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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

27º Convívio do BART 741


Assinalando o 46º aniversário do regresso de Angola, terá lugar na Quinta dos Loridos, localizada no Carvalhal, perto do Bombarral, em 9 de Março, próximo, o 27º convívio do Batalhão de Artilharia 741.

Apesar de se realizar na referida Quinta, o almoço será organizado pelo restaurante a Lareira, das Caldas da Rainha, que já conhecemos por lá termos realizado, com agrado geral, o convívio de 2007.



A realização do almoço na Quinta dos Loridos, possibilita a visita ao Buddha Eden Garden - Jardim da Paz, um espectacular jardim, de que podem ver algumas imagens neste vídeo

Mais uma vez ficamos a dever ao espírito solidário do nosso camarada Silva Pereira, da CArt 739, a realização de mais esta confraternização, tarefa que tem tomado nos ombros ao longo dos últimos 20 anos, honra lhe seja feita.

Faço votos para que neste reencontro se repita, pelo menos, o êxito que teve o de 2012, na Casa de S. Nuno, em Fátima.


P.S. - Aqui fica o “programa de festas”:


BART 741

ALMOÇO-CONVÍVIO

Caro amigo:

No próximo dia 9 de Março (Sábado), pelas 13 horas, realizar-se-á, como vem sendo habitual todos os anos, mais um almoço-convívio, desta vez o 27º., em comemoração do 46º. aniversário do regresso do BATALHÃO 741.

LOCAL :

BUDDHA EDEN - QUINTA DE LORIDOS

Carvalhal – 2540-480 BOMBARRAL – Telf.: 262605240
Organização do Restaurante A Lareira, das Caldas da Rainha



PROGRAMA:

ENTRADA (a partir das 12 horas):Pão Caseiro e Broa, Presunto Serrano cortado ao momento, Morcela de Arroz Assada, Chouriço Grelhado, Tirinhas, Mini-Rissóis de Camarão, Mini-Pasteis de Bacalhau, Mini-Croquetes de Carne, Vinho branco e tinto, Moscatel de Setúbal, Gin Tónico, Águas, Sumos, Cerveja.


ALMOÇO (cerca das 13 horas), Couvert: Pão, Manteiga e Azeitonas. Sopas: Sopa de Pedra à Ribatejana e Creme de Legumes à Francesa. Peixe: Bacalhau à Minhota com batata dourada, bróculos e cenouras. Carne: Perna de Porco Assada no Forno à Antiga, com arroz Primavera e pêssego recheado. Sobremesa: Pudim de Leite e Salada de Frutas. Bebidas: Vinho branco e tinto Bacalhôa-JP, Aguas, Sumos e Refrigerantes.


CORTE DO BOLO, na sequência do Almoço: Bolo Comemorativo e Espumante Loridos.


BAR ABERTO. MÚSICA AO VIVO. ENTRADA E VISITA DO JARDIM DO BUDDHA EDEN GARDEN


LANCHE (cerca das 17,30 horas): Pratos Quentes: Caldo Verde e Arroz de Peixe Rico, à Nazareno; Doces: Filhós quentes, Torta de laranja, Pão-de-Ló, Arroz doce, Pudim de Ovos, Doce de Bolacha com café.


Preço por Pessoa: Euros 25,00 (crianças até 3 anos não pagam; dos 4 aos 9 - Euros 12,50 )


MISSA:
Este ano, não será mandada rezar a habitual Missa, a menos que o nosso Capelão compareça à Confraternização. Não temos qualquer contacto no Bombarral que permita organizar esta iniciativa
.

MUITO IMPORTANTE:

PARA QUE TUDO CORRA PELO MELHOR, É PRECISO SABER-SE COM ANTECEDÊNCIA O

NÚMERO DE PRESENÇAS

UM SIMPLES TELEFONEMA, LOGO QUE POSSÍVEL, É QUANTO É PRECISO

NÃO MANDEM DINHEIRO



quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Já lá vão 48 anos







Pouco antes da largada

Completam-se hoje 48 anos sobre a data em que o Vera Cruz zarpou do Cais da Rocha Conde de Óbidos, com destino a Luanda, levando a bordo quase três mil militares, dos quais cerca de 800 constituíam o Batalhão de Artilharia 741, de que fazia parte a Companhia de Artilharia 738. A minha Companhia.

