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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O Acidente - Parte II


Às primeiras horas da manhã do dia 4 de Fevereiro de 1967, aterrou na pista de aviação da CADA, na Boa Entrada, um pequeno avião que iria transportar-me para o Hospital Militar de Luanda. Para minha surpresa foi decidido que o João Magro, que, como contei no texto anterior, tinha sofrido um pequeno ferimento na cabeça, também seria evacuado, juntamente comigo. Mais tarde, viria a “descobrir” o motivo que levou à sua evacuação.


Na pista da Boa Entrada, esperava-me, além do DO 27 e da respectiva tripulação, uma luzida comissão de recepção, vinda de Novo Redondo, que era encabeçada pelo comandante da Companhia, capitão Carvalho. Surpreendeu-me que ele se tivesse dado ao incómodo de se levantar tão cedo, para fazer uma viagem de cerca de 90 quilómetros, preocupado com o meu estado de saúde (supunha eu, ingenuamente).


Boa Entrada - Hangar da pista da CADA

Porém, não era o meu estado de saúde a razão da viagem. De facto, o capitão Carvalho, quando saí da viatura que me transportava e enquanto era transportado na maca para o avião, não parou de me increpar de forma violenta. Cheio de dores, também não fui meigo na resposta, que não reproduzo, para manter a compostura (que na altura não guardei) do blogue, e que me poderia ter valido mais um auto a acrescentar aos três que já estavam a caminho.

Depois de uma viagem atribulada (enjoei o tempo todo), aterrámos em Luanda cerca das onze horas. Esperava-me uma ambulância que me fez chegar rapidamente ao hospital, onde, por ser sábado, não havia ortopedista de serviço permanente. Não foi possível contactar de imediato o médico que estava – isto é, que devia estar – de prevenção, em casa, mas que só compareceu no Serviço de Urgência depois do almoço. Soube, mais tarde, que tinha dado um salto à praia, e que só depois do regresso a casa para almoçar recebeu o recado para ir ao hospital. Parece incrível, mas foi assim mesmo. E, tanto quanto sei, sem quaisquer consequências.

Ainda hoje me recordo da agradável sensação que senti à medida que a anestesia – que antecedeu a intervenção destinada a pôr os ossos no lugar – me ia adormecendo.

Quando ao princípio da noite recuperei, perguntei ao médico, estupidamente, se tinha de ficar internado, ou se podia ir para o hotel, ficando em regime de consulta externa. Com a falta de camas que tinham quase sempre, respondeu-me que se não queria ficar no hospital não havia problema.

Saí do hospital, apanhei um táxi, e segui para o Hotel Luso. Durante a viagem para o hotel percebi que tinha feito asneira: a cada curva as dores que sentia – tinha o corpo cheio de nódoas negras – eram tão fortes, que não conseguia evitar algumas audíveis manifestações de desconforto.


Dornier 27 (aqui na pista de Lucunga) 

Ao chegar ao hotel o recepcionista, que já me conhecia, ficou espantado ao ver o meu estado lamentável. Além do braço ao peito, a minha cara, cheia de pensos e de mercurocromo, parecia uma máscara.

No dia seguinte, domingo, fiquei todo o dia no hotel.

Na segunda-feira, 6 de Fevereiro, voltei ao hospital para substituir os pensos, tendo depois ido apresentar-me na 1ª Companhia do Depósito de Adidos de Angola (DAA).

Como já escrevi aqui, os militares apresentados no DAA, deviam apresentar-se duas vezes por dia na secretaria da Companhia, além de entrarem na escala de serviço.

Quando cheguei à secretaria, entreguei ao primeiro-sargento, além da guia de marcha, um atestado médico determinando que, devido ao meu estado, não só ficava dispensado de fazer os serviços da escala, mas que também limitava as apresentações à parte da tarde, visto que todas as manhãs tinha de comparecer no hospital para tratamento.

O “nosso primeiro” ficou possesso porque, segundo ele, ninguém estava dispensado dos serviços, nem de se apresentar duas vezes por dia. Levantou-se, furioso, e foi para o gabinete do comandante com o atestado na mão. Voltou mais calmo, alguns minutos depois, dizendo que o “nosso capitão” aceitava o atestado, provisoriamente, mas que logo que apresentasse melhoras tinha de entrar na escala.

Era uma forma de salvar a face, porque, dessa vez, não fiz serviço nenhum durante o tempo que lá estive.

Entretanto, nessa segunda-feira, fui visitar o João à enfermaria, para saber como estava, e se precisava de alguma coisa. Estava óptimo, bem disposto e sem perceber muito bem o que estava ali a fazer.


Luanda - Hospital Militar

Na quarta-feira seguinte, estava na esplanada da Portugália a meio da tarde, quando um camarada me apresentou um primeiro-cabo que estava colocado no Serviço de Justiça do Quartel-General. Foi o que se chama um encontro com a sorte.

