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domingo, 9 de março de 2014

Convívio em Fátima



Tive o grato prazer de reencontrar ontem, em Fátima, durante um prolongado almoço, de cuja organização se encarregou, como já vem sendo habitual, o Silva Pereira, antigo alferes-miliciano na CArt 739, algumas dezenas de camaradas que entre 9 de Janeiro de 1965 e 9 de Março de 1967, em cumprimento do serviço militar, partilharam comigo as agruras  de uma comissão em Angola (com alguns bons momentos à mistura, é justo que o diga).

Como sempre tem acontecido, desde que teve lugar o primeiro destes encontros  (de que foram pioneiros o Verdasca, infelizmente já falecido, e o Carlos Bragança), muitos camaradas fizeram-se acompanhar por familiares - que de tão assíduos, já podemos considerar membros honorários do BArt 741 - pelo que estiveram presentes 217 comensais.

As horas "voaram" como sempre acontece nestas ocasiões, e quando chegou a altura das despedidas concluímos que, como também já é habito, ficaram muitas coisas por dizer, e sobretudo faltou tempo para falarmos todos com todos, depois do abraço inicial. Porém, e também aí cumprimos a tradição, ficou a promessa de que no próxmo ano "fabricaremos" tempo para falar e para dizer o que desta vez ficou no "saco". Assim seja!

P.S. - Apesar da qualidade das imagens não ser a melhor - a máquina fotográfica ficou em casa, e como quem não tem máquina, fotografa com o telemóvel, foi o que fiz - podem ver a seguir algumas fotografias que tirei. Nos próximos dias, conforme for tendo disponibilidade (como os meus prezados camaradas sabem, um reformado não tem tempo para nada) colocarei aqui mais algumas.

(Para aumentar a imagem, basta clicar na foto)































sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Manuel Gonçalves



Tem sido surpreendente, pelo menos para mim, que apesar da pouca, ou nenhuma, divulgação que faço deste blogue, apareça de vez em quando mais um camarada, de quem não tinha notícias desde o nosso desembarque em Lisboa, a contactar-me depois de o ler.

Hoje trago novas do 1º cabo desempanador Manuel Gonçalves, transcrevendo a mensagem de correio electrónico que me enviou, juntamente com duas fotografias, que vos vão ajudar a lembrarem-no, tal como aconteceu comigo.

" Boa tarde,


o meu nome é Manuel José Gonçalves Antunes Rato, antigo combatente da companhia 738, do batalhão de artilharia 741 (1º Cabo Desempanador - Gonçalves).

Na fotografia "Gabela - Olhó o Passarinho", sou o nº 34. Gostava de entrar em contacto com antigos camaradas, uma vez que desde que regressámos nunca mais estive com ninguém.

Junto aqui duas fotos minhas dessa altura, para melhor me identificarem. Recordo-me de muitos camaradas como o Cabo Mecânico "Zé Pipa" (natural de Benavente), o Alferes Fagundes, o Capitão Rubi Marques, o condutor "Lisboa", entre muitos outros.

Agradeço que me informem qual a data do próximo convívio anual, pois terei muito gosto em participar.”




Só não coloco o nº de telemóvel, porque não é aconselhável (nunca sabemos que vem aqui, nem com que intenções), mas disponibilizá-lo-ei a qualquer camarada que se mostre interessado.

Quanto ao próximo encontro, pode ficar descansado que o camarada Silva Pereira, incansável organizador dos nossos convívios, não deixará de contar com ele em 2014.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Fotografias do 27º Almoço-Convívio do BART 741


(Clicar nas fotos para aumentar)


CArt 738

O almoço de confraternização que teve lugar no último sábado, na Quinta dos Loridos (Carvalhal), constituiu mais um êxito (*) que ficamos a dever ao nosso camarada Silva Pereira.

Entre velhos companheiros de armas e seus familiares, foram cerca de duzentos e cinquenta os que conviveram animadamente durante algumas horas (que nestes dias parecem ter bem menos do que os 60 minutos da praxe. Ao contrário do que nos acontecia no mato, sobretudo quando fazíamos emboscadas, altura em que os ponteiros dos relógios pareciam imobilizados).

