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quarta-feira, 14 de março de 2012

BART 741 - Convívio em Fátima


O bolo comemorativo não podia faltar
(Clicar nas fotos para aumentar)

No sábado passado compareci ao convívio anual do Batalhão de Artilharia 741, que teve lugar em Fátima, tendo vivido um dia quase perfeito.

O “quase perfeito” foi, no que me diz respeito, ensombrado por algumas ausências da CArt 738. Nuns casos trata-se, infelizmente, de camaradas que partiram para a viagem que não tem regresso, e cuja memória permanecerá para sempre entre nós. Noutros, os motivos para as ausências radicaram em impedimentos vários, e, dentre todas, permito-me destacar a do Coronel Rubi Marques – que marcou todos quantos, em Lucunga, tiveram a honra de servir sob o seu comando - e que, convalescente de uma maleita recente, não deixará por certo de nos dar o prazer da sua presença no próximo convívio.

Parece-me extraordinário que, 45 anos depois de regressarmos de Angola, e num clima de crise nacional – real ou psicológica – ainda seja possível reunirmos cerca de 300 pessoas entre antigos camaradas e, nalguns casos, familiares próximos. Isto prova quão fortes foram 0s nós da amizade e do companheirismo que desenvolvemos em tempos particularmente difíceis.

Quero também salientar o enorme prazer que tive em reencontrar, tantos anos depois, o Morais Soares, furriel de transmissões, que, acompanhado da esposa, se deslocou expressamente do Canadá para estar presente neste dia especial.

Outros casos dignos de registo são os do antigo comandante do 2º pelotão, alferes Francisco Morgado, que há mais de 20 anos não comparecia nestes eventos, do Mário Abreu, furriel do 3º pelotão, que ultrapassou alguns obstáculos de ordem logística para estar presente, e ainda do meu companheiro de quarto em Lucunga, Nunes da Silva (que parece que, tanto tempo depois, já relevou a minha desarrumação permanente, que tanto perturbava a ordem que ele procurava manter), que há meia dúzia de anos tinha deixado de comparecer.

Por último, mas não menos importante, quero agradecer a impecável organização, a cargo do Silva Pereira, como vem sendo hábito.

P.S. - Publico a seguir algumas das fotos que fiz (com telemóvel) durante o convívio. Nos próximos dias publicarei mais algumas, incluindo um lote que me foi enviado pelo Carlos Cristóvão, da CCaç 715, que esteve na Missão do Bembe, e que tem sido presença habitual nos nossos encontros. 





Francisco Morgado, Sebastião Fagundes e Vítor Casimiro



Um aspecto parcial da sala de jantar



Mário Abreu, Morais Soares, esposa do Morais Soares e, meio encoberto, o Nunes da Silva


Outro aspecto da sala, meio vazia (tempo de conversa enquanto não chegava a hora do lanche)


Sentados os comandantes de pelotão da CArt 738 (Morgado, Fagundes, Casimiro e Pereira); de pé, o Carlos Cristóvão da CCaç. 715


Ao centro, em mangas de camisa, o Silva Pereira (o único de nós que passou o dia a trabalhar)


Na hora de partir e distribuir o bolo
Silva Pereira (encoberto), José Pereira, Morais Soares e Mário Abreu 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

As Fotos do António Passarinho - II (ou o 1º sargento Ramalho)


Desde que escrevi em textos anteriores que o capitão Carvalho não perdia uma oportunidade de me “premiar” encarregando-me do cumprimento das tarefas extraordinárias, e quase nunca agradáveis, que iam surgindo, que tinha a intenção de trazer ao blogue o nosso 1º Ramalho, que julgo ter estado na origem das manifestações de “simpatia” do comandante da Companhia para comigo.

O 1º sargento Ramalho aparece duas vezes em duas das fotografias que o António Passarinho me mandou, cuja publicação iniciei no último post, o que me serve de pretexto para escrever sobre ele.

Em Outubro de 1965, vim de férias à Metrópole, como então era designado o Portugal europeu nos territórios ultramarinos. Duas ou três semanas antes da viagem, o 1º Ramalho perguntou-me se eu não me importava de trazer uma lembrança para a filha (pré-adolescente à época), que residia com a mãe algures no Alentejo, fazendo-a seguir por via postal a partir de Lisboa.


