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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Porto Amboim



Vista panorâmica de Porto Amboim

Tinha planeado escrever hoje um texto sobre Porto Amboim onde estive durante um mês por troca com o Miranda Dias, que, tendo a profissão de desenhador da construção civil, foi para a Gabela para fazer o projecto para a construção da Casa do Soldado.

Escolhidas as fotografias para ilustrar o post, e chegada a hora de começar a escrever, descubro que o baú da minha memória está quase vazio no que se refere a essa estadia, com a agravante de que tenho consciência de que gostei de lá estar, e de ter sido muito bem recebido por todos os meus camaradas.

Sei que estive lá no tempo do cacimbo (portanto, entre Maio e Outubro de 1966), porque na praia não havia veraneantes durante os meus passeios de fim da tarde, quase diários, na companhia do Fernando Babo.


Porto Amboim - Ponte cais

Em Porto Amboim estava destacado, desde a nossa chegada ao Quanza-Sul, o 4º pelotão da CArt 738, sob o comando do alferes-miliciano Sebastião Fagundes, que tinha como comandantes de secção o segundo-sargento Ramiro, e os furriéis-milicianos Miranda Dias e Fernando Babo.

A localidade era, então, uma pacata vila piscatória onde, de vez em quando, aportavam navios da marinha mercante nacional, que fundeavam ao largo, por falta de cais acostável.

Lembro-me de ter ido, acompanhado pelo alferes Fagundes e pelo furriel Babo (creio que o Ramiro não foi), fazer uma visita de cortesia a uma família que fazia parte dos notáveis locais, constituida por um casal com uma filha ainda jovem, onde nos foi servido um chá, num requintado serviço de fina porcelana. Confesso que, na oportunidade, me teria sabido melhor uma ou duas Cucas fresquinhas.


Porto Amboim - Baía

Não me recordo do nome dessa família. Se não me falha a memória, o dono da casa era filho de um conhecido empresário da província do Quanza-Sul.

Durante essa estadia, durante um jogo de futebol de cinco, tive de sair do campo com uma violenta dor no peito do pé, que eu julgava fruto de algum choque ou entorse, coisa natural durante as incidências do jogo.

O alferes Fagundes sugeriu que fosse à “consulta” de um especialista local – um mulato chamado Quitério - que depois de apalpar o pé concluiu que eu tinha “as linhas do pé trocadas”, mas que ia remediar isso, o que fez massajando repetidamente com uma substância oleosa previamente aquecida.



Porto Amboim - Marginal

Senti algumas melhoras, mas não voltei a jogar durante a minha permanência em Porto Amboim, porque a recuperação foi lenta. O máximo que consegui, foi arbitrar dois ou três jogos, suficientes para perceber que a arbitragem não era a minha vocação, tantas foram as reclamações das equipas. Pelo menos era imparcial, já que errava para os dois lados.

E é tudo. Resta-me a esperança de que o Sebastião Fagundes leia isto, e faça um dos seus habituais comentários, que acabe por valorizar (e justificar) a publicação deste texto.

Ou então (e ainda melhor) que resolva escrever um ou mais textos, tendo Porto Amboim como tema, que terei todo o prazer em publicar. Fica o convite.


Vera Cruz no Cais da Rocha, em 9 de Janeiro de 1965, pouco antes da partida

P.S. - Em 9 de Janeiro de 1965 – completam-se hoje 47 anos – embarcaram no navio Vera Cruz, no Cais da Rocha Conde d' Óbidos, com destino a Angola, três Batalhões e algumas Companhias independentes, totalizando quase 3.000 militares.

Entre eles encontrava-se o Batalhão de Artilharia 741, de que fiz parte.

Nem todos os que embarcaram regressaram connosco, 27 meses depois, porque a morte abreviou a sua ainda curta vida.

Lembrá-los, nunca é demais. É o que faço, hoje, aqui. 


domingo, 29 de maio de 2011

Na Varanda da Flórida



Da esquerda para a direita:
Em primeiro plano, meio desfocados: Morais Soares e Mourão (atrás do Mourão, um camarada da CCaç 715, que não consigo identificar);
Sentados: Carvalho (CCaç 715), Torres (CCaç 715), Rodrigues e outro camarada da Ccaç 715), cujo nome “fugiu”;
De pé: Ramiro e Fonseca
Na janela: Miranda Dias e Babo



Embora esta seja uma das “minhas” fotografias mais desastradas (parece que estou ausente ou a dormir), gosto particularmente dela.