Desse dia já lembrei quase tudo no texto que há dois anos escrevi aqui, quando iniciei neste blogue o relato de alguns episódios que sobraram na minha memória, e que fazem parte da minha história pessoal, bem como da dos 163 homens que formavam a CArt 738.

Nessa manhã, depois do desfile, de embarcar, e de guardar as bagagens, muitos camaradas voltaram ao cais para as derradeiras despedidas. Também eu tinha a intenção de voltar a terra, mas depois de subir até à amurada e de contemplar o “mar” de lágrimas que inundava o cais, decidi poupar-me e já não voltei a desembarcar, limitando-me a acenar para os familiares e amigos.


O Vera Cruz inicia a viagem

Não me serviu de muito, porque quando soltaram as amarras do navio, e ele começou a afastar-se do cais, houve como que um fenómeno de emoção colectiva a que não escapei, e também as lágrimas, mansas, mas intensas, deslizaram pelas minhas faces.

E lá fomos, rio abaixo, mar fora, rumo a Luanda, onde aportaríamos 9 dias depois.

sábado, 22 de dezembro de 2012

"Adeus, até ao meu regresso"




Entre 1961 e 1974, nesta quadra, era habitual a RTP e a Emissora Nacional (E.N.) emitirem programas com mensagens de Natal dos militares mobilizados na Guiné, Angola, ou Moçambique.

Estas mensagens tinham como finalidade elevar a moral, quer dos que, por cá, sofriam pelos riscos que corriam os seus familiares, quer dos próprios combatentes.

Nas mensagens gravadas, com som e imagem na RTP, ou apenas com som na E.N., apesar dos ensaios prévios era habitual existir alguma atrapalhação, fruto do natural nervosismo de quem nunca se tinha visto naquelas andanças, sendo da praxe referir o bom estado de saúde do militar, os votos de Feliz Natal, o desejo de prosperidades para o ano que se aproximava, além de uma breve frase de despedida, antes de dar lugar ao próximo “cliente”.

Claro que as filmagens não fugiam a uma certa forma de encenação, pretendendo dar a entender que estavam a ser feitas de modo mais ou menos improvisado durante as operações militares. Num destes dois vídeos é particularmente desajeitada a forma como apresentam o espectáculo dos saltos da ponte para um curso de água, que acabam por se revestir de alguma comicidade, que não estava por certo nas intenções do “realizador”.

Na altura, alguma suposta elite nacional gracejava, de forma jocosa, com a frase que dá o título a este texto e que, algumas vezes – mas não tantas como se fazia crer, e os vídeos que aqui incluo provam-no – encerrava a mensagem.

Outra frase ridicularizada entre os “bem pensantes” da praça, mas que a realidade mostra que não era também tão frequente como se pretendia, era a que manifestava o desejo de que quem por cá tinha ficado tivesse um novo ano “cheio de propriedades”, em que se trocava “prosperidades” por “propriedades”. (*)

Com o tempo, estas duas frases passaram a fazer parte do anedotário nacional.


É certo que a emissão destes programas servia os interesses políticos do Governo do Estado Novo. Mas também não é menos verdade que os familiares dos “actores” ficavam agarrados ao écran da televisão, ou de ouvidos à escuta na E.N. à espera de ver e de ouvir filhos, maridos, pais, etc.

Numa época em que não se sonhava com a existência do Skype, ou do telefone-satélite (às vezes nem as comunicações entre as unidades, no terreno, funcionavam), e em que para fazer chamadas telefónicas de Luanda para Lisboa cheguei a esperar mais de duas horas na estação dos correios, a visão dos entes queridos na TV, ou a audição na E.N. era um bálsamo que aliviava a ansiedade e a aflição em que viviam por cá os familiares mais próximos de quem estava no mato. E estou certo de que o seu Natal era um pouco menos triste.

Salvo uma eventual falha de memória, não passou por Lucunga nenhuma destas equipas. É certo que durante a época em que as gravações eram feitas – muito antes do Natal – eu estive duas vezes ausente. Primeiro, no Hospital Militar, em Luanda, em tratamento a uma fractura num braço, durante seis semanas, entre Agosto e Setembro de 1965; e depois, um mês, entre Outubro e Novembro, em gozo de férias. Mas creio que se por lá tivesse andado alguma equipa a gravar, algum dos meus camaradas me teria falado disso mais tarde.


