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domingo, 9 de janeiro de 2011

O embarque


Na noite que antecedeu a nossa partida pouco se dormiu no quartel de Porto Brandão, onde ficámos a aguardar embarque, depois de gozarmos os dez dias de férias a que tínhamos direito.

Na véspera tiveram lugar as despedidas de familiares e amigos. Um pequeno grupo de que fiz parte aproveitou as últimas horas para uma deambulação nocturna por Lisboa. Como ainda não havia ponte sobre o Tejo, viajámos no último barco para Cacilhas, donde seguimos em dois táxis para Porto Brandão.

À hora tardia a que chegámos já há muito que se tinham fechado os portões do quartel, pelo que entrámos saltando o muro, de fácil transposição.

Ainda antes de amanhecer já se vivia uma azáfama nervosa no quartel. Estávamos a 9 de Janeiro de 1965, um sábado em que o Sol brilhava, e dentro de poucas horas embarcaríamos rumo a Angola e a um futuro que nos dois anos seguintes seria de incertezas, à mistura com muitos receios.

Ferry-boat semelhante ao que nos transportou de Porto Brandão para o cais da Rocha Conde de Óbidos


Do Porto Brandão até ao cais da Rocha Conde de Óbidos, onde nos esperava o navio “Vera Cruz”, a viagem fez-se a bordo de um ferry-boat especialmente fretado para o efeito.

Em conformidade com a legislação em vigor à época, na data do embarque para as comissões de serviço no Ultramar, os aspirantes a oficial-miliciano, os cabos-milicianos e alguns soldados, eram promovidos a alferes, furriéis e cabos, respectivamente. A maior parte dos militares do Batalhão abrangidos por estas promoções, limitou-se a colocar os galões ou as divisas do novo posto nas respectivas platinas nessa manhã (é certo que alguns alguns já as haviam exibido na véspera à noite, durante a despedida de Lisboa). A excepção verificou-se com os militares da Companhia de Artilharia (CArt) 738.

O capitão Rubi Marques, comandante da referida Companhia, determinara que a “cerimónia” das promoções teria lugar já a bordo do ferry-boat, obedecendo a um ritual próprio, que incluiu uma formatura geral da Companhia no amplo espaço do ferry-boat habitualmente reservado ao transporte de automóveis.

E, então, perante os (sor)risos trocistas dos restantes militares do Batalhão, o comandante da Companhia colocou nas platinas das fardas dos aspirantes a oficial os galões correspondentes ao posto de alferes; por sua vez, os novos alferes colocaram aos cabos-milicianos dos respectivos pelotões, as divisas de furriel; a estes, coube a imposição das divisas aos novos primeiros-cabos.

Foi uma situação que, na altura, nos causou algum desconforto. Não pela “cerimónia” em si (conhecíamos a propensão do nosso comandante de Companhia para o cumprimento destas formalidades), mas, sobretudo, pelas piadas de que sabíamos vir a ser alvo (e fomos) a seguir.

Mais tarde percebi que estes rituais eram também uma forma de criar o espírito de corpo e de nos fazer sentir diferentes. E, entretanto, quer a troça, quer o gozo, já há muito que tinham passado para trás das costas.

O resto da manhã seria cansativo física e emocionalmente, com as formaturas, as senhoras do Movimento Nacional Feminino, a distribuir medalhas religiosas e maços de tabaco, e, sobretudo, as penosas despedidas da família e amigos, o desfile, o embarque.

Navio "Vera Cruz" inicia uma viagem com militares para Angola


No momento em que o navio começou a afastar-se do cais, ao mesmo tempo que uma banda em terra tocava o Hino Nacional, senti como se tivesse havido uma súbita ruptura, uma espécie de elo que se quebrara. Em conversas posteriores, concluí que não fora o único a experimentar essa sensação.

Quando se iniciou a descida do Tejo rumo à foz, cerca das 13 horas, a maior parte dos “viajantes” recolheu aos respectivos alojamentos para arrumar a bagagem. Eu fiquei no convés juntamente com o meus camaradas Mourão e Miranda Dias.

A ponte sobre o Tejo estava então em construção e recordo-me que, lá de cima, alguém gritou, deixando-nos mais comovidos do que já estávamos:

“Boa viagem! Que Deus vos leve e traga de volta! Para o ano é a minha vez de ir!”

E ali ficámos, a contemplar a costa que íamos deixando para trás, até que, em frente a Oeiras, alguém nos veio perguntar se não descíamos para almoçar. E lá fomos.

Do resto do dia não guardo outras lembranças, a não ser da surpresa pelo excelente serviço de refeições. Mas esse será um tema para outro dia.

2 comentários:

  1. Que bem escreve, C. Fonseca. Para dizer a verdade, quando percebi que o blogue era sobre as "memórias da tropa", fiquei um pouco desalentada e fui ler o texto sem grandes expectativas (não leve a mal, pois não é nada pessoal, só que memórias de tropa e guerra de África não se contam entre os temas que mais me entusiasmam...) E no entanto... que boa surpresa! À medida que ia lendo, as imagens do que ia relatando desfilavam à minha frente como se estivesse a ver um filme - acho que isto quer dizer que escreve muito bem, não é? Melhor ainda, o filme era muito interessante. Só é pena vir em episódios, por isso não demore muito a publicar o próximo, OK?

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  2. Obrigado, Ana, pelo seu comentário que é também um incentivo a que procurarei corresponder, dentro das minha limitações.

    Se o conseguirei é outra história. Nestas coisas, nem sempre a inspiração aparece. Como presumo que sabe por experiência própria, ter ideias é uma coisa, conseguir transformá-las em texto é outra.

    Carlos

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