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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Parece que foi ontem...

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Pouco antes da partida

... pelo menos na minha memória. Aquela manhã de 9 de Janeiro de 1965 permanece viva em todos os seus pormenores, apesar dos 49 anos passados, que voaram como se de um cometa se tratasse.

Lembro-me do choro e de alguns gritos dos que ficavam, provocados pela incerteza do futuro. O receio de familiares e amigos de que aquele fosse o último abraço, o último beijo, eram, de resto, partilhados por quase todos os que partiam. A incerteza pelo que nos esperava era enorme.

Nalguns casos, esses receios viriam a tornar-se uma dolorosa realidade. Infelizmente, nem todos voltámos. E, dos que voltaram, nenhum era o mesmo quando regressou. Grande parte da inocência dos nossos vinte anos ficou por terras africanas.


Gare Marítima da Rocha Conde d' Óbidos

Mas também de lá trouxemos coisas positivas. Crescemos, e viemos com a certeza de que a amizade, a camaradagem e a solidariedade, não eram apenas palavras de dicionários. Foram vividas nas dificuldades do dia a dia. 

Voltámos igualmente com a mágoa e a saudade dos que não conseguimos evitar que lá ficassem. Foram heróis - esquecidos pelos políticos, porque não lhes rendem votos -, que não tiveram direito a "Panteões", mas que nunca se apagarão da nossa memória. 




segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Tavira - 11 de Novembro de 1963

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Esta fotografia foi tirada em Tavira, em Agosto de 1963, junto ao monumento que homenageia os mortos da I Grande Guerra. Eu tinha “assentado praça” no quartel daquela cidade algumas semanas antes, para frequentar o Curso de Sargentos Milicianos.

Durante os cinco meses e meio de duração do Curso, vinha a casa duas vezes por mês. Nesse fim de semana, calhava não vir e, estando o meu pai de férias, a família resolveu viajar até ao Algarve para me fazer uma visita, aproveitando para conhecer a região.

Na foto o meu rosto está um tanto fechado, e eu tinha uma boa razão para isso: a visita calhou num fim de semana em que eu não me podia ausentar do quartel. Tinha ido dois dias antes à enfermaria por ter bolhas nos pés, provocadas pelas botas. O médico prescreveu o uso de sapatilhas, o que, automaticamente, me incluía na lista de “detidos e convalescentes”, com a consequente obrigação de permanecer no quartel durante cinco dias (*). 



A caserna da 3ª Companhia a que eu pertencia

(Foto recente)

Com a inconsciência que só as verduras da mocidade explicam, fui ter com um dos meus camaradas mais chegados – o Vítor Nogueira, um casapiano que pertencia ao meu restrito grupo de amigos – e expliquei-lhe que, tendo os meus pais na cidade, ia sair e passar a tarde com eles. Por isso, pedia-lhe que, se o oficial de dia mandasse tocar a “detidos e convalescentes” – o que, sendo fim de semana, era praticamente certo, ele calçasse umas sapatilhas e se apresentasse no seu gabinete como se fosse eu.

Começou por me dizer que não, mas não fiz por menos e, de forma indecente, cobrei alguns favores que lhe tinha feito (que incluiam, entre outros, escrever, suprindo a sua preguiça, cartas em seu nome para a namorada, em maiúsculas para que ela não estranhasse a letra diferente) e lembrei-lhe que sendo o oficial de dia de outra Companhia, sabia lá, num universo de 900 instruendos, quem era o 996 (eu) ou o 993 (ele, Vítor). E, embora muito contrariado, lá acedeu.

Ainda assim não passei uma tarde muito tranquila, e é claro que só muito mais tarde é que contei o episódio aos meus pais. Que por acaso não acharam tanta graça como o meu avô paterno, que “se pelava” pelos meus atrevimentos. Os que eu tinha realmente, e os que terceiros (normalmente alfarelenses meus “amigos”) inventavam.

 O "meu" pelotão. O Vítor Nogueira está identificado com o nº 7

De regresso ao quartel, o Vítor Nogueira ainda não tinha recuperado do susto. Como previsto, tinha havido o toque de chamada, e o pobre rapaz lá foi, com a morte na alma, e, como me contou, com as palmas das mãos suando abundantemente, apresentar-se como se fosse eu.


Também como era esperado, o oficial deu baixa na lista, e nem deve ter olhado bem para ele. Mas, mesmo que olhasse, não fazia a menor ideia de que estava a ser enrolado.


Imagem actual do Monumento, em frente à Câmara Municipal de Tavira, na Praça da República.Com as modernizações de que foi objecto, a praça tem, hoje,  um aspecto totalmente diferente

Decidi escrever esta “história” porque, faz hoje precisamente 50 anos, fui seleccionado para fazer parte de uma força que, junto ao monumento, e em comemoração da data em que formalmente terminaram as hostilidades – na 11ª hora, do 11º dia, do 11º mês do ano de 1918 - prestou honras militares aos que, durante a Guerra, cairam em defesa da Pátria.

