Luanda, tomámos conhecimento de que o comando do nosso Batalhão (bem como a CCS) ficaria instalado no antigo colonato do Vale do Loge, e que as companhias  teriam os respectivos aquartelamentos em Lucunga (738), Toto (739) e Serra da Inga (740).

Entretanto, o "Vera Cruz" chegava a Luanda. Das particularidades desse dia darei conta noutra ocasião.