Em Lucunga, na messe de sargentos, com militares de outra Companhia (CCaç.715?)
Apenas identifico o 1º sargento Ramalho, à esquerda, em 2º plano, o 2º sargento Ruas, à cabeceira da mesa, o Passarinho, de pé, por trás do Ruas, o 2º sargento Ramiro, à esquerda do Ruas. Na mesa mais próxima do fotógrafo, o civil que olha para a objectiva é o comerciante Santos. Na mesa do fundo, do lado direito, a olhar para o lado, está o furriel-miliciano Azevedo.
(Identificações obtidas com a ajuda do alferes-miliciano Fagundes e do furriel-miliciano Morais Soares, a quem agradeço)

Respondi que não me importava, desde que a “lembrança” respeitasse duas condições: que não fosse muito volumosa, porque a minha mala de viagem era de tamanho médio, e eu próprio queria comprar lembranças em Luanda, além de trazer parte da roupa civil, que tinha levado e que não me fazia lá falta; e que não fosse muito pesada, porque só tinha direito a 20 kgs. de bagagem, no avião.

Poucos dias antes de eu viajar, e sem termos voltado a falar no assunto (eu até pensava que ele tinha desistido), mandou o 1º cabo escriturário, Ismael ao meu quarto, com a “lembrança”, que consistia num pacote com um tapete decorativo, que ocupava três quartos do espaço da mala.

Mandei o tapete de volta, com o recado de que a “lembrança” não correspondia às condições combinadas. Se o nosso 1º a quisesse substituir por outra de dimensões e peso mais razoáveis, tudo bem; se não, nada feito.

Nem o Ismael voltou, nem o 1º Ramalho voltou a falar na encomenda.


Em Lucunga, na messe 
A contar da esquerda, sentados: 1º sargento Ramalho, 2º sargento Ruas, 2º sargento Ferreira da Silva, furriel-milº Morais Soares e 2º sargento Ramiro; de pé: Passarinho e Daniel

Não falou, mas não se esqueceu. As nossas relações que nunca tinham sido propriamente amistosas, pioraram, embora sem atritos visíveis por terceiros.

De qualquer modo, durante o comando dos dois primeiros substitutos do Capitão Rubi Marques - o capitão Hélio Nunes Xavier, primeiro, e o tenente Simões da Silva, depois, com os quais tive um bom relacionamento - não tive motivos para supor que ele tivesse procurado influenciá-los negativamente em relação a mim.


Pouco depois da chegada do capitão Carvalho, apercebi-me de que o novo comandante estava de pé atrás no que me dizia respeito, sem que eu percebesse porquê.

Como todos os meus camaradas, eu tinha tarefas diárias no quartel, que cumpria, como sempre tinha feito. Além de fazer os serviços da escala (sargento de dia à unidade e sargento da guarda), dava, todos os dias úteis, aulas regimentais aos militares que não tinham completado a 4ª classe. Nos últimos dois meses tive o importante apoio do director da escola primária local, onde, com aproveitamento, acabariam por fazer exame.

Complementarmente, era monitor de desporto da Companhia, tarefa que não me absorvia muito tempo. No essencial, tinha de fazer um relatório mensal das actividades desportivas, que seguia para o Batalhão, onde julgo que ninguém o lia.

Não via, por isso, razão para a secura com que o novo comandante me falava. Até que um dos meus camaradas me disse que tomasse cuidado, porque o 1º Ramalho andava a “emprenhar o capitão pelos ouvidos”.

Nesse segundo ano de comissão, foram poucos os camaradas que vieram de férias à Metrópole. Alguns, para pouparem, não foram para parte nenhuma e ficaram na Gabela, continuando alojados no quartel, sem qualquer problema.

Também era normal a antecipação da apresentação, por conveniência de entrar numa determinada ordem (mais favorável) na escala de serviço.

Em 1 de Novembro de 1966, entrei de férias, tendo viajado para Luanda, onde fiquei 10 dias, findos os quais regressei à Gabela, onde cheguei na tarde do dia 11. O resto das férias seriam passadas em casa de familiares que residiam numa fazenda a 15 Kms. da cidade, mas nessa noite fiquei no quartel, dado o adiantado da hora.


Em Lucunga, na messe (Convívio com camaradas da CCaç 715)
Em primeiro plano, à esquerda, o furriel-milº Miranda Dias, a seguir (?), de camisa branca o furriel-milº Sousa, ao fundo, a meter algo na boca, o furriel-milº Mourão (?), furriel-milº Fonseca, furriel-milº Carvalho (CCaç 715), e mais perto da objectiva, o furriel-milº Vaz; ao fundo de pé, o Passarinho;

No dia seguinte, depois do pequeno almoço, o 1º Ramalho veio ter comigo dizendo-me que o comandante não me autorizava a ficar alojado no quartel, por estar de férias. Disse-lhe que não iria ficar, mas perguntei por que razão outros podiam e eu não. Respondeu que não sabia e que eram ordens do comandante.