Era convicção geral, e minha também, que enquanto durasse a instrução dos três autos que me tinham sido instaurados, não poderia regressar a Lisboa, apesar de já ter terminado a comissão de serviço. Aliás, no DAA havia um grande número de militares que, findas as comissões, continuavam, alguns há mais de um ano, aguardando a conclusão de autos para embarcarem de volta.

O referido primeiro-cabo esclareceu-me que eu só não embarcaria na data prevista se, além dos autos que já tinham sido iniciados, fosse também instaurado um “auto de corpo de delito”, mas que isso só aconteceria se, em consequência do acidente, tivesse havido lesões em terceiros que implicassem hospitalização por um período igual ou superior a dez dias. Percebi nessa altura o motivo da ida do João Magro para o hospital.

Por outro lado, disse-me que trabalhava no Quartel-General com um alferes-miliciano, advogado, que a título particular, e por um preço pouco mais que simbólico, me podia dar o aconselhamento e o apoio de que eu necessitasse.

Pedi-lhe que me marcasse um encontro com esse advogado, e a seguir apanhei um táxi para o hospital, onde falei com o João, explicando-lhe que se ele não tivesse alta até ao fim-de-semana, eu não embarcaria. Ele respondeu-me que se sentia bem e que iria pedir alta no dia seguinte, o que fez realmente, tendo regressado à Gabela na sexta-feira. Estava livre do “corpo de delito”.


Luanda - Quartel-General 

No dia seguinte, ao fim da tarde, encontrei-me com o advogado, que residia com a esposa numa pequena moradia à saída de Luanda, já na estrada para o Grafanil. Confirmou que sem “auto de corpo de delito” não havia impedimento legal ao meu regresso, sem prejuízo da continuação dos trâmites legais que teriam lugar já em Lisboa. Foi-me dizendo que naquelas circunstâncias era difícil evitar uma punição disciplinar, mas que iria contactar um colega colocado no Ministério do Exército, que se encarregaria do caso, de forma a minimizar ao máximo a minha responsabilidade. Ainda assim achava que eu talvez tivesse de ficar detido por 30 dias, desde que no auto me comprometesse a indemnizar o Estado pelos prejuízos causados na viatura.

Além disso, instruiu-me sobre o teor das declarações que eu devia prestar quando inquirido pelo “oficial de justiça” nomeado, o que só iria ter lugar quando o Batalhão viesse para Luanda, poucos dias antes do embarque, sugerindo que, se o referido oficial concordasse, o levasse lá a casa para lhe dar algumas pistas legais sobre a forma mais correcta de conduzir os autos.

Entretanto, no local do acidente era efectuada a peritagem destinada a esclarecer as causas do sinistro, bem como a atribuição de responsabilidades. Nestes casos os “peritos” eram escolhidos entre os militares graduados da Companhia, bastando que tivessem carta de condução, mesmo que a experiência não fosse muita.

Na circunstância, foram nomeados os meus camaradas Rodrigues e Vaz, que tinham feito exame de condução algum tempo antes, na Gabela. Generosos, juntaram aos autos um relatório em que me atribuíam 15% de responsabilidade, pertencendo os restantes 85% às más condições do piso. O capitão Carvalho desatinou com estas conclusões, chamou-os e, ameaçando-os com procedimento disciplinar, obrigou-os a alterarem as conclusões do relatório. Refeita a peritagem, fiquei com 60% de responsabilidade.


Luanda - Cinema Império

Ainda na Gabela, quer o Rodrigues, quer o Vaz, que para me apoiar veio algumas vezes de Novo Redondo, aproveitando o facto de, sendo vago-mestre, ter algumas facilidades para se deslocar, iam tratando dos meus problemas logísticos.

No quartel, tinham ficado quase todos os meus pertences que eles se encarregaram de recolher e acondicionar numa mala de porão, que compraram a meu pedido. Regularizaram também as minhas contas, quer no hotel onde tomava as refeições, quer com a lavadeira.

Mandaram-me também a notícia digna de nota, e que eu não esperava, de que o Sr. Bernardes, proprietário da escola de condução, tinha ido ao quartel devolver parte da quantia que eu pagara, alegando que não tinha chegado a fazer exame. Não sei se haveria muita gente que, na mesma situação, tivesse o mesmo gesto.

Em Luanda, eu continuava a minha recuperação. Nos lugares públicos, era alvo da curiosidade geral (não tanto pelo braço engessado, mas sobretudo pelo rosto cheio de compressas e adesivos), de tal forma que no fim de semana seguinte, em pleno Carnaval, fui protagonista de alguns equívocos, como o daquela senhora que, no Cinema Império, veio ter comigo, felicitando-me pela originalidade da máscara que eu tinha escolhido.

Mas a saga iria continuar. Disso darei conta no próximo texto.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O Acidente - Parte I


Novo Redondo (Sumbe) - Av. Marginal 

Nada fazia prever que aquela sexta-feira, 3 de Fevereiro de 1967, seria diferente de todas as outras que tinha passado na Gabela. Até a viagem em serviço a Novo Redondo (para onde tinha sido deslocado o comando da CArt 738 há cerca de dois meses) programada para a parte da tarde, era rotineira.