Foi tirada na espaçosa varanda da Flórida, onde estavam alojados alguns furriéis. As cadeiras eram feitas com madeira de barris de vinho, que depois de vazios eram reaproveitados.

A imagem tem a particularidade de retratar alguns dos meus camaradas com quem tive, ou ainda tenho, especiais laços de amizade.

A começar pelo Torres que - soube-o recentemente -, faleceu já há alguns anos.

Foi meu colega de turma, no Liceu D. João III, além de ter sido meu companheiro de viagem habitual no comboio que todos os dias nos transportava das localidades onde residíamos, para Coimbra.

Reencontrámo-nos em Agosto de 1963, no quartel de Tavira, onde frequentámos o Curso de Sargentos Milicianos.

Conheci o Miranda Dias, cuja memória evoquei aqui, aos 16 anos, quando disputámos o Campeonato de Andebol de Lisboa, em Juniores, em representação de clubes diferentes. Mas só viriamos a criar laços de amizade quando nos reencontrámos no RAL 1, na formação do Batalhão.

O Carvalho foi outro camarada que conheci em Tavira, e com quem fiz amizade. Tinha uma acentuada pronúncia “à Porto”. Com ele aprendi um termo novo da nossa Língua, quando ele, na caserna, me perguntou se eu não tinha um “aloquete” a mais. Sabia lá eu que um aloquete era aquilo que eu conhecia como cadeado! Mas fiquei a saber.

O Babo, também já nos deixou (por cruel coincidência vítima de uma doença degenerativa, tal como aconteceu com o Miranda Dias, seu amigo e camarada do 4º pelotão), e espero homenageá-lo num dos próximos posts.

Continuo a manter contactos regulares com o Ramiro, que costuma estar presente nos nossos convívios.

Do Morais Soares dei conta neste texto, e espero que cumpra o prometido e apareça no próximo ano.

O José Rodrigues, que ficou em Angola - onde casou com uma moça da Gabela, para onde fomos depois de Lucunga -, regressou mais tarde a Portugal, e foi bancário em Vila Nova de Gaia, onde residia. Veio pelo menos a um dos almoços na Ponte de Asseca. Entretanto, o seu número de telefone foi alterado e perdi o contacto.

O Mourão afastou-se depois do regresso. Encontrei-o ocasionalmente três vezes, alguns anos depois do nosso regresso, mas embora tivesse conversado de forma cordial, nunca mostrou vontade de frequentar os nossos convívios.

A foto foi tirada por altura de um jogo de futebol, em Lucunga.




segunda-feira, 28 de março de 2011

"Aventura" no RAL 1


RAL 1 - Porta de Armas e Edifício do Comando *



Decidi contar esta “história” depois de ter recebido uma fotografia que me foi enviada pelo então 2º sargento Ramiro, actualmente capitão na reforma, e na qual estão os militares do meu pelotão, durante o período de Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, que precedeu o nosso embarque para Angola.

Quando em Setembro de 1964 me apresentei no RAL 1 fui colocado numa Bateria que era comandada pelo tenente Garcia Leandro, que viria a ter uma bem sucedida carreira político-militar (e agora também escritor, tendo publicado recentemente as memórias do tempo em que foi Governador de Macau), enquanto aguardava a formação do Batalhão.

Alguns camaradas preveniram-me dos cuidados que devia ter porque ele era um militar puro e duro, dos que não toleravam a menor infracção aos regulamentos. Afinal, não era bem assim.

Como sabem os que viveram a tropa naquela época, aos cabos-milicianos (também conhecidos por "sargentos-baratos" por fazerem serviços de sargentos, mas recebendo quinze vezes menos do que estes) quase não era permitido o uso de traje civil e nunca no quartel. Porém, em conversas de caserna, alguns de nós concluímos que no caso de conseguirmos convencer um grupo significativo de camaradas a "esquecer" essa norma, visto que estando a treinar militares mal preparados por uma recruta deficiente, seria muito complicado para a hierarquia aplicar-nos uma punição severa, que iria pôr em causa a formação indispensável ao êxito das operações que nos esperavam em Angola.




 RAL 1 - Casa da Guarda


Não me recordo, hoje, se apenas os cabos-milicianos da minha Companhia – a 738 – aderiram a esta espécie de insubordinação, ou se a adesão foi generalizada a todo o Batalhão. O certo é que passámos a desfardar-nos no nosso alojamento, saindo e entrando calmamente pela porta de armas, mesmo em frente ao edifício do comando.

