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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Acidente - Conclusão


Finda a comissão de serviço do Batalhão, o regresso a casa estava marcado para 28 de Fevereiro, e, tal como na ida para Angola, a viagem seria feita a bordo do “Vera Cruz”.

Não me recordo da data exacta da chegada do Batalhão a Luanda, mas julgo que terá tido lugar uma semana antes do embarque.

Entretanto, e depois de ter sido informado pelo advogado que referi no texto anterior, de que nada impedia o meu regresso juntamente com a minha Companhia, falei com o ortopedista do Hospital Militar, que também não levantou nenhum obstáculo de ordem clínica à viagem, devendo apenas dirigir-me em Lisboa ao Hospital Militar, para tirar o gesso, em meados de Março. Ficou combinado que me daria alta três dias antes do embarque.

Na tarde do dia da chegada do Batalhão ao Campo Militar do Grafanil, fui lá, não só para rever os meus camaradas (e fazer contas com o Rodrigues e com o Vaz, que tinham feito pagamentos por minha conta), mas também para me informar junto do alferes que estava a instruir os autos, sobre a data em que lhe convinha ouvir as minhas declarações, além de lhe sugerir o encontro com o advogado, a que também já me referi anteriormente.


Grafanil - Altar construído na base de um imbondeiro

Além disso, aproveitei para falar sobre a minha situação, quer com o primeiro-sargento Ramalho, quer com o capitão Carvalho, que me disseram, de forma taxativa, que eu não fazia parte da lista de embarque do Batalhão, em virtude de ter autos pendentes. Além disso, o capitão intimou-me a retirar da Companhia os meus pertences, que incluiam uma mala de porão.

Na CCS (Companhia de Comando e Serviços) do Batalhão, onde fora elaborada a lista de embarque, estavam colocados alguns tenentes muito experientes – tinham iniciado a sua vida militar como soldados, e foram subindo na escala hierárquica – e, julgava eu, conhecedores profundos dos meandros da legislação militar, com quem fui falar a seguir, mas que, apesar dessa sabedoria, consideravam igualmente que eu não podia embarcar.

Por outro lado, senti um clima de alguma hostilidade, tanto no comando da Companhia, como no comando da CCS. Como se eu fosse uma espécie de proscrito.

Regressei a Luanda de táxi com os meus sacos e malas, mas depois de os deixar no hotel, segui no mesmo táxi para casa do advogado, a quem relatei o que se tinha passado no Grafanil.

Acalmou-me, confirmando que, eventualmente, o meu nome podia não constar da lista do Batalhão, mas ele tinha-se assegurado de que constava da lista da 1ª Repartição do Quartel-General. Adiantou ainda que, se por qualquer baixa manobra dilatória dos meus “amigos” do Batalhão eu não embarcasse no dia 28, estaria à espera deles no Cais da Rocha, à chegada, porque ele tomaria as providências necessárias para que eu fizesse a viagem de avião nos primeiros dias de Março.


Luanda - Fortaleza de S. Miguel, vista da baía

Não deixava de ser uma perspectiva tentadora, mas eu queria muito ganhar aquela “guerra”, embarcando com os meus camaradas no dia 28.

Neste interim, prestei declarações nos autos e fiquei a saber que o condutor do jeep, tinha afirmado, mentindo no seu depoimento, que eu o obrigara a ceder-me o volante. Se vingasse essa tese, a minha situação, que já não era boa, ficaria seriamente complicada. Felizmente o testemunho dos outros dois ocupantes da viatura correspondendo à verdade dos factos, corroborava inteiramente a minha versão.

Dois ou três dias antes do embarque tive alta do Hospital, e o Depósito de Adidos passou a guia de marcha para me apresentar na minha Companhia. Chegado ao Grafanil, apresentei-me ao capitão Soares, que me disse que não valia a pena ter-me dado ao trabalho, porque a 28, enquanto o pessoal do Batalhão embarcava, eu voltaria a apresentar-me no Depósito de Adidos.

Nesse mesmo dia foram pagas as ajudas de custo de embarque, cujo valor, para a classe de sargentos, era de 3.000$00. O meu nome não constava na folha de pagamento.

Pouco depois da chegada, eu e os furriéis Miranda Dias, Mourão e creio que o Vaz, tínhamos alugado um Ford Cortina, para as nossas deslocações pela cidade. Com este aluguer poupei uma pipa de massa em táxis, porque naqueles últimos dias andei numa roda viva de um lado para o outro.