Entre o reviver de velhos episódios nunca suficientemente recordados, há sempre, por incrível que pareça, tantos anos depois, uma história de que um ou outro já não se recorda. Ou mesmo acontecimentos em que, não tendo sido intervenientes, ou testemunhas, desconheciam de todo, como aconteceu comigo. Fiquei sentado ao lado do Casimiro, comandante do 3º pelotão, que esteve colocado em Vila Nova de Seles, e mais tarde no Calulo, e que contou episódios de vária índole, alguns deles verdadeiramente hilariantes, que eu desconhecia por completo.

Houve ainda tempo para visitar o Buddha Eden Garden – Jardim da Paz. No meu caso foi uma visita rápida, por falta de tempo, já que, dada a extensão do Jardim, uma visita mais demorada ficará para uma próxima ocasião.

Para minha surpresa, tiveram falta alguns camaradas das classes de oficiais e sargentos, que habitualmente não falham os nossos encontros. Felizmente, tivemos o grato prazer de abraçar o Coronel Rubi Marques – que foi comandante da CArt 738 – completamente restabelecido da inoportuna maleita que o impediu de comparecer em 2012, como provou no brilhante improviso que proferiu na altura dos brindes.

E, como já referi acima, o tempo foi pouco atendendo à vontade que tínhamos de falar com uns e com outros. Resta-nos esperar pelo próximo encontro.

Aproveito para colocar algumas fotografias do evento.

(*) Na minha opinião, convém frisar, para evitar que o reduzido lote de descontentes me volte a enviar mensagens a dizer que não foi êxito nenhum: ou porque o vinho branco estava pouco fresco, ou porque estava gelado e fazia mal à garganta; ou então era o bacalhau que estava muito salgado, para alguns, ou que tinha estado demasiado tempo a demolhar, para outros.


À entrada para o chamado "Salão de Eventos". A foto não consegue fazer jus à beleza da porta



A mesa da organização, com o incansável Silva Pereira, à esquerda




Um pequeno grupo da CArt 738, com o Sebastião Fagundes em primeiro plano, a pensar nas políticas dos "troikanos"



Fagundes, Casimiro, Rubi Marques e Duarte, recordam velhos tempos


Um aspecto geral da sala



Mais um grupo da 738 e respectivos familiares



A mesa da família Reimão

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Já lá vão 48 anos







Pouco antes da largada

Completam-se hoje 48 anos sobre a data em que o Vera Cruz zarpou do Cais da Rocha Conde de Óbidos, com destino a Luanda, levando a bordo quase três mil militares, dos quais cerca de 800 constituíam o Batalhão de Artilharia 741, de que fazia parte a Companhia de Artilharia 738. A minha Companhia.

Desse dia já lembrei quase tudo no texto que há dois anos escrevi aqui, quando iniciei neste blogue o relato de alguns episódios que sobraram na minha memória, e que fazem parte da minha história pessoal, bem como da dos 163 homens que formavam a CArt 738.

Nessa manhã, depois do desfile, de embarcar, e de guardar as bagagens, muitos camaradas voltaram ao cais para as derradeiras despedidas. Também eu tinha a intenção de voltar a terra, mas depois de subir até à amurada e de contemplar o “mar” de lágrimas que inundava o cais, decidi poupar-me e já não voltei a desembarcar, limitando-me a acenar para os familiares e amigos.


O Vera Cruz inicia a viagem

Não me serviu de muito, porque quando soltaram as amarras do navio, e ele começou a afastar-se do cais, houve como que um fenómeno de emoção colectiva a que não escapei, e também as lágrimas, mansas, mas intensas, deslizaram pelas minhas faces.

