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sábado, 5 de março de 2011

Dr. António Terrinha


Dr. Terrinha, em primeiro plano
(Foto "roubada" ao blogue do Batalhão (http://batalhaodeartilharia741.blogspot.com)

No decorrer de um jogo de futebol em Lucunga que teve lugar num dos últimos dias de Julho de 1965, fui rasteirado por um dos tais “três pés” a que me referi anteriormente, e caí violentamente sobre o meu braço direito.

Sentindo fortes dores e receando ter feito uma fractura desloquei-me ao posto médico. Depois de examinar o braço o alferes-médico Dr. Salazar Leite, concluiu que não havia fractura, mas apenas uma contusão.

Todavia, a dor teimava em não desaparecer e, além disso, piorava quando eu tentava fazer qualquer esforço com a mão direita. O Dr. Leite insistia que não havia fractura e parecia que estávamos num beco sem saída.

A situação começava a complicar-se porque (por demais sabia eu como “funcionavam” as coisas nestas circunstâncias) não tardariam as insinuações de que estaria a tentar “baldar-me” às saidas para operações.

Entretanto, no princípio de Agosto – creio que no domingo, 8 – deslocou-se a Lucunga uma delegação da CART 739, aquartelada no Toto, para umas horas de convívio. Como era hábito, houve futebol de manhã, jogo em que por estar lesionado não alinhei, seguido de farto almoço (cozido à portuguesa, nas messes), onde fui dos primeiros a alinhar.

Da comitiva da CArt 739 fazia parte o alferes-médico Dr. António Terrinha que, a pedido do Dr. Leite, examinou o meu pulso não demorando a fazer o seu diagnóstico: eu tinha fracturado um dos ossos do pulso e, na sua opinião, deveria ser evacuado para o Hospital Militar de Luanda para fazer o necessário tratamento.


Quartel do Toto - edifício do comando
(Foto obtida na internet, de autor desconhecido)

Voei para Luanda a bordo de um Nord Atlas da Força Aérea, e depois de radiografado no Hospital Militar confirmou-se o diagnóstico de fractura, tendo acabado por ficar em Luanda quase cinco semanas em tratamento.

Às vezes, quando volto a este assunto, ainda dou por mim a pensar no que teria acontecido se não fosse a providencial visita a Lucunga do pessoal da CArt 739.

Outro episódio em que o Dr. Terrinha voltou a ter um papel relevante, teve lugar um ano depois, em Agosto de 1966, já a CArt 738 estava na Gabela, e eu fui a uma consulta de Oftalmologia a Luanda.

Da Gabela para Luanda consegui boleia evitando fazer a desconfortável viagem no machibombo da carreira, que levava o dia inteiro para fazer o percurso.

Porém, apesar de ter corrido todas as capelinhas onde era hábito “pararem” os gabelenses (ou residentes em localidades próximas) quando iam a Luanda, não consegui encontrar ninguém que fosse para os lados da Gabela ou, ao menos, alguém que me desse boleia até à Quibala. Daí para a Gabela já era mais fácil arranjar transporte.

Desapontado perante a incómoda viagem que me esperava no dia seguinte, entrei na Cervejaria Amazonas para me compensar antecipadamente com um lauto jantar. Ao entrar vi sentado a uma mesa o Dr. António Terrinha com a esposa e os filhos (que, se a memória não me atraiçoa, eram dois). A seu convite ocupei um lugar à mesa e, durante a conversa, acabou por vir a lume a minha “desdita”.

Não me recordo, naturalmente, dos termos exactos da sua proposta. Mas, mais palavra, menos palavra, o que me disse, foi:

“Ó Fonseca eu vou amanhã para o Calulo onde, como sabe, está um pelotão da sua Companhia. Você vai comigo e, para todos os efeitos, está apresentado na sua unidade. Quando chegarmos, o Casimiro - era o alferes comandante do pelotão - manda um rádio para a Gabela a dar conta da sua apresentação. E depois, como todas as semanas há viaturas a circular uma ou duas vezes, entre a Gabela e o Calulo, você chega à Gabela em menos de dois dias.”

Embora o “esquema” não me parecesse muito regular (ainda por cima o comandante de Companhia era o Cap. Carvalho que não morria de amores por mim), a verdade é que eu já estava por tudo para não ter de viajar no machibombo. Não foi, por isso, muito difícil deixar-me convencer. E, aproveitando a boleia, lá fui no dia seguinte para o Calulo, que não conhecia.


Rua do Calulo
(Foto obtida na internet, de autor desconhecido)

E, no fim, os factos deram razão ao Dr. Terrinha. Tudo se passou exactamente como ele previra. Ainda não foi daquela que levei com o “auto das passas”.

Neste texto, mais do que contar duas experiências da minha vida militar em Angola, pretendo evocar e prestar a minha homenagem a um homem bom e generoso, que a morte levou prematuramente.

Era um ser humano com qualidades que o distinguiam entre os seus pares.


domingo, 16 de janeiro de 2011

Luanda - I

Porto de Luanda

Desembarcámos Luanda em 18 de Janeiro de 1965. Já ia distante o ano de 1961, altura em que os primeiros militares que chegaram depois do início da guerra no Norte desfilavam na Avenida Marginal, vitoriados por milhares de residentes.