Em cumprimento do Regulamento o soldado de sentinela na Porta de Armas colocava-se na posição de sentido, como era devido aos sargentos, quando saíamos. Todavia, quando saíamos ou entrávamos no Taunus 17M (último modelo) do Conceição, tínhamos direito a “ombro arma”, situação em que um de nós fazia, com ar displicente e um enorme descaramento, um gesto a mandar descansar.

Aqui faço um parêntesis para explicar que o Conceição era um arquitecto de família abastada, mais velho do que nós 3 ou 4 anos, meio anarquista no comportamento, o que justificava o seu chumbo no Curso de Oficiais Milicianos, em Mafra, pelo que ditou o seu ingresso no contingente dos cabos-milicianos. Acabou por não ir connosco para Angola, tendo trocado com o Rodrigues que já lá tinha feito uma comissão.

A nossa “insubordinação” não passou despercebida e, algum tempo depois, parecendo ter dificuldade em lidar com a situação, o comandante do RAL 1 tenente-coronel (ou coronel?) Bettencourt Rodrigues – mandou publicar em Ordem de Serviço uma recomendação lembrando o que todos sabíamos já, isto é, que os cabos-milicianos não estavam autorizados a trajar à civil, dentro ou fora do quartel, excepto nos casos previstos no RDM. Acrescentava ainda que o desrespeito pela norma seria severamente punido. Fizemos olhos cegos e orelhas moucas ao aviso que, como esperávamos, não teve consequências.

E, agora é altura de voltar ao "terrível" tenente Garcia Leandro. Algumas semanas depois da formação do Batalhão, e já integrado na CArt 738, a escala de serviço determinava que eu entrasse de sargento de dia à Companhia a um domingo. No RAL 1, o render da parada tinha lugar depois do almoço (às 13 ou 14 horas, não estou certo).


RAL 1 - Edifício da messe (meio escondido, o nosso alojamento)


Quando, depois de gozar meio fim-de-semana, cheguei à porta de armas, pouco antes da hora da formatura, trajando à civil e já com pouco tempo para me fardar, o oficial de dia que ia ser rendido encontrava-se a passar revista a militares que iam sair do quartel. Para não dar nas vistas decidi esperar um pouco, procurando entrar discretamente depois da revista. Todavia, como "aquilo" parecia nunca mais acabar, entrei mesmo, tão “camuflado” quanto possível e, colado à Casa da Guarda, passei sem problema.

O problema surgiu quando constatei a falta do meu único par de botas, que tinha levado para engraxar em casa, e que não estava no saco.

No meu alojamento não havia ninguém que me pudesse emprestar umas botas 42 (era fim-de-semana, como já referi). No alojamento dos praças consegui o empréstimo de um par nº 43 (do mal o menos), mas a precisarem de ser engraxadas, operação para a qual já não tive tempo.

Quando cheguei à parada verifiquei que ia entrar de oficial de dia o tenente Leandro, que já olhava para o relógio. Com as botas naquele estado, fiquei sem pinga de sangue, achando que era desta que, apanhado sem a protecção que o grupo nos dava, vinha uma passa” a caminho.


CArt 738 no RAL 1 - 1º pelotão

Não consigo identificar todos os militares. De pé, estão os graduados, Fonseca, Ramiro, Pereira e Nunes da Silva

(Foto enviada pelo sargento Ramiro)


Dirigi-me a ele de imediato e expliquei-lhe que me tinha esquecido das botas em casa, que já não tinha tido tempo para engraxar as que “tinha” de reserva, o que faria de seguida (e fiz) sem me atrasar para o render da parada. O meu estado de espírito não melhorou quando ele me lançou um olhar gelado e me ordenou que voltasse para a formatura.

Terminado o render da parada mandou-me apresentar no gabinete do oficial de dia. Mas, ao contrário do que eu receava atendendo à sua fama, limitou-se a fazer-me um sermão, menos severo do que seria de esperar, dando a entender que o facto de eu ir embarcar para África dentro de semanas, me livrava de um “louvor”, a vermelho, na caderneta.

Funcionou o factor humano. Afinal, o tenente Garcia Leandro, com fama de implacável, também era um homem sensível e sem o coração de pedra que a voz do “povo“ militar lhe atribuía.

E eu nunca mais me esqueci dele.

* O antigo RAL 1, passou a chamar-se RALIS, durante o PREC e, mais tarde, Regimento de Transportes

As fotos do RAL 1  foram "amavelmente" cedidas pelo Google