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domingo, 9 de março de 2014

Convívio em Fátima



Tive o grato prazer de reencontrar ontem, em Fátima, durante um prolongado almoço, de cuja organização se encarregou, como já vem sendo habitual, o Silva Pereira, antigo alferes-miliciano na CArt 739, algumas dezenas de camaradas que entre 9 de Janeiro de 1965 e 9 de Março de 1967, em cumprimento do serviço militar, partilharam comigo as agruras  de uma comissão em Angola (com alguns bons momentos à mistura, é justo que o diga).

Como sempre tem acontecido, desde que teve lugar o primeiro destes encontros  (de que foram pioneiros o Verdasca, infelizmente já falecido, e o Carlos Bragança), muitos camaradas fizeram-se acompanhar por familiares - que de tão assíduos, já podemos considerar membros honorários do BArt 741 - pelo que estiveram presentes 217 comensais.

As horas "voaram" como sempre acontece nestas ocasiões, e quando chegou a altura das despedidas concluímos que, como também já é habito, ficaram muitas coisas por dizer, e sobretudo faltou tempo para falarmos todos com todos, depois do abraço inicial. Porém, e também aí cumprimos a tradição, ficou a promessa de que no próxmo ano "fabricaremos" tempo para falar e para dizer o que desta vez ficou no "saco". Assim seja!

P.S. - Apesar da qualidade das imagens não ser a melhor - a máquina fotográfica ficou em casa, e como quem não tem máquina, fotografa com o telemóvel, foi o que fiz - podem ver a seguir algumas fotografias que tirei. Nos próximos dias, conforme for tendo disponibilidade (como os meus prezados camaradas sabem, um reformado não tem tempo para nada) colocarei aqui mais algumas.

(Para aumentar a imagem, basta clicar na foto)































quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Parece que foi ontem...

(Clicar nas imagens para aumentar)


Pouco antes da partida

... pelo menos na minha memória. Aquela manhã de 9 de Janeiro de 1965 permanece viva em todos os seus pormenores, apesar dos 49 anos passados, que voaram como se de um cometa se tratasse.

Lembro-me do choro e de alguns gritos dos que ficavam, provocados pela incerteza do futuro. O receio de familiares e amigos de que aquele fosse o último abraço, o último beijo, eram, de resto, partilhados por quase todos os que partiam. A incerteza pelo que nos esperava era enorme.

Nalguns casos, esses receios viriam a tornar-se uma dolorosa realidade. Infelizmente, nem todos voltámos. E, dos que voltaram, nenhum era o mesmo quando regressou. Grande parte da inocência dos nossos vinte anos ficou por terras africanas.


Gare Marítima da Rocha Conde d' Óbidos

Mas também de lá trouxemos coisas positivas. Crescemos, e viemos com a certeza de que a amizade, a camaradagem e a solidariedade, não eram apenas palavras de dicionários. Foram vividas nas dificuldades do dia a dia. 

Voltámos igualmente com a mágoa e a saudade dos que não conseguimos evitar que lá ficassem. Foram heróis - esquecidos pelos políticos, porque não lhes rendem votos -, que não tiveram direito a "Panteões", mas que nunca se apagarão da nossa memória. 




sábado, 22 de dezembro de 2012

"Adeus, até ao meu regresso"




Entre 1961 e 1974, nesta quadra, era habitual a RTP e a Emissora Nacional (E.N.) emitirem programas com mensagens de Natal dos militares mobilizados na Guiné, Angola, ou Moçambique.

Estas mensagens tinham como finalidade elevar a moral, quer dos que, por cá, sofriam pelos riscos que corriam os seus familiares, quer dos próprios combatentes.

Nas mensagens gravadas, com som e imagem na RTP, ou apenas com som na E.N., apesar dos ensaios prévios era habitual existir alguma atrapalhação, fruto do natural nervosismo de quem nunca se tinha visto naquelas andanças, sendo da praxe referir o bom estado de saúde do militar, os votos de Feliz Natal, o desejo de prosperidades para o ano que se aproximava, além de uma breve frase de despedida, antes de dar lugar ao próximo “cliente”.

Claro que as filmagens não fugiam a uma certa forma de encenação, pretendendo dar a entender que estavam a ser feitas de modo mais ou menos improvisado durante as operações militares. Num destes dois vídeos é particularmente desajeitada a forma como apresentam o espectáculo dos saltos da ponte para um curso de água, que acabam por se revestir de alguma comicidade, que não estava por certo nas intenções do “realizador”.

Na altura, alguma suposta elite nacional gracejava, de forma jocosa, com a frase que dá o título a este texto e que, algumas vezes – mas não tantas como se fazia crer, e os vídeos que aqui incluo provam-no – encerrava a mensagem.

Outra frase ridicularizada entre os “bem pensantes” da praça, mas que a realidade mostra que não era também tão frequente como se pretendia, era a que manifestava o desejo de que quem por cá tinha ficado tivesse um novo ano “cheio de propriedades”, em que se trocava “prosperidades” por “propriedades”. (*)

Com o tempo, estas duas frases passaram a fazer parte do anedotário nacional.


