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quinta-feira, 10 de maio de 2012

No pinhal do Tojalinho



Em 1964 não havia construções tão próximas do pinhal, nem estradas a atravessá-lo

(Foto do Google Earth)

A maior parte dos exercícios de campo que fomos realizando durante os meses de Outubro e Novembro de 1964, teve lugar pelos campos e montes do concelho de Loures (durante os quais descobri, entre outras coisas, que Carcavelos não era apenas uma praia do concelho de Cascais. Havia também – e ainda há – uma pequena povoação com o mesmo nome, próximo de Lousa, onde na altura se comiam excelentes queijos frescos).

As semanas de campo da Instrução de Aperfeiçoamento Operacional – penso que era assim que se chamava – tiveram como base um pinhal, situado nas imediações da aldeia do Tojalinho, onde montámos as nossas tendas durante cerca de três semanas, no início de Dezembro. A distância entre o RAL 1, na Encarnação, e o pinhal, foi percorrida “pedibus calcandibus”, isto é, a pé.

Dali saíamos, calcorreando montes e vales, para treinar os diversos exercícios, tentando antecipar, de modo tão aproximado quanto possível, as operações que, julgávamos nós, nos esperavam em Angola, durante todo o dia e algumas vezes à noite.



Encontrei esta foto por puro acaso, quando procurava imagens para este post. Lembrei-me de imediato da tarde em que o meu pelotão aqui parou para matarmos a sede, tendo o pessoal ficado um bocado a descansar na relva. A estrada não era asfaltada, nessa época, nem o lavadouro estava tão cuidado.

(Foto de Carlos Varelas)

Aqueles dias serviram sobretudo para reforçar a nossa identificação com as situações de desconforto e de penosidade que caracterizariam a nossa missão em Angola. Cada uma das pequenas tendas servia de alojamento a três militares, a alimentação era confeccionada em cozinhas de campanha, e cada um comia onde calhava, depois de, em fila, recolher o “petisco”.

Quanto à higiene pessoal, fazíamos o que podíamos com a água de um tanque existente num terreno contíguo, que naquela época do ano estava "gelada". Uma imagem que guardo dessa altura, é a do nosso comandante de Companhia, capitão Rubi Marques, sob o frio intenso das primeiras horas da manhã, de tronco nu, a lavar-se e a barbear-se, pouco faltando para tomar um banho completo. Só de ver, dava arrepios. Era com gestos como esse, que foi, ao longo do tempo, conquistando o respeito e a admiração dos homens que comandava.


Era num restaurante deste largo de Pinheiro de Loures que jantávamos, às vezes.

(Foto do Google Earth)

A zona do pinhal que ocupávamos funcionava como um quartel, com os serviços habituais, de oficial e sargento de dia, bem como o serviço de guarda, com sentinelas devidamente distribuídas.

Embora não fosse permitida a saída do local, a não ser em serviço, um pequeno grupo, de que faziam parte, pelo menos, o Vaz, o Morais Soares, o Miranda Dias, o Mourão, eu próprio, e um cabo-miliciano enfermeiro, de cujo nome não me lembro, e que acabaria por ser substituído, antes do embarque, pelo Augusto Fernandes (com clara vantagem para a nossa saúde, embora tivéssemos perdido um compincha sempre disponível para as farras), resolveu criar um esquema de exercícios adicionais, que consistia no “desenfianço” diário (excepto em dias de “trabalho” nocturno), para jantar em restaurantes, ou tascas, de povoações próximas. O mais frequentado situava-se em Pinheiro de Loures, mas também íamos a Guerreiros e a Botica matar a fome.


Guerreiros

(Foto do Google Earth)

No percurso para Pinheiro de Loures, tínhamos uma paragem “obrigatória” na única taberna da aldeia do Tojalinho, onde começávamos a fazer boca com queijinhos frescos e um copo de vinho da pipa. Este caminho era também a rota das viaturas do Batalhão, pelo que seguíamos sempre com atenção redobrada, escondendo-nos de cada vez que, ao longe, avistávamos faróis, que se fossem de viaturas militares, traziam com certeza oficiais a bordo.

