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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Já lá vão 48 anos







Pouco antes da largada

Completam-se hoje 48 anos sobre a data em que o Vera Cruz zarpou do Cais da Rocha Conde de Óbidos, com destino a Luanda, levando a bordo quase três mil militares, dos quais cerca de 800 constituíam o Batalhão de Artilharia 741, de que fazia parte a Companhia de Artilharia 738. A minha Companhia.

Desse dia já lembrei quase tudo no texto que há dois anos escrevi aqui, quando iniciei neste blogue o relato de alguns episódios que sobraram na minha memória, e que fazem parte da minha história pessoal, bem como da dos 163 homens que formavam a CArt 738.

Nessa manhã, depois do desfile, de embarcar, e de guardar as bagagens, muitos camaradas voltaram ao cais para as derradeiras despedidas. Também eu tinha a intenção de voltar a terra, mas depois de subir até à amurada e de contemplar o “mar” de lágrimas que inundava o cais, decidi poupar-me e já não voltei a desembarcar, limitando-me a acenar para os familiares e amigos.


O Vera Cruz inicia a viagem

Não me serviu de muito, porque quando soltaram as amarras do navio, e ele começou a afastar-se do cais, houve como que um fenómeno de emoção colectiva a que não escapei, e também as lágrimas, mansas, mas intensas, deslizaram pelas minhas faces.

E lá fomos, rio abaixo, mar fora, rumo a Luanda, onde aportaríamos 9 dias depois.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Acidente - Conclusão


Finda a comissão de serviço do Batalhão, o regresso a casa estava marcado para 28 de Fevereiro, e, tal como na ida para Angola, a viagem seria feita a bordo do “Vera Cruz”.

Não me recordo da data exacta da chegada do Batalhão a Luanda, mas julgo que terá tido lugar uma semana antes do embarque.

Entretanto, e depois de ter sido informado pelo advogado que referi no texto anterior, de que nada impedia o meu regresso juntamente com a minha Companhia, falei com o ortopedista do Hospital Militar, que também não levantou nenhum obstáculo de ordem clínica à viagem, devendo apenas dirigir-me em Lisboa ao Hospital Militar, para tirar o gesso, em meados de Março. Ficou combinado que me daria alta três dias antes do embarque.

Na tarde do dia da chegada do Batalhão ao Campo Militar do Grafanil, fui lá, não só para rever os meus camaradas (e fazer contas com o Rodrigues e com o Vaz, que tinham feito pagamentos por minha conta), mas também para me informar junto do alferes que estava a instruir os autos, sobre a data em que lhe convinha ouvir as minhas declarações, além de lhe sugerir o encontro com o advogado, a que também já me referi anteriormente.


Grafanil - Altar construído na base de um imbondeiro

Além disso, aproveitei para falar sobre a minha situação, quer com o primeiro-sargento Ramalho, quer com o capitão Carvalho, que me disseram, de forma taxativa, que eu não fazia parte da lista de embarque do Batalhão, em virtude de ter autos pendentes. Além disso, o capitão intimou-me a retirar da Companhia os meus pertences, que incluiam uma mala de porão.

Na CCS (Companhia de Comando e Serviços) do Batalhão, onde fora elaborada a lista de embarque, estavam colocados alguns tenentes muito experientes – tinham iniciado a sua vida militar como soldados, e foram subindo na escala hierárquica – e, julgava eu, conhecedores profundos dos meandros da legislação militar, com quem fui falar a seguir, mas que, apesar dessa sabedoria, consideravam igualmente que eu não podia embarcar.

Por outro lado, senti um clima de alguma hostilidade, tanto no comando da Companhia, como no comando da CCS. Como se eu fosse uma espécie de proscrito.

Regressei a Luanda de táxi com os meus sacos e malas, mas depois de os deixar no hotel, segui no mesmo táxi para casa do advogado, a quem relatei o que se tinha passado no Grafanil.

Acalmou-me, confirmando que, eventualmente, o meu nome podia não constar da lista do Batalhão, mas ele tinha-se assegurado de que constava da lista da 1ª Repartição do Quartel-General. Adiantou ainda que, se por qualquer baixa manobra dilatória dos meus “amigos” do Batalhão eu não embarcasse no dia 28, estaria à espera deles no Cais da Rocha, à chegada, porque ele tomaria as providências necessárias para que eu fizesse a viagem de avião nos primeiros dias de Março.


Luanda - Fortaleza de S. Miguel, vista da baía

Não deixava de ser uma perspectiva tentadora, mas eu queria muito ganhar aquela “guerra”, embarcando com os meus camaradas no dia 28.

Neste interim, prestei declarações nos autos e fiquei a saber que o condutor do jeep, tinha afirmado, mentindo no seu depoimento, que eu o obrigara a ceder-me o volante. Se vingasse essa tese, a minha situação, que já não era boa, ficaria seriamente complicada. Felizmente o testemunho dos outros dois ocupantes da viatura correspondendo à verdade dos factos, corroborava inteiramente a minha versão.

Dois ou três dias antes do embarque tive alta do Hospital, e o Depósito de Adidos passou a guia de marcha para me apresentar na minha Companhia. Chegado ao Grafanil, apresentei-me ao capitão Soares, que me disse que não valia a pena ter-me dado ao trabalho, porque a 28, enquanto o pessoal do Batalhão embarcava, eu voltaria a apresentar-me no Depósito de Adidos.