É certo que a emissão destes programas servia os interesses políticos do Governo do Estado Novo. Mas também não é menos verdade que os familiares dos “actores” ficavam agarrados ao écran da televisão, ou de ouvidos à escuta na E.N. à espera de ver e de ouvir filhos, maridos, pais, etc.

Numa época em que não se sonhava com a existência do Skype, ou do telefone-satélite (às vezes nem as comunicações entre as unidades, no terreno, funcionavam), e em que para fazer chamadas telefónicas de Luanda para Lisboa cheguei a esperar mais de duas horas na estação dos correios, a visão dos entes queridos na TV, ou a audição na E.N. era um bálsamo que aliviava a ansiedade e a aflição em que viviam por cá os familiares mais próximos de quem estava no mato. E estou certo de que o seu Natal era um pouco menos triste.

Salvo uma eventual falha de memória, não passou por Lucunga nenhuma destas equipas. É certo que durante a época em que as gravações eram feitas – muito antes do Natal – eu estive duas vezes ausente. Primeiro, no Hospital Militar, em Luanda, em tratamento a uma fractura num braço, durante seis semanas, entre Agosto e Setembro de 1965; e depois, um mês, entre Outubro e Novembro, em gozo de férias. Mas creio que se por lá tivesse andado alguma equipa a gravar, algum dos meus camaradas me teria falado disso mais tarde.


(*) (Não devemos esquecer-nos de que naquele tempo pelo menos 20% dos soldados eram analfabetos. Numa recruta que dei na Serra da Carregueira, ao preencher as fichas na recepção dos recrutas da minha Companhia verifiquei, com grande surpresa, que a percentagem de analfabetos era superior a 25%. Era esta a realidade, embora legalmente a frequência da escola primária fosse obrigatória.)

P.S. - Pese embora estarmos a viver um clima mais de depressão do que de festa, não quero deixar de desejar a todos os que visitam este blogue, um Natal Feliz.

Quanto ao ano de 2013, espero que o consigamos atravessar sem naufragarmos.





terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

BART 741 - Convívio em Fátima



Assinalando o 45º aniversário do regresso de Angola, terá lugar em Fátima, na Casa São Nuno, em 10 de Março, próximo, o 26º convívio do Batalhão de Artilharia 741.

O Silva Pereira, a cujo espírito solidário e perseverante devemos a regularidade com que nos temos reencontrado ao longo dos últimos 20 anos, já deve ter enviado a “convocatória” a todos os possíveis interessados.

Não estive presente nos primeiros convívios, que tiveram início em 1987, em Santarém, organizados então pelo Vítor Verdasca – um camarada sempre alegre e bem disposto, que a morte levou prematuramente – e pelo Carlos Bragança, porque o convite que me enviaram não me foi entregue, por estar desactualizada a morada.

Acabei por tomar conhecimento da realização dos encontros, por um daqueles acasos felizes, que nos alegram a vida de vez em quando.

Num fim de tarde de Maio (ou Junho?) de 1988, depois de uma visita à Feira Internacional de Lisboa, dirigia-me para o meu carro, quando, de dentro de um táxi parado na fila a aguardar clientes, ouvi o motorista a gritar repetidamente “Ó vaidoso! Ó vaidoso!”



O João Espanhol é o último da 2ª fila, a contar da esq.

Ao mesmo tempo que a minha mulher me dizia “aquele taxista está a gritar para ti!”, reconheci o João Espanhol, um dos membros da excelente equipa de enfermagem que tivemos a sorte de ter na CArt 738, e que nunca mais tinha encontrado desde o nosso regresso.

Dirigi-me a ele, sorrindo, e perguntado qual a razão para o “vaidoso”, respondeu-me, com aquele sorriso gaiato e amalandrado que nunca perdeu, que eu era vaidoso porque não ia aos convívios do Batalhão.

Esclareci-o que desconhecia a realização desses almoços, desconhecimento que lamentava, e ficou combinado que ele me avisaria quando fosse marcado o do ano seguinte, o que fez.

Foi assim que a partir de 1989 estive presente na maioria dos encontros, cuja organização, poucos anos depois, passou a estar a cargo do Silva Pereira, que prestou serviço como alferes-miliciano na CArt 739. (As suas experiências durante os meses da comissão em Angola podem, com proveito, ser lidas aqui).



Da esq. para a dta.: Magalhães (que costuma vir acompanhado de um vinho verde especial, pois não bebe qualquer zurrapa), Alves (um clarim fora de série) e o furriel-miliciano enfermeiro Fernandes (estreante nestes convívios), nas Caldas da Rainha, em 2010

Entretanto, a “velha ceifeira” pregou-nos uma partida e, egoísta, levou, demasiado cedo, o João Espanhol do nosso convívio. Quem o conheceu, sabe que o seu entusiasmo e optimismo (e às vezes um descaramento bom e são) nos fazem muita falta.

