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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Acidente - Conclusão


Finda a comissão de serviço do Batalhão, o regresso a casa estava marcado para 28 de Fevereiro, e, tal como na ida para Angola, a viagem seria feita a bordo do “Vera Cruz”.

Não me recordo da data exacta da chegada do Batalhão a Luanda, mas julgo que terá tido lugar uma semana antes do embarque.

Entretanto, e depois de ter sido informado pelo advogado que referi no texto anterior, de que nada impedia o meu regresso juntamente com a minha Companhia, falei com o ortopedista do Hospital Militar, que também não levantou nenhum obstáculo de ordem clínica à viagem, devendo apenas dirigir-me em Lisboa ao Hospital Militar, para tirar o gesso, em meados de Março. Ficou combinado que me daria alta três dias antes do embarque.

Na tarde do dia da chegada do Batalhão ao Campo Militar do Grafanil, fui lá, não só para rever os meus camaradas (e fazer contas com o Rodrigues e com o Vaz, que tinham feito pagamentos por minha conta), mas também para me informar junto do alferes que estava a instruir os autos, sobre a data em que lhe convinha ouvir as minhas declarações, além de lhe sugerir o encontro com o advogado, a que também já me referi anteriormente.


Grafanil - Altar construído na base de um imbondeiro

Além disso, aproveitei para falar sobre a minha situação, quer com o primeiro-sargento Ramalho, quer com o capitão Carvalho, que me disseram, de forma taxativa, que eu não fazia parte da lista de embarque do Batalhão, em virtude de ter autos pendentes. Além disso, o capitão intimou-me a retirar da Companhia os meus pertences, que incluiam uma mala de porão.

Na CCS (Companhia de Comando e Serviços) do Batalhão, onde fora elaborada a lista de embarque, estavam colocados alguns tenentes muito experientes – tinham iniciado a sua vida militar como soldados, e foram subindo na escala hierárquica – e, julgava eu, conhecedores profundos dos meandros da legislação militar, com quem fui falar a seguir, mas que, apesar dessa sabedoria, consideravam igualmente que eu não podia embarcar.

Por outro lado, senti um clima de alguma hostilidade, tanto no comando da Companhia, como no comando da CCS. Como se eu fosse uma espécie de proscrito.

Regressei a Luanda de táxi com os meus sacos e malas, mas depois de os deixar no hotel, segui no mesmo táxi para casa do advogado, a quem relatei o que se tinha passado no Grafanil.

Acalmou-me, confirmando que, eventualmente, o meu nome podia não constar da lista do Batalhão, mas ele tinha-se assegurado de que constava da lista da 1ª Repartição do Quartel-General. Adiantou ainda que, se por qualquer baixa manobra dilatória dos meus “amigos” do Batalhão eu não embarcasse no dia 28, estaria à espera deles no Cais da Rocha, à chegada, porque ele tomaria as providências necessárias para que eu fizesse a viagem de avião nos primeiros dias de Março.


Luanda - Fortaleza de S. Miguel, vista da baía

Não deixava de ser uma perspectiva tentadora, mas eu queria muito ganhar aquela “guerra”, embarcando com os meus camaradas no dia 28.

Neste interim, prestei declarações nos autos e fiquei a saber que o condutor do jeep, tinha afirmado, mentindo no seu depoimento, que eu o obrigara a ceder-me o volante. Se vingasse essa tese, a minha situação, que já não era boa, ficaria seriamente complicada. Felizmente o testemunho dos outros dois ocupantes da viatura correspondendo à verdade dos factos, corroborava inteiramente a minha versão.

Dois ou três dias antes do embarque tive alta do Hospital, e o Depósito de Adidos passou a guia de marcha para me apresentar na minha Companhia. Chegado ao Grafanil, apresentei-me ao capitão Soares, que me disse que não valia a pena ter-me dado ao trabalho, porque a 28, enquanto o pessoal do Batalhão embarcava, eu voltaria a apresentar-me no Depósito de Adidos.

Nesse mesmo dia foram pagas as ajudas de custo de embarque, cujo valor, para a classe de sargentos, era de 3.000$00. O meu nome não constava na folha de pagamento.

Pouco depois da chegada, eu e os furriéis Miranda Dias, Mourão e creio que o Vaz, tínhamos alugado um Ford Cortina, para as nossas deslocações pela cidade. Com este aluguer poupei uma pipa de massa em táxis, porque naqueles últimos dias andei numa roda viva de um lado para o outro.