Na antevéspera do embarque, logo depois do almoço, o advogado deixou-me um recado no hotel a confirmar que eu ia mesmo embarcar. Como a bagagem de porão teria que ser colocada no cais de embarque na manhã do dia seguinte, véspera da partida, meti a mala na bagageira do Cortina e, como sempre com um deles a conduzir, fui levá-la ao Grafanil, para ser marcada e seguir, junto com as bagagens dos meus camaradas para o porto de Luanda. Não fui autorizado a deixar a mala porque o primeiro-sargento, na ausência do capitão Soares, insistiu que eu não iria embarcar.


Luanda - Capela do depósito de Adidos

Finalmente, na sexta-feira de manhã, os manda-chuvas do Batalhão e da Companhia, renderam-se à evidência: tinham perdido a “batalha” e eu ia mesmo embarcar. Ainda antes do almoço pagaram-me as ajudas de custo, mas já não podia pôr a minha mala junto com a bagagem de porão do pessoal da Companhia. Desforrei-me, talvez de forma indecente, mais tarde, em Lisboa, como poderão ler algumas linhas abaixo.

Nessa tarde andei numa roda viva. Levei a mala de porão ao cais, onde foi colocada a bordo, misturada com a bagagem de outra unidade, fiz compras, fui aos Correios mandar um telegrama para casa a confirmar que chegaria no dia 9 de Março a Lisboa, e fui pagar e agradecer ao advogado, que se revelara decisivo no apoio que me deu.

À noite, depois do jantar que ofereci a alguns camaradas mais chegados, voltei cedo para o hotel porque queria escrever algumas cartas a anunciar o meu regresso.

Estas cartas acabaram por ter um destino inesperado que só descobri quase dois anos depois, por acaso.

Como tinha de estar cedo no cais, sem tempo para esperar pela abertura dos Correios, pedi ao recepcionista do hotel que, mais tarde, mandasse um mandarete aos Correios comprar os selos e enviar as cartas. O custo total dos selos era de 12$50, e eu deixei 50$00, ficando o remanescente para beberem uma Cucas.

Quase dois anos depois, e por acaso, descobri que nenhuma das cartas fora enviada. O recepcionista e (ou) o mandarete, ficaram com os 50$00.


O navio Vera Cruz a chegar a Lisboa, transportando militares de regresso de África

O capitão Soares de Carvalho, que tinha ido comandar a nossa Companhia em rendição individual, ainda tinha ano e meio de comissão para cumprir, pelo que não regressou connosco. Antes do barco zarpar, promoveu uma reunião na sala de 2ª classe do “Vera Cruz” para se despedir dos sargentos da Companhia. Não compareci à reunião, mas o Vaz veio ter comigo à amurada, onde eu ia assistindo à azáfama do pessoal no cais, dizendo-me que o capitão me tinha mandado chamar para se despedir. Pedi-lhe que lhe transmitisse que se era uma ordem, eu iria, mas que, se não era, eu não estava interessado em me despedir dele. Não terá sido bonito, mas correspondia ao meu estado de espírito naquela ocasião. O Vaz não voltou, e mais tarde soube que ele tinha dito que não me tinha encontrado.

À chegada a Lisboa, o facto de eu não ir desfilar, por estar de braço engessado, serviu de pretexto para me encarregarem de superintender no carregamento das bagagens da Companhia, e do acompanhamento das camionetas até ao quartel do RAL 1, na Encarnação.

Como a descarga do navio ainda iria demorar, fui com alguns dos familiares e amigos almoçar ao Bonjardim, que à época servia os melhores frangos assados de Lisboa, e, quando voltei ao cais, a meio da tarde, a confusão era enorme (além de que não era nada fácil encontrar a minha mala, misturada com a bagagem de outra Companhia). Decidi então mandar regressar as camionetas ao quartel, adiando o levantamento da bagagem para o dia seguinte.


Esplanada do Restaurante Bonjardim

(Em 1967 não havia esplanada, nem sequer espaço para ela. A travessa era estreita, e passavam lá os carros eléctricos)

Quando cheguei ao RAL 1 a minha decisão não foi muito bem recebida, porque isso implicava que uma minoria, mais ou menos escolhida a dedo, residente longe de Lisboa, teria de ficar mais um dia na capital. Misturando ironia com algum cinismo (nunca disse que era perfeito), disse-lhes que pensava que iam gostar de ficar mais uma noite na civilização. Quanto aos outros, que me eram mais chegados, seguiram viagem para suas casas nesse dia, deixando-me os seus endereço. No dia seguinte, depois de voltar ao cais da Rocha para levantar bagagens, aluguei uma camioneta que transportou todas as suas malas e caixas do quartel para a estação de Santa Apolónia, onde as despachei.