(*) (Não devemos esquecer-nos de que naquele tempo pelo menos 20% dos soldados eram analfabetos. Numa recruta que dei na Serra da Carregueira, ao preencher as fichas na recepção dos recrutas da minha Companhia verifiquei, com grande surpresa, que a percentagem de analfabetos era superior a 25%. Era esta a realidade, embora legalmente a frequência da escola primária fosse obrigatória.)

P.S. - Pese embora estarmos a viver um clima mais de depressão do que de festa, não quero deixar de desejar a todos os que visitam este blogue, um Natal Feliz.

Quanto ao ano de 2013, espero que o consigamos atravessar sem naufragarmos.





terça-feira, 18 de setembro de 2012

Tragicomédia na Aricanga



Aviso à navegação: Este texto contém expressões que podem ofender algum leitor mais sensível ao vernáculo em que a Língua Portuguesa é rica. Se esse é o seu caso, peço-lhe que termine aqui a sua visita a esta página.

Embora me pareça pouco provável que os três intervenientes no episódio que me proponho narrar venham a ter conhecimento da existência deste blogue (na realidade nem sequer sei se ainda pertencem ao mundo dos vivos), resolvi recriar os seus nomes.

Depois da chegada ao quartel da Gabela, uma boa parte do pessoal foi, pouco a pouco, criando novas amizades com a população local, procurando, preferencialmente, estabelecer um relacionamento mais próximo com residentes do sexo oposto. Não é impunemente que se tem pouco mais de 20 anos, e muito sangue na guelra.


Jardim da Gabela que não existia quando a CArt 738 lá esteve aquartelada. Foi construído em 1969 ou 1970. Ao fundo os célebres morros da Gabela

Ora, nessa busca de aproximação, o nosso camarada “Raimundo”, resolveu um dia fazer uma incursão pelo bairro da Aricanga. Este bairro, situado à saida da cidade, em direcção à Quibala, era um exemplo de harmoniosa convivência inter-racial. Lá residiam negros, embora em minoria, brancos e mulatos. Mas, a referência maior eram as suas mulatas, famosas em toda a região, pela sua beleza.

Quis o acaso que o Raimundo durante a sua deambulação pelo bairro, tivesse conhecido a “Inácia”, uma dessas formosas mulatas. Conversa vai, conversa vem, o Raimundo ficou a saber que a Inácia vivia de casa e pucarinho com o “Luciano” que, sendo camionista de profissão, se ausentava por períodos mais ou menos longos.

Sensível como era, os bons sentimentos do Raimundo levaram-no a oferecer-se, solidariamente, para minorar a solidão da Inácia, fazendo-lhe companhia nos longos serões em que ela ficava sozinha.

Nessas ocasiões, o Raimundo não nos acompanhava, quer nas sessões de cinema, quer nas outras distracções, que, em qualquer dos casos, costumavam terminar no bar Tropical, à volta de umas Cucas, Nocais e de uns petiscos para fazer boca.  Depois de cumprida a sua humanitária missão, o Raimundo vinha ter connosco para apanhar boleia para o quartel.

Com o passar do tempo, o Raimundo passou, com frequência, a fazer companhia à bela mulata até ao inicio do dia, altura em que voltava ao quartel, a pé, atalhando caminho pela sanzala Sétima.

Mas como não há bem que sempre dure, uma noite, finda a sessão de cinema, ficámos espantados quando, à saída, encontrámos o Raimundo à porta, com cara de caso.

Não tardou a contar-nos o que se tinha passado. Algumas vozes malévolas acabaram por soprar aos ouvidos do Luciano o que se passava na sua ausência e, nesse dia, o Luciano despediu-se da Inácia, para, supostamente, iniciar mais uma viagem. Só que a viagem foi mais curta.


Outra imagem da Gabela com os morros em fundo

E, descalços até ao pescoço, o Raimundo e a Inácia foram surprendidos por violentos murros na porta, enquanto ouviam o Luciano aos berros : “Abre a porta, minha puta de merda! Sei bem que estás com um cabrão aí dentro! Vou dar-vos cabo do coirão! Se não abres, arrombo-a com o camião!”

Sem grande alternativa, o Raimundo, que entretanto se tinha vestido, pegou na pistola Walther, que habitualmente nos acompanhava em situações que pudessem envolver algum risco, e foi ele abrir a porta de pistola em punho.