Nesse mesmo dia foram pagas as ajudas de custo de embarque, cujo valor, para a classe de sargentos, era de 3.000$00. O meu nome não constava na folha de pagamento.

Pouco depois da chegada, eu e os furriéis Miranda Dias, Mourão e creio que o Vaz, tínhamos alugado um Ford Cortina, para as nossas deslocações pela cidade. Com este aluguer poupei uma pipa de massa em táxis, porque naqueles últimos dias andei numa roda viva de um lado para o outro.

Na antevéspera do embarque, logo depois do almoço, o advogado deixou-me um recado no hotel a confirmar que eu ia mesmo embarcar. Como a bagagem de porão teria que ser colocada no cais de embarque na manhã do dia seguinte, véspera da partida, meti a mala na bagageira do Cortina e, como sempre com um deles a conduzir, fui levá-la ao Grafanil, para ser marcada e seguir, junto com as bagagens dos meus camaradas para o porto de Luanda. Não fui autorizado a deixar a mala porque o primeiro-sargento, na ausência do capitão Soares, insistiu que eu não iria embarcar.


Luanda - Capela do depósito de Adidos

Finalmente, na sexta-feira de manhã, os manda-chuvas do Batalhão e da Companhia, renderam-se à evidência: tinham perdido a “batalha” e eu ia mesmo embarcar. Ainda antes do almoço pagaram-me as ajudas de custo, mas já não podia pôr a minha mala junto com a bagagem de porão do pessoal da Companhia. Desforrei-me, talvez de forma indecente, mais tarde, em Lisboa, como poderão ler algumas linhas abaixo.

Nessa tarde andei numa roda viva. Levei a mala de porão ao cais, onde foi colocada a bordo, misturada com a bagagem de outra unidade, fiz compras, fui aos Correios mandar um telegrama para casa a confirmar que chegaria no dia 9 de Março a Lisboa, e fui pagar e agradecer ao advogado, que se revelara decisivo no apoio que me deu.

À noite, depois do jantar que ofereci a alguns camaradas mais chegados, voltei cedo para o hotel porque queria escrever algumas cartas a anunciar o meu regresso.

Estas cartas acabaram por ter um destino inesperado que só descobri quase dois anos depois, por acaso.

Como tinha de estar cedo no cais, sem tempo para esperar pela abertura dos Correios, pedi ao recepcionista do hotel que, mais tarde, mandasse um mandarete aos Correios comprar os selos e enviar as cartas. O custo total dos selos era de 12$50, e eu deixei 50$00, ficando o remanescente para beberem uma Cucas.

Quase dois anos depois, e por acaso, descobri que nenhuma das cartas fora enviada. O recepcionista e (ou) o mandarete, ficaram com os 50$00.


O navio Vera Cruz a chegar a Lisboa, transportando militares de regresso de África

O capitão Soares de Carvalho, que tinha ido comandar a nossa Companhia em rendição individual, ainda tinha ano e meio de comissão para cumprir, pelo que não regressou connosco. Antes do barco zarpar, promoveu uma reunião na sala de 2ª classe do “Vera Cruz” para se despedir dos sargentos da Companhia. Não compareci à reunião, mas o Vaz veio ter comigo à amurada, onde eu ia assistindo à azáfama do pessoal no cais, dizendo-me que o capitão me tinha mandado chamar para se despedir. Pedi-lhe que lhe transmitisse que se era uma ordem, eu iria, mas que, se não era, eu não estava interessado em me despedir dele. Não terá sido bonito, mas correspondia ao meu estado de espírito naquela ocasião. O Vaz não voltou, e mais tarde soube que ele tinha dito que não me tinha encontrado.

À chegada a Lisboa, o facto de eu não ir desfilar, por estar de braço engessado, serviu de pretexto para me encarregarem de superintender no carregamento das bagagens da Companhia, e do acompanhamento das camionetas até ao quartel do RAL 1, na Encarnação.

Como a descarga do navio ainda iria demorar, fui com alguns dos familiares e amigos almoçar ao Bonjardim, que à época servia os melhores frangos assados de Lisboa, e, quando voltei ao cais, a meio da tarde, a confusão era enorme (além de que não era nada fácil encontrar a minha mala, misturada com a bagagem de outra Companhia). Decidi então mandar regressar as camionetas ao quartel, adiando o levantamento da bagagem para o dia seguinte.


Esplanada do Restaurante Bonjardim

(Em 1967 não havia esplanada, nem sequer espaço para ela. A travessa era estreita, e passavam lá os carros eléctricos)

Quando cheguei ao RAL 1 a minha decisão não foi muito bem recebida, porque isso implicava que uma minoria, mais ou menos escolhida a dedo, residente longe de Lisboa, teria de ficar mais um dia na capital. Misturando ironia com algum cinismo (nunca disse que era perfeito), disse-lhes que pensava que iam gostar de ficar mais uma noite na civilização. Quanto aos outros, que me eram mais chegados, seguiram viagem para suas casas nesse dia, deixando-me os seus endereço. No dia seguinte, depois de voltar ao cais da Rocha para levantar bagagens, aluguei uma camioneta que transportou todas as suas malas e caixas do quartel para a estação de Santa Apolónia, onde as despachei.