Numa parte em que estrada era ladeada por campos – o aumento desenfreado da construção ainda vinha longe – saltávamos a vegetação e escondiamo-nos, mesmo sabendo que a maior parte das viaturas eram civis. Felizmente, nessa época, não havia muita gente com automóvel, e numa região pobre como era o caso, ainda menos, pelo que eram raros os carros com que nos cruzávamos.

Em Pinheiro de Loures jantávamos num pequeno restaurante no largo principal, e depois, com todo o desplante, pois andávamos fardados com o camuflado, que podia ser tudo, menos discreto, ainda íamos a um café situado no mesmo largo, onde jogávamos bilhar, antes de regressarmos, já a noite ia adiantada.

Mas desplante ainda maior foi termos ido aos bailes da Sociedade Filarmónica local, em dois domingos seguidos, onde alguns de nós deram animadamente ao pé pela noite dentro (nem as botas atrapalhavam).



Botica

(Foto do Google Earth)

Guerreiros e Botica ficavam mais próximo do pinhal e, neste caso, o caminho fazia-se a corta-mato através dos campos, o que às vezes dava origem a percalços, um dos quais foi recordado pelo Morais Soares, numa conversa recente. Caminhávamos numa noite sem luar, de regresso às tendas, quando o ouvimos soltar uma imprecação irreproduzível aqui: tinha metido a bota num excremento de boi. Claro que tudo acabou numa risota pegada.

Conseguimos, assim, amenizar aquelas três semanas, que pareciam nunca mais acabar, sem termos sido apanhados (embora eu continue a pensar que um ou outro dos comandantes de pelotão sabia da marosca).

Terminados os exercícios, foi altura de o pessoal deitar pés ao caminho, tendo como destino o Campo de Tiro da Serra da Carregueira, para fazer exercícios de tiro.

Valendo-me do facto de, supostamente, conhecer bem a zona – antes da formação do Batalhão estivera dois meses a dar uma recruta naquele quartel – ofereci-me para ir no camião da frente (que serviria de guia à coluna), orientando o condutor que desconhecia por completo aqueles caminhos, oferta que foi aceite. E, desta vez, escapei à caminhada. Felizmente as estradas estavam devidamente sinalizadas, pelo que a minha missão foi coroada de êxito. E ninguém descobriu que eu nunca tinha passado pela maior parte daqueles caminhos.

No regresso ao RAL 1, por Belas, Queluz, Amadora e Benfica, não havia necessidade de guia, pelo que voltei a palmilhar todo o percurso. Era uma boa forma de manter a linha.

Dois ou três dias antes do Natal entrámos em gozo de licença de embarque, até ao princípio de 1965.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Mais fotografias angolanas



(Clique nas fotografias para aumentar)

Não tenho dados que me permitam informar se esta fotografia, tirada a bordo do Vera Cruz, foi feita na viagem de ida para Angola, ou se já vínhamos de regresso. Mas, pelo ar de maçaricos, quer do Augusto Fernandes – o nosso furriel-miliciano enfermeiro, e um verdadeiro anjo da guarda do nosso bem-estar – quer do furriel-miliciano de transmissões, Morais Soares, presumo que íamos a caminho de um mundo desconhecido.




Deste grupo, amesendado à espera do petisco, apenas reconheço três comensais, embora não me lembre do nome de um deles. Os outros dois não pertenciam à CArt 738 (nem provavelmente ao Bart 741).

Da esquerda para a direita podemos ver o 1º cabo-clarim José Alves, (?), o Morais Soares, (?) e (?).




Junto a um rio de caudal turbulento posam, aparentemente distraídos, o Morais Soares, o primeiro-sargento Joaquim Ramalho (o Maravilhas) e o furriel-miliciano vagomestre José Vaz.