Três dias antes do fim do mês, interrompi as férias, entrando de serviço no dia seguinte, o que me deixaria livre na passagem do ano. Fui ao render da guarda, entrei de sargento de dia, e qual não foi o meu espanto, quando, estando na secretaria a conversar com o Nunes da Silva, já perto do meio-dia, entra o 1º sargento, que me disse que tinha ido falar com o comandante, e que este decidira que eu não podia interromper as férias, pelo que também não podia estar de serviço. Todavia, fazia-me o favor de me deixar ficar a dormir no quartel.

Deu-me uma fúria, tirei a pistola do coldre, peguei-lhe pelo cano e, se não fosse o Nunes da Silva e o 1º cabo escriturário agarrarem-me, tinha-lhe dado uma coronhada na cabeça, tal era a minha raiva.

Acabei por abandonar o quartel, só voltei no fim da licença, e mais convencido fiquei da sua influência negativa (bem como da sua má consciência), quando constatei que do meu gesto impensado e grave não tinham resultado quaisquer consequências.

Depois de regressarmos, só encontrei o 1º Ramalho uma vez, em Lisboa, na Praça do Comércio. Estava colocado numa repartição do Ministério do Exército, e falou-me como se fôssemos amigos, sugerindo que, como eu trabalhava ali próximo, nos encontrássemos para almoçar. Deu-me, então, o seu contacto telefónico, que nunca utilizei.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na Missão do Bembe




As fotografias que acompanham este texto foram-me enviadas pelo antigo furriel-miliciano da Companhia de Caçadores 715 (CCaç 715), Carlos Cristóvão.

Na mensagem que as acompanhava, o Cristóvão escreveu que não tinha a certeza se a foto acima era da nossa Companhia (CArt 738), tirada quando passámos pela primeira vez na Missão a caminho de Lucunga, ou se seria da Companhia que os foi render quando a CCaç 715 foi transferida para o Leste de Angola.

Apesar da distância a que se encontrava o fotógrafo, e da consequente má definição dos rostos, parece-me que a fotografia retrata o 2º e o 3º pelotões da CArt 738, e que teve realmente lugar nas circunstâncias referidas pelo Carlos Cristóvão, porque julgo que consigo identificar cinco dos retratados.

Assim, o militar assinalado com o nº 1, é o comandante de Companhia, capitão Rubi Marques. Apesar de se encontar de costas para a objectiva, quer a posição muito peculiar dos braços, quer a do corpo, bem como a inclinação da cabeça, eram características que permitem a sua identificação, quase como se fossem as suas impressões digitais.

Com o nº 2, identifico o alferes-miliciano Francisco Morgado, comandante do 2º pelotão. O nº 3 é o alferes-miliciano Vítor Casimiro (dono de uma excelente voz e especialista do fado de Coimbra), comandante do 3º pelotão. O nº 4 é o furriel-miliciano José Rodrigues, comandante da 2ª secção, do 2º pelotão. Finalmente, o sargento Ferreira da Silva, comandante da 1ª secção, do 2º pelotão, é o nº 5.

Ao fundo, podem ver-se alguns dos camiões onde, “confortavelmente”, viajámos de Luanda para Lucunga, durante dois dias.

Não consigo identificar mais nenhum dos meus antigos camaradas. Se algum dos leitores o conseguir e me quiser informar, agradeço.



A outra fotografia, que o Cristóvão diz referir-se aos preparativos para uma operação onde intervieram várias Companhias, entre as quais teria estado a CArt 738, deixa-me alguma perplexidade, porque ele escreveu que os militares que se encontram à esquerda, “equipados” com capacetes de ferro, pertenciam à minha Companhia, e que os capacetes teriam sido motivo para algum gozo por parte do pessoal das outras unidades .

Ora, acho improvável que seja pessoal da CArt 738, não só porque nunca, antes ou depois, estive em nenhuma operação em que tivessemos usado capacetes (que, de resto, eram completamente inadequados ao tipo de actividades que levávamos a cabo), mas também porque nem sequer me lembro de alguma vez ter visto aquele material na nossa Companhia. Não estou a afirmar que não existiam, apenas digo que não tenho a menor ideia da sua existência (também neste particular, uma ajuda será bem-vinda).

Durante o período que estive em tratamento a uma fractura, no Hospital Militar, em Luanda, que coincidiu parcialmente com a estação seca, a CArt 738 esteve envolvida em várias operações conjuntas com outras unidades e, nalgumas, foram utilizados helicópteros para transporte de pessoal, como foi o caso desta, que pode ter coincidido com o referido período, o que explicaria que, se de facto lá esteve o nosso pessoal, eu não me recorde dela (mas, tendo ouvido relatos de outras operações dessa época, principalmente se o meu pelotão teve intervenção nelas, é estranho que não me falassem desta).