Na antevéspera do embarque, logo depois do almoço, o advogado deixou-me um recado no hotel a confirmar que eu ia mesmo embarcar. Como a bagagem de porão teria que ser colocada no cais de embarque na manhã do dia seguinte, véspera da partida, meti a mala na bagageira do Cortina e, como sempre com um deles a conduzir, fui levá-la ao Grafanil, para ser marcada e seguir, junto com as bagagens dos meus camaradas para o porto de Luanda. Não fui autorizado a deixar a mala porque o primeiro-sargento, na ausência do capitão Soares, insistiu que eu não iria embarcar.


Luanda - Capela do depósito de Adidos

Finalmente, na sexta-feira de manhã, os manda-chuvas do Batalhão e da Companhia, renderam-se à evidência: tinham perdido a “batalha” e eu ia mesmo embarcar. Ainda antes do almoço pagaram-me as ajudas de custo, mas já não podia pôr a minha mala junto com a bagagem de porão do pessoal da Companhia. Desforrei-me, talvez de forma indecente, mais tarde, em Lisboa, como poderão ler algumas linhas abaixo.

Nessa tarde andei numa roda viva. Levei a mala de porão ao cais, onde foi colocada a bordo, misturada com a bagagem de outra unidade, fiz compras, fui aos Correios mandar um telegrama para casa a confirmar que chegaria no dia 9 de Março a Lisboa, e fui pagar e agradecer ao advogado, que se revelara decisivo no apoio que me deu.

À noite, depois do jantar que ofereci a alguns camaradas mais chegados, voltei cedo para o hotel porque queria escrever algumas cartas a anunciar o meu regresso.

Estas cartas acabaram por ter um destino inesperado que só descobri quase dois anos depois, por acaso.

Como tinha de estar cedo no cais, sem tempo para esperar pela abertura dos Correios, pedi ao recepcionista do hotel que, mais tarde, mandasse um mandarete aos Correios comprar os selos e enviar as cartas. O custo total dos selos era de 12$50, e eu deixei 50$00, ficando o remanescente para beberem uma Cucas.

Quase dois anos depois, e por acaso, descobri que nenhuma das cartas fora enviada. O recepcionista e (ou) o mandarete, ficaram com os 50$00.


O navio Vera Cruz a chegar a Lisboa, transportando militares de regresso de África

O capitão Soares de Carvalho, que tinha ido comandar a nossa Companhia em rendição individual, ainda tinha ano e meio de comissão para cumprir, pelo que não regressou connosco. Antes do barco zarpar, promoveu uma reunião na sala de 2ª classe do “Vera Cruz” para se despedir dos sargentos da Companhia. Não compareci à reunião, mas o Vaz veio ter comigo à amurada, onde eu ia assistindo à azáfama do pessoal no cais, dizendo-me que o capitão me tinha mandado chamar para se despedir. Pedi-lhe que lhe transmitisse que se era uma ordem, eu iria, mas que, se não era, eu não estava interessado em me despedir dele. Não terá sido bonito, mas correspondia ao meu estado de espírito naquela ocasião. O Vaz não voltou, e mais tarde soube que ele tinha dito que não me tinha encontrado.

À chegada a Lisboa, o facto de eu não ir desfilar, por estar de braço engessado, serviu de pretexto para me encarregarem de superintender no carregamento das bagagens da Companhia, e do acompanhamento das camionetas até ao quartel do RAL 1, na Encarnação.

Como a descarga do navio ainda iria demorar, fui com alguns dos familiares e amigos almoçar ao Bonjardim, que à época servia os melhores frangos assados de Lisboa, e, quando voltei ao cais, a meio da tarde, a confusão era enorme (além de que não era nada fácil encontrar a minha mala, misturada com a bagagem de outra Companhia). Decidi então mandar regressar as camionetas ao quartel, adiando o levantamento da bagagem para o dia seguinte.


Esplanada do Restaurante Bonjardim

(Em 1967 não havia esplanada, nem sequer espaço para ela. A travessa era estreita, e passavam lá os carros eléctricos)

Quando cheguei ao RAL 1 a minha decisão não foi muito bem recebida, porque isso implicava que uma minoria, mais ou menos escolhida a dedo, residente longe de Lisboa, teria de ficar mais um dia na capital. Misturando ironia com algum cinismo (nunca disse que era perfeito), disse-lhes que pensava que iam gostar de ficar mais uma noite na civilização. Quanto aos outros, que me eram mais chegados, seguiram viagem para suas casas nesse dia, deixando-me os seus endereço. No dia seguinte, depois de voltar ao cais da Rocha para levantar bagagens, aluguei uma camioneta que transportou todas as suas malas e caixas do quartel para a estação de Santa Apolónia, onde as despachei.