No meu caso pessoal, evoquei também o meu avô, que tendo regressado vivo e são daquele conflito, era e continua sendo, um homem de quem sempre me orgulhei.

Quando foi a minha vez de regressar de outra guerra, foi a vez dele, à minha espera no Cais da Rocha, me abraçar dizendo-me do orgulho que sentia por me ter como neto.

Este texto é também para ele, que partiu para sempre em 1969, deixando-me a memória de um homem insubstituível e uma perene saudade.


(*) Esta espécie de “quarentena” foi imposta pouco depois do início do Curso, para evitar abusos, porque muitos instruendos declaravam-se doentes, apenas para irem à consulta, furtando-se assim aos duros exercícios matinais.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Manuel Gonçalves



Tem sido surpreendente, pelo menos para mim, que apesar da pouca, ou nenhuma, divulgação que faço deste blogue, apareça de vez em quando mais um camarada, de quem não tinha notícias desde o nosso desembarque em Lisboa, a contactar-me depois de o ler.

Hoje trago novas do 1º cabo desempanador Manuel Gonçalves, transcrevendo a mensagem de correio electrónico que me enviou, juntamente com duas fotografias, que vos vão ajudar a lembrarem-no, tal como aconteceu comigo.

" Boa tarde,


o meu nome é Manuel José Gonçalves Antunes Rato, antigo combatente da companhia 738, do batalhão de artilharia 741 (1º Cabo Desempanador - Gonçalves).

Na fotografia "Gabela - Olhó o Passarinho", sou o nº 34. Gostava de entrar em contacto com antigos camaradas, uma vez que desde que regressámos nunca mais estive com ninguém.

Junto aqui duas fotos minhas dessa altura, para melhor me identificarem. Recordo-me de muitos camaradas como o Cabo Mecânico "Zé Pipa" (natural de Benavente), o Alferes Fagundes, o Capitão Rubi Marques, o condutor "Lisboa", entre muitos outros.

Agradeço que me informem qual a data do próximo convívio anual, pois terei muito gosto em participar.”




Só não coloco o nº de telemóvel, porque não é aconselhável (nunca sabemos que vem aqui, nem com que intenções), mas disponibilizá-lo-ei a qualquer camarada que se mostre interessado.

Quanto ao próximo encontro, pode ficar descansado que o camarada Silva Pereira, incansável organizador dos nossos convívios, não deixará de contar com ele em 2014.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O Baterista



Quando escrevi sobre as peripécias da viagem do Vera Cruz a caminho de Luanda, referi que os nossos serões eram animados, alternadamente, com uma sessão de cinema, ou com a exibição de um conjunto musical, que então defini como fracote.

Constituído por meia dúzia de músicos mais habituados a tocar bailes de sociedades recreativas, eram entre nós alvo de comentários depreciativos, porventura injustos e de alguma arrogância, que apenas a verdura da juventude podia explicar, que não justificar.

Numa noite em que talvez já houvesse álcool a mais, um camarada de outro Batalhão “pediu” ao baterista para tocar um solo. O pobre homem, a quem estava ser pedido demasiado para as suas capacidades, foi-se escusando, com desculpas, cada uma menos convincente do que a anterior. Entretanto, ao peticionário inicial juntaram-se mais alguns, não já a pedir, mas a exigir o tal solo.

Muitos de nós perceberam que, a partir de certa altura, o baterista estava a sentir-se humilhado e confuso, e antes que as coisas dessem para o torto (mais do que já estavam a dar) resolvemos intervir, convencendo os mais exaltados a deixarem o homem em paz.

E, se não posso dizer que tudo acabou em bem, porque o ambiente ficou um pouco turvo no resto do serão, a verdade é que não voltaram a registar-se situações semelhantes.

Lembrei-me disto hoje, porque me mandaram o vídeo que podem ver abaixo.

Se a Companhia Colonial de Navegação, proprietária do navio, tivesse puxado pelos cordões à bolsa, e tivesse contratado um baterista como este, nem precisava dos outros músicos, e ainda poupava dinheiro.


O homem é um verdadeiro “entertainer”, que, sozinho, era capaz de animar os três mil passageiros daquela viagem.



domingo, 24 de março de 2013

Luís Ferreira de Matos


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Em frente à bananeira do "jardim" da nossa casa, em Lucunga
Da esq. para a dta.: Carlos Fonseca, Nunes da Silva e Luís de Matos

Confirmando o velho princípio de que “as conversas são como as cerejas”, durante o almoço na Quinta dos Loridos, veio à baila o nome do Luís de Matos, que foi, em circunstâncias especiais, furriel-miliciano da CArt 738.

Para minha surpresa, o Vítor Casimiro, que comandou o 3º pelotão, não fazia ideia de quem eu estava a falar.