Passadas duas semanas fui ao quartel pedir uma guia para ir ao Hospital da Estrela tirar o gesso. Porém, tive uma desagradável surpresa. Fizeram uma radiografia ao braço, que revelou que a intervenção em Luanda tinha sido mal feita. Em vez de reduzir correctamente a fractura, o ortopedista tinha sobreposto os ossos, deixando-os “acavalados” .

Resumindo, fui submetido a mais duas intervenções, com anestesia geral, fiz sessões de fisioterapia e acabei por ter alta onze meses depois, quando, farto do hospital, forcei a alta faltando às sessões de fisioterapia, que, de resto, quase ninguém levava a sério.

No Hospital Militar de Lisboa – Anexo de Campolide – conheci muitos camaradas evacuados dos vários teatros da guerra que, embora sobrevivendo aos ferimentos, tinham ficado seriamente estropiados. Muitos aguardavam pela viagem à Alemanha onde lhes seriam colocadas próteses; outros já tinham regressado, com próteses tão perfeitas, sobretudo nos membros inferiores, que lhes permitiam fazer uma vida quase normal, incluindo a condução automóvel.


Lisboa - Hospital Militar Principal, em foto recente

Em 23 de Fevereiro de 1968 fui a uma junta médica, que me deu alta. E foi assim que, quase 55 meses depois de ter assentado praça em Tavira, chegou ao fim a minha vida militar.

Quanto aos autos, acabaram por ter um fim de todo inesperado.

Em consequência da deslocação do papa Paulo VI a Fátima, em 13 de Maio de 1967, o Governo decretou uma amnistia geral. Nos termos dessa amnistia, os militares com autos pendentes em resultado de infracções que tivessem causado ao Estado um prejuízo de valor inferior a 3.000$00, veriam os seus autos arquivados, sem mais consequências. Nos casos em que o valor se situasse entre os 3.000$00 e os 6.000$00, os autos também seriam arquivados, desde que o infractor indemnizasse o Estado dentro de um determinado prazo.

Os danos que o desastre provocara no jeep eram, na opinião do furriel-mecânico Sousa, superiores a 15.000$00, o que me colocava fora da amnistia.

Ora, por um daqueles acasos que às vezes acontecem, tinha assumido o comando do Agrupamento do Serviço de Material de Luanda, para onde foi transportada a viatura danificada, para peritagem e posterior reparação, um oficial que eu conhecera em casa da família de uns amigos meus, de quem ele era também amigo.

Tendo tido conhecimento do que sucedera, esses amigos escreveram a esse oficial intercedendo a meu favor, e, provavelmente por sua influência, a peritagem considerou que do desastre tinham resultado danos na viatura no valor de 5.800$00. Isto é, os meus autos seriam arquivados se eu pagasse ao Estado 3.480$00. O que fiz, ficando desse modo livre de ir parar à Trafaria durante 30 dias, pelo menos.

Pode dizer-se que tive muita sorte. E, claro, fiquei com uma grande admiração pelo papa.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A Boleia do Chico Nazaré


Quibala

(Foto de autor desconhecido)

Depois de ter gozado dez dias de férias em Luanda, regressei à Gabela faz hoje 45 anos.

O transporte público entre a Gabela e Luanda consistia numa carreira diária de autocarro, que além de demorar muitas horas, era extremamente desconfortável.

Na véspera da viagem para Luanda, procurei encontrar alguém que estivesse para fazer a viagem e me desse boleia. Não consegui, mas, para minha surpresa, quando no Café Central perguntei se alguém iria viajar no dia seguinte, o Sr. Barradas, proprietário de um stand de máquinas agrícolas (creio que também vendia automóveis, mas não tenho a certeza), pegou nas chaves e nos documentos do seu carro e estendeu-mos, pondo-o à minha disposição.

Não aceitando, embora, a oferta, não deixou de me sensibilizar a disponibilidade demonstrada por alguém que conhecia socialmente, mas com quem não tinha grande proximidade.

No dia seguinte fui no jeep que todas as quintas-feiras ia até à Quibala levar o correio militar. A Quibala era uma espécie de entroncamento rodoviário, e foi fácil conseguir uma boleia até Luanda.


Ilha de Luanda

(Foto de Ivo Cardoso)

Na véspera do meu regresso, corri as capelinhas em Luanda, de novo à procura de uma boleia. Tive mais sorte do que dez dias antes; pouco depois de iniciar a busca encontrei o gabelense Chico Nazaré, filho de um comerciante que acumulava com o cultivo de café, e que se prontificou a dar-me boleia, combinando o encontro para o dia seguinte às 14 horas, no Hotel Katekero, onde estava hospedado.

Compareci à hora marcada, mas do Chico nem sinal. O recepcionista informou-me que ele tinha regressado tarde na noite anterior, e que tinha pedido para o acordarem precisamente às 14 horas.

Meia hora depois desceu e convidou-me para ir comer qualquer coisa, para depois seguirmos.

Depois de comer chamou um táxi. E quando lhe perguntei onde tinha o carro, riu-se e respondeu que o tinha no Aeroporto. Ainda pensei que ele tivesse acabado lá a noite, no bar e, depois de bem bebido, tivesse voltado para o hotel de táxi, mas depois lembrei-me que ele tinha um pequeno avião, com o qual tinha disputado e ganho a Volta Aérea a Angola desse ano.