Na varanda da moradia Flórida (onde tinham os seus luxuosos aposentos), relaxando das agruras da comissão de serviço, o Morais Soares sorri para a câmara, o 2º sargento Ruas, parece implorar o favor dos deuses (o rádio em cima da mesa faz-me suspeitar que devia ser domingo e estavam a ouvir um relato de futebol. Provavelmente o Sporting – salvo erro, o clube do Ruas – teria sofrido ou falhado um golo), o furriel-miliciano Abreu, de boina à “malandro” (talvez para impressionar alguma madrinha de guerra) faz um ar sério e compenetrado, enquanto o furriel-miliciano José Rodrigues (o mais experiente de todos, pois já ia na segunda comissão) olha de lado com ar desconfiado. Que estaria ele a ver?




Da esquerda para a direita: dois rostos de que me lembro bem, o que já não acontece com os nomes; a seguir, o Morais Soares, o José Vaz e o José Rodrigues; sentado no banco do Unimog, o Verdasca, com cara de poucos amigos, o que configura uma situação excepcional, porque ele era um tipo bem disposto, e de sorriso (quase) permanente.

P.S- . Estas fotografias foram-me enviadas pelo Morais Soares, a quem agradeço.




terça-feira, 24 de abril de 2012

Carlos Rios


Na impossibilidade de conseguir um vídeo da cerimónia de 1968, escolhi um do ano anterior

No rascunho do post que intitulei “O Acidente (Conclusão)”, incluí dois parágrafos, em que me referia a um camarada em recuperação no Anexo do Hospital Militar, que me tinha impressionado particularmente, quer pelos motivos que o “atiraram” para ali, quer pela forma positiva e bem humorada como parecia superar um “calvário” que provocaria em muitos outros uma profunda depressão.

Depois de reler o que tinha escrito, concluí que o texto estava demasiado extenso (li, algures, que há estudos que concluem que a maioria dos que visitam blogues, gostam de textos curtos), pelo que resolvi retirar os parágrafos relativos ao Carlos Rios, sem, todavia, desistir de voltar ao tema.

É o que faço hoje, regressando ao assunto de forma um pouco mais exaustiva, relativamente, ao que tinha escrito então.

No post acima mencionado referi, de modo genérico, as mazelas de que todos sofriam, embora em diferentes graus. Ninguém se queixava muito, nem, talvez por uma peculiar forma de defesa, era hábito falar, e muito menos aprofundar, as circunstâncias em que cada um tinha ganho as suas “feridas”, algumas para o resto da vida.

Do Rios, soube, quando cheguei ao Anexo de Campolide, em Março de 1967, que tinha ficado gravemente ferido em combate, na Guiné, mas sem quaisquer pormenores adicionais. Era mais um, e, apesar das notórias dificuldades físicas – andava com o auxílio de canadianas e não conseguia dobrar a cintura, pelo que se, por exemplo, se desatasse um atacador dos sapatos, precisava de ajuda – não me parecia um caso tão grave como os de muitos outros internados.

Em 1968, já eu tinha passado à disponibilidade há alguns meses, estando a assistir à transmissão das cerimónias do 10 de Junho, na Praça do Comércio, ouço, com surpresa, o locutor anunciar que o furriel-miliciano Carlos Luís Martins Rios ia ser condecorado com a Cruz de Guerra de 1ª classe, por feitos heróicos em combate. E lá estava ele, a receber a condecoração.

Parecia-me inacreditável, que, estando durante quase um ano todos os dias juntos, saindo do Anexo de Campolide às 14 horas, e continuando o grupo de que ambos fazíamos parte a conviver durante a tarde, ora nas sessões cinematográficas, ora no salão de bilhar do antigo Café Martinho, ele não nos tivesse dito uma palavra sobre a condecoração.

No dia seguinte liguei para o Anexo tentando falar com ele, mas não o apanhei. Porém, um dos camaradas contou-me a saga do Rios, que vim a confirmar mais tarde, com outro companheiro desses tempos.

