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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Navegando rumo a Angola

Depois das emoções da despedida a viagem decorreu sem sobressaltos, e até o mar, sempre calmo, ajudou.

O "Vera Cruz" tinha sido construído para transportar cerca de 1.200 passageiros (as fontes informativas que consultei variam entre os 1.182 e os 1.242  viajantes).

Porém, quando fazia a "Linha de África", transportando militares, chegou a ter lotações de mais de 3.000 passageiros.

Na nossa viagem para Luanda seguiram a bordo 3 Batalhões e algumas Companhias e pelotões independentes. Não sei exactamente qual era o número total de passageiros, mas presumo que deveria ultrapassar os 2.500.


Almeida, Fonseca, Babo, Miranda Dias e Mourão

 Os oficiais e os sargentos viajaram instalados em 1ª e 2ª classes, respectivamente. No meu caso, dividi um confortável camarote com o Mário Abreu. 

Não se pode dizer o mesmo quanto à classe de praças; os alojamentos não eram tão confortáveis, sobretudo para os que, não tendo tido a sorte de conseguir um beliche nos já de si sobrelotados camarotes de 3ª classe - onde foram improvisadas camas suplementares -, se viram obrigados a dormir em "beliches" instalados em tudo o que fosse espaço vago, incluindo os corredores.

Na 2ª classe, não só tínhamos boas acomodações, mas também usufruíamos de um serviço quase luxuoso. A ementa das principais refeições (almoço e jantar), incluia sopa, peixe, carne, fruta ou/e doce, água ou vinho e café. Tínhamos pequeno almoço à escolha do freguês (à inglesa ou continental), e um lanche (a que só compareci uma vez para ver como era), com chá, café e leite, uma grande variedade de bolos, pães, croissants, etc. 


Salão do navio "Vera Cruz"

Em suma, comia-se à grande e à francesa, talvez para compensar, por antecipação, as inúmeras ocasiões em que, no mato, iriamos ter para comer apenas rações de combate (e alguma fruta que os macacos, magnânimos, nos deixassem nas árvores).
                                                                
Às cinco da tarde abria o bar, onde podíamos escolher toda a espécie de bebidas, incluindo alguns cocktails que a maioria só conhecia dos filmes, ou da leitura de romances.

Ao serão, podíamos assistir à projecção de um filme, ou à exibição de um conjunto musical (fracote). Quer um, quer outro espectáculo tinham lugar alternadamente na 1ª e na 2ª classes.
                                                            
Como não há bela sem senão, também tínhamos um acontecimento diário que  todos considerávamos um frete. Depois do almoço tocava a sereia do navio e todos nos dirigiamos para um exercício de salvamento junto das baleeiras, que terminava sempre com o pessoal a cantar em coro a célebre “Angola é nossa” (e a maior parte dos “passageiros” pensava que Angola era mesmo nossa. Afinal era engano...).

O resto do tempo era aproveitado ao gosto de cada um. Lia-se, escreviam-se cartas, ouvia-se música, jogava-se (muitas vezes a “doer”)...


Preparativos para a festa a bordo

 Ao fim de três ou quatro dias de viagem a temperatura começou a subir e a piscina começou a registar uma grande afluência. No meu caso, não fui freguês assíduo porque depois da natação não era possível tomar duche com água doce, que era fechada às 9 horas da manhã. A partir dessa hora podiamos tomar os duches que quiséssemos, mas de água salgada.

Além destas formas de entretenimento, conversava-se também muito, sobretudo, especulando sobre qual seria a zona de Angola que nos estava destinada.

Este era um assunto recorrente na 2ª classe, entre os camaradas dos três batalhões que seguiam a bordo. Sabíamos que havia três destinos: Zala (o mais perigoso de todos e, também, o lugar de Angola onde ninguém queria estar), Vale do Loge, e salvo erro,  Ambriz.

Como o comandante do nosso Batalhão tinha vindo de Zala, onde tinha exercido as funções de segundo-comandante do Batalhão que ia ser substituído, os camaradas dos outros Batalhões achavam que seria esse o nosso destino. Em boa verdade, também nós, no BART 741, achávamos que talvez essa teoria fizesse sentido e receávamos (muito) que a previsão se concretizasse.

O autor do texto com o soldado João "dos comboios"(2º pelotão)


Foi por isso com enorme alívio que, antes da chegada a Luanda, tomámos conhecimento de que o comando do nosso Batalhão (bem como a CCS), ficaria instalado no antigo colonato do Vale do Loge, e que as companhias  teriam os respectivos aquartelamentos em Lucunga (738), Toto (739) e Serra da Inga (740).

Entretanto, o "Vera Cruz" chegava a Luanda. Das particularidades desse dia darei conta noutra ocasião.

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