Luanda - Hotel Katekero

(Foto de autor desconhecido)

Chegados ao Aeroporto, lá estava o avião pronto para a viagem, que à excepção dos minutos que antecederam a aterragem, correu bem.

Sobrevoámos a reserva da Quiçama, onde ele desceu até uma altura que me deixou um bocado apreensivo, para que eu visse a fauna que ali abundava, mas que acabava por debandar espavorida com o barulho do motor.

Com o dia a avançar, e em África anoitece cedo e quase bruscamente, sem aquele anoitecer lento a que estamos habituados, ele receava que não fosse possível aterrar na Gabela por causa dos densos nevoeiros que cobriam a cidade com frequência. A alternativa era descermos em Porto Amboim, o que não me importava nada, já que aproveitava para abraçar os meus camaradas que ali estavam aquartelados.

Mas o dia estava suficientemente claro, e, depois de sobrevoar a cidade por duas vezes, dando sinal para o pai mandar uma viatura ao aeródromo, entreteve-se a dar umas cambalhotas, com o intuito de me fazer vomitar tudo o que eu tivesse no estômago. Ao pé daquilo, a montanha russa era uma brincadeira de meninos. Não conseguiu, todavia, os seus desígnios; fazendo das tripas coração, aguentei-me, não sei bem como, até o avião se imobilizar na pista. Mas ainda não estava bem parado e já eu saltava e corria para junto do hangar onde acabei por vomitar.


Gungas e Zebras na Reserva da Quiçama

(Foto de Ana Tendinha)

De qualquer forma, o Chico disse-me que eu tinha passado a prova.

Desta viagem tirei duas conclusões. Angola era mesmo um lugar especial. Em que lugar deste nosso Portugal poderia eu esperar, ainda por cima nessa época, que alguém com quem tinha relações meramente circunstanciais, pusesse o seu automóvel à minha disposição, ou que me desse uma boleia de avião?

Mas não deixei de ter um desapontamento nesse dia de S. Martinho: corri toda a cidade, mas não consegui encontrar uma loja onde houvesse castanhas à venda.

Lá se foi o projectado magusto às malvas!

domingo, 24 de julho de 2011

Uma soneca dispendiosa


Avião da DTA a levantar voo no Aeroporto de Luanda 


Muitos militares mobilizados para Angola – sobretudo oficiais e sargentos (neste caso, sobretudo milicianos, que os sargentos do quadro, geralmente já com responsabilidades familiares, queriam fazer poupanças) – aproveitavam os 30 dias de férias anuais para, pelo menos uma vez durante a comissão, viajar para Portugal, a fim de matarem saudades de familiares, namoradas, madrinhas de guerra e amigos, não necessariamente por esta ordem.

Havia uma agência em Luanda – a Confabril, do Grupo CUF – que se especializou na venda de passagens, com facilidades de pagamento, e onde quase todos comprávamos as nossas viagens.

Quem vinha de férias para o “puto”, gozava sempre mais do que os 30 dias da ordem, porque o período de licença começava a contar na data do embarque em Luanda, terminando, se a memória não me falha, no dia em que desembarcava no mesmo Aeroporto. O tempo da viagem desde o quartel até Luanda, e a estadia naquela cidade até ao embarque, não contavam.

Quem queria gozar mais uns dias em Luanda, marcava as férias de forma a que o período entre a data da chegada a Luanda do voo de ligação da DTA, que fazia as rotas internas, e a data do embarque para Lisboa, fosse o mais dilatado possível. Este truque também funcionava aquando do regresso, claro.

Quando a escala de férias das Companhias era mais “apertada”, a artimanha era outra, só funcionava no regresso de férias, e custava dinheiro.

Toda a gente, ou quase toda, sabia que adiantando umas notas ao funcionário certo da DTA (e se fossem notas do Banco de Portugal, em vez das do Banco de Angola, melhor), ele punha um carimbo no passaporte indicando que o voo onde o interessado pretendia viajar estava esgotado. Porém, o tal funcionário só aceitava entrar neste esquema uma única vez por viajante.



Nota do Banco de Angola



Vem esta introdução a propósito de um episódio vivido, em Setembro de 1965, pelos alferes Pereira e Salazar Leite (médico), e pelo furriel Vaz, que regressaram de férias no mesmo voo, e que deviam viajar no avião da DTA, para o Toto (de onde seguiriam para Lucunga por via rodoviária) no dia seguinte ao da chegada a Luanda.

Como queriam ficar mais uns dias em Luanda (os voos para o Toto realizavam-se à terça e quinta-feira), avançaram com a quantia “tabelada” para o bolso do funcionário, e viram averbado o desejado carimbo, que lhes dava uns dias de férias extra.

Na véspera do embarque, que já não podiam falhar, despediram-se da animada noite de Luanda, regressando ao Hotel Luso, onde estavam hospedados, já os relógios marcavam três horas da madrugada, tendo, no entanto, o cuidado de pedir ao funcionário da recepção - o sempre prestável Manuel – que os acordasse às seis horas em ponto (e mesmo assim tinham que se apressar). Para não perderem tempo pela manhã, tomaram duche e vestiram a farda com que seguiriam viagem, antes de se deitarem. De manhã, era só lavar os olhos ainda ensonados, e ala para o Aeroporto.

