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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O Acidente - Parte II


Às primeiras horas da manhã do dia 4 de Fevereiro de 1967, aterrou na pista de aviação da CADA, na Boa Entrada, um pequeno avião que iria transportar-me para o Hospital Militar de Luanda. Para minha surpresa foi decidido que o João Magro, que, como contei no texto anterior, tinha sofrido um pequeno ferimento na cabeça, também seria evacuado, juntamente comigo. Mais tarde, viria a “descobrir” o motivo que levou à sua evacuação.


Na pista da Boa Entrada, esperava-me, além do DO 27 e da respectiva tripulação, uma luzida comissão de recepção, vinda de Novo Redondo, que era encabeçada pelo comandante da Companhia, capitão Carvalho. Surpreendeu-me que ele se tivesse dado ao incómodo de se levantar tão cedo, para fazer uma viagem de cerca de 90 quilómetros, preocupado com o meu estado de saúde (supunha eu, ingenuamente).


Boa Entrada - Hangar da pista da CADA

Porém, não era o meu estado de saúde a razão da viagem. De facto, o capitão Carvalho, quando saí da viatura que me transportava e enquanto era transportado na maca para o avião, não parou de me increpar de forma violenta. Cheio de dores, também não fui meigo na resposta, que não reproduzo, para manter a compostura (que na altura não guardei) do blogue, e que me poderia ter valido mais um auto a acrescentar aos três que já estavam a caminho.

Depois de uma viagem atribulada (enjoei o tempo todo), aterrámos em Luanda cerca das onze horas. Esperava-me uma ambulância que me fez chegar rapidamente ao hospital, onde, por ser sábado, não havia ortopedista de serviço permanente. Não foi possível contactar de imediato o médico que estava – isto é, que devia estar – de prevenção, em casa, mas que só compareceu no Serviço de Urgência depois do almoço. Soube, mais tarde, que tinha dado um salto à praia, e que só depois do regresso a casa para almoçar recebeu o recado para ir ao hospital. Parece incrível, mas foi assim mesmo. E, tanto quanto sei, sem quaisquer consequências.

Ainda hoje me recordo da agradável sensação que senti à medida que a anestesia – que antecedeu a intervenção destinada a pôr os ossos no lugar – me ia adormecendo.

Quando ao princípio da noite recuperei, perguntei ao médico, estupidamente, se tinha de ficar internado, ou se podia ir para o hotel, ficando em regime de consulta externa. Com a falta de camas que tinham quase sempre, respondeu-me que se não queria ficar no hospital não havia problema.

Saí do hospital, apanhei um táxi, e segui para o Hotel Luso. Durante a viagem para o hotel percebi que tinha feito asneira: a cada curva as dores que sentia – tinha o corpo cheio de nódoas negras – eram tão fortes, que não conseguia evitar algumas audíveis manifestações de desconforto.


Dornier 27 (aqui na pista de Lucunga) 

Ao chegar ao hotel o recepcionista, que já me conhecia, ficou espantado ao ver o meu estado lamentável. Além do braço ao peito, a minha cara, cheia de pensos e de mercurocromo, parecia uma máscara.

No dia seguinte, domingo, fiquei todo o dia no hotel.

Na segunda-feira, 6 de Fevereiro, voltei ao hospital para substituir os pensos, tendo depois ido apresentar-me na 1ª Companhia do Depósito de Adidos de Angola (DAA).

Como já escrevi aqui, os militares apresentados no DAA, deviam apresentar-se duas vezes por dia na secretaria da Companhia, além de entrarem na escala de serviço.

Quando cheguei à secretaria, entreguei ao primeiro-sargento, além da guia de marcha, um atestado médico determinando que, devido ao meu estado, não só ficava dispensado de fazer os serviços da escala, mas que também limitava as apresentações à parte da tarde, visto que todas as manhãs tinha de comparecer no hospital para tratamento.

