Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 17 de março de 2011

O correio



O avião do correio

O correio era, sobretudo no isolamento de Lucunga em que não havia qualquer outro meio de comunicação, como já escrevi anteriormente,  factor relevante no nosso bem-estar, bem como uma contribuição importante na manutenção da moral em alta.

Em consequência, não admira que a sua chegada - e distribuição - gerasse um ambiente de grande expectativa, por vezes com alguma ansiedade à mistura. Havia aqueles que tinham sempre cartas ou aerogramas, em maior ou menor quantidade. Mas alguns recebiam menos correspondência, ou mesmo nenhuma, deixando-os tristes e com uma sensação de vazio. Nessas ocasiões, um braço solidário no ombro e uma visita à cantina para uma Cuca ou Nocal fresquinhas, animavam e ajudavam a suportar a desilusão.



Porém, de vez em quando havia cartas que, em vez de animar, provocavam situações de depressão aos seus destinatários, ainda que nalguns casos, tentassem disfarçar o que lhes ia na alma.

Vou contar hoje três desses casos, sem identificar os protagonistas com os seus nomes verdadeiros.

O Helder Salgueiro era um dos maiores animadores do pessoal, sempre com uma reserva de boa disposição. Por citar o nome da namorada – Francelina -, a qualquer pretexto, ou mesmo sem ele, acabou por ser conhecido por “Helder da Francelina”. Julgo que alguns nem sequer conheciam o seu verdadeiro apelido.

Mas, como não há bem que sempre dure, os aerogramas da Francelina começaram a rarear a partir de certa altura, tendo, entretanto, deixado mesmo de chegar. O que chegou foi uma carta da mãe dele, em que lhe dizia que a namorada ia casar com outro rapaz lá da terra.

Naturalmente, a boa disposição do Helder, que já andava arredia, evaporou-se. Durante algum tempo, só o forte apoio dos camaradas evitou que ele se fosse abaixo de todo. Demorou alguns meses, mas o seu característico optimismo acabou por levar a melhor e, mais ou menos cicatrizada, a ferida deixou de ser vísivel aos nossos olhos. O Helder deixou de ser “da Francelina” e passou a ser o Salgueiro.

O outro caso teve como protagonista o Canas.

O nosso vencimento era pago, se o desejásssemos, parcialmente em Angola e parcialmente em Portugal, neste caso até um máximo de dois terços do seu valor. O pagamento em Portugal era feito à pessoa que tivessemos indicado previamente, podendo ser alterada em qualquer altura. Na maior parte dos casos, eram dadas indicações para o pagamento ser feito ao pai, à mãe, ou à esposa do militar, quando casado.

O Canas dera indicação para se efectuar o pagamento à namorada. E tudo corria bem, até que, sensivelmente um ano depois de termos chegado a Angola, chegou a fatídica carta: o amor da namorada não resistira à distância, e ela já tinha um novo namorado. Sobre o dinheiro já recebido, nada.

Destroçado, apareceu na nossa casa para desabafar a sua mágoa, ocasião em que nos revelou que era ela quem estava a receber o seu dinheiro desde o princípio da comissão. Com a “esperteza” dos nossos vinte e três anos, achávamos que ela lhe ia dar o golpe, ficando com a “massa”, sem que ele pudesse fazer nada. E o nosso conselho foi o de que alterasse imediatamente a situação, nomeando em seu lugar, um familiar chegado.

Respondeu-nos que não o faria, e explicou o porquê da decisão. Pensava que se indicasse outra pessoa para receber o vencimento, a ex-namorada podia ficar ofendida pela desconfiança, não lhe entregando o dinheiro entretanto recebido como forma de retaliação. Assim, com a prova de confiança que, apesar de tudo, lhe dava, talvez ela lhe entregasse tudo no fim da comissão.

Talvez ele, que a conhecia (ou julgava conhecer) bem, tivesse razão. Como não voltei a encontrá-lo depois do desembarque, nunca soube como é que acabou este embróglio. Se algum dia o souber, informo.

O terceiro caso, teve contornos em que conviveram o drama e a farsa.

A família do nosso camarada Jónatas, beirão de gema, não tinha terras, não tinha oliveiras, não tinha vinhas, nem tinha gado. Em suma, era pobre. Por isso, os pais da namorada não viam com bons olhos o namoro da filha com ele, que, de seu, apenas tinha a honradez e o amor pela Albertina.


Hospital Militar de Luanda

À medida que o tempo ia passando, as cartas que recebia da namorada relatando as pressões diárias dos pais para acabar a relação, afligiam-no cada vez mais, com consequências no seu equilíbrio mental. E o pior foram as cartas em que ela, também em desespero, começou a referir que os pais queriam, não só que acabasse o namoro com ele, mas também que namorasse e casasse com um outro rapaz, de algumas posses.

Quando o assunto vinha à baila, quase todos achávamos, preocupados, que aquilo ainda acabava mal.

Até que uma noite, quando toda a gente se tinha recolhido e já dormia, acordámos em sobressalto com o som de um disparo. A primeira coisa que pensámos foi que estávamos a ser assaltados, e vá de saltar da cama, pegar na arma e sair de casa.

Não havia assalto nenhum. Sem sono, angustiado, o Jónatas agarrou na espingarda FN, veio para a rua e disparou.

Quando chegámos junto dele, disse-nos que não suportava mais aquela vida, que tinha dado um tiro na testa, e que a bala tinha feito ricochete, tendo ido fazer um buraco na parede da casa mais próxima. Claro que não houve tiro na testa, nem ricochete nenhum. Ele disparou contra a parede e o buraco estava lá. Mas, apesar de perturbado, não o estava ao ponto de se matar.

A verdade é que conseguiu ser evacuado para o “Quintas”, como era vulgarmente conhecido o Anexo do Hospital Militar de Luanda, para doentes do foro psiquiátrico.

Não sei, porque nunca lhe perguntei qual foi o seu comportamento enquanto esteve internado, para convencer os médicos da sua insanidade. O que sei é que conseguiu os seus intentos. Algum tempo depois foi dado como incapaz para o serviço militar, e evacuado para Portugal.

Foi remédio santo. Passaram-lhe todos os males e ele e a sua Albertina levaram a sua avante. Tal como nas histórias de príncipes e princesas da nossa infância casaram, e foram, acredito, muito felizes. Pelo menos pareciam, na última vez que os vi, já lá vão uns anos.

Moral da história:nem sempre o correio que recebíamos nos fazia bem. Todavia, no caso do Jónatas acabou por fazer. 

Sem comentários:

Enviar um comentário

O seu comentário será publicado oportunamente