O primeiro a acordar, que já não me lembro qual foi, ficou varado quando olhou para o relógio e viu que eram seis horas e vinte minutos. Foi acordar os outros, desceram à recepção, onde o Manuel dormia o sono dos justos, deram-lhe uma descasca rápida, que não havia tempo a perder, e meteram-se num táxi para o Aeroporto, de onde o avião havia de descolar, às sete horas.

E descolou, que eles ainda o viram a ganhar altura, quando sairam do táxi.



O pequeno avião estacionado na pista do Aeroporto de Luanda poderia ser o táxi aéreo referido neste texto


Conhecendo o comandante de Companhia – capitão Rubi Marques – que já devia estar fulo por não se terem apresentado na data devida, não faltou muito para entrarem em pânico. Sobretudo o alferes Pereira e o furriel Vaz; o alferes-médico Salazar Leite, embora também estivesse preocupado, talvez fosse o mais calmo por “beneficiar" de um estatuto especial. E foi ele quem sugeriu que alugassem um táxi aéreo, que os levaria directamente até à pista de Lucunga.


Embora cientes de que a sua bolsa levaria um rombo significativo, quer o furriel Vaz, quer o alferes Pereira, concordaram que era a melhor solução. E lá seguiram num pequeno teco-teco de quatro lugares, que aterraria em Lucunga cerca de duas horas mais tarde.

Mas nem o avultado “prejuizo” dos três acalmou o capitão Rubi Marques, que os presenteou com uma monumental descompostura (talvez também com a ameaça do célebre "auto das passas"), como só ele era capaz de proporcionar quando tinha que descascar em alguém. 

Os meus camaradas da Cart 738 sabem do que falo.

Nota final: Esta “estória” - de que todos tivemos conhecimento, na altura em que aconteceu – foi-me contada pormenorizadamente mais tarde, quer pelo furriel Vaz, quer pelo alferes Pereira, em ocasiões diferentes. Prometi que a contaria aqui. Infelizmente não cumpri a promessa a tempo de ser lida pelo Vaz. E lamento-o. Não por ele não a ter lido, que não perdeu grande coisa, mas por nos ter deixado tão prematuramente.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A Caminho da Gabela


Luanda - Cruzamento do Polo Norte

Quando iniciei este blogue, não tinha intenção de seguir uma ordem cronológica, semelhante à que nos habituámos a ver num diário (que nunca tive). Verifico, porém, que à excepção do post em que falo da inauguração da Casa do Soldado no quartel da Gabela, tenho contado, sobretudo, episódios que tiveram lugar em Lucunga.

Chegou a altura de dedicar mais atenção às histórias da Gabela (e arredores).

Tanto quanto me recordo, foi com surpresa que recebi (creio que no princípio de 1966), a notícia de que o nosso Batalhão iria ser transferido para o distrito do Quanza-Sul, onde o Comando ficaria instalado na capital da província – Novo Redondo, que passou a chamar-se Sumbe depois de 1975, a CArt 738 na Gabela, a Cart 739 no Calulo e a Cart 740 em Santa Comba (Colonato da Cela), que actualmente se chama Waku Kungo.


Forte da Quibala

A minha surpresa - e a de outros camaradas -, baseava-se no facto de se saber que o comando do Batalhão tinha proposto que a haver mudança, esta se fizesse para outra região da ZIN (Zona de Intervenção Norte), onde oficiais e sargentos continuariam a receber um subsídio de risco no valor de 20% sobre a retribuição mensal, além de terem direito a alojamento e alimentação, o que não acontecia se fossemos (como fomos) para uma zona sem guerra.

Toda a gente sabia que para muitos militares as comissões de serviço em África constituiam uma forma de fazer um razoável pé-de-meia, e no Norte de Angola quem estava no comando dos Batalhões corria um risco diminuto, em comparação com as unidades operacionais. Isso ajuda a explicar a proposta para que continuássemos em zona de guerra.


Vista panorâmica do Colonato da Cela

Com o que o comando não contava era que, em Lisboa, o pai de um dos oficiais tivesse influência bastante para colocar o Batalhão numa zona calma, onde a família do filho se lhe pudesse juntar. Mas foi o que aconteceu.

A generalidade do pessoal recebeu a notícia da mudança para o Sul com enorme alegria. Tanto eu, como os camaradas que me estavam mais próximos ficámos radiantes. Embora pudessemos ter feito algumas poupanças, preferíamos, de longe, a segurança a maiores proveitos.

Se a memória não me atraiçoa, saímos de Lucunga, na sexta-feira, 18 de Fevereiro, e chegámos nesse dia à noite a Luanda, onde ficámos até segunda-feira, 21.

A maior parte do pessoal não tinha voltado à cidade desde que em Janeiro do ano anterior tinhamos partido para Lucunga. Os oficiais e sargentos tinham direito a cinco dias de licença de três em três meses (que no nosso caso dava quase sempre uma semana, jogando com os horários das ligações aéreas), mas nem todos aproveitavam, devido ao custo das viagens e da estadia.




Alexandre (CArt 740) e Fonseca, na Fortaleza de S. Miguel 
(Ao fundo a baía de Luanda)

O fim-de-semana que ali passámos, foi aproveitado para matar saudades das mordomias que uma cidade evoluida como Luanda já era então, proporcionava.