O “nosso primeiro” ficou possesso porque, segundo ele, ninguém estava dispensado dos serviços, nem de se apresentar duas vezes por dia. Levantou-se, furioso, e foi para o gabinete do comandante com o atestado na mão. Voltou mais calmo, alguns minutos depois, dizendo que o “nosso capitão” aceitava o atestado, provisoriamente, mas que logo que apresentasse melhoras tinha de entrar na escala.

Era uma forma de salvar a face, porque, dessa vez, não fiz serviço nenhum durante o tempo que lá estive.

Entretanto, nessa segunda-feira, fui visitar o João à enfermaria, para saber como estava, e se precisava de alguma coisa. Estava óptimo, bem disposto e sem perceber muito bem o que estava ali a fazer.


Luanda - Hospital Militar

Na quarta-feira seguinte, estava na esplanada da Portugália a meio da tarde, quando um camarada me apresentou um primeiro-cabo que estava colocado no Serviço de Justiça do Quartel-General. Foi o que se chama um encontro com a sorte.

Era convicção geral, e minha também, que enquanto durasse a instrução dos três autos que me tinham sido instaurados, não poderia regressar a Lisboa, apesar de já ter terminado a comissão de serviço. Aliás, no DAA havia um grande número de militares que, findas as comissões, continuavam, alguns há mais de um ano, aguardando a conclusão de autos para embarcarem de volta.

O referido primeiro-cabo esclareceu-me que eu só não embarcaria na data prevista se, além dos autos que já tinham sido iniciados, fosse também instaurado um “auto de corpo de delito”, mas que isso só aconteceria se, em consequência do acidente, tivesse havido lesões em terceiros que implicassem hospitalização por um período igual ou superior a dez dias. Percebi nessa altura o motivo da ida do João Magro para o hospital.

Por outro lado, disse-me que trabalhava no Quartel-General com um alferes-miliciano, advogado, que a título particular, e por um preço pouco mais que simbólico, me podia dar o aconselhamento e o apoio de que eu necessitasse.

Pedi-lhe que me marcasse um encontro com esse advogado, e a seguir apanhei um táxi para o hospital, onde falei com o João, explicando-lhe que se ele não tivesse alta até ao fim-de-semana, eu não embarcaria. Ele respondeu-me que se sentia bem e que iria pedir alta no dia seguinte, o que fez realmente, tendo regressado à Gabela na sexta-feira. Estava livre do “corpo de delito”.


Luanda - Quartel-General 

No dia seguinte, ao fim da tarde, encontrei-me com o advogado, que residia com a esposa numa pequena moradia à saída de Luanda, já na estrada para o Grafanil. Confirmou que sem “auto de corpo de delito” não havia impedimento legal ao meu regresso, sem prejuízo da continuação dos trâmites legais que teriam lugar já em Lisboa. Foi-me dizendo que naquelas circunstâncias era difícil evitar uma punição disciplinar, mas que iria contactar um colega colocado no Ministério do Exército, que se encarregaria do caso, de forma a minimizar ao máximo a minha responsabilidade. Ainda assim achava que eu talvez tivesse de ficar detido por 30 dias, desde que no auto me comprometesse a indemnizar o Estado pelos prejuízos causados na viatura.

Além disso, instruiu-me sobre o teor das declarações que eu devia prestar quando inquirido pelo “oficial de justiça” nomeado, o que só iria ter lugar quando o Batalhão viesse para Luanda, poucos dias antes do embarque, sugerindo que, se o referido oficial concordasse, o levasse lá a casa para lhe dar algumas pistas legais sobre a forma mais correcta de conduzir os autos.

Entretanto, no local do acidente era efectuada a peritagem destinada a esclarecer as causas do sinistro, bem como a atribuição de responsabilidades. Nestes casos os “peritos” eram escolhidos entre os militares graduados da Companhia, bastando que tivessem carta de condução, mesmo que a experiência não fosse muita.

