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segunda-feira, 18 de abril de 2011

In Memoriam - João Francisco Miranda Dias

Conheci o Miranda Dias em 1958. Tínhamos 16 anos e disputávamos, em representação de clubes diferentes, o Campeonato de Lisboa de Andebol na categoria de Juniores. Fomo-nos encontrando nos anos seguintes quando os nossos clubes jogavam entre si, sem no entanto termos estabelecido um relacionamento especial para além dos cumprimentos habituais no final de cada jogo.

Quis o acaso que voltássemos a encontrar-nos em Setembro de 1964 no RAL 1 (Regimento de Artilharia Ligeira nº 1), em Lisboa, aquando da formação do Batalhão de Artilharia 741, acabando ambos integrados na CArt 738. Ele no quarto pelotão, eu no primeiro.

Era o início de uma amizade que, apesar de termos estado muitos anos sem nos encontrarmos, se manteria até à sua morte, em 1994 (se a memória não me atraiçoa).

Na varanda dos "Sete Magníficos". De farda camuflada, o Miranda Dias

Em Lucunga ficámos alojados na mesma pequena moradia - a que chamávamos “Casa dos Sete Magníficos - com três quartos, que foi a residência de sete furriéis-milicianos durante a nossa estadia naquela localidade. Os longos serões à conversa na varanda tiveram como resultado um conhecimento mais aprofundado, bem como a revelação de vários interesses em comum.

Um deles, como já referi, o Andebol levaria a que, conjuntamente com o alferes-miliciano Fagundes também ele praticante da modalidade, viéssemos a “construir” um campo de Andebol onde disputávamos partidas com outros camaradas, alguns dos quais tinham algumas luzes da modalidade que tinham praticado nas aulas de Educação Física do Ensino Secundário, e outros a quem transmitimos o gosto pelo jogo.

Tínhamos uma outra afinidade, que nos levava à prática de uma “malandrice”, que já resumi aqui.


Antes de um jogo de Andebol, na Gabela. O Miranda Dias é o segundo a contar da esquerda

Depois do regresso nenhum de nós voltou a jogar Andebol e, exceptuando um breve encontro ocasional em Novembro de 1967, estivemos mais de 20 anos sem notícias um do outro.

A causa próxima do reencontro teve origem num dos almoços realizados na Ponte da Asseca, durante uma daquelas conversas sempre presentes nos nossos convívios, em que falamos dos camaradas de quem não temos notícias. Nesse almoço de 1990, o segundo em que compareci, veio à baila o Miranda Dias, e um dos presentes tinha ouvido dizer que ele estava doente, mas não sabia pormenores, além de que ninguém sabia onde morava.


Hora de refrescar. O Miranda Dias é o primeiro de pé, à direita

Foi fácil encontrá-lo. No regresso a Lisboa consultei a lista telefónica e lá estava o número do telefone. Liguei-lhe e, ultrapassada a emoção que lhe causou a minha chamada, o Miranda Dias confirmou que se encontrava doente há alguns anos. Uma doença degenerativa - esclerose de placas, também chamada esclerose múltipla – tinha-lhe causado uma progressiva diminuição das capacidades físicas, “atirando-o” para uma cadeira de rodas.

A partir dessa altura e até a morte o levar, poucos anos depois, passei a visitá-lo aos sábados, sempre que tinha disponibilidade. Em média, duas vezes por mês.

No ano seguinte ao nosso reencontro convenci-o a acompanhar-me ao almoço de confraternização do Batalhão, onde foi acarinhado por todos os antigos camaradas. Mais tarde disse-me que aquelas horas de convívio tinham constituído uma das maiores alegrias que tinha sentido nos últimos anos.


O Miranda Dias é o primeiro, de pé, à esquerda

Nas muitas horas de conversa desses últimos anos lamentámos o tempo que, sem qualquer razão, deixámos ir passando sem contactos. Como ele costumava dizer, éramos novos, pensávamos que o Mundo era nosso, e que tínhamos uma vida inteira à nossa frente.

Afinal, nem éramos donos do Mundo, nem a “vida inteira” era assim tão longa.

Infelizmente, no seu caso, não só não foi longa, mas foi, também, injustamente cruel.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O "Monumento"


Tradicionalmente – se a uma prática com meia dúzia de anos se pode chamar tradição - as Companhias erigiam nos locais onde estavam aquarteladas um “monumento” que assinalava a sua presença. Na prática, aquelas pequenas construções tinham um significado equivalente aos dos padrões que os navegadores portugueses erigiram ao longo da costa africana durante a epopeia dos Descobrimentos, salvaguardando as devidas distâncias, como é evidente.

As fotografias que ilustram este texto foram-me enviadas pelo Jorge Isidoro, que foi furriel-miliciano da CCaç 1495, que nos rendeu em Fevereiro de 1966, tendo permanecido em Lucunga durante os 27 meses que durou a sua comissão. Nesta foto, que foi tirada de um ângulo mais favorável do que os de qualquer uma das fotos que eu já tinha do nosso “monumento”, o Jorge está de pé, enquanto, sentado, está o Antunes, igualmente furriel-miliciano daquela Companhia.

Monumento da CArt 738

Na fotografia podem ver-se, ao fundo, a oficina-auto e, em segundo plano, o mastro com a bandeira nacional (mais à direita vê-se também a casa do gerador que nos fornecia energia eléctrica, quando não estava avariado).

No espaço entre o mastro da bandeira e a oficina formavam todos os militares da Companhia, diariamente, às oito horas, para assistir ao hastear da bandeira.


"Casa dos Sete Magníficos"

Esta era a pequena moradia que foi a minha casa – e de mais seis camaradas - de Janeiro de 1965 a Fevereiro de 1966. Aqui, o “jardim” parece pouco cuidado. Deve ter faltado o cumbú* para pagar ao jardineiro.

A zona de intervenção das unidades aquarteladas em Lucunga abrangia uma vasta área na margem esquerda do rio Coji, pelo que, não havendo ainda a ponte o uso de uma jangada era indispensável para o cumprimento das nossas missões. Além do nosso pessoal, a jangada também era utilizada pela Companhia aquartelada em Chimacongo, que ficava cerca de 30 kms. a Leste de Lucunga, e cuja zona incluía igualmente algumas áreas na margem esquerda do rio.

Havia outros utilizadores, entre os quais se incluíam os grupos que então combatíamos, aos quais chamávamos terroristas ou, mais vulgarmente, turras (designações hoje politicamente incorrectas, como sabemos).

De vez em quando, ao chegarmos ao Coji a jangada estava encostada à outra margem. Atendendo ao facto de, no rio, além dos peixes e dos hipopótamos – estes numa zona um pouco mais a jusante – também nadarem crocodilos, antes de um voluntário atravessar o rio a nado para trazer a jangada, era preciso varrer a corrente com algumas rajadas de FN, e lançar duas ou três granadas, para afastar os indesejáveis animais. Claro que essa acção provocava aquilo que hoje se designa por “efeitos colaterais”: no caso, alguns quilos de peixes mortos.




Militares da CCaç 1495 atravessam o Coji na nova jangada

A jangada da fotografia foi reconstruída pelos militares que nos foram render. E, pelo aspecto, fizeram um excelente trabalho. Parece nova


* Dinheiro em quimbundo