No decorrer de uma patrulha, ao aproximarem-se de uma tabanca, o Rios avistou um elemento em fuga, pelo que, sem sequer pensar, correu em sua perseguição, não contando com uma emboscada ardilosamente montada pelas forças inimigas, que, disparando diversas rajadas, o atingiram, provocando-lhe uma perfuração no ventre, e destruindo-lhe alguns ossos da bacia.

Ferido com gravidade foi transportado num helicóptero para o Hospital em Bissau, onde, apesar de um diagnóstico pessimista, foi possível estabilizá-lo, e recuperá-lo de forma a permitir a sua evacuação para Lisboa.

Tendo resolvido escrever um texto mais elaborado, fiz algumas pesquisas sobre o Rios. Fiquei a saber que em virtude das muitas intervenções cirúrgicas a que foi submetido, continuou no Anexo de Campolide, e mais tarde no Depósito de Indisponíveis, no Largo da Graça – às vezes em condições humilhantes, segundo ele próprio diz – até 1972.

E, hoje, em vez do jovem, aparentemente bem disposto e sempre com uma oportuna piada na ponta da língua, capaz de pôr uma plateia a rir, com um comentário a uma cena de um qualquer filme, sei de um homem aparentemente amargurado, “surdo e coxo”, como ele próprio se classifica num comentário que fez, neste blogue.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fotos do Mário Abreu


O furriel-miliciano Mário Abreu, que me enviou as fotos que podem ver mais abaixo, além de ter a especialidade de atirador, fez, no quartel de Lamego, o Curso de Operações Especiais. Os camaradas que completavam este curso – cuja dureza levava muitos dos convocados para as provas de selecção a fazer “ronha” (falo por experiência própria) – eram habitualmente chamados “rangers”, porque a instrução naquele quartel era baseada na dos militares americanos pertencentes a uma unidade especializada, que tinha aquela denominação.

O Abreu comandava uma secção do 3º pelotão (em zona de conflito, como era o caso de Lucunga, os pelotões adoptavam a designação de “grupos de combate”).


(Clique nas fotos para aumentar)

Nesta fotografia, embora a maior parte dos rostos me seja familiar, apenas consigo identificar dois: o Abreu, que tem o braço apoiado no ombro do Eusébio, que é o único com uma camisa de caqui.

O Eusébio era um transmontano que chegou ao RAL 1, onde se formou o Batalhão de Artilharia 741, com fama de ser um valentão com mau feitio, fama que acabou por criar alguns mitos.

Ainda no último convívio, em Fátima, um dos camaradas dizia numa roda onde eu estava : “lembram-se do Eusébio, do 3º pelotão, ter andado à pancada com o capitão Rubi Marques?”

Avivei-lhe a memória, lembrando que ninguém andara à pancada com o capitão Rubi Marques, recordando, como faço agora, o episódio a que se referia.

Logo nos primeiros dias de instrução operacional, durante uma acção num terreno lavrado, próximo do quartel, foi dada ordem para rastejar num determinado percurso.

O Eusébio, que era de facto um bocado fanfarrão e conflituoso, recalcitrou, afirmando que naquele terreno quem não rastejava era ele. Devia vir mal habituado da recruta, feita em Aveiro.

O capitão Rubi Marques, que o tinha ouvido, aproximou-se e, depois de lhe massajar o rosto de forma muito persuasiva, fê-lo compreender, ao que parece definitivamente, que na CArt 738 não havia lugar para tropa fandanga, pelo que, dada uma ordem, não havia margem para discussão.

E o incidente ficou por ali, com o Eusébio a rastejar como os outros.



Na falta de uma ponte, que viria a ser construida no início da década de 1970, atravessávamos o rio Coji nesta jangada.

Além do condutor do Unimog, que me parece ser o Francisco Tavares, mais conhecido por Marova, só me lembro do nome do Abreu, que se encontra de pé, com um rádio portátil na mão.