E lá fomos, rio abaixo, mar fora, rumo a Luanda, onde aportaríamos 9 dias depois.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

José Fernando da Silva Pereira Vaz




O Vaz e a esposa no último encontro em que esteve presente, em Couto de Esteves - Março de 2010

Faz hoje um ano que morreu o Vaz. E há um ano que planeio escrever um texto em que fale da nossa amizade, que começou quando ele chegou ao RAL 1, para ser incorporado no BArt 741, passando a fazer parte da minha Companhia – a CArt 738 – com o posto de furriel-miliciano, tendo a especialidade de vagomestre.

Há um ano que venho adiando esse momento, porque continua a custar-me a acreditar que ele nos deixou tão prematuramente.

Decidi que, bem ou mal, chegou o dia de o fazer.

Está enraizado nos nossos costumes o hábito de tornar toda a gente “santa” depois de morrer. Não é isso que pretendo fazer neste post, nem, estou certo, o Vaz gostaria que eu o fizesse.

Era um homem com qualidades e defeitos, como todos nós. Acontece que, apesar da sua juventude, não foi difícil perceber que tinha mais qualidades e menos defeitos do que a maioria dos seus camaradas, onde naturalmente me incluo. A começar por uma maturidade e bom senso, raros para a sua idade, que lhe possibilitavam exercer, com êxito, o papel de moderador, em situações de conflito, que se geram facilmente em ambientes “fechados”, como aquele em que vivíamos no Norte de Angola.


Momentos de boa disposição em Lucunga 
Da esq. para a dta.: O autor do blogue, Vaz e Miranda Dias

Outro aspecto em que fomos afortunados com a sua inclusão na nossa Companhia, teve a ver com a forma como ele, enquanto responsável pela alimentação do pessoal, desempenhou essa função.

Todos os militares que, durante esses anos em que quase não houve nenhum português jovem que não tivesse passado por África, em cumprimento de comissões de serviço militar, ouviram, ou sentiram na pele – e sobretudo no estômago – histórias de mau passadio, porque alguns (demasiados) vagomestres criavam esquemas para aumentar o seu pecúlio pessoal, em detrimento da qualidade e quantidade da alimentação fornecida.

Dizia-se à boca pequena que, nesses esquemas, tinham cumplicidades de outros responsáveis com quem dividiam os lucros indevidos.

Na CArt 738, excluindo a frequência com que o arroz entrava nas ementas, cuja responsabilidade cabia aos fornecimentos da Manutenção Militar, a satisfação com a alimentação era geral. Todos os que lá estiveram se recordam com certeza, de que, a partir de certa altura, quando todos estávamos fartos das detestáveis rações de combate que levávamos quando íamos para o mato, o Vaz providenciou a confecção de refeições alternativas, que podiam não ter os requisitos calóricos e vitamínicos das rações, mas que todos nós preferíamos.


Gabela, no jardim da piscina
Da esq. para a dta.: Rodrigues, Vaz e o autor do blogue

Alimentar todos os dias 163 pessoas não era uma tarefa fácil. Sei-o por experiência própria.

Quando, em 1966, já na Gabela, o Vaz veio de férias, pediu-me que o ficasse a substituir. Confesso que tentei esquivar-me, argumentando que não tinha a menor ideia do complexo funcionamento da “coisa”, e que, por certo, havia camaradas mais talhados para a função. Desde logo o 2º sargento Ferreira da Silva, que, sendo do quadro, conhecia, praticamente, todos os meandros do funcionamento do quartel; ou mesmo o Rodrigues, que sendo embora miliciano como eu, tinha já duas comissões e maior experiência.

Insistiu, evocou a nossa amizade, e acabei por aceitar.

Durante as duas semanas que antecederam a sua partida, fui a sombra do mestre em que ele se tornou, a procurar adquirir o máximo de experiência, de forma a poder levar a barca a bom porto. Teve uma paciência incrível, a esclarecer todas as minhas dúvidas, e quase conseguiu dar-me uma equivalência à sua especialidade.

Confesso, porém, que além de tudo o que ele me ensinou, foi muito importante para o modo como consegui manter a normalidade possível na cozinha e no refeitório, a colaboração do 1º cabo cozinheiro, de cujo nome, infelizmente, não me recordo.