Passadas duas semanas fui ao quartel pedir uma guia para ir ao Hospital da Estrela tirar o gesso. Porém, tive uma desagradável surpresa. Fizeram uma radiografia ao braço, que revelou que a intervenção em Luanda tinha sido mal feita. Em vez de reduzir correctamente a fractura, o ortopedista tinha sobreposto os ossos, deixando-os “acavalados” .

Resumindo, fui submetido a mais duas intervenções, com anestesia geral, fiz sessões de fisioterapia e acabei por ter alta onze meses depois, quando, farto do hospital, forcei a alta faltando às sessões de fisioterapia, que, de resto, quase ninguém levava a sério.

No Hospital Militar de Lisboa – Anexo de Campolide – conheci muitos camaradas evacuados dos vários teatros da guerra que, embora sobrevivendo aos ferimentos, tinham ficado seriamente estropiados. Muitos aguardavam pela viagem à Alemanha onde lhes seriam colocadas próteses; outros já tinham regressado, com próteses tão perfeitas, sobretudo nos membros inferiores, que lhes permitiam fazer uma vida quase normal, incluindo a condução automóvel.


Lisboa - Hospital Militar Principal, em foto recente

Em 23 de Fevereiro de 1968 fui a uma junta médica, que me deu alta. E foi assim que, quase 55 meses depois de ter assentado praça em Tavira, chegou ao fim a minha vida militar.

Quanto aos autos, acabaram por ter um fim de todo inesperado.

Em consequência da deslocação do papa Paulo VI a Fátima, em 13 de Maio de 1967, o Governo decretou uma amnistia geral. Nos termos dessa amnistia, os militares com autos pendentes em resultado de infracções que tivessem causado ao Estado um prejuízo de valor inferior a 3.000$00, veriam os seus autos arquivados, sem mais consequências. Nos casos em que o valor se situasse entre os 3.000$00 e os 6.000$00, os autos também seriam arquivados, desde que o infractor indemnizasse o Estado dentro de um determinado prazo.

Os danos que o desastre provocara no jeep eram, na opinião do furriel-mecânico Sousa, superiores a 15.000$00, o que me colocava fora da amnistia.

Ora, por um daqueles acasos que às vezes acontecem, tinha assumido o comando do Agrupamento do Serviço de Material de Luanda, para onde foi transportada a viatura danificada, para peritagem e posterior reparação, um oficial que eu conhecera em casa da família de uns amigos meus, de quem ele era também amigo.

Tendo tido conhecimento do que sucedera, esses amigos escreveram a esse oficial intercedendo a meu favor, e, provavelmente por sua influência, a peritagem considerou que do desastre tinham resultado danos na viatura no valor de 5.800$00. Isto é, os meus autos seriam arquivados se eu pagasse ao Estado 3.480$00. O que fiz, ficando desse modo livre de ir parar à Trafaria durante 30 dias, pelo menos.

Pode dizer-se que tive muita sorte. E, claro, fiquei com uma grande admiração pelo papa.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O Acidente - Parte II


Às primeiras horas da manhã do dia 4 de Fevereiro de 1967, aterrou na pista de aviação da CADA, na Boa Entrada, um pequeno avião que iria transportar-me para o Hospital Militar de Luanda. Para minha surpresa foi decidido que o João Magro, que, como contei no texto anterior, tinha sofrido um pequeno ferimento na cabeça, também seria evacuado, juntamente comigo. Mais tarde, viria a “descobrir” o motivo que levou à sua evacuação.


Na pista da Boa Entrada, esperava-me, além do DO 27 e da respectiva tripulação, uma luzida comissão de recepção, vinda de Novo Redondo, que era encabeçada pelo comandante da Companhia, capitão Carvalho. Surpreendeu-me que ele se tivesse dado ao incómodo de se levantar tão cedo, para fazer uma viagem de cerca de 90 quilómetros, preocupado com o meu estado de saúde (supunha eu, ingenuamente).


Boa Entrada - Hangar da pista da CADA

Porém, não era o meu estado de saúde a razão da viagem. De facto, o capitão Carvalho, quando saí da viatura que me transportava e enquanto era transportado na maca para o avião, não parou de me increpar de forma violenta. Cheio de dores, também não fui meigo na resposta, que não reproduzo, para manter a compostura (que na altura não guardei) do blogue, e que me poderia ter valido mais um auto a acrescentar aos três que já estavam a caminho.

Depois de uma viagem atribulada (enjoei o tempo todo), aterrámos em Luanda cerca das onze horas. Esperava-me uma ambulância que me fez chegar rapidamente ao hospital, onde, por ser sábado, não havia ortopedista de serviço permanente. Não foi possível contactar de imediato o médico que estava – isto é, que devia estar – de prevenção, em casa, mas que só compareceu no Serviço de Urgência depois do almoço. Soube, mais tarde, que tinha dado um salto à praia, e que só depois do regresso a casa para almoçar recebeu o recado para ir ao hospital. Parece incrível, mas foi assim mesmo. E, tanto quanto sei, sem quaisquer consequências.

