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sábado, 29 de janeiro de 2011

Água e Lenha

Uma semana depois de chegarmos a Lucunga, a Companhia que fomos render partiu, e ficámos entregues a nós próprios.

De acordo com a rotina diária estabelecida pelo comandante de Companhia, havia um pelotão a fazer serviço externo (operações de um dia, colunas de reabastecimento, escoltas); outro pelotão estava de piquete para qualquer emergência; contudo, os seus elementos não ficavam inactivos: colaboravam na reabilitação dos alojamentos, e mais tarde na sua manutenção, capinavam, abriam valetas, etc.; havia ainda o "pelotão de dia ao quartel", que tinha como função garantir a segurança e a limpeza do quartel, bem como o fornecimento de água e lenha;  e, finalmente, um último pelotão que estava de folga. Normalmente, tinha estado em serviço externo na véspera.

Quando se realizavam operações que duravam vários dias, faziam-se os ajustes necessários ao bom funcionamento da unidade.

Os fornecimentos de água e lenha eram diariamente garantidos por uma secção do "pelotão de dia ao quartel".

Alguns elementos da equipa da água 
Da esq. para a dta.: Carlos Fonseca, Nunes da Silva, João Palhares,, Brandão Pacheco e Casimiro Cerqqueira

O transporte de água era feito em tambores de 200 litros - 8 de cada vez - a partir de um ribeiro que passava a cerca de 5 quilómetros do quartel e, para garantir que todos  os depósitos instalados nos telhados dos alojamentos seriam abastecidos - embora nem sempre em toda a sua capacidade -, era preciso fazer pelo menos cinco viagens. 

Tinham prioridade na distribuição da água, a cozinha do rancho geral e a enfermaria, onde era previamente tratada toda a água que bebiamos. Exceptuando estes dois casos, não havia uma regra para a distribuição. Cada comandante de secção decidia a seu modo, embora houvesse tendência para cada um puxar a brasa à sua sardinha. Isto é, primeiro a sua casa, a seguir a messe (onde ficavam os alojamentos dos oficiais, com a excepção do comandante), e depois a moradia dos outros furriéis e o pessoal do respectivo pelotão.

Na prática, seguia-se, sem muitos o saberem, a velha máxima da Academia coimbrã; "para os amigos, tudo;  para os inimigos, nada; para os outros, cumpra-se a lei".

Isto, salvaguardando o facto de não termos inimigos na Companhia.

Cortando a lenha
Da esq. para a dta.: Albino Marinho(?), Manuel Lopes, Carlos Fonseca e (?)

Alternando com o transporte de água, era preciso também, apanhar, cortar e transportar lenha, que era o combustível utilizado na cozinha. 

Encontrávamos lenha ao longo da estrada, ora no sentido Lucunga-Bembe, ora no sentido Lucunga-Damba. A estrada estava ladeada por grande número de árvores, cujas folhas constituíam um petisco muito apreciado pelas manadas de elefantes que existiam naquela zona. Para as comerem derrubavam os ramos com a tromba, deixando-os, depois, caídos no chão. Entretanto, secavam, pelo que apenas tínhamos o trabalho de os cortar para caberem no atrelado onde os transportávamos.


Manada de elefantes

Quis o acaso que tivese calhado à minha secção fazer o primeiro transporte de água e lenha sem a protecção dos "anjos da guarda" da Companhia que tinhamos rendido. Ainda por cima, todos os quartéis do Norte tinham entrado em estado de prevenção rigorosa, para prevenir uma eventual acção em grande escala do inimigo, para assinalar o 4 de Fevereiro de 1961, data que é considerada como tendo sido o início da guerra. Os do outro lado, sempre bem informados, não ignoravam que havia maçaricos em Lucunga, e podiam querer aproveitar-se da nossa inexperiência. 

Não me recordo quantas viagens fiz nesse dia, mas sei que era grande a minha apreensão até terminar a tarefa, pelo receio  de que fossemos alvo de uma emboscada. Recordo-me que, atendendo a que o local onde enchiamos os tambores era propício a um ataque, ocupei a maior parte da secção a fazer a segurança de um e do outro lado do ribeiro, mantendo-me sempre alerta. 

A recolha da lenha era feita em campo aberto, e aí a segurança foi menos apertada, mas sem descurar os cuidados devidos.

Hora do banho

Em baixo, da esq.para a dta.: José Pereira  e José Mourão
Em cima, pela mesma ordem: Carlos Fonseca, Nunes da Silva e Miranda Dias

Contrastando com as cautelas referidas, alguns meses mais tarde, quando estávamos de folga, íamos quatro ou cinco com a secção encarregada do fornecimento de água e, enquanto eles voltavam ao quartel para descarregar, ficávamos, sozinhos, a nadar até eles voltarem, numa manifesta falta de prudência. 

No nosso caso, nunca houve problemas, mas este tipo de situação que resultava de um  excesso de confiança que os verdes anos explicavam, mas não justificavam, deu muito mau resultado noutros locais.

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