Desta vez não se falou na obrigatoriedade de permanecer no Grafanil. Tinhamos mudado de comandante de Companhia, que era, então, o capitão de Infantaria Hélio Xavier (que, segundo notícias que tive recentemente vive, de boa saúde, em Lagos, onde se dedica à pintura). Era um homem de trato agradável, mais flexível em questões de disciplina do que estávamos habituados, e, embora os princípios instituidos pelo capitão Rubi Marques se mantivessem (felizmente), o dia-a-dia era mais distendido.


Quibala-Sul

Fiquei, como das últimas vezes, no familiar e acessível Hotel Luso.

Aproveitámos para o circuito do costume: cinemas, cervejarias, “boites”, etc. A ocasião serviu também para eu fazer contas e pagar o que devia na Papelaria/Livraria da Marechal Carmona, que durante a minha permanência em Lucunga me enviava “A Bola” (que acabava desfeita depois de passar por tantas mãos), bem como os livros que ia encomendando.

Recarregadas as baterias, a longa coluna partiu, rumo ao Quanza-Sul, na manhã de 21. A CArt 739 foi a primeira a abandonar a coluna, por alturas de Munenga, para seguir em direcção ao Calulo, onde ficaria aquartelada. As restantes unidades seguiram até à Quibala-Sul, onde teria lugar o almoço.


Rua da Gabela, com a Igreja de Santa Isabel, ao fundo

Aqui, é a oportunidade para o relato de um episódio que, na altura, eu e muitos dos meus camaradas mais próximos achámos que era um exemplo de sovinice.

Apesar de nos ter sido fornecido o almoço, em forma de ração de combate (de que estávamos fartos e que detestávamos), uma grande parte do pessoal miliciano abancou nos restaurantes, almoçando e pagando uma refeição feita na hora. Para minha surpresa e dos que me acompanhavam, ao passarmos na zona que dava acesso à sala de refeições do restaurante que escolhemos, constatámos que uma grande parte dos oficiais da CCS e do comando do Batalhão – incluindo os “altos comandos” -, apesar de auferir retribuições muito superiores às nossas, tinha abancado nas mesas do café, alimentando-se com as rações de combate que tinham sido distribuidas.

Mais tarde percebi que era apenas mais uma forma de fazer poupanças. Já bastava a diminuição dos rendimentos, que tinha começado nessa mesma data.

Depois do almoço deu-se nova divisão na coluna. A Cart 740 prosseguiu viagem pela estrada Luanda/Nova Lisboa, até Santa Comba, o seu destino final, enquanto o comando do Batalhão, a CCS e a Cart 738, desviavam para a estrada que levaria atè à Gabela e a Novo Redondo.


Vista panorâmica de Porto Amboim

Perto do fim da tarde chegámos à Gabela, onde se instalaram três pelotões da CArt 738. O 4º pelotão, sob o comando do alferes-miliciano Sebastião Fagundes, prosseguiu viagem para Porto Amboim (com uma praia fantástica), onde ficaria até ao fim da comissão, enquanto o comando de Batalhão e a CCS, continuaram até Novo Redondo, onde permaneceram até Dezembro desse ano, altura em que mudaram para o Lobito.

As razões, bem como as peripécias dessa mudança, ficam para outra ocasião.


sábado, 30 de abril de 2011

"Férias" em Luanda (Parte II)



Como podem imaginar depois de lerem o post anterior, as “férias” foram seriamente prejudicadas pela circunstância de ter de me apresentar no quartel, quer a meio da manhã, quer a meio da tarde. Não era por acaso que não nos podíamos apresentar às nove, ou às catorze horas. Porém, isso não impedia que fossemos à praia.

Para os residentes angolanos a época de praia ia de Novembro a Abril. No resto do ano era a estação “fria”. Para mim e para muitos outros havia praia todo o ano em Angola, desde que estivéssemos perto de uma. Afinal de contas, as temperaturas, quer do ar, quer da água, continuavam bem mais agradáveis do que na maior parte das praias a que estávamos habituados na Metrópole (que era um dos nomes por que era conhecido em Angola este canto da Europa).



Vista de Luanda a partir dos jardins do Cinema Miramar
Ao fundo, à direita, a Ilha de Luanda; ao centro, a Fortaleza de S. Miguel

Esse mês de Agosto (e parte de Setembro) acabou por ter aspectos divertidos. A minha fractura não me incomodava muito (só andava de braço ao peito quando ia ao DAA), e a minha estada em Luanda coincidiu com a de alguns camaradas que já conhecia e que se encontravam, eles sim, em gozo de férias.

Um deles, o Zé Luís, furriel-miliciano do pelotão independente que estava aquartelado no Vale do Loge (sede do comando do Bart 741), era um madeirense sempre bem disposto, e pronto a pregar inocentes partidas, nas quais nós também colaborávamos, se fosse preciso.

Uma das preferidas dele, que nem sequer era muito original, mas que nos divertia sempre, era pôr o público a bater palmas sem justificação, nos espectáculos a que assistíamos. Havia um programa de variedades - creio que se chamava “Chá da Seis” - que uma estação de rádio transmitia directamente do Cinema Restauração. Num desses espectáculos, a meio da actuação de uma cantora, o Zé Luís levantou-se e começou a aplaudir, no que foi acompanhado pelos três ou quatro camaradas presentes. Poucos segundos depois toda a sala aplaudia.