Ainda hoje me recordo da agradável sensação que senti à medida que a anestesia – que antecedeu a intervenção destinada a pôr os ossos no lugar – me ia adormecendo.

Quando ao princípio da noite recuperei, perguntei ao médico, estupidamente, se tinha de ficar internado, ou se podia ir para o hotel, ficando em regime de consulta externa. Com a falta de camas que tinham quase sempre, respondeu-me que se não queria ficar no hospital não havia problema.

Saí do hospital, apanhei um táxi, e segui para o Hotel Luso. Durante a viagem para o hotel percebi que tinha feito asneira: a cada curva as dores que sentia – tinha o corpo cheio de nódoas negras – eram tão fortes, que não conseguia evitar algumas audíveis manifestações de desconforto.


Dornier 27 (aqui na pista de Lucunga) 

Ao chegar ao hotel o recepcionista, que já me conhecia, ficou espantado ao ver o meu estado lamentável. Além do braço ao peito, a minha cara, cheia de pensos e de mercurocromo, parecia uma máscara.

No dia seguinte, domingo, fiquei todo o dia no hotel.

Na segunda-feira, 6 de Fevereiro, voltei ao hospital para substituir os pensos, tendo depois ido apresentar-me na 1ª Companhia do Depósito de Adidos de Angola (DAA).

Como já escrevi aqui, os militares apresentados no DAA, deviam apresentar-se duas vezes por dia na secretaria da Companhia, além de entrarem na escala de serviço.

Quando cheguei à secretaria, entreguei ao primeiro-sargento, além da guia de marcha, um atestado médico determinando que, devido ao meu estado, não só ficava dispensado de fazer os serviços da escala, mas que também limitava as apresentações à parte da tarde, visto que todas as manhãs tinha de comparecer no hospital para tratamento.

O “nosso primeiro” ficou possesso porque, segundo ele, ninguém estava dispensado dos serviços, nem de se apresentar duas vezes por dia. Levantou-se, furioso, e foi para o gabinete do comandante com o atestado na mão. Voltou mais calmo, alguns minutos depois, dizendo que o “nosso capitão” aceitava o atestado, provisoriamente, mas que logo que apresentasse melhoras tinha de entrar na escala.

Era uma forma de salvar a face, porque, dessa vez, não fiz serviço nenhum durante o tempo que lá estive.

Entretanto, nessa segunda-feira, fui visitar o João à enfermaria, para saber como estava, e se precisava de alguma coisa. Estava óptimo, bem disposto e sem perceber muito bem o que estava ali a fazer.


Luanda - Hospital Militar

Na quarta-feira seguinte, estava na esplanada da Portugália a meio da tarde, quando um camarada me apresentou um primeiro-cabo que estava colocado no Serviço de Justiça do Quartel-General. Foi o que se chama um encontro com a sorte.

Era convicção geral, e minha também, que enquanto durasse a instrução dos três autos que me tinham sido instaurados, não poderia regressar a Lisboa, apesar de já ter terminado a comissão de serviço. Aliás, no DAA havia um grande número de militares que, findas as comissões, continuavam, alguns há mais de um ano, aguardando a conclusão de autos para embarcarem de volta.

O referido primeiro-cabo esclareceu-me que eu só não embarcaria na data prevista se, além dos autos que já tinham sido iniciados, fosse também instaurado um “auto de corpo de delito”, mas que isso só aconteceria se, em consequência do acidente, tivesse havido lesões em terceiros que implicassem hospitalização por um período igual ou superior a dez dias. Percebi nessa altura o motivo da ida do João Magro para o hospital.

Por outro lado, disse-me que trabalhava no Quartel-General com um alferes-miliciano, advogado, que a título particular, e por um preço pouco mais que simbólico, me podia dar o aconselhamento e o apoio de que eu necessitasse.

Pedi-lhe que me marcasse um encontro com esse advogado, e a seguir apanhei um táxi para o hospital, onde falei com o João, explicando-lhe que se ele não tivesse alta até ao fim-de-semana, eu não embarcaria. Ele respondeu-me que se sentia bem e que iria pedir alta no dia seguinte, o que fez realmente, tendo regressado à Gabela na sexta-feira. Estava livre do “corpo de delito”.