Um outro aspecto da travessia do rio, aqui com um ângulo mais aberto. À esquerda, dois camaradas dão à manivela que vai enrolando o cabo que, fixo nas margens, movimenta a jangada.



Na Ilha de Luanda, em Fevereiro de 1966, durante o fim-de-semana em que lá ficámos, em trânsito do Norte de Angola para o Quanza-Sul. Também aqui não me lembro do nome do furriel-miliciano da CArt 740, que está à esquerda. Eu estou ao centro, e à direita está o Mário Abreu.



No ribeiro onde enchiamos os tambores para abastecimento de água ao quartel, em Lucunga, aproveitávamos para nos refrescarmos.

A partir da esquerda: o Miranda Dias, o Morais Soares, o Mário Abreu e o António Sousa.




Passeando na picada junto ao quartel em Lucunga, o Vaz, o Mourão (de cachimbo, que estava na moda, em Lucunga. Eu ainda tenho o meu, embora não fume há mais de 30 anos), o Sousa, o Miranda e o Abreu.

As camisolas da farda que o Mourão e o Miranda tinham vestidas são sinal de que devíamos estar na época do cacimbo.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Era uma vez um barril de marufo



Mapa do Quanza-Sul - O círculo localiza o Assango

Embora não me recorde da data exacta do episódio que vou contar, sei que teve lugar em Outubro de 1966, porque pouco depois, em Novembro, entrei de férias.

Num fim de tarde, pouco antes de sair do quartel, fui chamado à sala do comando, onde o capitão Soares de Carvalho se encontrava a conversar com o chefe da polícia.

Dado que na véspera, depois do cinema, e de termos ido aconchegar o estômago no Bar Tropical, um pequeno grupo de furriéis de que eu fazia parte, resolveu animar o serão “cantando” de forma desvirtuada uma conhecida canção de Roberto Carlos, supus que alguém se tivesse queixado.

A canção original tinha o seguinte refrão: “Só quero que você / me aqueça neste Inverno / e que tudo mais / vá p'ró Inferno”. A nossa versão era ligeiramente diferente: “Só quero que você / me ofereça um agasalho / e que tudo o mais / vá para o Inferno”. Claro que embora a nossa versão não rimasse, quem ouvia ficava à espera de outra coisa (que era o que nós pretendiamos).

Mas a razão da visita do polícia era outra.

Um militar do recrutamento local, a prestar serviço em Nova Lisboa, mas que estava de férias numa pequena localidade perto da Gabela (não tenho a certeza, mas penso que era o Assango), bebera demasiado marufo na véspera, e a bebedeira dera-lhe para fazer desacatos, ameaçando os brancos ali residentes, que na sua maioria viviam da exploração de pequenos estabelecimentos comerciais (actividade que acumulavam com a produção de café, em pequenas roças), acabando mesmo por partir o vidro da porta de uma das lojas.


Preparando o tronco da palmeira

Como já era habitual nestas situações extraordinárias, fui destacado para me deslocar ao local, averiguar o que se tinha passado e, caso se confirmassem os desacatos, trazer o militar para o quartel para eventual procedimento disciplinar.

Noutra ocasião, esta diligência não me aborreceria especialmente, a não ser pelo facto de não gostar de fazer o papel que caberia à polícia, neste caso, militar. Acontecia, porém, que tinha sido convidado para um almoço de aniversário, que teria lugar numa roça próxima da cidade, justamente no dia seguinte e, com esta missão, não poderia estar presente.

Nestas circunstâncias, o meu estado de espírito não era dos melhores quando saí do quartel, acompanhado apenas pelo condutor do pequeno jeep Willys e por um primeiro-cabo, porque era preciso lugar para trazer o “passageiro”. Fiz um desvio pela roça para informar da minha impossibilidade em estar presente no almoço, bem como para deixar o livro que tinha comprado para oferta, e segui para o meu destino.