Este ano lá estarei de novo (salvo qualquer circunstância imprevista) e, mais uma vez, o tempo será curto para pôr a conversa em dia. Mas uma coisa é certa: vai ser, como sempre, um sábado muito especial.

P.S. - Um aviso à navegação: este ano vamos ter a companhia do “patrão” das transmissões da CArt 738, Morais Soares, que se deslocará do Canadá, especialmente para reencontrar velhos camaradas.

Também o Mário Abreu, furriel-miliciano do 3º pelotão, prometeu estar presente, se conseguir resolver alguns problemas logísticos.

E quem sabe se não haverá outras surpresas...


sábado, 31 de dezembro de 2011

O Baile Falhado


Vila Teixeira de Sousa - Rua Principal
(Foto de Armando Monteiro)

Em 1966, a passagem de ano na Gabela esteve longe de ser das festas mais animadas que por lá se viveram. Respirava-se por esses dias um clima de grande emoção e revolta em Angola, em consequência das notícias veiculadas pelos meios de comunicação, que davam conta do “nefando assalto” perpretado na noite de Natal por um grupo de terroristas da UNITA, à localidade Vila Teixeira de Sousa.

Abro um parêntesis para esclarecer que o ataque acabaria por fazer duas vítimas civis, entre os moradores locais (um civil e um agente da PIDE), e algumas dezenas entre os atacantes.

Segundo o testemunho de camaradas com quem conversei poucos dias depois, em Luanda, e que se encontravam no quartel que era o objectivo do ataque inimigo, os atacantes dificilmente poderiam ter sido mais desastrados no planeamento da “operação”.

De facto, além da Companhia a que pertenciam esses camaradas, que ia ser rendida por ter chegado ao fim da comissão de serviço, encontravam-se também no quartel os militares da unidade que os ia render. Isto é, havia segurança reforçada.

Por outro lado, a força atacante estaria mal armada e a maioria dos seus membros apresentava-se em manifesto estado de embriaguês.

Porém, a população angolana de origem europeia, que ignorava estes pormenores, ficou indignada, revoltada e também alarmada com as notícias dos jornais e das rádios, pelo que as manifestações de repúdio alastraram por todo o território, gerando um movimento de solidariedade para com a população de Teixeira de Sousa, que se concretizaria no envio de um comboio com os mais variados bens de consumo destinados às populações alvo do “ataque”.

Também na Gabela houve uma manifestação largamente participada, tendo as autoridades civis feito os habituais discursos de desagravo, seguidos da recolha de donativos.


Um dos morros que rodeiam a cidade da Gabela
(Foto recolhida na Internet, de autor desconhecido)
Por outro lado, ganhou corpo entre a população gabelense uma onda de receios, com origem em boatos, segundo os quais elementos subversivos vindos do exterior estariam a sublevar parte da população africana da zona que, sob a sua orientação, estaria a preparar um ataque à cidade na noite da passagem de ano.

De nada valeram as tentativas para acalmar os ânimos, explicando que nas informações recolhidas pelas nossas patrulhas que, naturalmente, se tinham intensificado, não havia o menor indício de que algo de anormal estivesse em preparação.

Perante estas circunstâncias, teve lugar uma reunião em que estiveram presentes as autoridades civis e militares, que decidiram pôr em prática um plano de defesa da cidade, que consistiu na criação de postos de vigilância fixos, constituídos por militares e civis em diversos locais dos morros que rodeavam a cidade, a que se juntaram patrulhas móveis. De reserva, no quartel, estava um piquete pronto para intervir.

Apesar dos receios existentes, não foi cancelado o habitual baile de fim de ano na ARA-Associação Recreativa do Amboim. Porém, em lugar de um conjunto musical (que, salvo erro, viria de Nova Lisboa), o baile que, ainda assim, teve alguma afluência, foi “abrilhantado” apenas com música gravada.


Gabela -Contacto 7  
(Conjunto formado por jovens estudantes do ensino secundário, formado em data posterior a 1966)

((Foto "roubada" ao Mazungue ( www.mazungue.com/ ))

Nessa noite eu fiquei incumbido de fazer a ronda aos postos de vigilância entre a meia-noite e as duas da madrugada. No entanto, não podia desperdiçar a ocasião de estrear o fato que tinha mandado fazer especialmente para este baile, pelo que não deixei de comparecer na ARA , onde dancei até à meia-noite menos um quarto. A essa hora, conforme combinado, tinha o jipe da ronda à porta, e fui ao quartel fardar-me e dar início ao “trabalho”.

Duas horas depois, voltei a vestir o fato e regressei à ARA. Desilusão: o baile já tinha acabado, num morno ambiente de fim de festa, segundo me contaram.

Por sugestão de um camarada, ainda fomos - quatro ou cinco - para a Boa Entrada, na esperança de que a festa no clube da CADA (Companhia Angolana de Agricultura) estivesse mais animada. Batemos com o nariz na porta, porque também por lá o clima não era diferente, e o pessoal já tinha ido dormir.