Passadas duas semanas fui ao quartel pedir uma guia para ir ao Hospital da Estrela tirar o gesso. Porém, tive uma desagradável surpresa. Fizeram uma radiografia ao braço, que revelou que a intervenção em Luanda tinha sido mal feita. Em vez de reduzir correctamente a fractura, o ortopedista tinha sobreposto os ossos, deixando-os “acavalados” .

Resumindo, fui submetido a mais duas intervenções, com anestesia geral, fiz sessões de fisioterapia e acabei por ter alta onze meses depois, quando, farto do hospital, forcei a alta faltando às sessões de fisioterapia, que, de resto, quase ninguém levava a sério.

No Hospital Militar de Lisboa – Anexo de Campolide – conheci muitos camaradas evacuados dos vários teatros da guerra que, embora sobrevivendo aos ferimentos, tinham ficado seriamente estropiados. Muitos aguardavam pela viagem à Alemanha onde lhes seriam colocadas próteses; outros já tinham regressado, com próteses tão perfeitas, sobretudo nos membros inferiores, que lhes permitiam fazer uma vida quase normal, incluindo a condução automóvel.


Lisboa - Hospital Militar Principal, em foto recente

Em 23 de Fevereiro de 1968 fui a uma junta médica, que me deu alta. E foi assim que, quase 55 meses depois de ter assentado praça em Tavira, chegou ao fim a minha vida militar.

Quanto aos autos, acabaram por ter um fim de todo inesperado.

Em consequência da deslocação do papa Paulo VI a Fátima, em 13 de Maio de 1967, o Governo decretou uma amnistia geral. Nos termos dessa amnistia, os militares com autos pendentes em resultado de infracções que tivessem causado ao Estado um prejuízo de valor inferior a 3.000$00, veriam os seus autos arquivados, sem mais consequências. Nos casos em que o valor se situasse entre os 3.000$00 e os 6.000$00, os autos também seriam arquivados, desde que o infractor indemnizasse o Estado dentro de um determinado prazo.

Os danos que o desastre provocara no jeep eram, na opinião do furriel-mecânico Sousa, superiores a 15.000$00, o que me colocava fora da amnistia.

Ora, por um daqueles acasos que às vezes acontecem, tinha assumido o comando do Agrupamento do Serviço de Material de Luanda, para onde foi transportada a viatura danificada, para peritagem e posterior reparação, um oficial que eu conhecera em casa da família de uns amigos meus, de quem ele era também amigo.

Tendo tido conhecimento do que sucedera, esses amigos escreveram a esse oficial intercedendo a meu favor, e, provavelmente por sua influência, a peritagem considerou que do desastre tinham resultado danos na viatura no valor de 5.800$00. Isto é, os meus autos seriam arquivados se eu pagasse ao Estado 3.480$00. O que fiz, ficando desse modo livre de ir parar à Trafaria durante 30 dias, pelo menos.

Pode dizer-se que tive muita sorte. E, claro, fiquei com uma grande admiração pelo papa.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

"Férias" em Luanda (Parte I)

Já me referi, aqui, às circunstâncias que levaram à minha evacuação para o Hospital Militar de Luanda em consequência de uma fractura num dos ossos do braço direito.

Volto ao tema, porque julgo que alguns dos que têm a pachorra de passar por aqui (às vezes involuntariamente) podem pensar que as cerca de cinco semanas que passei em tratamento no Hospital acabaram por se converter num período de férias caído do céu. Não os vou desiludir: foram realmente férias, mas em tempo parcial, e que, ainda por cima, eu teria dispensado porque me saíram caras.

Mas, antes de falar das “férias” vou contar um episódio quase anedótico.


Nord Atlas

Passada a guia de marcha e feita a requisição de transporte à Força Aérea (FA), apresentei-me no Aeródromo do Toto em 8 de Agosto de 1965, para seguir viagem para Luanda num desconfortável Nord Atlas.

Para as vagas destes vôos (cuja finalidade principal era o transporte de mercadorias, principalmente os chamados produtos frescos, para reabastecimento da tropa) que tinham sempre muito militares candidatos à viagem de borla - caso em que convinha que se tivessem os contactos certos -, eram estabelecidos graus de prioridade.

Tendo-me sido atribuído o grau de prioridade 1, fui o primeiro a ser chamado para embarcar pelo oficial da FA. Ora, entre os passageiros a aguardar embarque havia um oficial superior (major ou tenente-coronel, já não me recordo com exactidão), que ficou melindrado por ter sido ultrapassado na ordem de embarque por um furriel, membro de uma “casta” (perdão, classe) muito inferior na hierarquia militar.

