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domingo, 24 de julho de 2011

Uma soneca dispendiosa


Avião da DTA a levantar voo no Aeroporto de Luanda 


Muitos militares mobilizados para Angola – sobretudo oficiais e sargentos (neste caso, sobretudo milicianos, que os sargentos do quadro, geralmente já com responsabilidades familiares, queriam fazer poupanças) – aproveitavam os 30 dias de férias anuais para, pelo menos uma vez durante a comissão, viajar para Portugal, a fim de matarem saudades de familiares, namoradas, madrinhas de guerra e amigos, não necessariamente por esta ordem.

Havia uma agência em Luanda – a Confabril, do Grupo CUF – que se especializou na venda de passagens, com facilidades de pagamento, e onde quase todos comprávamos as nossas viagens.

Quem vinha de férias para o “puto”, gozava sempre mais do que os 30 dias da ordem, porque o período de licença começava a contar na data do embarque em Luanda, terminando, se a memória não me falha, no dia em que desembarcava no mesmo Aeroporto. O tempo da viagem desde o quartel até Luanda, e a estadia naquela cidade até ao embarque, não contavam.

Quem queria gozar mais uns dias em Luanda, marcava as férias de forma a que o período entre a data da chegada a Luanda do voo de ligação da DTA, que fazia as rotas internas, e a data do embarque para Lisboa, fosse o mais dilatado possível. Este truque também funcionava aquando do regresso, claro.

Quando a escala de férias das Companhias era mais “apertada”, a artimanha era outra, só funcionava no regresso de férias, e custava dinheiro.

Toda a gente, ou quase toda, sabia que adiantando umas notas ao funcionário certo da DTA (e se fossem notas do Banco de Portugal, em vez das do Banco de Angola, melhor), ele punha um carimbo no passaporte indicando que o voo onde o interessado pretendia viajar estava esgotado. Porém, o tal funcionário só aceitava entrar neste esquema uma única vez por viajante.



Nota do Banco de Angola



Vem esta introdução a propósito de um episódio vivido, em Setembro de 1965, pelos alferes Pereira e Salazar Leite (médico), e pelo furriel Vaz, que regressaram de férias no mesmo voo, e que deviam viajar no avião da DTA, para o Toto (de onde seguiriam para Lucunga por via rodoviária) no dia seguinte ao da chegada a Luanda.

Como queriam ficar mais uns dias em Luanda (os voos para o Toto realizavam-se à terça e quinta-feira), avançaram com a quantia “tabelada” para o bolso do funcionário, e viram averbado o desejado carimbo, que lhes dava uns dias de férias extra.

Na véspera do embarque, que já não podiam falhar, despediram-se da animada noite de Luanda, regressando ao Hotel Luso, onde estavam hospedados, já os relógios marcavam três horas da madrugada, tendo, no entanto, o cuidado de pedir ao funcionário da recepção - o sempre prestável Manuel – que os acordasse às seis horas em ponto (e mesmo assim tinham que se apressar). Para não perderem tempo pela manhã, tomaram duche e vestiram a farda com que seguiriam viagem, antes de se deitarem. De manhã, era só lavar os olhos ainda ensonados, e ala para o Aeroporto.

O primeiro a acordar, que já não me lembro qual foi, ficou varado quando olhou para o relógio e viu que eram seis horas e vinte minutos. Foi acordar os outros, desceram à recepção, onde o Manuel dormia o sono dos justos, deram-lhe uma descasca rápida, que não havia tempo a perder, e meteram-se num táxi para o Aeroporto, de onde o avião havia de descolar, às sete horas.

E descolou, que eles ainda o viram a ganhar altura, quando sairam do táxi.



O pequeno avião estacionado na pista do Aeroporto de Luanda poderia ser o táxi aéreo referido neste texto


Conhecendo o comandante de Companhia – capitão Rubi Marques – que já devia estar fulo por não se terem apresentado na data devida, não faltou muito para entrarem em pânico. Sobretudo o alferes Pereira e o furriel Vaz; o alferes-médico Salazar Leite, embora também estivesse preocupado, talvez fosse o mais calmo por “beneficiar" de um estatuto especial. E foi ele quem sugeriu que alugassem um táxi aéreo, que os levaria directamente até à pista de Lucunga.


Embora cientes de que a sua bolsa levaria um rombo significativo, quer o furriel Vaz, quer o alferes Pereira, concordaram que era a melhor solução. E lá seguiram num pequeno teco-teco de quatro lugares, que aterraria em Lucunga cerca de duas horas mais tarde.

Mas nem o avultado “prejuizo” dos três acalmou o capitão Rubi Marques, que os presenteou com uma monumental descompostura (talvez também com a ameaça do célebre "auto das passas"), como só ele era capaz de proporcionar quando tinha que descascar em alguém. 