Quando, em consequência do acidente a que já me referi em posts anteriores, fui evacuado para o hospital em Luanda, sem ter regressado à Gabela, foi o Vaz que se encarregou de recuperar e de providenciar o transporte de todos os meus haveres que lá tinham ficado.

Depois de regressarmos, finda a comissão, estive cerca de 20 anos sem estabelecer qualquer contacto com ele. Aliás, o mesmo viria a acontecer com a generalidade dos outros camaradas. As excepções contam-se pelos dedos das mãos, e talvez ainda sobre algum, e constituíram sempre encontros ocasionais, sem continuação.

Quando se iniciaram os convívios do Batalhão, ainda na década de 1980, retomei os contactos com muitos dos antigos camaradas. Mas com o Vaz, que até ao ano passado nunca tinha falhado um encontro, que me lembre, os contactos passaram a ser mais frequentes. Além das conversas telefónicas que mantínhamos de forma mais assídua, fui fidalgamente recebido na sua casa, em Guimarães, tendo-o também recebido na minha casa, em Lisboa.

Só nunca se concretizou a sua, repetidamente prometida, visita à minha casa no Algarve.

Só eu sei quanto o lamento!





sexta-feira, 4 de maio de 2012

Mais fotografias angolanas



(Clique nas fotografias para aumentar)

Não tenho dados que me permitam informar se esta fotografia, tirada a bordo do Vera Cruz, foi feita na viagem de ida para Angola, ou se já vínhamos de regresso. Mas, pelo ar de maçaricos, quer do Augusto Fernandes – o nosso furriel-miliciano enfermeiro, e um verdadeiro anjo da guarda do nosso bem-estar – quer do furriel-miliciano de transmissões, Morais Soares, presumo que íamos a caminho de um mundo desconhecido.




Deste grupo, amesendado à espera do petisco, apenas reconheço três comensais, embora não me lembre do nome de um deles. Os outros dois não pertenciam à CArt 738 (nem provavelmente ao Bart 741).

Da esquerda para a direita podemos ver o 1º cabo-clarim José Alves, (?), o Morais Soares, (?) e (?).




Junto a um rio de caudal turbulento posam, aparentemente distraídos, o Morais Soares, o primeiro-sargento Joaquim Ramalho (o Maravilhas) e o furriel-miliciano vagomestre José Vaz.



Na varanda da moradia Flórida (onde tinham os seus luxuosos aposentos), relaxando das agruras da comissão de serviço, o Morais Soares sorri para a câmara, o 2º sargento Ruas, parece implorar o favor dos deuses (o rádio em cima da mesa faz-me suspeitar que devia ser domingo e estavam a ouvir um relato de futebol. Provavelmente o Sporting – salvo erro, o clube do Ruas – teria sofrido ou falhado um golo), o furriel-miliciano Abreu, de boina à “malandro” (talvez para impressionar alguma madrinha de guerra) faz um ar sério e compenetrado, enquanto o furriel-miliciano José Rodrigues (o mais experiente de todos, pois já ia na segunda comissão) olha de lado com ar desconfiado. Que estaria ele a ver?




Da esquerda para a direita: dois rostos de que me lembro bem, o que já não acontece com os nomes; a seguir, o Morais Soares, o José Vaz e o José Rodrigues; sentado no banco do Unimog, o Verdasca, com cara de poucos amigos, o que configura uma situação excepcional, porque ele era um tipo bem disposto, e de sorriso (quase) permanente.

P.S- . Estas fotografias foram-me enviadas pelo Morais Soares, a quem agradeço.




sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fotos do Mário Abreu


O furriel-miliciano Mário Abreu, que me enviou as fotos que podem ver mais abaixo, além de ter a especialidade de atirador, fez, no quartel de Lamego, o Curso de Operações Especiais. Os camaradas que completavam este curso – cuja dureza levava muitos dos convocados para as provas de selecção a fazer “ronha” (falo por experiência própria) – eram habitualmente chamados “rangers”, porque a instrução naquele quartel era baseada na dos militares americanos pertencentes a uma unidade especializada, que tinha aquela denominação.

