Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Hospital Militar de Luanda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hospital Militar de Luanda. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O Acidente - Parte II


Às primeiras horas da manhã do dia 4 de Fevereiro de 1967, aterrou na pista de aviação da CADA, na Boa Entrada, um pequeno avião que iria transportar-me para o Hospital Militar de Luanda. Para minha surpresa foi decidido que o João Magro, que, como contei no texto anterior, tinha sofrido um pequeno ferimento na cabeça, também seria evacuado, juntamente comigo. Mais tarde, viria a “descobrir” o motivo que levou à sua evacuação.


Na pista da Boa Entrada, esperava-me, além do DO 27 e da respectiva tripulação, uma luzida comissão de recepção, vinda de Novo Redondo, que era encabeçada pelo comandante da Companhia, capitão Carvalho. Surpreendeu-me que ele se tivesse dado ao incómodo de se levantar tão cedo, para fazer uma viagem de cerca de 90 quilómetros, preocupado com o meu estado de saúde (supunha eu, ingenuamente).


Boa Entrada - Hangar da pista da CADA

Porém, não era o meu estado de saúde a razão da viagem. De facto, o capitão Carvalho, quando saí da viatura que me transportava e enquanto era transportado na maca para o avião, não parou de me increpar de forma violenta. Cheio de dores, também não fui meigo na resposta, que não reproduzo, para manter a compostura (que na altura não guardei) do blogue, e que me poderia ter valido mais um auto a acrescentar aos três que já estavam a caminho.

Depois de uma viagem atribulada (enjoei o tempo todo), aterrámos em Luanda cerca das onze horas. Esperava-me uma ambulância que me fez chegar rapidamente ao hospital, onde, por ser sábado, não havia ortopedista de serviço permanente. Não foi possível contactar de imediato o médico que estava – isto é, que devia estar – de prevenção, em casa, mas que só compareceu no Serviço de Urgência depois do almoço. Soube, mais tarde, que tinha dado um salto à praia, e que só depois do regresso a casa para almoçar recebeu o recado para ir ao hospital. Parece incrível, mas foi assim mesmo. E, tanto quanto sei, sem quaisquer consequências.

Ainda hoje me recordo da agradável sensação que senti à medida que a anestesia – que antecedeu a intervenção destinada a pôr os ossos no lugar – me ia adormecendo.

Quando ao princípio da noite recuperei, perguntei ao médico, estupidamente, se tinha de ficar internado, ou se podia ir para o hotel, ficando em regime de consulta externa. Com a falta de camas que tinham quase sempre, respondeu-me que se não queria ficar no hospital não havia problema.

Saí do hospital, apanhei um táxi, e segui para o Hotel Luso. Durante a viagem para o hotel percebi que tinha feito asneira: a cada curva as dores que sentia – tinha o corpo cheio de nódoas negras – eram tão fortes, que não conseguia evitar algumas audíveis manifestações de desconforto.


Dornier 27 (aqui na pista de Lucunga) 

Ao chegar ao hotel o recepcionista, que já me conhecia, ficou espantado ao ver o meu estado lamentável. Além do braço ao peito, a minha cara, cheia de pensos e de mercurocromo, parecia uma máscara.

No dia seguinte, domingo, fiquei todo o dia no hotel.

Na segunda-feira, 6 de Fevereiro, voltei ao hospital para substituir os pensos, tendo depois ido apresentar-me na 1ª Companhia do Depósito de Adidos de Angola (DAA).

Como já escrevi aqui, os militares apresentados no DAA, deviam apresentar-se duas vezes por dia na secretaria da Companhia, além de entrarem na escala de serviço.

Quando cheguei à secretaria, entreguei ao primeiro-sargento, além da guia de marcha, um atestado médico determinando que, devido ao meu estado, não só ficava dispensado de fazer os serviços da escala, mas que também limitava as apresentações à parte da tarde, visto que todas as manhãs tinha de comparecer no hospital para tratamento.

O “nosso primeiro” ficou possesso porque, segundo ele, ninguém estava dispensado dos serviços, nem de se apresentar duas vezes por dia. Levantou-se, furioso, e foi para o gabinete do comandante com o atestado na mão. Voltou mais calmo, alguns minutos depois, dizendo que o “nosso capitão” aceitava o atestado, provisoriamente, mas que logo que apresentasse melhoras tinha de entrar na escala.