Clube da CADA

(Foto de Sofia Peixoto)

Foi assim a nossa festa, falhada, de passagem de ano, de 1966 para 1967, na Gabela.

É claro que, como prevíramos, ninguém atacou coisa nenhuma. Os supostos elementos subversivos, estavam era a divertir-se à grande nos seus batuques, até de manhã, que bem os ouvíamos nos nossos quartos.

Enfim, não perdi tudo, pois sempre estreei o fato de alpaca, feito pelo alfaiate local, Sr. Marchante.

E este seria o meu último baile na ARA. Uma semana antes do Carnaval sofri um grave acidente de viação e fui evacuado para Luanda. Uma história para contar mais tarde.

domingo, 27 de novembro de 2011

Fotografias do Morais Soares





O Morais Soares, que era o “patrão” das transmissões da CArt 738, enviou-me as fotografias que publico hoje, e que lhe agradeço.

A fotografia de cima mostra-nos a equipa de transmissões, que fazia milagres para conseguir que alguns dos velhos e cansados rádios, se mantivessem operacionais.

Da esquerda para direita, temos o primeiro-cabo operador cripto Dias, o "Setúbal", o furriel-miliciano Morais Soares, o primeiro-cabo Custódio, o primeiro-cabo Bastos (?), o primeiro-cabo Sousa, e o primeiro-cabo Nogueira (?).

Embora não me recorde deste local da povoação, não tenho dúvidas de que a fotografia foi tirada em Lucunga, porque o Morais Soares está de chinelos havaianos, devido a uma micose renitente, que o impediu durante muito tempo de reforçar a nossa equipa de futebol.



No intervalo do jogo de futebol a que me referi em “Um Domingo Singular”, o comandante do BArt 741 deixou-se fotografar na companhia de um grupo de militares da CArt 738.

Da esquerda para a direita, temos o furriel-miliciano Morais Soares, o furriel-miliciano Rodrigues, o segundo-sargento Ferreira da Silva, o furriel-miliciano Abreu, não sei quem é o fotografado seguinte, que não pertencia à CArt 738, depois, impecável na sua elegante farda de passeio, o primeiro-sargento Ramalho, o alferes-médico Salazar Leite, o comandante, tenente-coronel Soares, o alferes-miliciano Morgado, o alferes-miliciano Casimiro e o furriel-miliciano enfermeiro Fernandes.




Apesar de ser um dos fotografados, não sabia da existência desta foto, que foi feita na Gabela, como o comprova a indicação “Foto Branco” (que mencionei aqui) que aparece em baixo, à direita.

Não consigo identificar nem o local da cidade, nem o evento a que estávamos a assistir. À primeira vista parece ser um jogo de um dos torneios futebol de 5, e é essa a opinião do Morais Soares. Mas tenho dúvidas, sobretudo porque não me recordo de existir uma bancada parecida com esta no recinto de jogos na Sede do ARA.

Na foto apenas consigo identificar, assinalados com as letras A, B e C, o Vaz, eu próprio e o Morais Soares.

Os restantes espectadores são civis, residentes na cidade, mas, embora um ou outro rosto me pareça familiar, não consigo identificar nenhum deles.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

ARA-Associação Recreativa do Amboim



Sede da Associação Recreativa do Amboim, pós-independência, em ruinas


Sede do ARA, reconstruida

A Associação Recreativa do Amboim, habitualmente designada pela população como o ARA, era a principal agremiação associativa da Gabela, estando a sua actividade voltada, não só para a componente recreativa que justifica o seu nome, mas também, e não menos importante, para a desportiva.

Quando a CArt 738 chegou ao quartel da Sétima, na Gabela, vivia-se na cidade um clima de grande euforia, porque a equipa de futebol do ARA tinha subido ao principal escalão do futebol angolano.

Dessa equipa faziam parte alguns militares da Companhia que fomos render, tendo ficado na Gabela e no ARA , depois de desmobilizados, três desses camaradas: o Cipriano, avançado-centro (como então se chamava ao actual ponta de lança) de grande qualidade, que era muito popular, sobretudo entre a juventude feminina local, o Júlio e o Carlos Afonso. Estes dois, além da ligação ao futebol do ARA, continuaram na Gabela por razões do coração, tendo o Júlio casado com uma moça gabelense, nesse ano de 1966.

Pouco depois de nos termos instalado, apareceu no quartel um dirigente do ARA, o Sr. Carpinteiro, responsável pela secção de futebol, que vinha convidar a equipa da Companhia para disputar com o ARA um jogo amigável, que serviria de treino, no campo da Aricanga, onde jogava o clube.

O que nós não sabíamos ao aceitar o convite, era que do desempenho nesse jogo – que o ARA venceu por 3-1 – viria a resultar um convite a metade da equipa da CArt 738, para fazer parte do quadro de jogadores do ARA.