Há por aí alguém disponível para fazer luz sobre esta minha dúvida?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

In Memoriam - Fernando Babo



Antes de um jogo de futebol; de calções, o Babo

Em finais de Março de 2010 fui surpreendido pela notícia de que o Fernando Babo nos tinha deixado, no ano anterior.

Encontrei-me pela primeira vez com o Fernando Babo – Fernando Pinto da Rocha Babo, de seu nome completo – quando, em Setembro de 1964, me apresentei no RAL 1, para integrar o BArt 741.

Quis o acaso que ficássemos a pertencer à mesma Companhia (a CArt 738) acabando por desenvolver uma sã camaradagem, que com o tempo se transformou em amizade. De resto, não era difícil ser amigo do Babo. Estou certo de que não serei desmentido, ao afirmar que não havia um único militar da Companhia que não sentisse simpatia por aquele furriel-miliciano equilibrado e sensato.

A estas qualidades juntava-se uma esmerada educação, bem como uma apurada sensibilidade. Vou referir duas “histórias”, que confirmam isso mesmo.

É do conhecimento geral que nos quartéis era normal o uso de uma linguagem que não só não primava pela elegância, mas também ultrapassava, uma vez por outra, a fronteira da boa educação, não sendo invulgar o uso do palavrão. A excepção, na nossa Companhia, era o Fernando Babo. Quando achava que alguma das nossas brincadeiras estava a passar das marcas, utilizava uma expressão que nunca mais esqueci, e ao mesmo tempo que encarava o “abusador”, dizia-lhe na sua pronúncia muito característica (que creio que nunca perdeu): “Vai morder o S. João na pila!”. Note-se que não estou a adoçar a frase, usando um termo mais suave; era mesmo assim, com delicadeza, que se expressava.

A sua peculiar sensibilidade manifestou-se, por exemplo, na comemoração do seu aniversário, em Lucunga.

Tinha-se criado o hábito de cada oficial ou sargento oferecer um jantar com ementa melhorada – normalmente frango de churrasco - a todos os outros oficiais e sargentos.


Num convívio com a CCaç 715; o Babo está ao centro, com uma garrafa na mão

Era uma ocasião em que o comandante da Companhia, capitão Rubi Marques, afrouxava a rigidez do RDM (Regulamento de Disciplina Militar) pelo que oficiais e sargentos convíviam, incluindo, naturalmente, o próprio comandante. Por norma, cabia-lhe a missão de, em nome de todos, pronunciar algumas palavras na altura do brinde, o que também aconteceu no aniversário do Babo.

Depois, foi a vez de o Babo tomar a palavra para agradecer. Ao referir o significado que para ele tinha aquele jantar, frisou que, para todos os efeitos, naquele dia tão especial nós constituíamos o lenitivo que, naquela data tão especial, substituia a sua família, forçadamente ausente, acentuando que, dadas as circunstâncias, o cap. Rubi Marques era uma espécie de segundo pai.

Foi então que, comovido, o nosso comandante – que tinha fama de ser um militar puro e duro – mostrou a sua faceta mais humanista. Comovido pela sensibilidade natural que o Fernando Babo pusera nas palavras que acabava de pronunciar, e não querendo chorar diante de todos nós, levantou-se, abandonou a sala, saltou para a bicicleta do sargento de dia que estava encostada à parede, e a pedalar vigorosamente saiu do quartel – e da protecção do arame farpado - pela estrada (picada) fora, perante a surpresa de todos.

Acabámos por ir buscar uma viatura e recolhê-lo mais à frente, por uma questão de segurança.

Era esta uma das formas como se manifestava a delicadeza tocante que o Babo produzia nos outros.


A bordo do "Vera Cruz"; o Babo é o segundo a contar da direita

Convivi com ele quase diariamente de Setembro de 1964 até Fevereiro de 1966, altura em que o BArt 741 foi transferido para o Quanza-Sul. A CArt 738 ficou aquartelada na Gabela, mas o 4º pelotão, a que pertencia a secção que o Babo comandava, foi colocada em Porto Amboim.

Nesse último ano de comissão, apenas convivíamos algumas horas, quando lhe cabia comandar a “coluna” que vinha à Gabela. A excepção foi o mês inteiro que estive em Porto Amboim, por troca com o Miranda Dias que, tendo a profissão de desenhador de contrução civil, esteve na Gabela a desenhar o projecto para a construção da Casa do Soldado. Voltariamos nessa altura a ter muitas horas de conversa, quase sempre sentados em frente ao mar. Era então que falávamos da lentidão na passagem dos dias e, já casado, ele se queixava das saudades que sentia da sua Fernanda.

Terminada a comissão, não voltou connosco. A chamado de familiares, viajou para Moçambique (com a esposa que, entretanto, se lhe tinha juntado em Luanda), onde ficaria até à independência daquele país.