Cinema Restauração

Lembro-me de outra igual que aconteceu num importante jogo de hóquei em patins que se disputou no recém-inaugurado recinto desportivo do Ferroviário de Luanda, entre esta equipa e outra cujo nome já não recordo. Mas lembro-me de que o recinto estava repleto, com largos milhares de espectadores. E foi então, durante o desenrolar de uma jogada sem relevância especial, que o Zé Luís iniciou os aplausos que puseram toda aquela gente de pé e a aplaudir não se sabia muito bem o quê, perante a surpresa dos próprios jogadores.

Eram malandrices ingénuas que não prejudicavam ninguém. É capaz de ter havido outras malandrices menos inocentes. Mas, confesso: se as houve, ou não tive conhecimento delas ou esqueci-as por completo. Se soubesse onde pára o Zé Luís perguntava-lhe. Mas, depois de ele ter acabado a comissão, antes de nós, nunca mais tive notícias dele.

De quem fui tendo notícias foi do Conjunto Académico de João Paulo, que era, nesse tempo um dos conjuntos musicais com maior êxito nacional. Formado no início da década de 1960 por alunos do Liceu do Funchal, tinha como vocalista Sérgio Borges, que viria a vencer o Festival RTP da Canção de 1970, com a canção “Onde Vais Rio Que Eu Canto” (algumas más línguas que achavam que a melhor era a “Canção de Madrugar”, rebaptizaram-na como “Onde Vais Canto Que Eu Rio”).



"Onde Vais Rio Que Eu Canto", por Sérgio Borges

Este Conjunto fez várias digressões pelo país, que incluíram Angola e Moçambique.

Quis o acaso que nesse Agosto de 1965 as suas actuações em Luanda tivessem coincidido com a minha permanência na cidade. Tendo sido condiscípulo e sendo amigo deles, o Zé Luís acompanhou-os quase sempre, pelo que quase não o vi durante o tempo que lá estiveram. Mas ainda apareceu para me convidar a assistir ao espectáculo deles nos bastidores do Cinema Avis (?). Foi uma experiência interessante, que nunca tinha tido. Eram uns moços simpáticos, que estavam com nervoso miudinho antes da função começar, e muito felizes no final por tudo ter corrido bem.




"Balada A Uma Rapariga Triste", pelo Conjunto Académico de João Paulo 

Esta canção não era, certamente, a mais famosa deste conjunto, mas escolhi-a porque  o vídeo mostra (sem com isso pretender fazer qualquer juízo comparativo) como era diferente a apresentação dos músicos, relativamente aos tempos actuais

Podia continuar a contar muitas outras peripécias dessas semanas em que vimos todos os filmes que passaram nos cinemas da cidade, independentemente da sua qualidade, frequentámos as cervejarias do costume, com algumas diabruras à mistura e, uma vez por outra, acabávamos a noite com umas cervejas no bar do Aeroporto, o único sítio que, em Luanda, ficava aberto toda a noite. Quando isso acontecia, avisava a recepção para me acordarem às dez horas, para poder chegar ao DAA antes das onze.


Terminal do Aeroporto de Luanda

Em meados de Setembro, já curado, regressei a Lucunga. No regresso já não tive direito a viagem na FA. Ou pagava o bilhete na DTA, ou voltava em cima de um camião de uma coluna de reabastecimento. Depois de todas as despesas que tinha feito, e estando no horizonte o custo de uma viagem de avião para gozo de férias no Portugal europeu, marcadas para Outubro, decidi poupar e viajei dois dias em cima de um camião. Maravilha: voltei a deliciar-me com a doçura exótica das mangas da beira da estrada. Na DTA o melhor que conseguiria seriam uns rebuçados que a hospedeira (às vezes  substituída por um hospedeiro) distribuía.



P.S. - Ainda relativamente ao Festival da Canção de 1970 havia na altura quem defendesse que se o Sérgio Borges tivesse cantado a “Canção de Madrugar”, em vez do Hugo Maia Loureiro, teria sido esta a vencer.

Alguns fans do Sérgio achavam mesmo que qualquer uma das canções concorrentes teria ganho se fosse cantada por ele. Exageros, mas lá que ele cantava bem, era um facto.

Deixo aqui a “Canção de Madrugar” cantada pelos dois intérpretes, para que os meus caríssimos leitores possam comparar os méritos de cada um.







Interpretação de Hugo Maia Loureiro




Interpretação de Sérgio Borges

quarta-feira, 27 de abril de 2011

"Férias" em Luanda (Parte I)

Já me referi, aqui, às circunstâncias que levaram à minha evacuação para o Hospital Militar de Luanda em consequência de uma fractura num dos ossos do braço direito.

Volto ao tema, porque julgo que alguns dos que têm a pachorra de passar por aqui (às vezes involuntariamente) podem pensar que as cerca de cinco semanas que passei em tratamento no Hospital acabaram por se converter num período de férias caído do céu. Não os vou desiludir: foram realmente férias, mas em tempo parcial, e que, ainda por cima, eu teria dispensado porque me saíram caras.

Mas, antes de falar das “férias” vou contar um episódio quase anedótico.


Nord Atlas

Passada a guia de marcha e feita a requisição de transporte à Força Aérea (FA), apresentei-me no Aeródromo do Toto em 8 de Agosto de 1965, para seguir viagem para Luanda num desconfortável Nord Atlas.