Os meus camaradas da Cart 738 sabem do que falo.

Nota final: Esta “estória” - de que todos tivemos conhecimento, na altura em que aconteceu – foi-me contada pormenorizadamente mais tarde, quer pelo furriel Vaz, quer pelo alferes Pereira, em ocasiões diferentes. Prometi que a contaria aqui. Infelizmente não cumpri a promessa a tempo de ser lida pelo Vaz. E lamento-o. Não por ele não a ter lido, que não perdeu grande coisa, mas por nos ter deixado tão prematuramente.

segunda-feira, 14 de março de 2011

25º Almoço-Convívio do Batalhão de Artilharia 741



Aspecto geral da sala

O 25º almoço-convívio dos militares do Batalhão de Artilharia 741, que se realizou no último sábado, nas Caldas da Rainha, constituiu mais um êxito, que ficamos a dever, de novo, ao espírito de camaradagem, bem como à capacidade de organização do alferes Silva Pereira, da CArt 739.

Entre antigos militares e respectivas famílias, estiveram presentes mais de duas centenas e meia de convivas, número que vem confirmar que os convívios realizados a sul de Coimbra são os que têm habitualmente maior afluência.

Mais velhos, mas com a mesma animação com que despachávamos Cucas ou Nocais, nas cantinas das várias Companhias, fomos avivando memórias de episódios que, de um modo ou de outro, contribuiram para a formação do nosso carácter.

Das conversas que fui mantendo com uns e com outros, concluí que o tempo criou alguma (inevitável) erosão, o que justifica que nem todos recordem alguns acontecimentos, ou que, recordando-os, o façam divergindo nos pormenores (que, nalguns casos, são mesmo “pormaiores”). Julgo que isso é natural, na medida em que, de uma maneira geral, não houve a preocupação de escrever diários. No meu caso, para além da memória, às vezes traiçoeira, socorro-me do que escrevia no verso das fotos que enviei para os meus pais, e que - ao contrário das cartas, que desapareceram quando, mais tarde, mudaram de casa -, não levaram sumiço.

Das ausências, merece uma menção especial a do furriel vagomestre da CArt 738, Vaz, que esteve presente em todos os 24 convívios anteriores. Motivos de força maior impediram a sua comparência desta vez. Todos (sobretudo no que se refere ao pessoal da CArt 738) sentimos a sua falta, e fazemos votos para que em 2012 possamos voltar a usufruir do seu dinamismo, e do seu peculiar sentido de humor.

Publico aqui algumas das fotos que me foram enviadas pelo Carlos Cristóvão, furriel da CCaç 715, da Missão do Bembe, que na continuação de uma amizade que teve início em Janeiro de 1965, mais uma vez nos honrou com a sua presença. As restantes são de minha autoria, esperando que relevem as amadorísticas deficiências de ordem técnica.


Mesa da organização



Os antigos sargentos (hoje capitães na reforma), Ferreira da Silva e Ramiro, também conhecidos como tropas de 1ª linha 


Duarte (mais conhecido por Lisboa), Carlos Bragança e Lobo (mais conhecido por Cigano)


Rubi Marques (comandante da CArt 738), e Alves (o melhor clarim que alguma vez ouvi tocar na tropa)


Casimiro e Carlos Cristóvão


O baile


A apanhar ar


Duarte, (?), Pereira, Fagundes e Carlos Cristóvão


Casimiro, Rubi Marques e Pereira


De pé: Fonseca; Sentados: Esposa do Duarte, Duarte e Bragança
(Foto de carlos Cristóvão)


Fagundes e Pereira
(Foto de Carlos Cristóvão)


De pé: Lobo e Carlos Cristóvão; Sentados: Ferreira da Silva e Ramiro


Fonseca e Carlos Cristóvão


Ramiro, Silva Pereira e Carlos Cristóvão


Bolo do aniversário da nossa chegada a Lisboa

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Futebol em Lucunga




Oficiais e sargentos (incluindo dois suplentes, por causa da falta de ar)

Da esq. para a dta., em baixo: Azevedo, Fernandes, Ruas, Ramiro, Miranda Dias e Casimiro
De pé: Fonseca, Vaz, Morais Soares, Mourão, Pereira, Nunes da Silva e Fagundes

O futebol era, a par dos jogos de cartas, uma das formas mais usuais de ocupação dos tempos livres dos militares da CArt 738.

Exceptuando as ocasiões em que se realizavam operações conjuntas com outras unidades, quando era necessária a utilização de helicópteros que se serviam do campo de futebol como pista de aterragem e de estacionamento (para os pequenos aviões Dornier 27, tínhamos a pista de terra batida), todas as tardes realizávamos renhidos jogos de futebol.