Campo da Aricanga (esta bancada não existia em 1966)
(Foto de Rui Santos)

Apesar dos reforços, praticamente profissionais, que o clube tinha contratado para fazer face às exigências da nova realidade desportiva – com alguns nomes sonantes ao nível regional, dos quais se destacava além do Juca, um defesa-central, salvo erro do Portugal de Benguela, que tinha impressionado de tal modo os responsáveis da Académica de Coimbra contra quem jogou durante uma digressão desta equipa por Angola e Moçambique, que integrou a equipa durante os restantes jogos dos academistas, o guarda-redes Lima, do Sporting do Lobito – o Oliveira, o Rebelo e o Peixoto, eram presença efectiva nos jogos que o ARA disputou até ao fim da nossa comissão de serviço.

Além destes camaradas, fizeram parte da equipa, o guarda-redes Custódio – que na minha opinião (e não só) era melhor do que o Lima, mas havia que justificar o custo da transferência deste, bem como o seu vencimento mensal, enquanto o Custódio era totalmente amador – o Resende, o Brandão Pacheco, e eu próprio (para minha surpresa, que até saí, lesionado, durante a segunda parte do referido jogo-treino).

Nessa época, o ARA viria a fazer um campeonato surpreendente, com resultados inesperados, como, por exemplo, a vitória sobre o ASA – então o campeão crónico de Angola – em Luanda, ou empate, também em Luanda, com a forte equipa do Futebol Clube de Luanda.

Vivia-se, por isso, um período de grande euforia desportiva, na Gabela, com muitos gabelenses a encherem o campo da Aricanga, ou a acompanharem a equipa nas suas deslocações.


Ringue do ARA, situado nas traseiras da sede.
Aqui disputavam-se os jogos dos torneios de futebol de 5


A vertente recreativa do clube consistia, sobretudo, na realização de animados e concorridos bailes.

No ano de 1966 quase todos os bailes foram abrilhantados por um conjunto musical local, de cujo nome não me recordo, lamentavelmente. Mais lamentável ainda porque me recordo perfeitamente da depreciativa designação da autoria de um dos meus camaradas, quiçá injustamente, e pela qual passámos a nomeá-lo: “Toca toca, que hás-de aprender!”

Nem sequer o nome do seu simpático vocalista, me ficou, embora a minha perversa memória não tenha esquecido que lhe chamávamos “Conde de Mont'Ana”.

Irreverências que a juventude talvez ajudasse a explicar.

E, a propósito dos bailes do ARA, quero deixar expresso, como forma de reconhecimento, um exemplo da generosa hospitalidade com que fomos recebidos pelos gabelenses.

No primeiro baile, descobrimos, quando entrámos, que havia ceia, com acepipes que cada família trazia de casa, sendo as bebidas fornecidas pelo bar do clube.

Sem família, nem casa, eu e alguns dos meus camaradas presentes no baile, ocupámos uma mesa, onde, solitárias, apenas tínhamos as imprescindíveis Cuca ou Nocal, enquanto, em redor, as mesas se iam enchendo com as vitualhas confeccionadas nas cozinhas locais.

Mas a solidão das nossas cervejas duraria pouco. Não tardou que a mesa se fosse compondo, fruto da solidariedade geral, que acabou por encher a nossa mesa de petiscos em quantidade bem maior do que aquela que éramos capazes de consumir (apesar de, nesse tempo, o estômago de alguns de nós parecer furado. Sobretudo se nos agradava o que vinha para o prato.)

Este não foi um caso isolado. Sempre que havia baile, com ceia, já sabíamos que não precisávamos de forrar muito o estômago ao jantar. Havia que deixar espaço.


Mas o mais divertido era o baile propriamente dito, bem como o excepcional ambiente daqueles serões.

É certo que os nossos 23 ou 24 anos também ajudavam. E de que maneira!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A Boleia do Chico Nazaré


Quibala

(Foto de autor desconhecido)

Depois de ter gozado dez dias de férias em Luanda, regressei à Gabela faz hoje 45 anos.

O transporte público entre a Gabela e Luanda consistia numa carreira diária de autocarro, que além de demorar muitas horas, era extremamente desconfortável.

Na véspera da viagem para Luanda, procurei encontrar alguém que estivesse para fazer a viagem e me desse boleia. Não consegui, mas, para minha surpresa, quando no Café Central perguntei se alguém iria viajar no dia seguinte, o Sr. Barradas, proprietário de um stand de máquinas agrícolas (creio que também vendia automóveis, mas não tenho a certeza), pegou nas chaves e nos documentos do seu carro e estendeu-mos, pondo-o à minha disposição.

Não aceitando, embora, a oferta, não deixou de me sensibilizar a disponibilidade demonstrada por alguém que conhecia socialmente, mas com quem não tinha grande proximidade.

No dia seguinte fui no jeep que todas as quintas-feiras ia até à Quibala levar o correio militar. A Quibala era uma espécie de entroncamento rodoviário, e foi fácil conseguir uma boleia até Luanda.