Luanda - Quartel-General 

No dia seguinte, ao fim da tarde, encontrei-me com o advogado, que residia com a esposa numa pequena moradia à saída de Luanda, já na estrada para o Grafanil. Confirmou que sem “auto de corpo de delito” não havia impedimento legal ao meu regresso, sem prejuízo da continuação dos trâmites legais que teriam lugar já em Lisboa. Foi-me dizendo que naquelas circunstâncias era difícil evitar uma punição disciplinar, mas que iria contactar um colega colocado no Ministério do Exército, que se encarregaria do caso, de forma a minimizar ao máximo a minha responsabilidade. Ainda assim achava que eu talvez tivesse de ficar detido por 30 dias, desde que no auto me comprometesse a indemnizar o Estado pelos prejuízos causados na viatura.

Além disso, instruiu-me sobre o teor das declarações que eu devia prestar quando inquirido pelo “oficial de justiça” nomeado, o que só iria ter lugar quando o Batalhão viesse para Luanda, poucos dias antes do embarque, sugerindo que, se o referido oficial concordasse, o levasse lá a casa para lhe dar algumas pistas legais sobre a forma mais correcta de conduzir os autos.

Entretanto, no local do acidente era efectuada a peritagem destinada a esclarecer as causas do sinistro, bem como a atribuição de responsabilidades. Nestes casos os “peritos” eram escolhidos entre os militares graduados da Companhia, bastando que tivessem carta de condução, mesmo que a experiência não fosse muita.

Na circunstância, foram nomeados os meus camaradas Rodrigues e Vaz, que tinham feito exame de condução algum tempo antes, na Gabela. Generosos, juntaram aos autos um relatório em que me atribuíam 15% de responsabilidade, pertencendo os restantes 85% às más condições do piso. O capitão Carvalho desatinou com estas conclusões, chamou-os e, ameaçando-os com procedimento disciplinar, obrigou-os a alterarem as conclusões do relatório. Refeita a peritagem, fiquei com 60% de responsabilidade.


Luanda - Cinema Império

Ainda na Gabela, quer o Rodrigues, quer o Vaz, que para me apoiar veio algumas vezes de Novo Redondo, aproveitando o facto de, sendo vago-mestre, ter algumas facilidades para se deslocar, iam tratando dos meus problemas logísticos.

No quartel, tinham ficado quase todos os meus pertences que eles se encarregaram de recolher e acondicionar numa mala de porão, que compraram a meu pedido. Regularizaram também as minhas contas, quer no hotel onde tomava as refeições, quer com a lavadeira.

Mandaram-me também a notícia digna de nota, e que eu não esperava, de que o Sr. Bernardes, proprietário da escola de condução, tinha ido ao quartel devolver parte da quantia que eu pagara, alegando que não tinha chegado a fazer exame. Não sei se haveria muita gente que, na mesma situação, tivesse o mesmo gesto.

Em Luanda, eu continuava a minha recuperação. Nos lugares públicos, era alvo da curiosidade geral (não tanto pelo braço engessado, mas sobretudo pelo rosto cheio de compressas e adesivos), de tal forma que no fim de semana seguinte, em pleno Carnaval, fui protagonista de alguns equívocos, como o daquela senhora que, no Cinema Império, veio ter comigo, felicitando-me pela originalidade da máscara que eu tinha escolhido.

Mas a saga iria continuar. Disso darei conta no próximo texto.

domingo, 24 de julho de 2011

Uma soneca dispendiosa


Avião da DTA a levantar voo no Aeroporto de Luanda 


Muitos militares mobilizados para Angola – sobretudo oficiais e sargentos (neste caso, sobretudo milicianos, que os sargentos do quadro, geralmente já com responsabilidades familiares, queriam fazer poupanças) – aproveitavam os 30 dias de férias anuais para, pelo menos uma vez durante a comissão, viajar para Portugal, a fim de matarem saudades de familiares, namoradas, madrinhas de guerra e amigos, não necessariamente por esta ordem.

Havia uma agência em Luanda – a Confabril, do Grupo CUF – que se especializou na venda de passagens, com facilidades de pagamento, e onde quase todos comprávamos as nossas viagens.

Quem vinha de férias para o “puto”, gozava sempre mais do que os 30 dias da ordem, porque o período de licença começava a contar na data do embarque em Luanda, terminando, se a memória não me falha, no dia em que desembarcava no mesmo Aeroporto. O tempo da viagem desde o quartel até Luanda, e a estadia naquela cidade até ao embarque, não contavam.

Quem queria gozar mais uns dias em Luanda, marcava as férias de forma a que o período entre a data da chegada a Luanda do voo de ligação da DTA, que fazia as rotas internas, e a data do embarque para Lisboa, fosse o mais dilatado possível. Este truque também funcionava aquando do regresso, claro.

Quando a escala de férias das Companhias era mais “apertada”, a artimanha era outra, só funcionava no regresso de férias, e custava dinheiro.