Era uma forma de salvar a face, porque, dessa vez, não fiz serviço nenhum durante o tempo que lá estive.

Entretanto, nessa segunda-feira, fui visitar o João à enfermaria, para saber como estava, e se precisava de alguma coisa. Estava óptimo, bem disposto e sem perceber muito bem o que estava ali a fazer.


Luanda - Hospital Militar

Na quarta-feira seguinte, estava na esplanada da Portugália a meio da tarde, quando um camarada me apresentou um primeiro-cabo que estava colocado no Serviço de Justiça do Quartel-General. Foi o que se chama um encontro com a sorte.

Era convicção geral, e minha também, que enquanto durasse a instrução dos três autos que me tinham sido instaurados, não poderia regressar a Lisboa, apesar de já ter terminado a comissão de serviço. Aliás, no DAA havia um grande número de militares que, findas as comissões, continuavam, alguns há mais de um ano, aguardando a conclusão de autos para embarcarem de volta.

O referido primeiro-cabo esclareceu-me que eu só não embarcaria na data prevista se, além dos autos que já tinham sido iniciados, fosse também instaurado um “auto de corpo de delito”, mas que isso só aconteceria se, em consequência do acidente, tivesse havido lesões em terceiros que implicassem hospitalização por um período igual ou superior a dez dias. Percebi nessa altura o motivo da ida do João Magro para o hospital.

Por outro lado, disse-me que trabalhava no Quartel-General com um alferes-miliciano, advogado, que a título particular, e por um preço pouco mais que simbólico, me podia dar o aconselhamento e o apoio de que eu necessitasse.

Pedi-lhe que me marcasse um encontro com esse advogado, e a seguir apanhei um táxi para o hospital, onde falei com o João, explicando-lhe que se ele não tivesse alta até ao fim-de-semana, eu não embarcaria. Ele respondeu-me que se sentia bem e que iria pedir alta no dia seguinte, o que fez realmente, tendo regressado à Gabela na sexta-feira. Estava livre do “corpo de delito”.


Luanda - Quartel-General 

No dia seguinte, ao fim da tarde, encontrei-me com o advogado, que residia com a esposa numa pequena moradia à saída de Luanda, já na estrada para o Grafanil. Confirmou que sem “auto de corpo de delito” não havia impedimento legal ao meu regresso, sem prejuízo da continuação dos trâmites legais que teriam lugar já em Lisboa. Foi-me dizendo que naquelas circunstâncias era difícil evitar uma punição disciplinar, mas que iria contactar um colega colocado no Ministério do Exército, que se encarregaria do caso, de forma a minimizar ao máximo a minha responsabilidade. Ainda assim achava que eu talvez tivesse de ficar detido por 30 dias, desde que no auto me comprometesse a indemnizar o Estado pelos prejuízos causados na viatura.

Além disso, instruiu-me sobre o teor das declarações que eu devia prestar quando inquirido pelo “oficial de justiça” nomeado, o que só iria ter lugar quando o Batalhão viesse para Luanda, poucos dias antes do embarque, sugerindo que, se o referido oficial concordasse, o levasse lá a casa para lhe dar algumas pistas legais sobre a forma mais correcta de conduzir os autos.

Entretanto, no local do acidente era efectuada a peritagem destinada a esclarecer as causas do sinistro, bem como a atribuição de responsabilidades. Nestes casos os “peritos” eram escolhidos entre os militares graduados da Companhia, bastando que tivessem carta de condução, mesmo que a experiência não fosse muita.

Na circunstância, foram nomeados os meus camaradas Rodrigues e Vaz, que tinham feito exame de condução algum tempo antes, na Gabela. Generosos, juntaram aos autos um relatório em que me atribuíam 15% de responsabilidade, pertencendo os restantes 85% às más condições do piso. O capitão Carvalho desatinou com estas conclusões, chamou-os e, ameaçando-os com procedimento disciplinar, obrigou-os a alterarem as conclusões do relatório. Refeita a peritagem, fiquei com 60% de responsabilidade.