No quartel e salvaguardando os serviços que implicavam um horário alargado (desde logo o serviço de guarda nas “torres” de vigia, a preparação das refeições e, eventualmente, os cuidados de saúde), as várias tarefas diárias tinham lugar entre as oito horas e as dezasseis e trinta, com intervalo para almoço e repouso das doze às quinze horas. (O intervalo para o almoço pode parecer demasiado longo, mas importa considerar que era também a hora em que a temperatura atingia o seu pico, e o capitão Rubi Marques achava que uma sesta depois da refeição ajudava a recuperar energias, no que estávamos todos de acordo. Pudera, não havíamos de estar!)


Oficiais e sargentos*

Da esq. para a dta., em baixo: Pereira, Azevedo, Ruas, Morais Soares e Rubi Marques
Em cima: Miranda Dias, Fonseca (com um fato de treino vermelho berrante, emprestado pelo benfiquista Fagundes), Mourão, Fernandes, Vaz e Fagundes

Das dezasseis e trinta até à cerimónia do arriar da bandeira que tinha lugar às dezoito horas, jogava-se futebol.

Estando quase sempre um pelotão(pelo menos) na mata em operações e dado que nem toda a gente tinha jeito ou gostava de jogar, tornava-se por vezes difícil juntar vinte e dois jogadores com habilidade. Era preciso, então, recrutar aqueles a quem o alferes Pereira chamava os “três pés”, porque, parecendo que tinham pés a menos para jogar a bola, aparecia sempre um pé a mais para dar nas canelas do “adversário”. Por causa de um desses “três pés” sofri uma fractura num osso do braço direito. Em consequência disso estive em tratamento no Hospital Militar de Luanda durante algumas semanas.

Além destas jogatanas, disputávamos de vez em quando jogos em que uma equipa de praças defrontava outra de oficiais e sargentos. Ganhava sempre a equipa de praças, embora a outra equipa desse muita luta.


Jogo com a CCaç 715, da Missão do Bembe (a nossa equipa jogou de tronco nu, porque as nossas camisolas eram da mesma cor das da Missão, embora um pouco mais escuras)

Da esq. para a dta.: Pereira (ou Fagundes?), Mourão, jogador da CCaç 715 (?)**, Fonseca (a defender um canto), encoberto outro jogador da CCaç715 (?), Miranda Dias, Vaz e Casimiro


Também houve um torneio em que os quatro pelotões jogaram entre si. Claro que foi uma disputa muito desigual porque o primeiro pelotão (por coincidência o meu) tinha uma equipa de estrelas que não dava qualquer hipótese aos outros.

Além destes jogos domésticos, também recebemos e visitámos os camaradas das Companhias 715, da Missão do Bembe, e 739, do Toto. Nestes casos, eram encontros de desporto e confraternização que, habitualmente, incluíam outras modalidades, como o Andebol, o Voleibol e o indispensável almoço.

Sobre o Andebol, e a sua introdução nos nossos tempos livres, tenciono escrever lá mais para a frente.

Na época das chuvas era frequente termos de terminar o jogo inopinadamente devido a um curioso fenómeno meteorológico. De repente, na tarde calma e quente, levantava-se uma forte ventania, seguida quase de imediato por chuva tão forte que parecia que o céu tinha aberto as comportas. Em pouco tempo formava-se um caudal que transformava a rua num rio. Pouco depois cessava o “dilúvio”, voltava o sol, e o calor secava tudo tão rapidamente que nem parecia ter chovido.



1º Pelotão

Da esq. para a dta., em baixo: (António Gomes), Grilo, Pereira, Resende, Brandão e (Cerqueira?)
De pé: Fonseca, Redondo, Oliveira,(?),  Azevedo, Dias, e Teles (?)

Mal dávamos pela aparição do vento corríamos a toda a velocidade para a casa mais próxima, mas quem estivesse na zona mais afastada do campo ficava encharcado. Não era que tivesse muita importância, porque, afinal de contas, íamos tomar duche a seguir.

De uma das vezes que entrámos na “casa-refúgio”, que era também o alojamento de alguns militares, alguém deu um berro porque acabava de encontrar uma cobra surucucu enrolada no pé de uma das camas de ferro. Não houve qualquer problema, a não ser para a pobre cobra, que estava no lugar errado, à hora errada, e terminou, assim, os seus dias de forma inglória.

 Surucucu



* Esta parece ser a equipa que defrontou a CCaç 715, o que é estranho, porque inclui apenas oficiais e sargentos, não sendo a nossa melhor equipa. Da melhor equipa faziam parte, entre outros, o Oliveira - talvez o nosso melhor futebolista -, o Resende, o Brandão, o Dias e o Cristóvão.