Toda a gente, ou quase toda, sabia que adiantando umas notas ao funcionário certo da DTA (e se fossem notas do Banco de Portugal, em vez das do Banco de Angola, melhor), ele punha um carimbo no passaporte indicando que o voo onde o interessado pretendia viajar estava esgotado. Porém, o tal funcionário só aceitava entrar neste esquema uma única vez por viajante.



Nota do Banco de Angola



Vem esta introdução a propósito de um episódio vivido, em Setembro de 1965, pelos alferes Pereira e Salazar Leite (médico), e pelo furriel Vaz, que regressaram de férias no mesmo voo, e que deviam viajar no avião da DTA, para o Toto (de onde seguiriam para Lucunga por via rodoviária) no dia seguinte ao da chegada a Luanda.

Como queriam ficar mais uns dias em Luanda (os voos para o Toto realizavam-se à terça e quinta-feira), avançaram com a quantia “tabelada” para o bolso do funcionário, e viram averbado o desejado carimbo, que lhes dava uns dias de férias extra.

Na véspera do embarque, que já não podiam falhar, despediram-se da animada noite de Luanda, regressando ao Hotel Luso, onde estavam hospedados, já os relógios marcavam três horas da madrugada, tendo, no entanto, o cuidado de pedir ao funcionário da recepção - o sempre prestável Manuel – que os acordasse às seis horas em ponto (e mesmo assim tinham que se apressar). Para não perderem tempo pela manhã, tomaram duche e vestiram a farda com que seguiriam viagem, antes de se deitarem. De manhã, era só lavar os olhos ainda ensonados, e ala para o Aeroporto.

O primeiro a acordar, que já não me lembro qual foi, ficou varado quando olhou para o relógio e viu que eram seis horas e vinte minutos. Foi acordar os outros, desceram à recepção, onde o Manuel dormia o sono dos justos, deram-lhe uma descasca rápida, que não havia tempo a perder, e meteram-se num táxi para o Aeroporto, de onde o avião havia de descolar, às sete horas.

E descolou, que eles ainda o viram a ganhar altura, quando sairam do táxi.



O pequeno avião estacionado na pista do Aeroporto de Luanda poderia ser o táxi aéreo referido neste texto


Conhecendo o comandante de Companhia – capitão Rubi Marques – que já devia estar fulo por não se terem apresentado na data devida, não faltou muito para entrarem em pânico. Sobretudo o alferes Pereira e o furriel Vaz; o alferes-médico Salazar Leite, embora também estivesse preocupado, talvez fosse o mais calmo por “beneficiar" de um estatuto especial. E foi ele quem sugeriu que alugassem um táxi aéreo, que os levaria directamente até à pista de Lucunga.


Embora cientes de que a sua bolsa levaria um rombo significativo, quer o furriel Vaz, quer o alferes Pereira, concordaram que era a melhor solução. E lá seguiram num pequeno teco-teco de quatro lugares, que aterraria em Lucunga cerca de duas horas mais tarde.

Mas nem o avultado “prejuizo” dos três acalmou o capitão Rubi Marques, que os presenteou com uma monumental descompostura (talvez também com a ameaça do célebre "auto das passas"), como só ele era capaz de proporcionar quando tinha que descascar em alguém. 

Os meus camaradas da Cart 738 sabem do que falo.

Nota final: Esta “estória” - de que todos tivemos conhecimento, na altura em que aconteceu – foi-me contada pormenorizadamente mais tarde, quer pelo furriel Vaz, quer pelo alferes Pereira, em ocasiões diferentes. Prometi que a contaria aqui. Infelizmente não cumpri a promessa a tempo de ser lida pelo Vaz. E lamento-o. Não por ele não a ter lido, que não perdeu grande coisa, mas por nos ter deixado tão prematuramente.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A Caminho da Gabela


Luanda - Cruzamento do Polo Norte

Quando iniciei este blogue, não tinha intenção de seguir uma ordem cronológica, semelhante à que nos habituámos a ver num diário (que nunca tive). Verifico, porém, que à excepção do post em que falo da inauguração da Casa do Soldado no quartel da Gabela, tenho contado, sobretudo, episódios que tiveram lugar em Lucunga.

Chegou a altura de dedicar mais atenção às histórias da Gabela (e arredores).

Tanto quanto me recordo, foi com surpresa que recebi (creio que no princípio de 1966), a notícia de que o nosso Batalhão iria ser transferido para o distrito do Quanza-Sul, onde o Comando ficaria instalado na capital da província – Novo Redondo, que passou a chamar-se Sumbe depois de 1975, a CArt 738 na Gabela, a Cart 739 no Calulo e a Cart 740 em Santa Comba (Colonato da Cela), que actualmente se chama Waku Kungo.