O oficial da FA, salvo erro um tenente, explicou-lhe com o respeito devido a alguém que, embora pertencendo à classe de oficiais como ele, já tinha chegado a um nível de “casta” superior que, de acordo com os regulamentos e tratando-se de uma questão de evacuação por acidente a prioridade era, neste caso, minha. Com algum desconforto pelo incidente (realmente tanto me fazia entrar em primeiro ou em último, desde que entrasse), acabei por ser mesmo o primeiro a subir para o avião. Mas pareceu-me que o nosso oficial me foi deitando alguns olhares enviesados durante a viagem, que incluiu escalas em Maquela do Zombo e em S. Salvador.

No Hospital Militar a radiografia confirmou a existência de uma pequena fractura e, depois de terem procedido à imobilização do antebraço, fiquei em regime de consulta externa. Isso significava que tinha de providenciar alojamento e alimentação à minha custa. Enquanto em Lucunga tanto o alojamento como as refeições eram por conta do Exército, em Luanda tinha que pagar do meu bolso e, ao contrário do que muitos pensavam, não recebia quaisquer ajudas de custo.

Para fazer face a este rombo inesperado no meu orçamento mensal tive de mexer nas poupanças que ia fazendo na Caixa Geral de Depósitos.


Depósito de Adidos de Angola, em Luanda - Cinema ao ar livre

Por outro lado, não tendo ficado internado tinha, como todos os camaradas na mesma situação, de me apresentar duas vezes por dia – entre as dez e as onze, e entre as quinze as dezasseis horas – excepto sábados e domingos, no Depósito de Adidos de Angola (DAA), passando também a entrar na escala de serviços. Isto é, durante o tempo que estive em Luanda fiz três sargentos de dia à 1ª Companhia, e um sargento de dia à unidade, além de ter sido requisitado três vezes pelo Serviço de Justiça para a função de “escrivão de autos”.

Quando estava de serviço ia um jeep buscar as minhas refeições ao hotel .

Fazer serviço naquela unidade era uma provação que, apesar de tudo, consegui levar a bom termo sem consequências de maior. Alguns dos meus camaradas ficavam mesmo admirados porque, antes das refeições, eu quase conseguia que o pessoal formasse e que seguisse para o refeitório andando de um modo que se assemelhava muito à marcha militar.

A maior parte dos praças aquartelados no DAA tinham ido para Angola em unidades que já tinham terminado as comissões e regressado a Portugal, mas, porque tinham cometido infracções que levaram ao levantamento de autos (*), só poderiam regressar depois de concluída toda a tramitação dos processos, o que, por vezes, chegava a demorar anos.

Neste contexto, a indisciplina era o pão nosso de cada dia. Fazer uma formatura decente era um trabalho digno de Hércules; pô-los a marchar em condições tornava-se mais difícil do que pôr um dirigente político a falar verdade. Na situação em que estavam era-lhes indiferente mais participação menos participação, cujas consequências nunca seriam tão graves como as que iriam resultar das infracções que os tinham levado àquela situação.



Depósito de Adidos de Angola, em Luanda - Edifício do Comando

Durante esta permanência em Luanda registou-se um grave episódio de indisciplina no DAA, a que não assisti, mas que me foi contado por quem o testemunhou. Procurando pôr um pouco de ordem naquela tropa fandanga, o furriel-miliciano que estava de sargento de dia chamou a atenção de um dos soldados que não gostou da “rabecada” e o insultou. Gerou-se um conflito que acabou numa luta em que cada um dos intervenientes tirou o respectivo cinto para servir de arma. Isto perante o gáudio dos restantes militares da formatura, que não intervieram. Só a intervenção de alguns sargentos e oficiais viria a acabar com a feia briga.

Em circunstâncias que serão objecto de outro texto, em tempo oportuno, contarei como em Fevereiro de 1966 voltei ao DAA, durante quase quatro semanas. Mas tive mais “sorte” dessa vez. Estava em tão mau estado físico que o médico do Hospital Militar fez uma declaração em que me declarava inapto para fazer serviços.

(Continua no próximo post, para não cansar)

(*) Os regulamentos determinavam que apenas era vedado o regresso aos militares que tivessem de responder em “auto de corpo de delito”, mas havia quem fizesse outra leitura como se verá lá mais para diante, quando eu contar a minha própria má experiência num caso semelhante, em que um pequeno mas influente grupo, de que fazia parte o meu quarto e último comandante de Companhia, acolitado por alguns oficiais do Comando do Batalhão, tentou tudo para que eu não regressasse com os meus camaradas.