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terça-feira, 30 de agosto de 2011

As Patrulhas (Parte I)



Roça de café

Não havendo na Gabela acções de guerrilha, as nossas tarefas no exterior eram completamente diferentes das que desenvolvíamos em Lucunga. As batidas, as emboscadas, ou os assaltos aos acampamentos da FNLA (tanto quanto me recordo, o MPLA não actuava na zona de acção da nossa Companhia), levados a cabo por um ou mais pelotões e, de vez em quando, por secções, no caso de algumas emboscadas, deram lugar às patrulhas, que habitualmente envolviam um jeep Willys, o respectivo condutor, e mais três elementos: um furriel, um cabo ou um soldado e, quase sempre, um enfermeiro.

A presença do enfermeiro, portador da mala de primeiros socorros, devidamente apetrechada a contar com a numerosa “freguesia”, prendia-se com a assistência que era dada aos moradores das sanzalas por onde passávamos (pondo em prática a política de Acção Psico-Social), e onde havia sempre alguém a necessitar de ajuda. Às vezes até faziam fila alguns que não sofriam de qualquer maleita.

Ao percorrermos intensivamente a nossa zona de acção, estávamos também a passar a mensagem de que estávamos atentos a qualquer tentativa de sublevação por parte de movimentos independentistas (embora neste campo a acção dos agentes da PIDE, bem como da sua rede de informadores, fosse bem mais relevante). Por outro lado, a mensagem tinha também como alvo a outra parte da população, sobretudo a que vivia isolada nas fazendas, ou em localidades de menor dimensão, e que muitas vezes mostrava, nas conversas que mantínhamos, alguma apreensão.

Durante a semana de sobreposição, os camaradas da Companhia que fomos render informaram-nos que na maior parte das fazendas por onde iriamos passar, seriamos acolhidos por pessoas hospitaleiras, que, frequentemente, insistiriam não só para que aceitássemos partilhar a sua mesa, mas também para que pernoitássemos em suas casas, no caso de a patrulha se prolongar por dois, ou mais dias.





Jeep Willys

E ficámos igualmente a saber que nessas ocasiões era costume as refeições serem melhoradas, relativamente às ementas do dia a dia, sendo de realçar a primeira refeição da manhã, que não se limitava ao nosso habitual café com leite e pão com manteiga.

Desta forma, não estranhei quando, na minha primeira patrulha de dois dias, recebi o convite, que aceitei, para jantar e pernoitar numa fazenda de café. O programa começou por se desenrolar de acordo com as informações que já tinha. Embora não me recorde do que foi servido, sei que jantámos bem, e que dormimos confortavelmente. A surpresa surgiu quando, na manhã seguinte, chegámos à sala de jantar e, para meu espanto, vi em cima da mesa umas chávenas pequenas, café, e um prato com bolachas.

Alguém me tinha enganado. Afinal, onde estava o tal pequeno almoço substancial?

O dono da casa fez-nos companhia no mata-bicho do café e das bolachas do nosso desapontamento (já estava mentalizado para parar uns quilómetros à frente, a fim de tomarmos o pequeno almoço da ração de combate que levavámos, que nos alimentaria melhor do que o café e as bolachas) e, quando eu me preparava para agradecer a hospitalidade e seguir viagem (não sem antes verificar as condições de alojamento dos trabalhadores, cuja qualidade tinha que mencionar no relatório da patrulha), convidou-me para dar uma volta com ele pela fazenda. Isso ia atrasar-me um pouco, mas acedi e lá fomos.




Cafeeiro

Quando regressámos, convidou-nos a subir de novo para a sala de jantar, onde encontrámos a mesa posta para o verdadeiro pequeno almoço, que de pequeno não tinha nada: frango de churrasco, com batatas fritas e arroz. Para “empurrar”, cerveja gelada.

Assim estava melhor, e era bastante mais do que estávamos à espera.

De uma maneira geral, era assim que éramos acolhidos, acontecendo que, às vezes, uma recusa – que só acontecia se já tínhamos um compromisso anterior – era tomada quase como se fosse uma desconsideração. A excepção a estes acolhimentos “sibaríticos” verificava-se nas fazendas pertencentes a empresas, que eram geridas por empregados, onde éramos bem recebidos, mas sem tantas mordomias.


sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Reintegrado


Lucunga
Em meados de Abril de 1965 apresentou-se no Posto Administrativo de Lucunga um jovem negro que afirmava ser natural daquela localidade. Segundo afirmava, teria fugido com os pais para Kinshasa em consequência dos massacres de Março de 1961. Entretanto, resolvera regressar e, sendo cidadão português nascido em Angola, pretendia reintegrar-se na sociedade angolana, decisão que era sempre muito bem vista (e desejada) pelas autoridades.