Estacas que fixam as folhas do capim que servirão de guia à seiva até à garrafa

Chegado ao “local do crime”, fui “assaltado” pelos comerciantes, cada um a querer contar as malfeitorias do desordeiro bêbado. Ouvi as suas versões, tomei algumas notas e, acompanhado por dois deles, segui para a sanzala à procura do militar, que tinha ido para a “lavra” da família.

Acompanhado pelo soba, lá fui à procura dele, que confessou logo que com a bebida se tinha portado mal, mas que estava muito arrependido, e disposto a pagar o vidro partido.

Por mim o assunto ficava resolvido, mas as coisas não eram tão simples, e eu tinha mesmo de o trazer para a Gabela, onde cheguei a meio da tarde.

O capitão Carvalho mandou um jeep à esquadra da PSP chamar o chefe da polícia, que não demorou.


Lavra de mandioca
(Foto de autor desconhecido)

Fiz o meu relatório e, para meu espanto, o fulano negou tudo o que tinha dito antes. Afirmou que não tinha feito nada de mal, e os brancos lá da terra é que não gostavam dele. Quando o confrontei com as declarações anteriores, disse que não falava bem Português e que eu se calhar tinha feito confusão.

Fiquei furioso. Ainda por cima, o capitão decidiu que eu voltasse ao Assango (?) no dia seguinte para pôr tudo “em pratos limpos”. Mais um dia a almoçar ração de combate, porque eu já na véspera tinha decidido não aceitar o convite dos comerciantes para almoçar.

E aí fui eu, de novo.

Chegado lá, comecei por lhe mostrar, de forma um tanto musculada, que ele tinha feito muito mal em gozar com a minha cara. Depois levei-o até ao soba, e perguntei a este onde escondia ele os barris do marufo, cujo fabrico, na época, era rigorosamente proíbido pelas autoridades.

O marufo é feito com a seiva da palmeira. Começa-se por fazer um corte no tronco e deixa-se escorrer para dentro de um recipiente. Bebido ainda fresco, torna-se uma espécie de sumo agradável. Depois de fermentar, transforma-se uma bebida de elevado teor alcoólico.



Enchendo a garrafa

Começando por negar a existência de marufo, o soba acabou, perante os fortes argumentos que lhe apresentei, por revelar onde escondiam três barris do valioso líquido, e conduziu-me até ao esconderijo, sempre acompanhado pelo militar desordeiro. Expliquei-lhe então que ia ficar sem um barril, devido ao comportamento deste, não só pela desordem que tinha criado, mas também por ter mentido e me ter deixado ficar mal, quando chegou ao quartel.

Disse também ao soba que o militar ficava à responsabilidade dele enquanto durassem as férias, pois não ia levá-lo de novo para a Gabela. E que se eu tivesse de lá voltar por causa dele iam os dois arrepender-se.

Entretanto, reuni com alguns comerciantes e disse-lhes que a desordem não se repetiria, além de que os prejuízos seriam pagos pela família do militar. Embora algo renitentes, pois queriam ver o tipo preso, acabaram por concordar.

De volta ao quartel, expliquei ao capitão Carvalho – que parecia também não estar para se aborrecer mais com o assunto – que as coisas não tinham tido tanta gravidade como parecia inicialmente, que o soba se responsabilizara pelo comportamento do militar, e que os comerciantes com quem reunira, tinham ficado mais calmos.


Hotel Guaraná em ruínas
(Foto de autor desconhecido)

Não foi uma coisa muito bonita, mas a última coisa que me apetecia era andar num vai-e-vem da Gabela para o Assango, ainda por cima numa picada em péssimo estado.

Além de que estava farto da ração de combate, a substituir o meu almoço no Hotel Guaraná.

Nota: As fotos que ilustram o “fabrico” do marufo são da autoria de Afonso Loureiro, e foram publicadas no blogue Aerograma (http://afonsoloureiro.net/blog/)


P.S. - Coloquei mais duas fotografias do almoço em Fátima aqui

sexta-feira, 23 de março de 2012

Encontro em Fátima – Últimas Fotografias



Cumprimento efusivo entre o Silva Pereira e o Morais Soares


Publico hoje seis fotografias relativas ao convívio do BART 741, realizado em Fátima, em 10 do corrente, que me foram enviadas pelo Morais Soares.