Para as vagas destes vôos (cuja finalidade principal era o transporte de mercadorias, principalmente os chamados produtos frescos, para reabastecimento da tropa) que tinham sempre muito militares candidatos à viagem de borla - caso em que convinha que se tivessem os contactos certos -, eram estabelecidos graus de prioridade.

Tendo-me sido atribuído o grau de prioridade 1, fui o primeiro a ser chamado para embarcar pelo oficial da FA. Ora, entre os passageiros a aguardar embarque havia um oficial superior (major ou tenente-coronel, já não me recordo com exactidão), que ficou melindrado por ter sido ultrapassado na ordem de embarque por um furriel, membro de uma “casta” (perdão, classe) muito inferior na hierarquia militar.

O oficial da FA, salvo erro um tenente, explicou-lhe com o respeito devido a alguém que, embora pertencendo à classe de oficiais como ele, já tinha chegado a um nível de “casta” superior que, de acordo com os regulamentos e tratando-se de uma questão de evacuação por acidente a prioridade era, neste caso, minha. Com algum desconforto pelo incidente (realmente tanto me fazia entrar em primeiro ou em último, desde que entrasse), acabei por ser mesmo o primeiro a subir para o avião. Mas pareceu-me que o nosso oficial me foi deitando alguns olhares enviesados durante a viagem, que incluiu escalas em Maquela do Zombo e em S. Salvador.

No Hospital Militar a radiografia confirmou a existência de uma pequena fractura e, depois de terem procedido à imobilização do antebraço, fiquei em regime de consulta externa. Isso significava que tinha de providenciar alojamento e alimentação à minha custa. Enquanto em Lucunga tanto o alojamento como as refeições eram por conta do Exército, em Luanda tinha que pagar do meu bolso e, ao contrário do que muitos pensavam, não recebia quaisquer ajudas de custo.

Para fazer face a este rombo inesperado no meu orçamento mensal tive de mexer nas poupanças que ia fazendo na Caixa Geral de Depósitos.


Depósito de Adidos de Angola, em Luanda - Cinema ao ar livre

Por outro lado, não tendo ficado internado tinha, como todos os camaradas na mesma situação, de me apresentar duas vezes por dia – entre as dez e as onze, e entre as quinze as dezasseis horas – excepto sábados e domingos, no Depósito de Adidos de Angola (DAA), passando também a entrar na escala de serviços. Isto é, durante o tempo que estive em Luanda fiz três sargentos de dia à 1ª Companhia, e um sargento de dia à unidade, além de ter sido requisitado três vezes pelo Serviço de Justiça para a função de “escrivão de autos”.

Quando estava de serviço ia um jeep buscar as minhas refeições ao hotel .

Fazer serviço naquela unidade era uma provação que, apesar de tudo, consegui levar a bom termo sem consequências de maior. Alguns dos meus camaradas ficavam mesmo admirados porque, antes das refeições, eu quase conseguia que o pessoal formasse e que seguisse para o refeitório andando de um modo que se assemelhava muito à marcha militar.

A maior parte dos praças aquartelados no DAA tinham ido para Angola em unidades que já tinham terminado as comissões e regressado a Portugal, mas, porque tinham cometido infracções que levaram ao levantamento de autos (*), só poderiam regressar depois de concluída toda a tramitação dos processos, o que, por vezes, chegava a demorar anos.

Neste contexto, a indisciplina era o pão nosso de cada dia. Fazer uma formatura decente era um trabalho digno de Hércules; pô-los a marchar em condições tornava-se mais difícil do que pôr um dirigente político a falar verdade. Na situação em que estavam era-lhes indiferente mais participação menos participação, cujas consequências nunca seriam tão graves como as que iriam resultar das infracções que os tinham levado àquela situação.



Depósito de Adidos de Angola, em Luanda - Edifício do Comando

Durante esta permanência em Luanda registou-se um grave episódio de indisciplina no DAA, a que não assisti, mas que me foi contado por quem o testemunhou. Procurando pôr um pouco de ordem naquela tropa fandanga, o furriel-miliciano que estava de sargento de dia chamou a atenção de um dos soldados que não gostou da “rabecada” e o insultou. Gerou-se um conflito que acabou numa luta em que cada um dos intervenientes tirou o respectivo cinto para servir de arma. Isto perante o gáudio dos restantes militares da formatura, que não intervieram. Só a intervenção de alguns sargentos e oficiais viria a acabar com a feia briga.

Em circunstâncias que serão objecto de outro texto, em tempo oportuno, contarei como em Fevereiro de 1966 voltei ao DAA, durante quase quatro semanas. Mas tive mais “sorte” dessa vez. Estava em tão mau estado físico que o médico do Hospital Militar fez uma declaração em que me declarava inapto para fazer serviços.

(Continua no próximo post, para não cansar)

(*) Os regulamentos determinavam que apenas era vedado o regresso aos militares que tivessem de responder em “auto de corpo de delito”, mas havia quem fizesse outra leitura como se verá lá mais para diante, quando eu contar a minha própria má experiência num caso semelhante, em que um pequeno mas influente grupo, de que fazia parte o meu quarto e último comandante de Companhia, acolitado por alguns oficiais do Comando do Batalhão, tentou tudo para que eu não regressasse com os meus camaradas.