Embora tivessemos falado algumas vezes ao telefone, só voltámos a encontrar-nos em 1994, no restaurante do José Alves, em Fafe, no decorrer de um almoço com um pequeno grupo de ex-militares da CArt 738, onde compareceu acompanhado pela esposa.

Com este texto quero homenagear um amigo, que era também um Homem bom.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Na Gabela




Vista parcial da Gabela, com o Hotel Guaraná meio encoberto pelas árvores
(À esquerda, a piscina Municipal)

Não me recordo qual era a Companhia que fomos substituir na Gabela, mas recordo-me da carta que o seu comando nos enviou para Lucunga, e que nos sensibilizou tanto como a recepção que foi feita pela CCaç 715, na primeira vez que passámos na Missão do Bembe e de que falei aqui.

Resumindo, a carta começava por fazer uma descrição da cidade que iria ser a nossa durante os doze meses seguintes.

Recordo-me que uma das informações dizia respeito, para nossa surpresa, ao elevado número de bares existentes na cidade. Associando o termo “bares” ao ambiente do Cais do Sodré, em Lisboa, interrogávamo-nos como é que uma cidade pequena teria clientela para “muitos bares”? E foi uma das primeiras explicações que pedimos aos camaradas, já na Gabela, ainda antes de conhecermos o meio. A resposta era simples; os cafés lá, eram designados por bares. O bar do Sporting, o bar do Cine-Amboim, etc.

Porém, a parte mais importante da missiva era constituida, claramente, pela preocupação que os nossos camaradas da Gabela pareciam ter com o nosso conforto, durante a semana de transição de uma Companhia para outra.


O "Bar" Esmeralda, na Gabela, é um vulgar café

Perante a impossibilidade de fornecerem alojamentos apropriados para os oficiais e sargentos no quartel, tinham conseguido preços muito favoráveis em dois hoteis da Gabela: o Avenida, para os oficiais e o Guaraná, para os sargentos. Eles próprios se encarregariam de fazer as reservas para quem estivesse interessado, depois de receberem a nossa resposta.

Creio que todos os oficiais aceitaram a sugestão, bem como a maioria dos sargentos. Recordo-me que, à excepção da primeira noite, partilhei um quarto com duas camas durante toda a semana. Com quem, é que já não me lembro.

Nessa primeira noite fui dormir na casa principal de uma roça de café da CADA – Companhia Angolana de Agricultura (a roça Giraul).

A CADA era então uma das maiores companhias agrícolas de África - se não a maior - e era proprietária, essencialmente, de roças de café, palmar e sisal. Quis o acaso que um dos meus primos fosse o encarregado da roça acima referida, cujas instalações – residências, armazéns, etc. - ficavam situadas junto à estrada Gabela/Novo Redondo, a cerca de 15 kms. da Gabela. Sabendo que eu ia ser colocado nesta cidade, pôs alguém a vigiar a estrada, à espera da passagem da coluna que ia para Novo Redondo. Quando o comboio de viaturas passou, ficou a saber que eu também já tinha chegado.


Residências de trabalhadores da CADA, na Boa Entrada

(A Boa Entrada, era oficialmente uma roça da CADA. Na realidade, era uma pequena cidade, sede da Companhia, onde se vivia com todo o conforto das restantes cidades angolanas. Tinha hospital, clube recreativo - com cinema, piscina e salão de baile -, colégio para os primeiros anos de escolaridade e aeródromo, entre outras comodidades)

Meteu-se no carro e foi à minha procura ao quartel. Entretanto, na roça já se tinham iniciado os preparativos para o churrasco de galinha à angolana, e estava um quarto à minha espera. No dia seguinte, antes do início dos trabalhos na roça – cedo, portanto – viria trazer-me ao quartel.

Confiante no bom acolhimento do capitão Hélio Xavier, com quem tinha um excelente relacionamento, resultado em grande parte do reconhecimento da minha disponibilidade para brincar com os filhos nas horas vagas, (“quem meus filhos beija, minha boca adoça”) fui pedir-lhe autorização para me desenfiar, até à manhã do dia seguinte. Deferido o pedido, passei pelo hotel para fazer o “check-in” , avisar que não ia dormir nessa noite e deixar a bagagem no quarto, e segui para a Giraul ao encontro do resto da família, e de um dos melhores churrascos de sempre.

No dia seguinte, dia de Carnaval, antes das oito horas, estava no quartel, pronto a iniciar uma nova etapa.