Luanda - Cinema Império

Ainda na Gabela, quer o Rodrigues, quer o Vaz, que para me apoiar veio algumas vezes de Novo Redondo, aproveitando o facto de, sendo vago-mestre, ter algumas facilidades para se deslocar, iam tratando dos meus problemas logísticos.

No quartel, tinham ficado quase todos os meus pertences que eles se encarregaram de recolher e acondicionar numa mala de porão, que compraram a meu pedido. Regularizaram também as minhas contas, quer no hotel onde tomava as refeições, quer com a lavadeira.

Mandaram-me também a notícia digna de nota, e que eu não esperava, de que o Sr. Bernardes, proprietário da escola de condução, tinha ido ao quartel devolver parte da quantia que eu pagara, alegando que não tinha chegado a fazer exame. Não sei se haveria muita gente que, na mesma situação, tivesse o mesmo gesto.

Em Luanda, eu continuava a minha recuperação. Nos lugares públicos, era alvo da curiosidade geral (não tanto pelo braço engessado, mas sobretudo pelo rosto cheio de compressas e adesivos), de tal forma que no fim de semana seguinte, em pleno Carnaval, fui protagonista de alguns equívocos, como o daquela senhora que, no Cinema Império, veio ter comigo, felicitando-me pela originalidade da máscara que eu tinha escolhido.

Mas a saga iria continuar. Disso darei conta no próximo texto.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As Fotos do António Passarinho (I)





Embora todos os rostos me sejam familiares, apenas consigo identificar o Vítor Verdasca, 2º a contar da esquerda, atrás, o Passarinho, que está à sua frente, e o último, que julgo ser o Oliveira (a quem encontrei muitas vezes no Porto de Lisboa, onde era manobrador de empilhadores) . Todos eram condutores-auto.

Em Lucunga, as viaturas em condições de circular eram em número reduzido, pelo que a alguns condutores-auto da CArt 738 foram atribuidas tarefas que nada tinham a ver com a sua especialidade. Ao Passarinho, que era um desses condutores-auto, coube, juntamente com o camarada de especialidade, Daniel Ferreira, a nobre tarefa de pôr – e de manter – operacional a messe de oficiais e sargentos. O Daniel cozinhava, enquanto o Passarinho o apoiava, ao mesmo tempo que se encarregava, de forma irrepreensível, do serviço nas salas de refeições.

Podem ter-se perdido dois bons condutores-auto, mas garanto, sem receio de contraditório, que ganhámos dois excelentes “profissionais” do ramo da restauração, que, sob a supervisão do furriel-vagomestre Vaz, nos tiveram sempre bem alimentados.

Cumprindo uma promessa que me tinha feito, o Passarinho enviou-me algumas fotos desse tempo, cuja publicação inicio hoje, com duas fotos tiradas em Novo Redondo, no dia em que completámos dois anos de comissão.

Curiosamente, nessa data encontrava-me em Luanda, onde me tinha deslocado por duas razões.

Em Agosto de 1966, durante um jogo de futebol realizado no campo do quartel, fui atingido com violência no olho esquerdo, por uma bola chutada à queima-roupa por um dos jovens moradores da sanzala Sétima, de que resultou uma lesão permanente, com perda de visão, que viria a ser avaliada em 10% pelos médicos militares, mas que oftalmologistas civis avaliaram em 30%. Um dos motivos da minha estadia em Luanda, devia-se a uma consulta no Hospital Militar de Luanda, marcada para aquela data, que se destinava a avaliar o evoluir da lesão.

Nesta foto identifico o Oliveira (?), 2º a contar da esquerda, a seguir o enfermeiro, Espanhol, o 5º é o Lionídio Torcato, o 8º o Passarinho, e o 9º, mais abaixo, o Verdasca. Não me lembro dos nomes dos outros.

Aproveitando essa viagem, o capitão Carvalho encarregou-me (juntamente com um cabo e um soldado – de quem já não recordo os nomes –, bem como do condutor do Land Rover que nos transportou), de conduzir um dos nossos militares à Casa de Reclusão de Luanda, para cumprir uma pena de 3 anos de prisão a que a justiça militar o tinha condenado, por se recusar a casar com uma jovem com quem tinha mantido um relacionamento íntimo, quando ainda era civil.

