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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Os Civis de Lucunga


A sanzala de Lucunga, ao fundo; no edifício branco, à esquerda, funcionava o Posto Administrativo 

Os textos que publiquei anteriormente poderão ter deixado a ideia de que todos os habitantes de Lucunga eram militares.

Ora isso não corresponde à verdade, já que também lá residiam civis. Desde logo, os moradores da sanzala. Os seus habitantes eram, na maioria, mulheres e crianças. Escrevo de memória, mas não errarei muito se afirmar que entre eles não havia residentes do sexo masculino com idades entre os 15 e os 45 anos.

Exceptuando os mais jovens, quase todos tinham partido para a mata depois da eclosão do terrorismo, em 15 de Março de 1961, acompanhando – forçados ou voluntariamente – os “insurrectos”. Os que tinham idade para isso, reforçaram as suas fileiras, tornando-se combatentes; as mulheres e os mais velhos ficavam nas bases, ocupando-se de tarefas de apoio logístico. Os que eram fisicamente capazes, serviam de carregadores de artigos diversos, entre o ex-Congo Belga, onde tinham as estruturas de apoio, e as bases angolanas.


Escolhendo amendoim
Da esq. para a dta.: Miranda Dias; meio tapado, o pequeno Pedro (filho da Conceição); Fonseca; Conceição; Azevedo; Maria(?)

Entretanto, e em consequência da actividade das nossas forças, quer através de operações de assalto às bases, quer através de emboscadas montadas ao longo dos percursos que o inimigo utilizava, muitos desses elementos foram sendo recuperados e reinstalados nos lugares de origem.

Embora enquanto civis dependessem do Chefe do Posto Administrativo – outro civil a residir na povoação -, tinham algum apoio da parte da nossa Companhia, bem como de alguns dos seus militares.

Da Companhia recebiam cuidados médicos e de enfermagem e algum dinheiro por pequenos serviços que prestavam. Recebiam igualmente a alimentação que sobrava das nossas refeições (isto é, sobras, e não restos). As mulheres lavavam e passavam a ferro a roupa de alguns militares, recebendo em troca o pagamento previamente acordado.



Na sanzala, com o Pedro

Havia ainda mais três residentes civis que tinham sido proprietários de fazendas de café na região.

Um deles era o Sr. Santos, homem com grande conhecimento da região e que no início da comissão nos serviu de guia nalgumas operações. Tinha um pequeno comércio, onde, de vez em quando, comprávamos um ou outro produto que não havia na cantina. Por exemplo, as prendas de anos - um tema de que espero “falar” num futuro post – eram compradas lá.

Acompanhava-nos também nalgumas expedições de caça, dando-nos dicas preciosas, por exemplo, sobre os cuidados a ter para evitar as arremetidas de pacaças feridas.

Bom conversador, era capaz de passar horas a contar-nos as suas experiências naquelas terras.

Os outros dois civis, constituiam um casal (homem e mulher, como era usual à época), cujos nomes se perderam nas névoas da minha memória, talvez porque não tivesse convivido muito com eles. Tinham uma espécie de bar, cuja exploração não podia render proventos bastantes para lhes garantir a sobrevivência, atendendo a que os produtos que vendiam podiam ser adquiridos na nossa cantina por metade do preço, ou menos.

A verdade é que havia um ou outro militar que, uma vez por outra, lhes frequentava o estabelecimento.

Lá mais para diante contarei a história de outro "morador temporário", que trazia água no bico, sem que disso nos apercebêssemos.

2 comentários:

  1. Também não me lembro dos nomes dos membros do casal, mas eram conhecidos por "papa macacos" e "fada loira de Lucunga". Ele porque ter-se-ia alimentado de macacos nos seus primeiros tempos no norte de Angola e ela por ironia cruel, visto que de fada nada tinha e de loira pouco restava.
    O outro civil que por lá apareceu e vivia com eles chamava-se Carlos.

    Sebastião Fagundes

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  2. Sebastião Fagundes,

    Tem razão, era isso mesmo.
    Não sei se recorda de dois outros civis que por lá apareceram e ficaram algum tempo.

    Um, sem modo de vida, foi alojado pelo comerciante Santos. Não me recordo do nome, mas como dizia que tinha "sangue azul", chamávamos-lhe o "Conde", na paródia.

    O outro, estava no Posto Administrativo, já não me lembro se como ajudante, se a fazer uma espécie de estágio. O nome "voou", mas sei que alguém lhe pôs a alcunha que de "Pentecostes".

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