Ilha de Luanda

(Foto de Ivo Cardoso)

Na véspera do meu regresso, corri as capelinhas em Luanda, de novo à procura de uma boleia. Tive mais sorte do que dez dias antes; pouco depois de iniciar a busca encontrei o gabelense Chico Nazaré, filho de um comerciante que acumulava com o cultivo de café, e que se prontificou a dar-me boleia, combinando o encontro para o dia seguinte às 14 horas, no Hotel Katekero, onde estava hospedado.

Compareci à hora marcada, mas do Chico nem sinal. O recepcionista informou-me que ele tinha regressado tarde na noite anterior, e que tinha pedido para o acordarem precisamente às 14 horas.

Meia hora depois desceu e convidou-me para ir comer qualquer coisa, para depois seguirmos.

Depois de comer chamou um táxi. E quando lhe perguntei onde tinha o carro, riu-se e respondeu que o tinha no Aeroporto. Ainda pensei que ele tivesse acabado lá a noite, no bar e, depois de bem bebido, tivesse voltado para o hotel de táxi, mas depois lembrei-me que ele tinha um pequeno avião, com o qual tinha disputado e ganho a Volta Aérea a Angola desse ano.



Luanda - Hotel Katekero

(Foto de autor desconhecido)

Chegados ao Aeroporto, lá estava o avião pronto para a viagem, que à excepção dos minutos que antecederam a aterragem, correu bem.

Sobrevoámos a reserva da Quiçama, onde ele desceu até uma altura que me deixou um bocado apreensivo, para que eu visse a fauna que ali abundava, mas que acabava por debandar espavorida com o barulho do motor.

Com o dia a avançar, e em África anoitece cedo e quase bruscamente, sem aquele anoitecer lento a que estamos habituados, ele receava que não fosse possível aterrar na Gabela por causa dos densos nevoeiros que cobriam a cidade com frequência. A alternativa era descermos em Porto Amboim, o que não me importava nada, já que aproveitava para abraçar os meus camaradas que ali estavam aquartelados.

Mas o dia estava suficientemente claro, e, depois de sobrevoar a cidade por duas vezes, dando sinal para o pai mandar uma viatura ao aeródromo, entreteve-se a dar umas cambalhotas, com o intuito de me fazer vomitar tudo o que eu tivesse no estômago. Ao pé daquilo, a montanha russa era uma brincadeira de meninos. Não conseguiu, todavia, os seus desígnios; fazendo das tripas coração, aguentei-me, não sei bem como, até o avião se imobilizar na pista. Mas ainda não estava bem parado e já eu saltava e corria para junto do hangar onde acabei por vomitar.


Gungas e Zebras na Reserva da Quiçama

(Foto de Ana Tendinha)

De qualquer forma, o Chico disse-me que eu tinha passado a prova.

Desta viagem tirei duas conclusões. Angola era mesmo um lugar especial. Em que lugar deste nosso Portugal poderia eu esperar, ainda por cima nessa época, que alguém com quem tinha relações meramente circunstanciais, pusesse o seu automóvel à minha disposição, ou que me desse uma boleia de avião?

Mas não deixei de ter um desapontamento nesse dia de S. Martinho: corri toda a cidade, mas não consegui encontrar uma loja onde houvesse castanhas à venda.

Lá se foi o projectado magusto às malvas!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Cine Amboim


O Cine Amboim em dia de enchente

A sala de espectáculos da Gabela – o Cine-Amboim – apresentava sessões de cinema às terças, quintas, sábados e domingos. Ao domingo havia duas sessões, e o filme era o mesmo que tinha passado no sábado.

Como não tínhamos muitas distracções, quando o filme era bom (ou nós, talvez críticos pouco exigentes, achávamos que era) iamos ao cinema no sábado e no domingo.

Além da apresentação de filmes, tinham periodicamente lugar espectáculos musicais – hoje chamar-se-iam concertos – onde actuavam artistas em digressão por Angola. Nestes casos, não se tratava de artistas contratados para actuarem expressamente para as Forças Armadas. O espectáculo destinava-se a todos, e todos pagavam bilhete, incluindo naturalmente os militares que quisessem assistir.

Recordo-me de terem actuado na Gabela durante o ano de 1966, entre outros, Tony de Matos, Luís Piçarra, Paula Ribas e o Trio Odemira. À excepção do Trio Odemira que se auto-acompanhava, o acompanhamento musical era feito com música gravada, o que, uma vez ou outra, dava lugar a alguma descoordenação entre o cantor e o operador que nos bastidores ligava e desligava o gravador. Mas tudo se resolvia rapidamente e o espectáculo continuava, habitualmente com a sala cheia.

A apresentação em palco era feita pelo Francisco Morgado, alferes-miliciano da Cart 738. O alferes Morgado tinha experiência da função por ser locutor da Rádio Ribatejo. Aficionado da tauromaquia, foi durante muitos anos (não sei se ainda é) a voz que comentava as corridas de touros transmitidas pela RTP.

O Cine-Amboim não tinha balcão, mas dispunha de um pequeno número de frisas – oito ou dez – num patamar um pouco mais elevado, antecedendo a plateia. À frente, junto ao palco e à tela, dispunha de duas filas de bancos corridos.