Recordações e impressões deste primeiro dia – bem como dos seguintes – serão contadas nos próximos textos.

domingo, 29 de maio de 2011

Na Varanda da Flórida



Da esquerda para a direita:
Em primeiro plano, meio desfocados: Morais Soares e Mourão (atrás do Mourão, um camarada da CCaç 715, que não consigo identificar);
Sentados: Carvalho (CCaç 715), Torres (CCaç 715), Rodrigues e outro camarada da Ccaç 715), cujo nome “fugiu”;
De pé: Ramiro e Fonseca
Na janela: Miranda Dias e Babo



Embora esta seja uma das “minhas” fotografias mais desastradas (parece que estou ausente ou a dormir), gosto particularmente dela.

Foi tirada na espaçosa varanda da Flórida, onde estavam alojados alguns furriéis. As cadeiras eram feitas com madeira de barris de vinho, que depois de vazios eram reaproveitados.

A imagem tem a particularidade de retratar alguns dos meus camaradas com quem tive, ou ainda tenho, especiais laços de amizade.

A começar pelo Torres que - soube-o recentemente -, faleceu já há alguns anos.

Foi meu colega de turma, no Liceu D. João III, além de ter sido meu companheiro de viagem habitual no comboio que todos os dias nos transportava das localidades onde residíamos, para Coimbra.

Reencontrámo-nos em Agosto de 1963, no quartel de Tavira, onde frequentámos o Curso de Sargentos Milicianos.

Conheci o Miranda Dias, cuja memória evoquei aqui, aos 16 anos, quando disputámos o Campeonato de Andebol de Lisboa, em Juniores, em representação de clubes diferentes. Mas só viriamos a criar laços de amizade quando nos reencontrámos no RAL 1, na formação do Batalhão.

O Carvalho foi outro camarada que conheci em Tavira, e com quem fiz amizade. Tinha uma acentuada pronúncia “à Porto”. Com ele aprendi um termo novo da nossa Língua, quando ele, na caserna, me perguntou se eu não tinha um “aloquete” a mais. Sabia lá eu que um aloquete era aquilo que eu conhecia como cadeado! Mas fiquei a saber.

O Babo, também já nos deixou (por cruel coincidência vítima de uma doença degenerativa, tal como aconteceu com o Miranda Dias, seu amigo e camarada do 4º pelotão), e espero homenageá-lo num dos próximos posts.

Continuo a manter contactos regulares com o Ramiro, que costuma estar presente nos nossos convívios.

Do Morais Soares dei conta neste texto, e espero que cumpra o prometido e apareça no próximo ano.

O José Rodrigues, que ficou em Angola - onde casou com uma moça da Gabela, para onde fomos depois de Lucunga -, regressou mais tarde a Portugal, e foi bancário em Vila Nova de Gaia, onde residia. Veio pelo menos a um dos almoços na Ponte de Asseca. Entretanto, o seu número de telefone foi alterado e perdi o contacto.

O Mourão afastou-se depois do regresso. Encontrei-o ocasionalmente três vezes, alguns anos depois do nosso regresso, mas embora tivesse conversado de forma cordial, nunca mostrou vontade de frequentar os nossos convívios.

A foto foi tirada por altura de um jogo de futebol, em Lucunga.




quarta-feira, 23 de março de 2011

A Terapeuta

A leitura deste texto publicado pelo "Veterano" no blogue do Batalhão, recordou-me um episódio que situo em Maio de 1965, no qual tive um papel de "relevo", e que à luz dos regulamentos militares poderia ter-me causado sérios amargos de boca, sob a forma de uma exemplar punição disciplinar.


Lagoa do Toto

Numa das deslocações ao Toto para reabastecimento em que fui mais uma vez responsável pela segurança da coluna, veio ter comigo um camarada da CArt 739 dizendo-me que uma rapariga que estava hospedada no “Hotel” do Adão há uma semana, no desempenho da sua actividade profissional, que definirei como “técnicas de terapias sexuais avançadas”, estava interessada, se eu quisesse dar-lhe transporte, em deslocar-se até Lucunga a fim de dar assistência, no âmbito da sua especialidade, aos militares da CArt 738 que estivessem interessados.

Comecei por recusar. Mas depois, pensando melhor (ou pior, depende do ponto de vista), achei que talvez a “coisa” tivesse algum interesse. Não havendo nenhum estabelecimento hoteleiro em Lucunga onde a senhora ficasse alojada, o problema tinha, contudo, solução. Um dos quartos da nossa casa estava temporariamente desocupado porque o Mário Abreu estava de férias, e o outro ocupante tinha sido transferido para outra unidade. Logo, ela podia dormir lá. Se os meus colegas de alojamento discordassem, do que eu, conhecendo-os, duvidava, estava certo de que o comerciante Sr. Santos, resolveria a questão.

As refeições podiam constituir outro entrave. Mas achei que não havia problema em lhas trazer da messe. Afinal, onde comiam vinte podiam comer vinte e um.