Esta foi uma das tarefas mais espinhosas que desempenhei, não só durante os quatro anos e meio em que prestei serviço militar, mas também em toda a minha vida. Foi um momento muito penoso aquele em que o deixámos na prisão e nos despedimos dele.


Era um jovem educado, e na Companhia todos lamentávamos a sorte que o esperava (causada por uma situação que, a acontecer hoje, não passaria de uma nota de pé de página na sua vida), mas, embora alguns de nós tentássemos convencê-lo a evitar a prisão, casando, compreendíamos e respeitávamos as razões que o levaram a preferir o longo período de prisão (julgado num tribunal civil nunca teria sido condenado a mais de dois anos de reclusão, na pior das hipóteses). Não voltei a ter notícias dele.


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na Missão do Bembe




As fotografias que acompanham este texto foram-me enviadas pelo antigo furriel-miliciano da Companhia de Caçadores 715 (CCaç 715), Carlos Cristóvão.

Na mensagem que as acompanhava, o Cristóvão escreveu que não tinha a certeza se a foto acima era da nossa Companhia (CArt 738), tirada quando passámos pela primeira vez na Missão a caminho de Lucunga, ou se seria da Companhia que os foi render quando a CCaç 715 foi transferida para o Leste de Angola.

Apesar da distância a que se encontrava o fotógrafo, e da consequente má definição dos rostos, parece-me que a fotografia retrata o 2º e o 3º pelotões da CArt 738, e que teve realmente lugar nas circunstâncias referidas pelo Carlos Cristóvão, porque julgo que consigo identificar cinco dos retratados.

Assim, o militar assinalado com o nº 1, é o comandante de Companhia, capitão Rubi Marques. Apesar de se encontar de costas para a objectiva, quer a posição muito peculiar dos braços, quer a do corpo, bem como a inclinação da cabeça, eram características que permitem a sua identificação, quase como se fossem as suas impressões digitais.

Com o nº 2, identifico o alferes-miliciano Francisco Morgado, comandante do 2º pelotão. O nº 3 é o alferes-miliciano Vítor Casimiro (dono de uma excelente voz e especialista do fado de Coimbra), comandante do 3º pelotão. O nº 4 é o furriel-miliciano José Rodrigues, comandante da 2ª secção, do 2º pelotão. Finalmente, o sargento Ferreira da Silva, comandante da 1ª secção, do 2º pelotão, é o nº 5.

Ao fundo, podem ver-se alguns dos camiões onde, “confortavelmente”, viajámos de Luanda para Lucunga, durante dois dias.

Não consigo identificar mais nenhum dos meus antigos camaradas. Se algum dos leitores o conseguir e me quiser informar, agradeço.



A outra fotografia, que o Cristóvão diz referir-se aos preparativos para uma operação onde intervieram várias Companhias, entre as quais teria estado a CArt 738, deixa-me alguma perplexidade, porque ele escreveu que os militares que se encontram à esquerda, “equipados” com capacetes de ferro, pertenciam à minha Companhia, e que os capacetes teriam sido motivo para algum gozo por parte do pessoal das outras unidades .

Ora, acho improvável que seja pessoal da CArt 738, não só porque nunca, antes ou depois, estive em nenhuma operação em que tivessemos usado capacetes (que, de resto, eram completamente inadequados ao tipo de actividades que levávamos a cabo), mas também porque nem sequer me lembro de alguma vez ter visto aquele material na nossa Companhia. Não estou a afirmar que não existiam, apenas digo que não tenho a menor ideia da sua existência (também neste particular, uma ajuda será bem-vinda).

Durante o período que estive em tratamento a uma fractura, no Hospital Militar, em Luanda, que coincidiu parcialmente com a estação seca, a CArt 738 esteve envolvida em várias operações conjuntas com outras unidades e, nalgumas, foram utilizados helicópteros para transporte de pessoal, como foi o caso desta, que pode ter coincidido com o referido período, o que explicaria que, se de facto lá esteve o nosso pessoal, eu não me recorde dela (mas, tendo ouvido relatos de outras operações dessa época, principalmente se o meu pelotão teve intervenção nelas, é estranho que não me falassem desta).