O Abreu comandava uma secção do 3º pelotão (em zona de conflito, como era o caso de Lucunga, os pelotões adoptavam a designação de “grupos de combate”).


(Clique nas fotos para aumentar)

Nesta fotografia, embora a maior parte dos rostos me seja familiar, apenas consigo identificar dois: o Abreu, que tem o braço apoiado no ombro do Eusébio, que é o único com uma camisa de caqui.

O Eusébio era um transmontano que chegou ao RAL 1, onde se formou o Batalhão de Artilharia 741, com fama de ser um valentão com mau feitio, fama que acabou por criar alguns mitos.

Ainda no último convívio, em Fátima, um dos camaradas dizia numa roda onde eu estava : “lembram-se do Eusébio, do 3º pelotão, ter andado à pancada com o capitão Rubi Marques?”

Avivei-lhe a memória, lembrando que ninguém andara à pancada com o capitão Rubi Marques, recordando, como faço agora, o episódio a que se referia.

Logo nos primeiros dias de instrução operacional, durante uma acção num terreno lavrado, próximo do quartel, foi dada ordem para rastejar num determinado percurso.

O Eusébio, que era de facto um bocado fanfarrão e conflituoso, recalcitrou, afirmando que naquele terreno quem não rastejava era ele. Devia vir mal habituado da recruta, feita em Aveiro.

O capitão Rubi Marques, que o tinha ouvido, aproximou-se e, depois de lhe massajar o rosto de forma muito persuasiva, fê-lo compreender, ao que parece definitivamente, que na CArt 738 não havia lugar para tropa fandanga, pelo que, dada uma ordem, não havia margem para discussão.

E o incidente ficou por ali, com o Eusébio a rastejar como os outros.



Na falta de uma ponte, que viria a ser construida no início da década de 1970, atravessávamos o rio Coji nesta jangada.

Além do condutor do Unimog, que me parece ser o Francisco Tavares, mais conhecido por Marova, só me lembro do nome do Abreu, que se encontra de pé, com um rádio portátil na mão.



Um outro aspecto da travessia do rio, aqui com um ângulo mais aberto. À esquerda, dois camaradas dão à manivela que vai enrolando o cabo que, fixo nas margens, movimenta a jangada.



Na Ilha de Luanda, em Fevereiro de 1966, durante o fim-de-semana em que lá ficámos, em trânsito do Norte de Angola para o Quanza-Sul. Também aqui não me lembro do nome do furriel-miliciano da CArt 740, que está à esquerda. Eu estou ao centro, e à direita está o Mário Abreu.



No ribeiro onde enchiamos os tambores para abastecimento de água ao quartel, em Lucunga, aproveitávamos para nos refrescarmos.

A partir da esquerda: o Miranda Dias, o Morais Soares, o Mário Abreu e o António Sousa.




Passeando na picada junto ao quartel em Lucunga, o Vaz, o Mourão (de cachimbo, que estava na moda, em Lucunga. Eu ainda tenho o meu, embora não fume há mais de 30 anos), o Sousa, o Miranda e o Abreu.

As camisolas da farda que o Mourão e o Miranda tinham vestidas são sinal de que devíamos estar na época do cacimbo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

BART 741 - Convívio em Fátima


O bolo comemorativo não podia faltar
(Clicar nas fotos para aumentar)

No sábado passado compareci ao convívio anual do Batalhão de Artilharia 741, que teve lugar em Fátima, tendo vivido um dia quase perfeito.

O “quase perfeito” foi, no que me diz respeito, ensombrado por algumas ausências da CArt 738. Nuns casos trata-se, infelizmente, de camaradas que partiram para a viagem que não tem regresso, e cuja memória permanecerá para sempre entre nós. Noutros, os motivos para as ausências radicaram em impedimentos vários, e, dentre todas, permito-me destacar a do Coronel Rubi Marques – que marcou todos quantos, em Lucunga, tiveram a honra de servir sob o seu comando - e que, convalescente de uma maleita recente, não deixará por certo de nos dar o prazer da sua presença no próximo convívio.