Na circunstância, foram nomeados os meus camaradas Rodrigues e Vaz, que tinham feito exame de condução algum tempo antes, na Gabela. Generosos, juntaram aos autos um relatório em que me atribuíam 15% de responsabilidade, pertencendo os restantes 85% às más condições do piso. O capitão Carvalho desatinou com estas conclusões, chamou-os e, ameaçando-os com procedimento disciplinar, obrigou-os a alterarem as conclusões do relatório. Refeita a peritagem, fiquei com 60% de responsabilidade.


Luanda - Cinema Império

Ainda na Gabela, quer o Rodrigues, quer o Vaz, que para me apoiar veio algumas vezes de Novo Redondo, aproveitando o facto de, sendo vago-mestre, ter algumas facilidades para se deslocar, iam tratando dos meus problemas logísticos.

No quartel, tinham ficado quase todos os meus pertences que eles se encarregaram de recolher e acondicionar numa mala de porão, que compraram a meu pedido. Regularizaram também as minhas contas, quer no hotel onde tomava as refeições, quer com a lavadeira.

Mandaram-me também a notícia digna de nota, e que eu não esperava, de que o Sr. Bernardes, proprietário da escola de condução, tinha ido ao quartel devolver parte da quantia que eu pagara, alegando que não tinha chegado a fazer exame. Não sei se haveria muita gente que, na mesma situação, tivesse o mesmo gesto.

Em Luanda, eu continuava a minha recuperação. Nos lugares públicos, era alvo da curiosidade geral (não tanto pelo braço engessado, mas sobretudo pelo rosto cheio de compressas e adesivos), de tal forma que no fim de semana seguinte, em pleno Carnaval, fui protagonista de alguns equívocos, como o daquela senhora que, no Cinema Império, veio ter comigo, felicitando-me pela originalidade da máscara que eu tinha escolhido.

Mas a saga iria continuar. Disso darei conta no próximo texto.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Dornier (DO 27)







O Dornier, DO 27 para os amigos, era um pequeno monomotor de seis lugares, que aterrava num “palmo” de terra batida, tendo sido utilizado na Guerra de África para transporte de passageiros e de correio, reconhecimentos aéreos, acompanhamento de operações (altura que normalmente o comandante de Batalhão aproveitava para, lá do alto e confortavelmente instalado, mandar “bocas”. Por exemplo, criticando o que ele considerava atrasos na progressão, sem ter em conta os obstáculos com que nos deparávamos no terreno), evacuação de feridos (eu próprio viria a ser evacuado em Fevereiro de 1967, num destes aparelhos. Contarei o episódio lá mais para diante). Em caso de necessidade, era usado em missões ofensivas de apoio a operações, sendo, então, montados lança-foguetes nas suas asas.

Durante o tempo em que estivémos em Lucunga tivemos algumas visitas destes aviões. A fotografia que ilustra este post foi feita numa dessas visitas, em que alguns de nós aproveitámos o pretexto para mais um “boneco”.

Não sei se terá sido dessa vez, mas recordo que numa das viagens as passageiras eram duas jovens enfermeiras pára-quedistas, com o posto de 2º (ou 2ª?) sargento.

Foi um alvoroço. Os oficiais pretendiam convidá-las para tomarem uma bebida na sua messe. Nós, sargentos, não estávamos pelos ajustes: em conformidade com as normas, as bebidas deviam ter lugar na messe de sargentos. Aliás, se em vez de enfermeiras fossem enfermeiros, os nossos solícitos oficiais estavam-se borrifando.

Acabou por se chegar a um consenso, e o breve convívio acabou por ter lugar, com a presença de oficiais e sargentos, na sala de refeições dos sargentos, que era mais espaçosa.

Hoje dá vontade de sorrir, mas sabem lá a importância que estas pequenas coisas tinham naquele tempo e lugar.