É certo que entre os companheiros que são presença constante nos nossos encontros não há quem traga notícias do Luís, de quem nunca mais soube nada desde esse já longínquo 28 de Fevereiro de 1967, em que saímos de Luanda rumo a Lisboa (faltando-lhe ainda alguns meses para cumprir o tempo de comissão, não viajou connosco). Mas o motivo da minha surpresa radica no facto de o Luís de Matos ter sido comandante de uma secção do mesmo 3º pelotão que o Casimiro comandou.


Na varanda da nossa  casa. (Atrás, a janela do quarto que eu partilhava com o Nunes da Silva)

Da esq. para a dta.: Mourão, Luís de Matos, Miranda Dias, Nunes da Silva e Carlos Fonseca

É verdade que o Luís não fazia parte do pessoal da CArt 738 que embarcou no Vera Cruz em Janeiro de 1965, pois apenas foi mobilizado para a nossa Companhia alguns meses depois, para substituir um furriel que fora transferido para outra unidade. 

E também é verdade que ele era um moço discreto, que cumpria os serviços que lhe eram distribuídos, conscienciosamente, mas que fora do serviço era avesso a protagonismos, que dispensava. Não jogava às cartas, não ligava ao futebol, nem participava das nossas “maluquices”. E não era porque não o desafiássemos. Mas ele olhava-nos com um sorriso muito peculiar, e ficava na dele.

Sempre pensei que o seu comportamento era influenciado pelos anos em que foi seminarista, período que por certo lhe moldou o carácter.

Voltando ao princípio: surpreendido com a traição que a memória pregou ao Casimiro prometi que colocaria aqui uma fotografia do Luís, para lhe refrescar a memória. Dou-lhe outra, de brinde, e publico duas.

Mas o que constituiria a cereja em cima do bolo, era se o Luís de Matos, por um daqueles bambúrrios que às vezes acontecem, acabasse por ler isto e viesse dar um olá! à “rapaziada”.

terça-feira, 19 de março de 2013

Últimas fotos do Convívio na Quinta dos Loridos


Com a publicação destas fotografias, dou por terminada a minha “reportagem fotográfica” de mais um encontro dos antigos militares do Batalhão de Artilharia 741.

Porém, se algum dos presentes na confraternização da Quinta dos Loridos me enviar fotos, terei todo o gosto em colocá-las neste espaço. 


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Uma mesa onde pontificava o Catuna


Vista geral da sala


O coronel Rubi Marques à conversa com dois camaradas da CArt 738


De frente para a câmara, um grupo de camaradas da CArt 738, que nunca falha os nossos encontros


Mais um grupo da CArt 738



O Casimiro, a falar com o Amaro, o Fagundes (atento à conversa), o Duarte e a esposa



O casal Passarinho com a esposa do Duarte



A mesa do Silva Pereira, ao centro, de frente para a câmara





quinta-feira, 14 de março de 2013

Mais fotografias do convívio na Quinta dos Loridos


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O bolo 


O Carlos Cristóvão, da CCaç 715 (Missão do Bembe), que costuma comparecer nos nossos encontros,  não nos deu este ano esse prazer. Em consequência, não só nos privou das suas interessantes histórias, mas também das fotos que costumava enviar-me para colocar aqui. Não tendo outras colaborações, a “reportagem” vai, desta vez, ressentir-se da sua ausência.

Mas, para não perderem tudo, fica uma nota quase cómica, relembrada pelo nosso cabo-mecânico, a quem devemos o milagre de pôr em funcionamento as decrépitas viaturas que encontrámos em Lucunga quando chegámos, situação que já referi aqui.

Quando, pouco depois de chegarmos, o “Zé da Pipa” (não sei a origem do “nickname”, mas sei que a “pipa” não tinha a ver com excesso de bebida) foi mudar um dos jipes de lugar, pô-lo a trabalhar, mas quando quis meter a primeira velocidade, está quieto! Aquilo nem entrava, nem saía.

Saltou do volante, foi espreitar e, para seu grande espanto, viu que no lugar do veio de transmissão estava um pau.

No sábado rimos um bocado da habilidade dos camaradas que fomos render, mas nesse longínquo Janeiro de 1965, não houve risos. Era menos uma viatura operacional. Mas  acabou por não se perder tudo: aproveitaram-se algumas peças.


Um grupo da CArt 738, com o Torcato a contar mais uma história



Esta mesa estava desfalcada no momento da foto. À esquerda o Duarte, depois o Passarinho, com a esposa à sua direita. 


Outra mesa com camaradas da CArt 738



O reencontro entre o Sebastião Fagundes, comandante do 4º pelotão, e o coronel Rubi Marques. À espera, de vez, o Duarte



Um aspecto parcial da sala



Nesta mesa - que está na "zona" do pessoal da CArt 739 (à esquerda Silva Pereira, que é a alma destes encontros) - está um infiltrado da 738: à direita, com a mão no peito, o Augusto Fernandes




Camaradas da CArt 738, com familiares