A situação tinha mudado, e as circunstâncias que rodearam a nossa chegada estiveram longe de contribuir para animar as hostes.

Alguns militares da minha Companhia choravam, desolados, estranhando as barrocas de terra vermelha que caracterizam a aproximação ao porto de Luanda e que constituíam a primeira visão que tinham antes do desembarque. Ao mesmo tempo, queixavam-se da elevada temperatura àquela hora matutina, bem como da pegajosa humidade que se sentia. Era, para quase todos, um enorme “salto” no desconhecido, atendendo aos nossos pouco mais de vinte verdes anos.

Musseque

O desapontamento generalizou-se quando verificámos que o comboio que nos transportaria do porto de Luanda até ao quartel, no Grafanil, onde as unidades permaneceriam até à partida para o Norte, tinha apenas meia dúzia de carruagens de passageiros, sendo a restante composição constituída por vagões de mercadorias fechados, com uma larga porta de cada lado onde viajámos de pé em condições mais parecidas com as de um transporte de gado. A via férrea atravessava vários muceques onde a miséria era por demais evidente, e isso também não ajudou a melhorar o nosso estado de espírito. 

Desta forma, facilmente se compreende que o moral não fosse particularmente elevado quando, chegados ao Grafanil, saltámos dos vagões para o terreno arenoso.

Depois de formados à entrada do quartel iniciámos o desfile até ao local onde ficaríamos alojados. 

Entrada do Grafanil

Durante o tempo de instrução no RAL1 fomos treinando, por iniciativa do comandante da Companhia, uma espectacular forma de marchar a que ele chamava  “o passo de parada”. No passado tínhamos marchado assim algumas vezes, a última das quais durante o desfile no Cais da Rocha Conde d'Óbidos. Porém, o desalento naquela manhã era de tal ordem que, sem que tivesse havido combinação prévia, o “passo de parada” não saiu. Apesar das repetidas ordens, cada vez mais gritadas, o pessoal andava mais do que marchava. O nosso comandante de Companhia estava mais que descontente; estava furioso.

Mas, confirmando um velho princípio, quando as coisas podem piorar, pioram mesmo. E foi o caso.

Não esperávamos ter à nossa espera alojamentos luxuosos, mas esperávamos, pelo menos, ficar instalados em edificações pré-fabricadas. Porém, o que tínhamos à nossa espera  para passar os cinco dias que ali iríamos ficar eram pequenas tendas de três panos para alojar, cada uma, três militares com as respectivas bagagens. Aí, e embora  se soubesse que isso não resolveria nada, exercemos aquilo a que, anos mais tarde, um presidente da República chamaria de "direito à indignação", e não calámos o nosso  descontentamento. Cumpridor das normas, o capitão Rubi Marques limitou-se a avisar que todos (incluindo ele próprio) ficariam nas tendas.

Um aspecto do Campo Militar do Grafanil

No entanto, as coisas não se passaram bem assim. Da minha Companhia fazia parte o furriel-miliciano José Rodrigues que, apesar de ser o mais jovem furriel desta unidade ia já na segunda comissão em Angola (por troca com um camarada), pois tinha assentado praça, voluntariamente, aos 18 anos, e a sua experiência seria decisiva para que, ao fim da tarde, um pequeno grupo de que fiz parte, se “desenfiasse”, evitando dormir nas malfadadas tendas.

Conhecendo as rotinas do quartel o Rodrigues sabia que havia sempre viaturas a sair do Grafanil para Luanda, e vice-versa. Sabia também que não havia qualquer tipo de controlo, pelo que bastaria que fossemos até à porta de armas e apanhássemos boleia numa dessas viaturas. Assim fizemos, e em Luanda ficámos numa moradia, na Avenida Marechal Carmona, cuja dona ele já conhecia e que alugava quartos a militares.

Luanda - Avenida Marechal Carmona

Nessa primeira noite (e nos dias seguintes) o Rodrigues revelar-se-ia um precioso cicerone. 

Jantámos na Baixa, na Cervejaria Amazonas (que viria a ser, não só nesses poucos dias mas também nas deslocações que depois fizemos a Luanda, uma espécie de cantina para muitos de nós), e andámos a conhecer algumas boites da cidade (nesse tempo, para nós, discotecas eram lojas que vendiam discos). 



Deitámo-nos tarde, pedindo que nos acordassem às seis horas. Nem tomámos pequeno-almoço. Apanhámos dois táxis e seguimos para o Grafanil, onde aparentemente a nossa ausência não fora notada. É claro que a nossa saída era do conhecimento de alguns. E a notícia da infracção acabou por chegar mais acima, mas sem consequências.

Os camaradas que lá tinham pernoitado pouco ou nada dormiram. Os mosquitos atacaram em massa, deixando na pele do pessoal as marcas da sua acção, acompanhadas por um forte prurido. Dentro da minha tenda, que tinha ficado só com a bagagem, havia uma nuvem de mosquitos. Do que nos livrámos...

Nesse dia, e nos seguintes, as ordens foram alteradas. O comandante da Companhia passou a autorizar as dormidas em Luanda, excepto, naturalmente, para quem estivesse de serviço.

E, nos dias seguintes ao fim da tarde, lá partíamos à descoberta da cidade e à recarga das baterias para a permanência no “mato”, que nos esperava.

Dessa descoberta "falarei" no próximo post.