Parece-me extraordinário que, 45 anos depois de regressarmos de Angola, e num clima de crise nacional – real ou psicológica – ainda seja possível reunirmos cerca de 300 pessoas entre antigos camaradas e, nalguns casos, familiares próximos. Isto prova quão fortes foram 0s nós da amizade e do companheirismo que desenvolvemos em tempos particularmente difíceis.

Quero também salientar o enorme prazer que tive em reencontrar, tantos anos depois, o Morais Soares, furriel de transmissões, que, acompanhado da esposa, se deslocou expressamente do Canadá para estar presente neste dia especial.

Outros casos dignos de registo são os do antigo comandante do 2º pelotão, alferes Francisco Morgado, que há mais de 20 anos não comparecia nestes eventos, do Mário Abreu, furriel do 3º pelotão, que ultrapassou alguns obstáculos de ordem logística para estar presente, e ainda do meu companheiro de quarto em Lucunga, Nunes da Silva (que parece que, tanto tempo depois, já relevou a minha desarrumação permanente, que tanto perturbava a ordem que ele procurava manter), que há meia dúzia de anos tinha deixado de comparecer.

Por último, mas não menos importante, quero agradecer a impecável organização, a cargo do Silva Pereira, como vem sendo hábito.

P.S. - Publico a seguir algumas das fotos que fiz (com telemóvel) durante o convívio. Nos próximos dias publicarei mais algumas, incluindo um lote que me foi enviado pelo Carlos Cristóvão, da CCaç 715, que esteve na Missão do Bembe, e que tem sido presença habitual nos nossos encontros. 





Francisco Morgado, Sebastião Fagundes e Vítor Casimiro



Um aspecto parcial da sala de jantar



Mário Abreu, Morais Soares, esposa do Morais Soares e, meio encoberto, o Nunes da Silva


Outro aspecto da sala, meio vazia (tempo de conversa enquanto não chegava a hora do lanche)


Sentados os comandantes de pelotão da CArt 738 (Morgado, Fagundes, Casimiro e Pereira); de pé, o Carlos Cristóvão da CCaç. 715


Ao centro, em mangas de camisa, o Silva Pereira (o único de nós que passou o dia a trabalhar)


Na hora de partir e distribuir o bolo
Silva Pereira (encoberto), José Pereira, Morais Soares e Mário Abreu 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

BART 741 - Convívio em Fátima



Assinalando o 45º aniversário do regresso de Angola, terá lugar em Fátima, na Casa São Nuno, em 10 de Março, próximo, o 26º convívio do Batalhão de Artilharia 741.

O Silva Pereira, a cujo espírito solidário e perseverante devemos a regularidade com que nos temos reencontrado ao longo dos últimos 20 anos, já deve ter enviado a “convocatória” a todos os possíveis interessados.

Não estive presente nos primeiros convívios, que tiveram início em 1987, em Santarém, organizados então pelo Vítor Verdasca – um camarada sempre alegre e bem disposto, que a morte levou prematuramente – e pelo Carlos Bragança, porque o convite que me enviaram não me foi entregue, por estar desactualizada a morada.

Acabei por tomar conhecimento da realização dos encontros, por um daqueles acasos felizes, que nos alegram a vida de vez em quando.

Num fim de tarde de Maio (ou Junho?) de 1988, depois de uma visita à Feira Internacional de Lisboa, dirigia-me para o meu carro, quando, de dentro de um táxi parado na fila a aguardar clientes, ouvi o motorista a gritar repetidamente “Ó vaidoso! Ó vaidoso!”



O João Espanhol é o último da 2ª fila, a contar da esq.

Ao mesmo tempo que a minha mulher me dizia “aquele taxista está a gritar para ti!”, reconheci o João Espanhol, um dos membros da excelente equipa de enfermagem que tivemos a sorte de ter na CArt 738, e que nunca mais tinha encontrado desde o nosso regresso.

