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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

CISMI - TAVIRA


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Fujo hoje ao tema deste blogue, que consiste, como sabe quem o frequenta habitualmente, no relato de pequenas histórias vividas durante a comissão de serviço que fiz em Angola de 1965 a 1967. Resolvi fazê-lo, em primeiro lugar, porque esta é também a história de como tudo começou. Em segundo lugar, porque me dá a oportunidade de referir as circunstâncias em que, por uma curiosa coincidência, ouvi falar pela primeira vez no primeiro comandante do Batalhão de Artilharia 741.

Tinha planeado publicar este texto em 9 de Agosto último, data em que se completaram 48 anos sobre a data em que me apresentei no CISMI (Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria), em Tavira, para iniciar o cumprimento do meu serviço militar obrigatório, que viria a terminar em 23 de Fevereiro de 1968, mais de quatro anos e meio depois.

Porém, encontrando-me naquela data ausente da minha residência habitual, concluí, tarde demais, que embora tivesse copiado para uma pen os ficheiros de que iria necessitar, tinha falhado a cópia da fotografia do meu pelotão da recruta, que considero ser um testemunho indispensável.

Na referida fotografia, que encima este post, estão os soldados-instruendos (também havia quem nos chamasse “soldados-milicianos”) que faziam parte do 2º pelotão, da 3ª Companhia.

Não me recordo do nome de todos (nem ando lá perto) e, para agravar a situação, lembro-me de nomes que não consigo ligar a nenhum destes rostos. Dos esquecidos destaco, lamentando o meu esquecimento, o Alberto Villaverde Cabral, não por ter sido uma figura pública com largo destaque na Comunicação Social a seguir ao 25 de Abril de 1974, mas por pertencer ao grupo que me era muito próximo.

Outro dos meus amigos “tavirenses” era o jovem que na foto aparece identificado com o nº 20. Respondia pelo nome de Mário Cabrita Gil (era fanático do “braço de ferro”, que praticávamos numa das longas mesas existentes no corredor da caserna), e nenhum de nós imaginava que o pai dele, de quem raramente falava, mas o suficiente para eu saber quem ele era, viria a ser o primeiro comandante do meu Batalhão, em Angola.

O Cabrita Gil saiu de Tavira no fim da recruta porque, para suprir a falta de oficiais, o Exército seleccionava os que mais se distinguiam - quer pelo aproveitamento teórico e desempenho físico, quer pela chamada “aptidão militar” - na recruta do Curso de Sargentos Milicianos, para frequentarem o Curso de Oficiais Milicianos. Creio que dos cerca de 900 recrutas do meu Curso não terão sido escolhidos mais de 20. Desses, dois pertenciam ao meu pelotão: o Cabrita Gil, e o jovem que identifico com o nº 32, um portuense cujo nome não recordo.


Tenente-Coronel Cabrita Gil

(Foto "rapinada" ao blogue do Batalhão)

A má língua da caserna (que aparece sempre nestas alturas, invariavelmente acompanhada pela inveja), murmurava que o Cabrita Gil tinha sido escolhido por influência do pai, e não por mérito próprio. Julgava então, e continuo a julgar hoje, que qualquer dos dois camaradas escolhidos o foram por mérito pessoal absoluto, não tendo havido qualquer espécie de favoritismo na sua selecção.

Depois de terminada a recruta, cada um foi à sua vida e não voltei a ter notícias do Mário, o que quer dizer que nunca pude devolver-lhe o livro de Almeida Garrett que me emprestara, e que não aceitou que lhe devolvesse, porque ainda não terminara a leitura. Ficava para depois, quando nos encontrássemos, dizia ele. Não houve depois, porque nunca mais o vi.

O nº 2 da fotografia é o Vacas (de Carvalho?), um jovem de Montemor-o-Novo que era pegador de touros no Grupo de Forcados da terra, e tinha fotos do Grupo que o comprovavam. Mas o Matos (nº 10) ,que era lá da zona, dizia, achávamos que para se meter com ele, que ele só se vestia de forcado para tirar o retrato.

Com o nº 5 na foto está o Carvalho, que logo no primeiro dia me perguntou se eu não tinha um aloquete a mais. Sabia lá eu que um aloquete era o mesmo objecto a que eu chamava cadeado! Mais tarde, em Janeiro de 1965, fizemos uma festa quando nos reencontrámos em Angola, na Missão do Bembe.