Há por aí alguém disponível para fazer luz sobre esta minha dúvida?

quarta-feira, 27 de abril de 2011

"Férias" em Luanda (Parte I)

Já me referi, aqui, às circunstâncias que levaram à minha evacuação para o Hospital Militar de Luanda em consequência de uma fractura num dos ossos do braço direito.

Volto ao tema, porque julgo que alguns dos que têm a pachorra de passar por aqui (às vezes involuntariamente) podem pensar que as cerca de cinco semanas que passei em tratamento no Hospital acabaram por se converter num período de férias caído do céu. Não os vou desiludir: foram realmente férias, mas em tempo parcial, e que, ainda por cima, eu teria dispensado porque me saíram caras.

Mas, antes de falar das “férias” vou contar um episódio quase anedótico.


Nord Atlas

Passada a guia de marcha e feita a requisição de transporte à Força Aérea (FA), apresentei-me no Aeródromo do Toto em 8 de Agosto de 1965, para seguir viagem para Luanda num desconfortável Nord Atlas.

Para as vagas destes vôos (cuja finalidade principal era o transporte de mercadorias, principalmente os chamados produtos frescos, para reabastecimento da tropa) que tinham sempre muito militares candidatos à viagem de borla - caso em que convinha que se tivessem os contactos certos -, eram estabelecidos graus de prioridade.

Tendo-me sido atribuído o grau de prioridade 1, fui o primeiro a ser chamado para embarcar pelo oficial da FA. Ora, entre os passageiros a aguardar embarque havia um oficial superior (major ou tenente-coronel, já não me recordo com exactidão), que ficou melindrado por ter sido ultrapassado na ordem de embarque por um furriel, membro de uma “casta” (perdão, classe) muito inferior na hierarquia militar.

O oficial da FA, salvo erro um tenente, explicou-lhe com o respeito devido a alguém que, embora pertencendo à classe de oficiais como ele, já tinha chegado a um nível de “casta” superior que, de acordo com os regulamentos e tratando-se de uma questão de evacuação por acidente a prioridade era, neste caso, minha. Com algum desconforto pelo incidente (realmente tanto me fazia entrar em primeiro ou em último, desde que entrasse), acabei por ser mesmo o primeiro a subir para o avião. Mas pareceu-me que o nosso oficial me foi deitando alguns olhares enviesados durante a viagem, que incluiu escalas em Maquela do Zombo e em S. Salvador.

No Hospital Militar a radiografia confirmou a existência de uma pequena fractura e, depois de terem procedido à imobilização do antebraço, fiquei em regime de consulta externa. Isso significava que tinha de providenciar alojamento e alimentação à minha custa. Enquanto em Lucunga tanto o alojamento como as refeições eram por conta do Exército, em Luanda tinha que pagar do meu bolso e, ao contrário do que muitos pensavam, não recebia quaisquer ajudas de custo.

Para fazer face a este rombo inesperado no meu orçamento mensal tive de mexer nas poupanças que ia fazendo na Caixa Geral de Depósitos.


Depósito de Adidos de Angola, em Luanda - Cinema ao ar livre

Por outro lado, não tendo ficado internado tinha, como todos os camaradas na mesma situação, de me apresentar duas vezes por dia – entre as dez e as onze, e entre as quinze as dezasseis horas – excepto sábados e domingos, no Depósito de Adidos de Angola (DAA), passando também a entrar na escala de serviços. Isto é, durante o tempo que estive em Luanda fiz três sargentos de dia à 1ª Companhia, e um sargento de dia à unidade, além de ter sido requisitado três vezes pelo Serviço de Justiça para a função de “escrivão de autos”.

Quando estava de serviço ia um jeep buscar as minhas refeições ao hotel .

Fazer serviço naquela unidade era uma provação que, apesar de tudo, consegui levar a bom termo sem consequências de maior. Alguns dos meus camaradas ficavam mesmo admirados porque, antes das refeições, eu quase conseguia que o pessoal formasse e que seguisse para o refeitório andando de um modo que se assemelhava muito à marcha militar.

A maior parte dos praças aquartelados no DAA tinham ido para Angola em unidades que já tinham terminado as comissões e regressado a Portugal, mas, porque tinham cometido infracções que levaram ao levantamento de autos (*), só poderiam regressar depois de concluída toda a tramitação dos processos, o que, por vezes, chegava a demorar anos.