Alferes-miliciano Francisco Morgado
(Foto "roubada" ao Veterano)

Espectador novato do Cine-Amboim, e tendo-me sentado na última fila, não me apercebi logo da existência dos bancos corridos. Daí a minha surpresa quando vi começarem a entrar por uma porta situada ao fundo, do lado esquerdo do palco, numerosos espectadores, que se sentaram nos referidos bancos. Eram todos negros que, vim a saber depois, pagavam um preço inferior ao dos espectadores que se sentavam na plateia ou nas frisas.

Racismo descarado, pensei eu, surpreendido, quer pela forma evidente como se apresentava, quer por sê-lo à vista de toda a gente, contrariando o que era a política oficial vigente, anunciada aos quatro ventos, incluindo os areópagos internacionais.

Não era apenas por serem negros que aqueles espectadores eram relegados para os bancos corridos.

(António Almeida, era provavelmente o mais importante empresário da Gabela, e era negro, o que não impedia que, se fosse ao cinema, ficasse comodamente instalado numa frisa, juntamente com a sua família. O Administrador do Concelho – de cujo nome não me recordo – era um negro, cabo-verdiano, que, acompanhado pela esposa, ocupava habitualmente uma das frisas.)


Luís Piçarra canta "Morena da Raia"

Os negros que residiam nas sanzalas, e que iam para os bancos corridos, eram duplamente segregados. Sentavam-se ali, não só por serem negros, como antes afirmei, mas também porque, além de serem negros, eram pobres. Era uma espécie de racismo social, que de resto, também se manifestava com frequência no Portugal europeu, no modo como eram tratados os mais pobres.

No fundo, quase todos nós o praticávamos, às vezes sem disso nos apercebermos, o que não serve de desculpa, formas de racismo.

Mas também é certo que, responsáveis ou não, acabámos, directa ou indirectamente, por pagar um elevado preço por esse comportamento.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

CISMI - TAVIRA


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Fujo hoje ao tema deste blogue, que consiste, como sabe quem o frequenta habitualmente, no relato de pequenas histórias vividas durante a comissão de serviço que fiz em Angola de 1965 a 1967. Resolvi fazê-lo, em primeiro lugar, porque esta é também a história de como tudo começou. Em segundo lugar, porque me dá a oportunidade de referir as circunstâncias em que, por uma curiosa coincidência, ouvi falar pela primeira vez no primeiro comandante do Batalhão de Artilharia 741.

Tinha planeado publicar este texto em 9 de Agosto último, data em que se completaram 48 anos sobre a data em que me apresentei no CISMI (Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria), em Tavira, para iniciar o cumprimento do meu serviço militar obrigatório, que viria a terminar em 23 de Fevereiro de 1968, mais de quatro anos e meio depois.

Porém, encontrando-me naquela data ausente da minha residência habitual, concluí, tarde demais, que embora tivesse copiado para uma pen os ficheiros de que iria necessitar, tinha falhado a cópia da fotografia do meu pelotão da recruta, que considero ser um testemunho indispensável.

Na referida fotografia, que encima este post, estão os soldados-instruendos (também havia quem nos chamasse “soldados-milicianos”) que faziam parte do 2º pelotão, da 3ª Companhia.

Não me recordo do nome de todos (nem ando lá perto) e, para agravar a situação, lembro-me de nomes que não consigo ligar a nenhum destes rostos. Dos esquecidos destaco, lamentando o meu esquecimento, o Alberto Villaverde Cabral, não por ter sido uma figura pública com largo destaque na Comunicação Social a seguir ao 25 de Abril de 1974, mas por pertencer ao grupo que me era muito próximo.

Outro dos meus amigos “tavirenses” era o jovem que na foto aparece identificado com o nº 20. Respondia pelo nome de Mário Cabrita Gil (era fanático do “braço de ferro”, que praticávamos numa das longas mesas existentes no corredor da caserna), e nenhum de nós imaginava que o pai dele, de quem raramente falava, mas o suficiente para eu saber quem ele era, viria a ser o primeiro comandante do meu Batalhão, em Angola.

O Cabrita Gil saiu de Tavira no fim da recruta porque, para suprir a falta de oficiais, o Exército seleccionava os que mais se distinguiam - quer pelo aproveitamento teórico e desempenho físico, quer pela chamada “aptidão militar” - na recruta do Curso de Sargentos Milicianos, para frequentarem o Curso de Oficiais Milicianos. Creio que dos cerca de 900 recrutas do meu Curso não terão sido escolhidos mais de 20. Desses, dois pertenciam ao meu pelotão: o Cabrita Gil, e o jovem que identifico com o nº 32, um portuense cujo nome não recordo.


Tenente-Coronel Cabrita Gil

(Foto "rapinada" ao blogue do Batalhão)

A má língua da caserna (que aparece sempre nestas alturas, invariavelmente acompanhada pela inveja), murmurava que o Cabrita Gil tinha sido escolhido por influência do pai, e não por mérito próprio. Julgava então, e continuo a julgar hoje, que qualquer dos dois camaradas escolhidos o foram por mérito pessoal absoluto, não tendo havido qualquer espécie de favoritismo na sua selecção.