Quanto ao local onde exerceria a sua actividade profissional, não faltavam casas devolutas. O edifício onde tinha funcionado a delegação da Junta de Estradas de Angola discretamente situado já à saída de Lucunga, no sentido da Damba, parecia ideal. E foi.

Acompanhei o meu camarada até ao hotel para conhecer a “Lisette”. Apareceu-me uma rapariga loira, bonita e simpática, que dizia ter 28 anos, embora parecesse ter já passado dos 30. Confirmado o seu interesse, expliquei-lhe as condições que a esperavam e ficou acertada a partida, para quando eu regressasse do comando do Batalhão, no Vale do Loge.


A "minha" casa em Lucunga

A chegada a Lucunga foi um acontecimento. Apesar de eu ter feito uma paragem discreta na casa onde ela iria ficar, localizada à entrada da localidade, para a deixar instalada sem alarido, a novidade correu como fogo num campo de trigo seco, com quase toda a gente a querer conhecer a visitante.

Entretanto, fui falar com o oficial que substituía o comandante de Companhia, ausente. Estupefacto, olhava para mim, sem saber bem o que fazer. Acabou por me dizer qualquer coisa no género: “Vamos lá a ver no que é que isto vai dar”!

A visita da “Lisette” acabou por ser um sucesso. É certo que uma reduzida parte do pessoal não recorreu aos seus préstimos. Mas os que compareceram nas “sessões de trabalho” na casa da Junta das Estradas, ficaram tão satisfeitos que muitos repetiram, com inegável benefício para as duas partes. Era visível a satisfação, e até a moral daqueles jovens, isolados no mato há tantos meses, parecia estar em alta.

Por deferência para com os oficiais e sargentos que o desejassem – e também aqui apenas dois ou três não estiveram interessados – a "Lisette" deslocou-se aos respectivos alojamentos, onde tinham lugar as sessões de terapia.

Como é natural, um acontecimento desta natureza não podia fugir ao conhecimento do comandante de Companhia, no seu regresso. Ele nunca falou comigo sobre o assunto, mas segundo as notícias que me chegaram, estaria decidido a levantar autos aos infractores, que forçosamente conduziriam a processos disciplinares com as consequências inerentes. Perante os factos, eu não escaparia a sentir na pele todo o rigor que o RDM previa para estes casos.


Porém, rapidamente o nosso capitão desistiu de qualquer procedimento disciplinar. Se, como era norma, todos os militares punidos fossem transferidos, ele ia ficar sem pelo menos dois terços de efectivos na Companhia. Iria funcionar como? E o alarido que isso não ia levantar nas outras unidades? Acabou por não haver consequências, além da descompostura que alguns oficiais terão ouvido.






Varanda da Flórida
Convívio com militares da CCaç 715

Não termino o meu relato, sem contar outra “historinha”, dentro desta história.

Um dos nossos camaradas – o “Mendonça” -, homem de fortes convicções, não só morais, mas também religiosas, passou os dias daquela semana dividido entre a obediência às referidas convicções, por um lado, e o aguilhão do desejo, por outro.

Compadecido, o furriel “Penas” arquitectou uma solução, contando para isso com a cumplicidade da “Lisette”.

Quase todos os dias, ao fim da tarde, se juntava um grupo na espaçosa varanda da Flórida, que servia de residência a alguns furriéis e sargentos, onde se ia beberricando enquanto se conversava. Num dos últimos dias da sua permanência, a nossa hóspede apareceu nessa tertúlia, aproximou-se do “Mendonça”, puxou-o da cadeira por um braço e conduziu-o para o interior da residência, piscando um olho ao “Penas”.

Poucos minutos tinham passado quando voltaram a sair. O “Mendonça” com o ar enfiado de quem tinha de se confessar na primeira oportunidade; a “Lisette” com o ar de quem tinha levado a barca a bom porto.


P.S. - Os nomes colocados entre "  " são fictícios.









segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Futebol em Lucunga




Oficiais e sargentos (incluindo dois suplentes, por causa da falta de ar)

Da esq. para a dta., em baixo: Azevedo, Fernandes, Ruas, Ramiro, Miranda Dias e Casimiro
De pé: Fonseca, Vaz, Morais Soares, Mourão, Pereira, Nunes da Silva e Fagundes

O futebol era, a par dos jogos de cartas, uma das formas mais usuais de ocupação dos tempos livres dos militares da CArt 738.

Exceptuando as ocasiões em que se realizavam operações conjuntas com outras unidades, quando era necessária a utilização de helicópteros que se serviam do campo de futebol como pista de aterragem e de estacionamento (para os pequenos aviões Dornier 27, tínhamos a pista de terra batida), todas as tardes realizávamos renhidos jogos de futebol.