Neste contexto, a indisciplina era o pão nosso de cada dia. Fazer uma formatura decente era um trabalho digno de Hércules; pô-los a marchar em condições tornava-se mais difícil do que pôr um dirigente político a falar verdade. Na situação em que estavam era-lhes indiferente mais participação menos participação, cujas consequências nunca seriam tão graves como as que iriam resultar das infracções que os tinham levado àquela situação.



Depósito de Adidos de Angola, em Luanda - Edifício do Comando

Durante esta permanência em Luanda registou-se um grave episódio de indisciplina no DAA, a que não assisti, mas que me foi contado por quem o testemunhou. Procurando pôr um pouco de ordem naquela tropa fandanga, o furriel-miliciano que estava de sargento de dia chamou a atenção de um dos soldados que não gostou da “rabecada” e o insultou. Gerou-se um conflito que acabou numa luta em que cada um dos intervenientes tirou o respectivo cinto para servir de arma. Isto perante o gáudio dos restantes militares da formatura, que não intervieram. Só a intervenção de alguns sargentos e oficiais viria a acabar com a feia briga.

Em circunstâncias que serão objecto de outro texto, em tempo oportuno, contarei como em Fevereiro de 1966 voltei ao DAA, durante quase quatro semanas. Mas tive mais “sorte” dessa vez. Estava em tão mau estado físico que o médico do Hospital Militar fez uma declaração em que me declarava inapto para fazer serviços.

(Continua no próximo post, para não cansar)

(*) Os regulamentos determinavam que apenas era vedado o regresso aos militares que tivessem de responder em “auto de corpo de delito”, mas havia quem fizesse outra leitura como se verá lá mais para diante, quando eu contar a minha própria má experiência num caso semelhante, em que um pequeno mas influente grupo, de que fazia parte o meu quarto e último comandante de Companhia, acolitado por alguns oficiais do Comando do Batalhão, tentou tudo para que eu não regressasse com os meus camaradas.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O correio



O avião do correio (Nord Atlas)

O correio era, sobretudo no isolamento de Lucunga em que não havia qualquer outro meio de comunicação, como já escrevi anteriormente,  factor relevante no nosso bem-estar, bem como uma contribuição importante na manutenção da moral em alta.

Em consequência, não admira que a sua chegada - e distribuição - gerasse um ambiente de grande expectativa, por vezes com alguma ansiedade à mistura. Havia aqueles que tinham sempre cartas ou aerogramas, em maior ou menor quantidade. Mas alguns recebiam menos correspondência, ou mesmo nenhuma, deixando-os tristes e com uma sensação de vazio. Nessas ocasiões, um braço solidário no ombro e uma visita à cantina para uma Cuca ou Nocal fresquinhas, animavam e ajudavam a suportar a desilusão.



Porém, de vez em quando, havia cartas que em vez de animar provocavam situações de depressão aos seus destinatários, ainda que nalguns casos tentassem disfarçar o que lhes ia na alma.

Vou contar hoje três desses casos, sem identificar os protagonistas com os seus nomes verdadeiros.

O Helder Salgueiro era um dos maiores animadores do pessoal, sempre com uma reserva de boa disposição. Por citar o nome da namorada – Francelina - a qualquer pretexto, ou mesmo sem ele, acabou por ser conhecido por “Helder da Francelina”. Julgo que alguns nem sequer conheciam o seu verdadeiro apelido.

Mas como não há bem que sempre dure, os aerogramas da Francelina começaram a rarear a partir de certa altura, deixaram mesmo de chegar. O que chegou foi uma carta da mãe dele, em que lhe dizia que a namorada ia casar com outro rapaz lá da terra.

Naturalmente, a boa disposição do Helder, que já andava em baixo, evaporou-se. Durante algum tempo só o forte apoio dos camaradas evitou que ele se fosse abaixo de todo. Demorou alguns meses, mas o seu característico optimismo acabou por levar a melhor e, mais ou menos cicatrizada, a ferida deixou de ser visível aos nossos olhos. O Helder deixou de ser “da Francelina” e passou a ser o Salgueiro.

O outro caso teve como protagonista o Canas.