Tratando-se de um civil ficou sob a alçada do Administrador do Posto, em cujas instalações ficou alojado. Entretanto, e enquanto esperava pelo processamento das formalidades burocráticas necessárias à sua legalização, lentas como era (e continua a ser) da praxe, o jovem tornou-se uma espécie de hóspede de todos nós. Circulava livremente pela localidade, contava episódios da sua vida em Kinshasa, participava activamente nos nossos jogos de futebol, e ia bebendo as Cucas que uns e outros lhe iam pagando na cantina da Companhia.

Embora não houvesse instruções nesse sentido acabávamos, neste caso, por levar à prática a política de Acção Psico-Social que tão cara era, nessa época, às autoridades nacionais e, muito especialmente, ao nosso comandante de Batalhão, tenente-coronel Cabrita Gil, que levava muito (talvez até demasiado) a peito aquela directiva do Governo de Lisboa.

Com alguma frequência realizávamos no edifício do Posto Administrativo renhidos jogos de cartas, durante os quais se bebiam uns “brandies” (já então o Constantino era famoso e barato, na cantina) ou umas cervejolas, conforme os gostos de cada um.

Na tarde do dia 12 de Maio decorria um desses jogos. Além dos jogadores havia, como de costume, alguns assistentes. Um desses assistentes era o jovem negro recém-apresentado que, tendo bebido demais, “desatou a língua” numa loquacidade surpreendente para os presentes, que aproveitaram para lhe puxar pelo verbo, incentivado pelo álcool que ia ingerindo sem se dar conta que falava demais.

E então, para espanto de toda a gente, começou a vangloriar-se de conhecer pormenorizadamente todas as nossas actividades, bem como as  rotinas diárias da Unidade. Sabia onde eram os alojamentos de todos os militares, fossem oficiais, sargentos ou praças. Para finalizar em grande acabou "confessando" que a sua vinda a Lucunga tinha como objectivo, não a apresentação e consequente reintegração, mas antes a finalidade de conhecer os “cantos à casa”. Com o trabalho feito, tinha chegado a hora de partir.

Feita a revelação, saiu disparado, porta fora, em direcção ao campo de futebol e à saída poente da localidade.

De todos os presentes apenas um civil - o comerciante Santos - estava armado. Saiu atrás dele, tirou a pistola do coldre e fez dois disparos. Ao segundo disparo o fugitivo parou, no meio do campo, com as mãos no ar.



Lucunga - Hospital ao abandono

Conduzido à sala de Operações e Comando onde foi sujeito a um longo e particularmente duro interrogatório, pouco revelou de interesse para a nossa actividade operacional. Confirmou que tinha sido enviado pela FNLA para recolher informações, adiantando que fugira porque, precisamente no final desse dia, estaria à sua espera no edifício do hospital (em ruínas, e situado a algumas dezenas de metros da povoação) um pequeno destacamento da FNLA que o escoltaria de volta a Kinshasa, onde apresentaria o seu relatório.

Poucoss dias depois a Rádio Brazzaville confirmaria a estada dos FNLA's no hospital, ao mesmo tempo que aproveitava para fazer a sua propaganda habitual acusando-nos de termos utilizado métodos de interrogatório desumanos. Não estranhámos, porque não era a primeira vez que a nossa Companhia era "elogiada" nos noticiários daquela estação, nem seria a última.

Algumas semanas depois, já quase recuperado do susto que apanhou ao sentir as balas da pistola do Santos a assobiarem junto à cabeça, foi entregue a quem de direito.

Meses mais tarde militares da Companhia que se deslocaram à cidade de Carmona (Uige, actualmente) encontraram-no, casualmente. Parecia ter sido de facto reintegrado, pois trabalhava como contínuo na Repartição de Finanças local e, na ocasião, manifestou grande satisfação pelo reencontro.

Mostrou-se muito contente com o novo rumo que a sua vida tomara. Mas, estaria efectivamente reintegrado? Ainda hoje tenho dúvidas...