Aberta a porta, o Luciano olhou para o Raimundo, para a pistola, e estendeu a mão, dizendo: “Ah! É o meu furriel? Como está o senhor? Peço desculpa pelo que lhe chamei. O senhor não tem culpa nenhuma que eu tenha escolhido uma puta para viver comigo. É homem, e um homem não desperdiça as oportunidades que lhe aparecem! Mas esta vaca vai ter que ajustar contas comigo!”

Não ajustou, porque o Raimundo depois de ter procurado acalmá-lo – e uma pistola de guerra pode ser uma óptima forma de dissuasão - antes de se vir embora, foi levar a Inácia a casa de uma irmã que residia nas proximidades, sem deixar que o Luciano pusesse as contas em dia.

E, passadas umas semanas, tudo viria a acabar bem. Como, de resto, acontecia de vez em quando por lá (talvez eu venha a contar outro episódio com algumas semelhanças com este, confirmando que, basicamente, o povo era sereno), o Luciano relevou o passo em falso da Inácia e voltaram a viver juntos.

O Raimundo é que nunca mais se aproximou da Aricanga.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

As Sessões Fotográficas


Como já devem ter notado os meus amigos que por aqui vão passando, este blogue encontra-se em regime de serviços mínimos.

Por um lado, porque tenho andado ocupado com outras escritas, por outro, porque tendo optado por contar apenas episódios menos “pesados” da comissão da CArt 738 por terras angolanas, os temas começam a minguar. Se conseguir encontrar o ponto de equilíbrio mais ajustado, escreverei mais duas ou três histórias que tenho em agenda.

Por hoje, vou falar das nossas sessões fotográficas. Em maior ou menor dose – dependendo da disponibilidade financeira de cada um, que as fotos eram carotas, bem como da boa vontade dos proprietários das Kodak (que por acaso eram maioritariamente Canon's, compradas a bordo do Vera Cruz) – ninguém escapava à pose, para mandar para as namoradas, esposas, pais, mães, madrinhas de guerra, etc. etc.

(Clicar nas fotos para aumentar)



Nesta foto, estou no meio do capim, mas na vizinhança do quartel, de espingarda FN em posição de disparo, embora só se veja a ponta do cano, simulando uma situação de combate.

Esta era uma pose clássica, a que quase ninguém escapava.

As fotos dos oficiais da minha Companhia (que embora em situações diferentes também não escaparam às sessões fotográficas) que vão ver a seguir, foram roubadas ao Veterano.




Nem o nosso comandante de Companhia, capitão Rubi Marques, se furtou à pose, junto ao ribeiro que abastecia de água o quartel de Lucunga.

Quando vi esta imagem fiquei surpreendido, por duas razões. Em primeiro lugar porque nunca pensei que ele, militar calejado, também fosse adepto deste tipo de fotos. Depois, porque, não só nunca imaginei vê-lo com uma FN a substituir a pistola Walter, que normalmente usava à cintura, mas também pela posição da FN ao ombro, isto é, “à cowboy”, o que não fazia nada o seu género.

Sem desprimor para nenhum dos comandantes que tive durante a minha carreira (relativamente longa, para um miliciano), pela maioria dos quais nutro grande respeito, o capitão Rubi Marques foi a grande referência da minha vida militar. Um exemplo e uma inspiração, não só para mim, como para a maioria dos meus camaradas. Isso é claramente visível no misto de respeito, carinho e afecto de que se vê rodeado nos nossos convívios anuais, a que só falta por motivos de força maior.



Aqui, o alferes Pereira, comandante do 1º pelotão - que foi o meu durante quase toda a comissão - e que estava de oficial de dia ao quartel, como comprova a braçadeira (vermelha (*), embora aqui não se note) no braço esquerdo.



 


O alferes Morgado, comandante do 2º pelotão, era locutor na Rádio Ribatejo antes de ir para a tropa. Quando havia espectáculos com os artistas que se deslocavam a Angola, e que incluíam a Gabela nos seus roteiros, era sempre ele quem fazia a apresentação em palco.

Foi meu comandante de pelotão, na Gabela, entre Dezembro de 1966 e Fevereiro de 1967.



Alferes Casimiro, comandante do 3º pelotão. Este pelotão depois da transferência para o Quanza-Sul, andou com a “trouxa às costas” de um lado para o outro. Começou por ficar aquartelado na Gabela, mas passado algum tempo foi enviado para Vila Nova de Seles, se bem me lembro para substituir um pelotão da CCS do Batalhão. Mais tarde, em consequência da transferência da CArt 739 para a Região Leste, o pelotão seria colocado no Calulo, onde ficaria até ao fim da comissão.

