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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Futebol em Lucunga




Oficiais e sargentos (incluindo dois suplentes, por causa da falta de ar)

Da esq. para a dta., em baixo: Azevedo, Fernandes, Ruas, Ramiro, Miranda Dias e Casimiro
De pé: Fonseca, Vaz, Morais Soares, Mourão, Pereira, Nunes da Silva e Fagundes

O futebol era, a par dos jogos de cartas, uma das formas mais populares de ocupação dos tempos livres entre o pessoal da CArt 738.

Exceptuando as alturas em que se realizavam operações conjuntas com outras unidades, e em que era necessária a utilização de helicópteros que se serviam do campo de futebol como pista de aterragem e de estacionamento (para os pequenos aviões Dornier 27, tínhamos a pista de terra batida), todas as tardes realizávamos renhidos jogos de futebol.

No quartel, e salvaguardando os serviços que implicavam um horário alargado (desde logo o serviço de guarda nas “torres” de vigia, a preparação das refeições e, eventualmente, os cuidados de saúde), as várias tarefas diárias tinham lugar entre as oito horas e as dezasseis e trinta, com intervalo para almoço e repouso das doze às quinze horas. (O intervalo para o almoço pode parecer demasiado longo, mas importa considerar que era também a hora em que a temperatura atingia o seu pico, e o capitão Rubi Marques achava que uma sesta depois da refeição ajudava a recuperar energias, no que estavamos todos de acordo. Pudera, não haviamos de estar!)


Oficiais e sargentos*

Da esq. para a dta., em baixo: Pereira, Azevedo, Ruas, Morais Soares e Rubi Marques
Em cima: Miranda Dias, Fonseca (com um fato de treino vermelho berrante, emprestado pelo benfiquista Fagundes), Mourão, Fernandes, Vaz e Fagundes

Das dezasseis e trinta até à cerimónia do arriar da bandeira, que tinha lugar às dezoito horas, jogava-se futebol.

Estando quase sempre pelo menos um pelotão na mata, em operações, e dado que nem toda a gente tinha jeito, ou gostava de jogar, tornava-se por vezes difícil juntar vinte e dois jogadores com habilidade. Era preciso, então, recrutar aqueles a quem o alferes Pereira chamava “três pés”, porque, parecendo que tinham pés a menos para jogar a bola, aparecia sempre um pé “a mais” para dar nas canelas do “adversário”. Por causa de um desses “três pés” fracturei um osso do braço direito, que me levou para o Hospital Militar, em Luanda.

Além destas jogatanas informais, disputávamos, de vez em quando, jogos em que uma equipa de praças defrontava outra de oficiais e sargentos. Ganhava sempre a equipa de praças, embora a outra equipa desse muita luta.


Jogo com a CCaç 715, da Missão do Bembe (a nossa equipa jogou de tronco nu, porque as nossas camisolas eram da mesma cor das da Missão, embora um pouco mais escuras)

Da esq. para a dta.: Pereira (ou Fagundes?), Mourão, jogador da Missão (?)**, Fonseca (a defender um canto), encoberto outro jogador da Missão (?), Miranda, Vaz e Casimiro


Também houve um torneio em que os quatro pelotões jogaram entre si. Claro que foi uma disputa muito desigual, porque o primeiro pelotão (por coincidência, o meu) tinha uma equipa de estrelas que não dava qualquer hipótese aos outros.

Além destes jogos domésticos, também recebemos e visitámos os camaradas das Companhias 715, da Missão do Bembe, e 739, do Toto. Nestes casos, eram encontros de desporto e confraternização, que, por vezes, incluiam outras modalidades, como o Andebol, o Voleibol e o indispensável almoço.

Sobre o Andebol e a sua introdução nos nossos tempos livres, tenciono escrever lá mais para a frente.

Na época das chuvas era frequente termos de terminar o jogo inopinadamente devido a um curioso fenómeno meteorológico. De repente, na tarde calma e quente, levantava-se uma forte ventania, seguida quase de imediato por chuva tão forte que parecia que o céu tinha aberto as comportas. Em pouco tempo formava-se um caudal que transformava a rua num rio. Pouco depois cessava o “dilúvio”, voltava o sol, e o calor secava tudo tão rapidamente, que nem parecia ter chovido.



1º Pelotão

Da esq. para a dta., em baixo: (?), Grilo, Pereira, Resende, Brandão (?)
De pé: Fonseca, Redondo, Oliveira, (?), Azevedo, Dias, e Teles (?)

Mal dávamos pela aparição do vento corriamos a toda a velocidade para a casa mais próxima, mas quem estivesse na zona mais afastada do campo ficava encharcado. Não era que tivesse muita importância, porque, afinal, íamos tomar duche a seguir.

De uma das vezes que entrámos na “casa-refúgio”, que era também o alojamento de alguns militares, alguém deu um berro porque acabava de encontrar uma cobra surucucu enrolada no pé de uma das camas de ferro. Não houve qualquer problema, a não ser para a pobre cobra, que estava no lugar errado, à hora errada, e terminou, assim, os seus dias de forma inglória.



* Esta parece ser a equipa que defrontou a CCaç 715, o que é estranho, porque inclui apenas oficiais e sargentos, não sendo a nossa melhor equipa. Da melhor equipa faziam parte, entre outros, o Oliveira - talvez o nosso melhor futebolista -, o Resende, o Brandão, o Dias e o Cristóvão.

** O esquecimento dos nomes assinalados com (?), pertencentes à CArt 738, será rectificado dentro de duas semanas, quando eu regressar à minha "base" habitual. Quanto à do pessoal da CCaç. 715, espero a ajuda do Carlos Cristóvão, furriel daquela Companhia, que passa por aqui de vez em quando.



2 comentários:

  1. Caro Carlos Fonseca:
    Uma vez mais os meus parabéns! Interessantíssimo, este seu blogue, com interessantíssimas histórias que ficarão para memória futura.
    Se as agruras da guerra foram muitas, também muitos foram os momentos bem passados e divertidos e que hoje recordamos com imensa saudade.
    Um abraço amigo do
    Silva Pereira

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  2. Meu caro Silva Pereira,

    Agradeço o seu comentário que, sendo fruto do seu espírito generoso, tomo mais como um incentivo, do que resultado de uma avaliação desapaixonada.

    Quanto às agruras porque passámos, uns mais do que outros, não está nos meus planos fazer delas cavalo de batalha. O que não significa que não possam vir a lume, se for necessário para melhor compreensão de algum texto.

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