Dirigi-me a ele, sorrindo, e perguntado qual a razão para o “vaidoso”, respondeu-me, com aquele sorriso gaiato e amalandrado que nunca perdeu, que eu era vaidoso porque não ia aos convívios do Batalhão.

Esclareci-o que desconhecia a realização desses almoços, desconhecimento que lamentava, e ficou combinado que ele me avisaria quando fosse marcado o do ano seguinte, o que fez.

Foi assim que a partir de 1989 estive presente na maioria dos encontros, cuja organização, poucos anos depois, passou a estar a cargo do Silva Pereira, que prestou serviço como alferes-miliciano na CArt 739. (As suas experiências durante os meses da comissão em Angola podem, com proveito, ser lidas aqui).



Da esq. para a dta.: Magalhães (que costuma vir acompanhado de um vinho verde especial, pois não bebe qualquer zurrapa), Alves (um clarim fora de série) e o furriel-miliciano enfermeiro Fernandes (estreante nestes convívios), nas Caldas da Rainha, em 2010

Entretanto, a “velha ceifeira” pregou-nos uma partida e, egoísta, levou, demasiado cedo, o João Espanhol do nosso convívio. Quem o conheceu, sabe que o seu entusiasmo e optimismo (e às vezes um descaramento bom e são) nos fazem muita falta.

Este ano lá estarei de novo (salvo qualquer circunstância imprevista) e, mais uma vez, o tempo será curto para pôr a conversa em dia. Mas uma coisa é certa: vai ser, como sempre, um sábado muito especial.

P.S. - Um aviso à navegação: este ano vamos ter a companhia do “patrão” das transmissões da CArt 738, Morais Soares, que se deslocará do Canadá, especialmente para reencontrar velhos camaradas.

Também o Mário Abreu, furriel-miliciano do 3º pelotão, prometeu estar presente, se conseguir resolver alguns problemas logísticos.

E quem sabe se não haverá outras surpresas...


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O Acidente - Parte I


Novo Redondo (Sumbe) - Av. Marginal 

Nada fazia prever que aquela sexta-feira, 3 de Fevereiro de 1967, seria diferente de todas as outras que tinha passado na Gabela. Até a viagem em serviço a Novo Redondo (para onde tinha sido deslocado o comando da CArt 738 há cerca de dois meses) programada para a parte da tarde, era rotineira.

Durante a nossa permanência na Gabela muitos dos meus camaradas aproveitaram para obter a carta de condução na escola local, de que o Sr. Bernardes era proprietário e instrutor. Também eu segui essa prática, tendo o meu exame, que teria lugar nesta cidade, sido marcado para o dia 10 desse mês de Fevereiro, em hora a definir.

Aproveitei a deslocação a Novo Redondo para (depois de cumpridas as diligências no quartel) me encontrar numa esplanada da cidade com o examinador, a fim de combinarmos a hora em que lhe convinha fazer o exame, enquanto bebíamos uma Cuca, acompanhados pelos três militares que me acompanharam na deslocação.

Acertada a hora, despedimo-nos e metemos rodas ao caminho.


As salinas ao abandono

Pouco depois, já na estrada, os meus companheiros de viagem começaram a meter-se comigo, insinuando que eu não sabia conduzir e que iria chumbar no exame, de nada me valendo as duas cervejas que tinha pago ao examinador. Fui dando troco no mesmo tom aligeirado, até que a certa altura, "provocado" pelo condutor que me desafiava a provar que dominava o volante, fiz a tolice de acabar por ceder ao desafio e"saltei" para o lugar dele, mas dizendo-lhe que ia conduzir só até às salinas. Nos 30 ou 40 quilómetros que distavam das salinas, o caminho era plano, com poucas curvas, e foi percorrido sem qualquer problema.