O alferes Casimiro era (e, tanto quanto sei, continua a ser) um notável intérprete do Fado de Coimbra.



Alferes Fagundes, comandante do 4º pelotão.

Na província do Quanza-Sul, este pelotão foi colocado em Porto Amboim, onde ficou até ao fim da comissão. De trato fácil, foi no quartel desta localidade, onde estive deslocado durante cerca de um mês, por troca com o Miranda Dias, que mais convivi com ele. Curiosamente ele não tem a menor recordação dessa minha estadia. Partidas que a memória nos prega.


Alferes-médico Salazar Leite


(*) Rectificado depois da oportuna chamada de atenção do camarada Silva Pereira, alferes-miliciano da CArt 739

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A Tosca




A Tosca

Quando chegámos ao quartel da Sétima, na Gabela, tínhamos à nossa espera, além dos camaradas que íamos render, uma cadelinha ainda jovem, que foi de imediato alistada na Messe dos Sargentos.

Não me recordo se já tinha sido “baptizada”, mas se tinha, foi “crismada” e ficou com outro nome: Tosca.

O nome que lhe foi dado parece estranho, para um animal tão dócil, lindo e perfeito.

Acontece que, por razões que desconheço (se alguma vez as soube, esqueci-me), o Mourão e o Miranda Dias quando chegaram de Tancos, onde fizeram o curso de Minas e Armadilhas, vinham com a mania de chamar “tosca” ou “tosco” a tudo e mais alguma coisa, incluindo um ao outro e às próprias namoradas (com quem viriam a casar – espero que não sejam minhas leitoras).

E com o”tosco para cá, tosca para lá”, foram contagiando os camaradas, que começaram a alinhar na brincadeira.

Explicada a origem do nome, passo a contar o disparate que se meteu na cabeça de alguns, com a conivência ou a indiferença dos outros, que não isenta a responsabilidade de nenhum.

A partir de certa altura, alguém lançou a ideia de que o cruzamento entre a Tosca – uma pequena cadela de raça indefinida – e o Lucunga, o cão pastor alemão do alferes Morgado. (*) 


Sanzala Sétima, que acabaria por dar o nome ao quartel, que se encontra ao fundo, quase invsível

(Foto do gabelense Óscar)

E, apesar da dificuldade em conseguir conciliar as diferenças de tamanho entre os dois animais, sendo que a pobre Tosca parecia uma anã junto ao Lucunga, a verdade é que dois ou três dos nossos camaradas conseguiram levar avante os seus intentos.

O que ninguém conseguiu prever (o mais certo foi nem se ter pensado nisso) foram as consequências de um cruzamento entre dois animais de tão dispar corpulência. A Tosca acabaria por parir dois lindos e enormes cachorros, mas morreu de parto, para grande tristeza de todos, e profundo arrependimento de alguns.

Os cachorros cresceram e, pelo menos um deles viajou connosco no regresso a Lisboa, adoptado pelo Mourão. Não me recordo qual foi o destino do outro cachorro (penso que ficou com os camaradas da Companhia que nos rendeu), porque quando a CArt 738 saiu da Gabela, eu já estava em Luanda, no Hospital Militar, quase há um mês.

Nunca mais me esqueci da Tosca, nem do disparate que lhe causou a morte.

(*) O Lucunga era filho da Swazee e do Taninga, pastores alemães altamente adestrados pelo seu dono, o capitão Rubi Marques.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

José Fernando da Silva Pereira Vaz




O Vaz e a esposa no último encontro em que esteve presente, em Couto de Esteves - Março de 2010

Faz hoje um ano que morreu o Vaz. E há um ano que planeio escrever um texto em que fale da nossa amizade, que começou quando ele chegou ao RAL 1, para ser incorporado no BArt 741, passando a fazer parte da minha Companhia – a CArt 738 – com o posto de furriel-miliciano, tendo a especialidade de vagomestre.

Há um ano que venho adiando esse momento, porque continua a custar-me a acreditar que ele nos deixou tão prematuramente.

Decidi que, bem ou mal, chegou o dia de o fazer.

Está enraizado nos nossos costumes o hábito de tornar toda a gente “santa” depois de morrer. Não é isso que pretendo fazer neste post, nem, estou certo, o Vaz gostaria que eu o fizesse.

