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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Caça

Na região de Lucunga abundavam as pacaças, as quissemas (também conhecidas por "burros de mato", porque a única particularidade que as distinguia dos burros eram os chifres que possuiam), os antílopes* (aos quais, fosse qual fosse a designação correcta do animal caçado, e eram muitas,  chamávamos sempre, generalizando, "veados"), os javalis-africanos, também chamados javalis-facocheros, ou simplesmente facocheros, as galinhas de mato e as saborosas perdizes.


Javalis-africanos pastando

Perante esta dádiva, aproveitávamos algum do nosso tempo livre para caçar, contribuindo dessa forma para melhorar a ementa do pessoal.

Porém, esse benefício só contemplava toda a gente se o animal caçado fosse uma pacaça ou uma quissema. Quanto aos "veados", o seu consumo só podia ser generalizado a toda a Companhia, se fossem abatidos pelo menos três exemplares (o que não era fácil) e, mesmo neste caso, a fartura não era muita.



Quissema

Já no que se refere às galinhas de mato e às perdizes, o seu consumo era restrito e pouco frequente, não só pelo seu reduzido tamanho, mas também porque quando se caçavam à bala, ficavam normalmente desfeitas e sem préstimo. E, espingardas-caçadeiras, mais adequadas a este género de caça, havia apenas duas no quartel: uma do furriel mecânico António Sousa e outra do alferes médico Salazar Leite. Não é de estranhar por isso que, quando iam parar ao tacho, o petisco apenas fosse saboreado por um grupo reduzido. Umas vezes calhava a uns, outras vezes a outros. 

Devo dizer que apesar da abundância de javalis-africanos, não tenho memória de que alguma vez se tenha conseguido caçar algum. Na zona do curso de água onde nos abasteciamos, havia muitos, e não foram poucas as vezes em que tentei apanhar ao menos um, para provar a carne que me diziam ter um paladar delicioso. Avistei vários, de fugida, mas, mal levantava a FN para fazer pontaria, eles desapareciam a uma velocidade impressionante para o seu peso. 

Resultado da caçada
Da esq. para a dta.: Gomes, Fonseca, "Porreiro da Vida", de cócoras, Abreu e (?)

Como era um bocado piegas, deixei de tentar caçá-los depois de ter visto (e ouvido) a aflição de uma fêmea a tentar fugir com a sua ninhada de leitõezinhos. E foi assim que fiquei sem saber qual era o seu paladar.

Numa dessas expedições de caça, de que não fiz parte, foram abatidas duas pacaças, o que criou um problema ao Vaz, o nosso vagomestre, que não tinha espaço suficiente nas arcas para guardar os dois animais, e, com a elevada temperatura africana, a carne ficaria rapidamente imprópria para consumo.

Alguém teve então a ideia de, numa acção de boa vontade e camaradagem, oferecer uma das pacaças ao quartel de Chimacongo, localizado a cerca de 30 kms., onde tinha chegado há pouco tempo, uma Companhia de "maçaricos". O que foi feito. E se o vagomestre de Chimacongo acreditava em milagres, deve ter considerado aquele presente uma dádiva divina, porque, talvez por inexperiência, estava com um sério problema, pois o "seu" depósito de géneros não tinha nem um grama de carne. 


Tarde de caça
Da esq. para a dta.; Azevedo, Fonseca, atrás a apontar a caçadeira, o Sousa, Mourão e Silva

Aliás, segundo nos contou o furriel Vaz, pouco mais tinham do que bacalhau e conservas.

Mas, apesar da nossa "boa vontade", o relacionamento entre as duas Companhias nunca foi muito boa. Pelo menos entre os respectivos comandantes. 

Para operarem numa zona da margem esquerda do rio Coji, cuja vigilância era da sua responsabilidade, os militares de Chimacongo tinham de passar pelo nosso quartel para terem acesso à jangada onde efectuavam a travessia do rio.

Sucede que, quando o faziam, passavam por  Lucunga "como cão por vinha vindimada" (sobretudo quando vinham sob o comando dos seu comandante de Companhia), sem sequer fazerem a paragem de cortesia, que era da praxe nestes casos. Ora o capitão Rubi Marques achava que este procedimento consubstanciava uma grave falta de respeito e, na primeira oportunidade, chamou a atenção do comandante de Chimacongo. Sem resultado, porque a reacção deste foi, no minímo, inamistosa.


Da esq. para a dta.: Fonseca, Azevedo, Sousa, Mourão e Silva
Não consigo identificar os militares em cima do "jipão", por falta de nitidez da foto. Mas o que está mais próximo, de pé, parece o Morgado e, ao lado dele, em baixo parece o soldado-condutor,  Lobo (mais conhecido por Cigano, num tempo em que isso não era politicamente incorrecto)

Para grandes males, grandes remédios. O nosso capitão não esteve com meias medidas e resolveu instalar cancelas nos acessos ao quartel, que ficavam permanentemente fechadas a cadeado. Sempre que alguma viatura precisava de sair ou entrar, o sargento de dia saltava para a bicicleta que tinha  sido comprada para o efeito, e ia abrir a cancela.

A primeira vez que o comandante de Chimacongo chegou e encontrou a cancela fechada, foi um Deus nos acuda. Berrou, esbracejou, ameaçou "rebentar com esta merda" - palavras dele -, mas não teve outro remédio se não ir ao posto de comando, falar com o capitão Marques, em conformidade com as ordens que este tinha dado ao sargento de dia.

Lá dentro, o diálogo foi tudo menos amigável. Cá fora, ouviam-se perfeitamente as vozes alteradas dos dois oficiais.

A verdade é que o sistema da cancela fechada se manteve enquanto permanecemos em Lucunga.




* No texto inicial escrevi "cervídeos" em vez de "antílopes".  Entretanto, um biólogo que é visitante habitual do blogue, enviou-me um e-mail chamando a atenção para o facto de não existirem cervídeos em África. O que nós caçávamos eram antílopes, que são bovídeos.


Está feita a devida rectificação.

2 comentários:

  1. O "nosso tropa diaca" não identificado, de tronco nu, junto à pacaça abatida, é o Gomes, clarim e meu impedido.

    Sebastião Fagundes

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  2. Meu caro Fagundes,

    Mais uma ajuda preciosa. Eu bem andei a coscuvilhar a lista do "nosso" pessoal. Mas não consegui ligar aquela "chipala" a um nome.

    Já corrigi a legenda.

    E o meu agradecimento, que espero se repita, porque vou ter mais "brancas". Sobretudo, quando, lá mais para a frente, escrever sobre as minhas "férias" em Porto Amboim.

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