Chegados às salinas, onde começava a subida para a Gabela através de um percurso sinuoso, parei, perguntando tolamente se estavam satisfeitos. O condutor - que era o Pinóquio - secundado pelos outros, disse que até ali era fácil; a subir o morro é que se via quem tinha unhas. E eu, confirmando o ataque de tolice, continuei a conduzir.

Interrompo aqui a narrativa para esclarecer que depois de termos ido para a Gabela, nunca tinha conduzido uma viatura militar (nem civil, de resto, se exceptuar o Volkswagen da escola de condução, sempre com o Bernardes ao lado). Em Lucunga, quase todos os furriéis – eu incluído – faziam uma perninha ao volante, durante as madrugadas em que estavam de ronda (que incluía acelerar na “pista” de aviação com a emocionante curva no fim da “pista”).


O jeep do desastre ainda inteiro (e eu também)

Quando já estávamos perto da Gabela, pouco antes do desvio para a Boa Entrada, ao sair de uma curva seguida de contra-curva, a viatura entrou em derrapagem no areão que havia na estrada, aproximou-se da berma, enquanto eu procurava pôr em prática os ensinamentos do instrutor de forma a mantê-la na faixa de rodagem. Nunca saberei se o conseguiria ou não, porque o Pinóquio, assustado com o declive que tínhamos do lado direito, deitou as mãos ao volante e torceu-o para a esquerda.

É a última coisa de que me recordo até ter acordado deitado na berma da estrada, com os três a chorarem à minha volta, convencidos de que eu estava morto.

Não sei quanto tempo estive inanimado, mas depois de recuperar os sentidos, vi logo que, embora vivo, estava em muito mau estado. O meu pulso esquerdo fazia um ângulo recto; entre o nariz e o lábio superior tinha um buraco por onde se viam os dentes; o nariz estava partido; na testa tinha um buraco; na perna esquerda tinha um extensa ferida; finalmente, todo o corpo ia ficando negro.

Os outros, à excepção do João Magro, que tinha um pequeno ferimento na cabeça, apenas tinham algumas nódoas negras e um ou outro arranhão.

No meio da estrada, o jeep – que felizmente tinha a capota colocada, o que provavelmente nos salvou a vida – estava virado com as quatro rodas no ar e parecia semi-destruído. Embora na altura não fosse o que mais interessava, percebi logo que estava metido em sarilhos. O jeep, antigo, tinha sido objecto de uma reconstrução no Agrupamento de Material, em Luanda (ASMA), que incluiu pintura, motor, caixa de velocidades, estofos e capota, novos.

Algum tempo depois – a estrada não tinha muito movimento – apareceu um Volkswagen, cujo condutor parou e me conduziu, bem como ao João Magro, para o Hospital da CADA, na Boa Entrada, onde nos foram prestados os primeiros socorros.

O João nem precisou de trabalho de “costura”. A mim, porém, além da colocação de talas provisórias no braço, coseram, sem anestesia, os estragos no rosto. Confesso que com as dores que então já sentia, as picadas da agulha e o fio a passar não fizeram grande mossa.


Hospital da CADA

Acabado o tratamento de emergência, que incluiu sedativos que pouco efeito fizeram, fui transportado para o meu quarto no quartel. Dado o meu estado deplorável,  teria de ser evacuado para o Hospital Militar de Luanda por via aérea, mas àquela hora, com a noite a cair, não havia visibilidade suficiente na pista para as manobras necessárias, pelo que a evacuação apenas teria lugar na manhã do dia seguinte.

As dores não me deixaram dormir durante toda a noite mas, provavelmente, mesmo sem dores não conseguiria dormir, preocupado com as consequências do sarilho em que me tinha metido.

Como em quase tudo na vida, há um aspecto positivo que, neste caso, quero realçar: a solidariedade de uma grande parte da população da cidade que, ao longo da noite, passou pelo meu quarto, interessando-se pelo meu estado e fazendo votos de rápida recuperação.

Apesar de ter uma relação cordial com muitos dos habitantes, não esperava uma manifestação solidária tão significativa, que nunca esquecerei. Foi uma boa surpresa.