Era um homem com qualidades e defeitos, como todos nós. Acontece que, apesar da sua juventude, não foi difícil perceber que tinha mais qualidades e menos defeitos do que a maioria dos seus camaradas, onde naturalmente me incluo. A começar por uma maturidade e bom senso, raros para a sua idade, que lhe possibilitavam exercer, com êxito, o papel de moderador, em situações de conflito, que se geram facilmente em ambientes “fechados”, como aquele em que vivíamos no Norte de Angola.


Momentos de boa disposição em Lucunga 
Da esq. para a dta.: O autor do blogue, Vaz e Miranda Dias

Outro aspecto em que fomos afortunados com a sua inclusão na nossa Companhia, teve a ver com a forma como ele, enquanto responsável pela alimentação do pessoal, desempenhou essa função.

Todos os militares que, durante esses anos em que quase não houve nenhum português jovem que não tivesse passado por África, em cumprimento de comissões de serviço militar, ouviram, ou sentiram na pele – e sobretudo no estômago – histórias de mau passadio, porque alguns (demasiados) vagomestres criavam esquemas para aumentar o seu pecúlio pessoal, em detrimento da qualidade e quantidade da alimentação fornecida.

Dizia-se à boca pequena que, nesses esquemas, tinham cumplicidades de outros responsáveis com quem dividiam os lucros indevidos.

Na CArt 738, excluindo a frequência com que o arroz entrava nas ementas, cuja responsabilidade cabia aos fornecimentos da Manutenção Militar, a satisfação com a alimentação era geral. Todos os que lá estiveram se recordam com certeza, de que, a partir de certa altura, quando todos estávamos fartos das detestáveis rações de combate que levávamos quando íamos para o mato, o Vaz providenciou a confecção de refeições alternativas, que podiam não ter os requisitos calóricos e vitamínicos das rações, mas que todos nós preferíamos.


Gabela, no jardim da piscina
Da esq. para a dta.: Rodrigues, Vaz e o autor do blogue

Alimentar todos os dias 163 pessoas não era uma tarefa fácil. Sei-o por experiência própria.

Quando, em 1966, já na Gabela, o Vaz veio de férias, pediu-me que o ficasse a substituir. Confesso que tentei esquivar-me, argumentando que não tinha a menor ideia do complexo funcionamento da “coisa”, e que, por certo, havia camaradas mais talhados para a função. Desde logo o 2º sargento Ferreira da Silva, que, sendo do quadro, conhecia, praticamente, todos os meandros do funcionamento do quartel; ou mesmo o Rodrigues, que sendo embora miliciano como eu, tinha já duas comissões e maior experiência.

Insistiu, evocou a nossa amizade, e acabei por aceitar.

Durante as duas semanas que antecederam a sua partida, fui a sombra do mestre em que ele se tornou, a procurar adquirir o máximo de experiência, de forma a poder levar a barca a bom porto. Teve uma paciência incrível, a esclarecer todas as minhas dúvidas, e quase conseguiu dar-me uma equivalência à sua especialidade.

Confesso, porém, que além de tudo o que ele me ensinou, foi muito importante para o modo como consegui manter a normalidade possível na cozinha e no refeitório, a colaboração do 1º cabo cozinheiro, de cujo nome, infelizmente, não me recordo.

Quando, em consequência do acidente a que já me referi em posts anteriores, fui evacuado para o hospital em Luanda, sem ter regressado à Gabela, foi o Vaz que se encarregou de recuperar e de providenciar o transporte de todos os meus haveres que lá tinham ficado.

Depois de regressarmos, finda a comissão, estive cerca de 20 anos sem estabelecer qualquer contacto com ele. Aliás, o mesmo viria a acontecer com a generalidade dos outros camaradas. As excepções contam-se pelos dedos das mãos, e talvez ainda sobre algum, e constituíram sempre encontros ocasionais, sem continuação.

Quando se iniciaram os convívios do Batalhão, ainda na década de 1980, retomei os contactos com muitos dos antigos camaradas. Mas com o Vaz, que até ao ano passado nunca tinha falhado um encontro, que me lembre, os contactos passaram a ser mais frequentes. Além das conversas telefónicas que mantínhamos de forma mais assídua, fui fidalgamente recebido na sua casa, em Guimarães, tendo-o também recebido na minha casa, em Lisboa.

Só nunca se concretizou a sua, repetidamente prometida, visita à minha casa no Algarve.

Só eu sei quanto o lamento!