Forte da Quibala

A minha surpresa - e a de outros camaradas -, baseava-se no facto de se saber que o comando do Batalhão tinha proposto que a haver mudança, esta se fizesse para outra região da ZIN (Zona de Intervenção Norte), onde oficiais e sargentos continuariam a receber um subsídio de risco no valor de 20% sobre a retribuição mensal, além de terem direito a alojamento e alimentação, o que não acontecia se fossemos (como fomos) para uma zona sem guerra.

Toda a gente sabia que para muitos militares as comissões de serviço em África constituiam uma forma de fazer um razoável pé-de-meia, e no Norte de Angola quem estava no comando dos Batalhões corria um risco diminuto, em comparação com as unidades operacionais. Isso ajuda a explicar a proposta para que continuássemos em zona de guerra.


Vista panorâmica do Colonato da Cela

Com o que o comando não contava era que, em Lisboa, o pai de um dos oficiais tivesse influência bastante para colocar o Batalhão numa zona calma, onde a família do filho se lhe pudesse juntar. Mas foi o que aconteceu.

A generalidade do pessoal recebeu a notícia da mudança para o Sul com enorme alegria. Tanto eu, como os camaradas que me estavam mais próximos ficámos radiantes. Embora pudessemos ter feito algumas poupanças, preferíamos, de longe, a segurança a maiores proveitos.

Se a memória não me atraiçoa, saímos de Lucunga, na sexta-feira, 18 de Fevereiro, e chegámos nesse dia à noite a Luanda, onde ficámos até segunda-feira, 21.

A maior parte do pessoal não tinha voltado à cidade desde que em Janeiro do ano anterior tinhamos partido para Lucunga. Os oficiais e sargentos tinham direito a cinco dias de licença de três em três meses (que no nosso caso dava quase sempre uma semana, jogando com os horários das ligações aéreas), mas nem todos aproveitavam, devido ao custo das viagens e da estadia.




Alexandre (CArt 740) e Fonseca, na Fortaleza de S. Miguel 
(Ao fundo a baía de Luanda)

O fim-de-semana que ali passámos, foi aproveitado para matar saudades das mordomias que uma cidade evoluida como Luanda já era então, proporcionava.

Desta vez não se falou na obrigatoriedade de permanecer no Grafanil. Tinhamos mudado de comandante de Companhia, que era, então, o capitão de Infantaria Hélio Xavier (que, segundo notícias que tive recentemente vive, de boa saúde, em Lagos, onde se dedica à pintura). Era um homem de trato agradável, mais flexível em questões de disciplina do que estávamos habituados, e, embora os princípios instituidos pelo capitão Rubi Marques se mantivessem (felizmente), o dia-a-dia era mais distendido.


Quibala-Sul

Fiquei, como das últimas vezes, no familiar e acessível Hotel Luso.

Aproveitámos para o circuito do costume: cinemas, cervejarias, “boites”, etc. A ocasião serviu também para eu fazer contas e pagar o que devia na Papelaria/Livraria da Marechal Carmona, que durante a minha permanência em Lucunga me enviava “A Bola” (que acabava desfeita depois de passar por tantas mãos), bem como os livros que ia encomendando.

Recarregadas as baterias, a longa coluna partiu, rumo ao Quanza-Sul, na manhã de 21. A CArt 739 foi a primeira a abandonar a coluna, por alturas de Munenga, para seguir em direcção ao Calulo, onde ficaria aquartelada. As restantes unidades seguiram até à Quibala-Sul, onde teria lugar o almoço.


Rua da Gabela, com a Igreja de Santa Isabel, ao fundo

Aqui, é a oportunidade para o relato de um episódio que, na altura, eu e muitos dos meus camaradas mais próximos achámos que era um exemplo de sovinice.

Apesar de nos ter sido fornecido o almoço, em forma de ração de combate (de que estávamos fartos e que detestávamos), uma grande parte do pessoal miliciano abancou nos restaurantes, almoçando e pagando uma refeição feita na hora. Para minha surpresa e dos que me acompanhavam, ao passarmos na zona que dava acesso à sala de refeições do restaurante que escolhemos, constatámos que uma grande parte dos oficiais da CCS e do comando do Batalhão – incluindo os “altos comandos” -, apesar de auferir retribuições muito superiores às nossas, tinha abancado nas mesas do café, alimentando-se com as rações de combate que tinham sido distribuidas.

Mais tarde percebi que era apenas mais uma forma de fazer poupanças. Já bastava a diminuição dos rendimentos, que tinha começado nessa mesma data.