O nosso vencimento era pago, se o desejássemos, parcialmente em Angola e parcialmente em Portugal, neste caso até um máximo de dois terços do seu valor. O pagamento em Portugal era feito à pessoa que tivéssemos indicado previamente, podendo ser alterada em qualquer altura. Na maior parte dos casos eram dadas indicações para o pagamento ser feito ao pai, à mãe, ou à esposa do militar, quando casado.

O Canas dera indicação para se efectuar o pagamento à namorada. E tudo corria bem até que, sensivelmente um ano depois de termos chegado a Angola, chegou a fatídica carta: o amor da namorada não resistira à ausência e ela já tinha um novo namorado. Sobre o dinheiro já recebido, nada era dito.

Destroçado, apareceu na nossa casa para desabafar a sua mágoa, ocasião em que nos revelou que era ela quem estava a receber o seu dinheiro desde o princípio da comissão. Com a “esperteza” dos nossos vinte e três anos achávamos que ela lhe ia dar o golpe, ficando com a “massa”, sem que ele pudesse fazer nada. E o nosso conselho foi o de que alterasse imediatamente a situação, nomeando em seu lugar um familiar chegado.

Respondeu-nos que não o faria, e explicou o porquê da decisão. Pensava que se indicasse outra pessoa para receber o vencimento, a ex-namorada podia ficar ofendida pela desconfiança, não lhe entregando o dinheiro entretanto recebido, como forma de retaliação. Assim, com a prova de confiança que, apesar de tudo lhe dava, talvez ela lhe entregasse tudo no fim da comissão.

Talvez ele, que a conhecia (ou julgava conhecer) bem, tivesse razão. Como não voltei a encontrá-lo depois do desembarque, nunca soube como é que acabou este imbróglio. Se algum dia o souber, informarei.

O terceiro caso teve contornos em que conviveram o drama e a farsa.

A família do nosso camarada Jónatas, beirão de gema, não tinha terras, não tinha oliveiras, não tinha vinhas, nem tinha gado. Em suma, era pobre. Por isso, os pais da namorada não viam com bons olhos o namoro da filha com ele que, de seu, apenas tinha a honradez e o amor pela Albertina.


Hospital Militar de Luanda

À medida que o tempo ia passando, as cartas que recebia da namorada relatando as pressões diárias dos pais para acabar o namoro, afligiam-no cada vez mais com consequências no seu equilíbrio mental. E o pior foram as cartas em que ela, também em desespero, começou a referir que os pais queriam, não só que acabasse o namoro com ele, mas também que namorasse e casasse com um outro rapaz, de algumas posses.

Quando o assunto vinha à baila quase todos achávamos, preocupados, que aquilo ainda acabava mal.

Até que uma noite, quando toda a gente se tinha recolhido e já dormia, acordámos em sobressalto com o som de um disparo. A primeira coisa que pensámos foi que estávamos a ser assaltados, e vá de saltar da cama, pegar na arma e sair de casa.

Não havia assalto nenhum. Sem sono, angustiado, o Jónatas agarrou na espingarda FN veio para a rua e disparou.

Quando chegámos junto dele disse-nos que não suportava mais aquela vida, pelo que tinha dado um tiro na testa e que a bala tinha feito ricochete tendo ido fazer um buraco na parede da casa mais próxima. Claro que não houve tiro na testa, nem ricochete nenhum. Ele disparou contra a parede e o buraco estava lá.  Apesar de perturbado, não o estava ao ponto de se matar.

A verdade é que conseguiu ser evacuado para o “Quintas”, como era vulgarmente conhecido o Anexo do Hospital Militar de Luanda para doentes do foro psiquiátrico.

Não sei, porque nunca lhe perguntei, qual foi o seu comportamento enquanto esteve internado para conseguir convencer os médicos da sua insanidade. O que sei é que conseguiu os seus intentos. Algum tempo depois foi dado como incapaz para o serviço militar, e evacuado para Portugal.

Foi remédio santo. Passaram-lhe todos os males e ele e a sua Albertina levaram a sua avante. Tal como nas histórias de príncipes e princesas da nossa infância, casaram, e foram, acredito, muito felizes. Pelo menos pareciam, na última vez que os vi, já lá vão uns anos.

Moral da história: nem sempre o correio que recebíamos fazia bem. Todavia, no caso do Jónatas, acabou por fazer.