Esperava ter já recebido mais fotos, tiradas na ocasião por outros camaradas. Tendo, entretanto, passado duas semanas, fico na dúvida se chegarei a recebê-las. Em caso afirmativo, serão colocadas neste post, que será actualizado à medida que forem chegando.


(Clicar nas fotos para aumentar)


Da esq. para a dta.: (?), Vítor Casimiro, António Passarinho, José Reimão (?), Sebastião Fagundes e Morais Soares


Augusto Fernandes e Morais Soares


Da esq. para a dta.: Mário Abreu, Nunes da Silva, Carlos Fonseca, Morais Soares e Vítor Casimiro



Da esq. para a dta.: Morais Soares com a esposa, Carlos Fonseca, Nunes da Silva, uma senhora que, tal como a que se encontra na mesa ao fundo, julgo serem familiares do Silva Pereira, Mário Abreu e Silva Pereira


Da esq. para a dta.: José Pereira, Morais Soares, Carlos Fonseca e Mário Abreu



As duas fotografias que podem ver abaixo, foram também enviadas pelo Morais Soares.


Abreu, Morais Soares e Bastos


Esta é, provavelmente, a mais desastrada fotografia de grupo tirada nas confraternizações do Batalhão. Julgo que nem um amador desatento conseguiria fazer pior. Segundo me explicaram, quiseram tirá-la na rua para que aparecesse o hotel em fundo. Acontece que o hotel quase não se vê, porque o que aparece reflectido nos vidros são os prédios do outro lado da rua. Por outro lado, o piso tem uma ligeira inclinação no sentido da porta, pelo que quem ficou na fila de trás, está meio escondido. Isto era evitável se a foto tivesse sido tirada na sala da cave, onde foi feita a recepção e onde foram servidos os aperitivos, e que tinha um palco com escadas de acesso, que permitiram dispor as pessoas em planos diferentes.


terça-feira, 20 de março de 2012

Mais fotos do Convívio em Fátima

As fotografias que podem ver abaixo, constituem o último “lote” ainda disponível no meu telemóvel.

Fico, contudo, na expectativa de que alguns camaradas cumpram a promessa feita, e me enviem, para publicação, as que tiraram com as suas máquinas.

Gostava de conseguir identificar todos aqueles que fotografei. Acontece que a minha memória me atraiçoou, pelo que alguns levam um ponto de interrogação. Se me quiserem ajudar a colmatar a lacuna, agradeço antecipadamente.

(Clicar para aumentar as fotos)


À esquerda, o nosso inimitável clarim, José Alves; à direita, (?)


À esquerda o Alexandre; à direita, (?)


O Alexandre conversa com o Augusto Fernandes, que tivemos a sorte de ter como "patrão" da enfermaria.


O Morais Soares "patrão" das Transmissões, que, acompanhado pela esposa, nos deu a alegria de comparecer pela primeira vez nos nossos encontros. Pudera, Toronto fica longe!


De todos os camaradas desta mesa apenas reconheço o José  Reimão (creio que era do 2º pelotão)


O Nunes da Silva, o Alexandre e o Abreu, à conversa com o bejense José Pereira (que não ficou na foto porque não gosta de ser fotografado e já tinha tirado muitas fotos, segundo dizia)


O Morais Soares e o Abreu (este continuando a conversa com o José Pereira, que desta vez não se escondeu a tempo)


A esposa do Morais Soares conversando com o Augusto Fernandes


Apesar de atarefado com a organização (será que teve tempo para almoçar?), o Silva Pereira num momento de boa disposição 


O José Pereira (aqui sem fuga possível) e o Morais Soares


O Duarte e a esposa, presenças habituais nos encontros do Batalhão


O Passarinho (que paciência a dele para nos aturar na messe) com esposa, presença constante nos últimos anos.