Os nºs. 6 e 7 são os casapianos Olivério e Vítor, respectivamente.

Uma tarde, estávamos na esplanada do Imperial e eu tinha acabado de escrever uma carta, quando o Vítor me disse que eu devia gostar muito de escrever cartas, porque passava a vida a fazê-lo. O que lhe dava jeito, dizia ele, sem saber no que se metia, era que lhe escrevesse uma carta para a namorada, já que ele estava em falta e cheio de preguiça. Eu disse que o faria, mas que ela iria ver que não era a letra dele. “Escreve em maiúsculas”, respondeu ele. “Tudo bem”, retorqui, “mas tu não lês o que eu vou escrever”. “Quero lá saber!”

E eu escrevi. Passados quatro ou cinco dias veio ter comigo com uma encomenda postal na mão, a perguntar que raio é que eu tinha escrito, porque a namorada lhe tinha mandado um pacote com 20 maços de cigarros e uma nota de cinquenta escudos. Pagou-me o jantar no “Sofrutos”, que não era caro e onde se comia bom peixe.


O Quartel de Tavira, continua hoje como era há 48 anos. Mas já não é o CISMI. Hoje é o Regimento de Infantaria nº 1 (quase sem guarnição, ao que me dizem)

(Foto de António Alba)

O 8 era o Carlos Aparício (um viseense que era afilhado de um escritor que eu muito admirava, e admiro: Aquilino Ribeiro), artista de rara sensibilidade, que fez o meu retrato a carvão. Está de sapatilhas porque tinha ido a “doentes” , por ter bolhas de água nos pés (ir a “doentes”, muitas vezes era feito apenas para nos baldarmos aos extenuantes exercícios de Aplicação Militar. Mas, em contrapartida, doente ou não, ficava-se cinco dias a “convalescer”, sem poder sair do quartel).

O nº 12 era o Manuel Palma. Alentejano de Corte do Pinto (Mértola), residia com os pais em Campo de Ourique e, nesse 9 de Agosto, tinha família e amigos a despedirem-se dele no cais da Estação de Sul e Sueste. Quando vi tanta gente a despedir-se, cheguei ao pé dele e perguntei-lhe: “É pá, se isto é assim quando ainda só vais para Tavira, como é que vai ser quando fores para África?”

Ficámos unha com carne durante todo o Curso. Com uma nota relativamente baixa, embarcou para África em Abril ou Maio de 1964 (ele dizia que tinha feito de propósito – quem tinha notas baixas era mobilizado primeiro -, porque quanto mais depressa fosse para a guerra, mais depressa se despachava. Se calhar tinha razão; o que não lhe deu muito jeito foi ter amargado como amargou na Guiné).

O nº 13 sou eu.

Na fila do meio, além do Cabrita Gil, só consigo identificar o 21. Era o Carlos, de Meda, que na altura era professor primário em Murça.

Na fila de cima, com o nº 28 está o Alonso. Era um jovem endinheirado, de Vila Nova de Foz Coa, que de vez em quando alugava um táxi para ir ver a família.

Durante um exercício de campo, alguns de nós, entre os quais o Alonso, saltámos um muro para ir a um pomar apanhar laranjas, antes que apodrecessem. Despassarado como era, só quando chegou ao quartel é que o Alonso deu pela falta da baioneta, o que constituia uma falta grave. À noite, fomos em dois táxis, pagos por ele, e munidos com lanternas eléctricas, para o pomar, à procura da baioneta, que encontrámos, juntamente com mais algumas laranjas.

O comandante e instrutor do pelotão, aspirante (seria promovido a alferes pouco tempo depois) Silvério Jónatas, tem o nº 33. Já com o posto de major, andou nas páginas dos jornais pelo papel que teve em Timor, em 1975, durante as disputas entre a Fretilin e a UDT, e que lhe valeu uma precoce passagem à reserva.

À sua esquerda com o nº 34, o furriel-miliciano Moreira, monitor, que tinha uma paciência de santo para as nossas garotices.

Como se chamam os “esquecidos”? O que fazem hoje?

Não deixava de ter piada que alguns aqui viessem ter, de pára-quedas, e me respondessem.


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