Depois do almoço deu-se nova divisão na coluna. A Cart 740 prosseguiu viagem pela estrada Luanda/Nova Lisboa, até Santa Comba, o seu destino final, enquanto o comando do Batalhão, a CCS e a Cart 738, desviavam para a estrada que levaria atè à Gabela e a Novo Redondo.


Vista panorâmica de Porto Amboim

Perto do fim da tarde chegámos à Gabela, onde se instalaram três pelotões da CArt 738. O 4º pelotão, sob o comando do alferes-miliciano Sebastião Fagundes, prosseguiu viagem para Porto Amboim (com uma praia fantástica), onde ficaria até ao fim da comissão, enquanto o comando de Batalhão e a CCS, continuaram até Novo Redondo, onde permaneceram até Dezembro desse ano, altura em que mudaram para o Lobito.

As razões, bem como as peripécias dessa mudança, ficam para outra ocasião.


domingo, 3 de abril de 2011

Novas de Toronto


Na varanda do "meu" quarto no Hotel Luso, no fim-de-semana que o pessoal do BArt 741 passou em Luanda (19 e 20 de Fevereiro de 1966) a caminho da Gabela

Da esq. para a dta.: Vaz, Fonseca, Azevedo e Morais Soares

Quando o meu telemóvel tocou no dia 25 de Março, depois do jantar, pensei que era mais uma chamada de parabéns pelo meu aniversário. Quando no visor apareceu o nome do Silva Pereira, fiquei surpreendido porque não via como podia ele ter conhecimento da efeméride.

Não tinha, de facto, mas nem por isso aquele telefonema deixou de constituir uma saborosa prenda, pois a surpresa que ele tinha para mim era muito boa. Comunicou-me que acabara de manter uma conversa telefónica com o Edgardo Morais Soares, que foi furriel-miliciano de transmissões na CArt 738, e de quem eu nada sabia desde que, há 44 anos, nos despedimos em Lisboa e ele regressou à ilha de S. Miguel, onde nasceu. Nem sabia eu, nem sabia nenhum dos outros antigos camaradas com quem contacto mais ou menos frequentemente.

O Morais Soares chegara até ao Silva Pereira através do blogue do Batalhão, que lhe serviu também de caminho para este blogue.


Na véspera do Natal, em 1966, durante a inauguração da "Casa do Soldado", construída pelos militares da CArt 738 no quartel da Sétima, na Gabela, com o patrocínio das senhoras do MNF da Gabela

Sentados da esq. para a dta.: Nunes da Silva, Vaz, Sousa, Fonseca, Ferreira da Silva, Ramalho  (também conhecido por "O Maravilhas") e um agente da PIDE, cujo nome não recordo.
De pé, pela mesma ordem: Azevedo e Morais Soares

Entretanto, e depois de uma troca de mensagens por correio electrónico, o Morais Soares telefonou-me e durante cerca de uma hora, que passou célere, tivemos uma animada conversa com alguns momentos de mútua emoção.

Tal como tinha planeado, e falámos disso algumas vezes durante a nossa comissão em Angola, o Morais Soares emigrou para o Canadá em 1968, onde, se a memória não me falha, já residia parte da família da esposa.

Durante todo este tempo o único militar da nossa Companhia com quem contactou foi o 1º cabo do 4º pelotão, Euclides Morais, que também emigrou para aquele país, e com quem se encontrou pela primeira vez, por acaso, em Toronto, onde reside (e onde supõe que o Euclides ainda resida, porque já não o vê há algum tempo).


Jogo de Andebol entre as equipas da CArt 738 e um misto de alunos do Colégio Infante de Sagres e da Escola Industrial e Comercial da Gabela

O Morais Soares foi o árbitro e está ao centro, trajando calças e camisa.

Foi agradável reviver com ele alguns episódios que partilhámos naqueles dois longínquos anos, bem como constatar que a sua memória se mantém em grande forma. Quis saber o que era feito de todos os oficiais e sargentos da Companhia, mencionando os nomes da cada um, tendo identificado quase todos os que estiveram presentes no último almoço, apesar das nossas fisionomias não esconderem a erosão do tempo. Claro que só pude informá-lo acerca daqueles que, de uma forma ou de outra, vão dando sinais de vida.

Mas a melhor das suas revelações foi a firme intenção de estar presente no almoço do próximo ano, em que comemoraremos o 45º aniversário da nossa chegada a Lisboa.


P.S. - Pareceu-me importante dar a notícia do regresso do Morais Soares ao nosso convívio (por enquanto virtual) a todos os que de 1965 a 1967 com ele partilharam o dia-a-dia.

Por esse motivo, o texto que planeava publicar hoje, fica adiado para um dos próximos dias.