Depois de terminada a recruta, cada um foi à sua vida e não voltei a ter notícias do Mário, o que quer dizer que nunca pude devolver-lhe o livro de Almeida Garrett que me emprestara, e que não aceitou que lhe devolvesse, porque ainda não terminara a leitura. Ficava para depois, quando nos encontrássemos, dizia ele. Não houve depois, porque nunca mais o vi.

O nº 2 da fotografia é o Vacas (de Carvalho?), um jovem de Montemor-o-Novo que era pegador de touros no Grupo de Forcados da terra, e tinha fotos do Grupo que o comprovavam. Mas o Matos (nº 10) ,que era lá da zona, dizia, achávamos que para se meter com ele, que ele só se vestia de forcado para tirar o retrato.

Com o nº 5 na foto está o Carvalho, que logo no primeiro dia me perguntou se eu não tinha um aloquete a mais. Sabia lá eu que um aloquete era o mesmo objecto a que eu chamava cadeado! Mais tarde, em Janeiro de 1965, fizemos uma festa quando nos reencontrámos em Angola, na Missão do Bembe.

Os nºs. 6 e 7 são os casapianos Olivério e Vítor, respectivamente.

Uma tarde, estávamos na esplanada do Imperial e eu tinha acabado de escrever uma carta, quando o Vítor me disse que eu devia gostar muito de escrever cartas, porque passava a vida a fazê-lo. O que lhe dava jeito, dizia ele, sem saber no que se metia, era que lhe escrevesse uma carta para a namorada, já que ele estava em falta e cheio de preguiça. Eu disse que o faria, mas que ela iria ver que não era a letra dele. “Escreve em maiúsculas”, respondeu ele. “Tudo bem”, retorqui, “mas tu não lês o que eu vou escrever”. “Quero lá saber!”

E eu escrevi. Passados quatro ou cinco dias veio ter comigo com uma encomenda postal na mão, a perguntar que raio é que eu tinha escrito, porque a namorada lhe tinha mandado um pacote com 20 maços de cigarros e uma nota de cinquenta escudos. Pagou-me o jantar no “Sofrutos”, que não era caro e onde se comia bom peixe.


O Quartel de Tavira, continua hoje como era há 48 anos. Mas já não é o CISMI. Hoje é o Regimento de Infantaria nº 1 (quase sem guarnição, ao que me dizem)

(Foto de António Alba)

O 8 era o Carlos Aparício (um viseense que era afilhado de um escritor que eu muito admirava, e admiro: Aquilino Ribeiro), artista de rara sensibilidade, que fez o meu retrato a carvão. Está de sapatilhas porque tinha ido a “doentes” , por ter bolhas de água nos pés (ir a “doentes”, muitas vezes era feito apenas para nos baldarmos aos extenuantes exercícios de Aplicação Militar. Mas, em contrapartida, doente ou não, ficava-se cinco dias a “convalescer”, sem poder sair do quartel).

O nº 12 era o Manuel Palma. Alentejano de Corte do Pinto (Mértola), residia com os pais em Campo de Ourique e, nesse 9 de Agosto, tinha família e amigos a despedirem-se dele no cais da Estação de Sul e Sueste. Quando vi tanta gente a despedir-se, cheguei ao pé dele e perguntei-lhe: “É pá, se isto é assim quando ainda só vais para Tavira, como é que vai ser quando fores para África?”

Ficámos unha com carne durante todo o Curso. 

O nº 13 sou eu.

Na fila do meio, além do Cabrita Gil, só consigo identificar o 21. Era o Carlos, de Meda, que na altura era professor primário em Murça.

Na fila de cima, com o nº 28 está o Alonso. Era um jovem endinheirado, de Vila Nova de Foz Coa, que de vez em quando alugava um táxi para ir ver a família.

Durante um exercício de campo, alguns de nós, entre os quais o Alonso, saltámos um muro para ir a um pomar apanhar laranjas, antes que apodrecessem. Despassarado como era, só quando chegou ao quartel é que o Alonso deu pela falta da baioneta, o que constituia uma falta grave. À noite, fomos em dois táxis, pagos por ele, e munidos com lanternas eléctricas, para o pomar, à procura da baioneta, que encontrámos, juntamente com mais algumas laranjas.

O comandante e instrutor do pelotão, aspirante (seria promovido a alferes pouco tempo depois) Silvério Jónatas, tem o nº 33. Já com o posto de major, andou nas páginas dos jornais pelo papel que teve em Timor, em 1975, durante as disputas entre a Fretilin e a UDT, e que lhe valeu uma precoce passagem à reserva.

À sua esquerda com o nº 34, o furriel-miliciano Moreira, monitor, que tinha uma paciência de santo para as nossas garotices.

Como se chamam os “esquecidos”? O que fazem hoje?

Não deixava de ter piada que alguns aqui viessem ter, de pára-quedas, e me respondessem.