No quartel e salvaguardando os serviços que implicavam um horário alargado (desde logo o serviço de guarda nas “torres” de vigia, a preparação das refeições e, eventualmente, os cuidados de saúde), as várias tarefas diárias tinham lugar entre as oito horas e as dezasseis e trinta, com intervalo para almoço e repouso das doze às quinze horas. (O intervalo para o almoço pode parecer demasiado longo, mas importa considerar que era também a hora em que a temperatura atingia o seu pico, e o capitão Rubi Marques achava que uma sesta depois da refeição ajudava a recuperar energias, no que estávamos todos de acordo. Pudera, não havíamos de estar!)


Oficiais e sargentos*

Da esq. para a dta., em baixo: Pereira, Azevedo, Ruas, Morais Soares e Rubi Marques
Em cima: Miranda Dias, Fonseca (com um fato de treino vermelho berrante, emprestado pelo benfiquista Fagundes), Mourão, Fernandes, Vaz e Fagundes

Das dezasseis e trinta até à cerimónia do arriar da bandeira que tinha lugar às dezoito horas, jogava-se futebol.

Estando quase sempre um pelotão(pelo menos) na mata em operações e dado que nem toda a gente tinha jeito ou gostava de jogar, tornava-se por vezes difícil juntar vinte e dois jogadores com habilidade. Era preciso, então, recrutar aqueles a quem o alferes Pereira chamava os “três pés”, porque, parecendo que tinham pés a menos para jogar a bola, aparecia sempre um pé a mais para dar nas canelas do “adversário”. Por causa de um desses “três pés” sofri uma fractura num osso do braço direito. Em consequência disso estive em tratamento no Hospital Militar de Luanda durante algumas semanas.

Além destas jogatanas, disputávamos de vez em quando jogos em que uma equipa de praças defrontava outra de oficiais e sargentos. Ganhava sempre a equipa de praças, embora a outra equipa desse muita luta.


Jogo com a CCaç 715, da Missão do Bembe (a nossa equipa jogou de tronco nu, porque as nossas camisolas eram da mesma cor das da Missão, embora um pouco mais escuras)

Da esq. para a dta.: Pereira (ou Fagundes?), Mourão, jogador da CCaç 715 (?)**, Fonseca (a defender um canto), encoberto outro jogador da CCaç715 (?), Miranda Dias, Vaz e Casimiro


Também houve um torneio em que os quatro pelotões jogaram entre si. Claro que foi uma disputa muito desigual porque o primeiro pelotão (por coincidência o meu) tinha uma equipa de estrelas que não dava qualquer hipótese aos outros.

Além destes jogos domésticos, também recebemos e visitámos os camaradas das Companhias 715, da Missão do Bembe, e 739, do Toto. Nestes casos, eram encontros de desporto e confraternização que, habitualmente, incluíam outras modalidades, como o Andebol, o Voleibol e o indispensável almoço.

Sobre o Andebol, e a sua introdução nos nossos tempos livres, tenciono escrever lá mais para a frente.

Na época das chuvas era frequente termos de terminar o jogo inopinadamente devido a um curioso fenómeno meteorológico. De repente, na tarde calma e quente, levantava-se uma forte ventania, seguida quase de imediato por chuva tão forte que parecia que o céu tinha aberto as comportas. Em pouco tempo formava-se um caudal que transformava a rua num rio. Pouco depois cessava o “dilúvio”, voltava o sol, e o calor secava tudo tão rapidamente que nem parecia ter chovido.



1º Pelotão

Da esq. para a dta., em baixo: (António Gomes), Grilo, Pereira, Resende, Brandão e (Cerqueira?)
De pé: Fonseca, Redondo, Oliveira,(?),  Azevedo, Dias, e Teles (?)

Mal dávamos pela aparição do vento corríamos a toda a velocidade para a casa mais próxima, mas quem estivesse na zona mais afastada do campo ficava encharcado. Não era que tivesse muita importância, porque, afinal de contas, íamos tomar duche a seguir.

De uma das vezes que entrámos na “casa-refúgio”, que era também o alojamento de alguns militares, alguém deu um berro porque acabava de encontrar uma cobra surucucu enrolada no pé de uma das camas de ferro. Não houve qualquer problema, a não ser para a pobre cobra, que estava no lugar errado, à hora errada, e terminou, assim, os seus dias de forma inglória.

 Surucucu



* Esta parece ser a equipa que defrontou a CCaç 715, o que é estranho, porque inclui apenas oficiais e sargentos, não sendo a nossa melhor equipa. Da melhor equipa faziam parte, entre outros, o Oliveira - talvez o nosso melhor futebolista -, o Resende, o Brandão, o Dias e o Cristóvão.