Durante a nossa permanência na Gabela muitos dos meus camaradas aproveitaram para obter a carta de condução na escola local, de que o Sr. Bernardes era proprietário e instrutor. Também eu segui essa prática, tendo o meu exame, que teria lugar nesta cidade, sido marcado para o dia 10 desse mês de Fevereiro, em hora a definir.

Aproveitei a deslocação a Novo Redondo para (depois de cumpridas as diligências no quartel) me encontrar numa esplanada da cidade com o examinador, a fim de combinarmos a hora em que lhe convinha fazer o exame, enquanto bebíamos uma Cuca, acompanhados pelos três militares que me acompanharam na deslocação.

Acertada a hora, despedimo-nos e metemos rodas ao caminho.


As salinas ao abandono

Pouco depois, já na estrada, os meus companheiros de viagem começaram a meter-se comigo, insinuando que eu não sabia conduzir e que iria chumbar no exame, de nada me valendo as duas cervejas que tinha pago ao examinador. Fui dando troco no mesmo tom aligeirado, até que a certa altura, "provocado" pelo condutor que me desafiava a provar que dominava o volante, fiz a tolice de acabar por ceder ao desafio e"saltei" para o lugar dele, mas dizendo-lhe que ia conduzir só até às salinas. Nos 30 ou 40 quilómetros que distavam das salinas, o caminho era plano, com poucas curvas, e foi percorrido sem qualquer problema.

Chegados às salinas, onde começava a subida para a Gabela através de um percurso sinuoso, parei, perguntando tolamente se estavam satisfeitos. O condutor - que era o Pinóquio - secundado pelos outros, disse que até ali era fácil; a subir o morro é que se via quem tinha unhas. E eu, confirmando o ataque de tolice, continuei a conduzir.

Interrompo aqui a narrativa para esclarecer que depois de termos ido para a Gabela, nunca tinha conduzido uma viatura militar (nem civil, de resto, se exceptuar o Volkswagen da escola de condução, sempre com o Bernardes ao lado). Em Lucunga, quase todos os furriéis – eu incluído – faziam uma perninha ao volante, durante as madrugadas em que estavam de ronda (que incluía acelerar na “pista” de aviação com a emocionante curva no fim da “pista”).


O jeep do desastre ainda inteiro (e eu também)

Quando já estávamos perto da Gabela, pouco antes do desvio para a Boa Entrada, ao sair de uma curva seguida de contra-curva, a viatura entrou em derrapagem no areão que havia na estrada, aproximou-se da berma, enquanto eu procurava pôr em prática os ensinamentos do instrutor de forma a mantê-la na faixa de rodagem. Nunca saberei se o conseguiria ou não, porque o Pinóquio, assustado com o declive que tínhamos do lado direito, deitou as mãos ao volante e torceu-o para a esquerda.

É a última coisa de que me recordo até ter acordado deitado na berma da estrada, com os três a chorarem à minha volta, convencidos de que eu estava morto.

Não sei quanto tempo estive inanimado, mas depois de recuperar os sentidos, vi logo que, embora vivo, estava em muito mau estado. O meu pulso esquerdo fazia um ângulo recto; entre o nariz e o lábio superior tinha um buraco por onde se viam os dentes; o nariz estava partido; na testa tinha um buraco; na perna esquerda tinha um extensa ferida; finalmente, todo o corpo ia ficando negro.

Os outros, à excepção do João Magro, que tinha um pequeno ferimento na cabeça, apenas tinham algumas nódoas negras e um ou outro arranhão.

No meio da estrada, o jeep – que felizmente tinha a capota colocada, o que provavelmente nos salvou a vida – estava virado com as quatro rodas no ar e parecia semi-destruído. Embora na altura não fosse o que mais interessava, percebi logo que estava metido em sarilhos. O jeep, antigo, tinha sido objecto de uma reconstrução no Agrupamento de Material, em Luanda (ASMA), que incluiu pintura, motor, caixa de velocidades, estofos e capota, novos.

Algum tempo depois – a estrada não tinha muito movimento – apareceu um Volkswagen, cujo condutor parou e me conduziu, bem como ao João Magro, para o Hospital da CADA, na Boa Entrada, onde nos foram prestados os primeiros socorros.

O João nem precisou de trabalho de “costura”. A mim, porém, além da colocação de talas provisórias no braço, coseram, sem anestesia, os estragos no rosto. Confesso que com as dores que então já sentia, as picadas da agulha e o fio a passar não fizeram grande mossa.


Hospital da CADA

Acabado o tratamento de emergência, que incluiu sedativos que pouco efeito fizeram, fui transportado para o meu quarto no quartel. Dado o meu estado deplorável,  teria de ser evacuado para o Hospital Militar de Luanda por via aérea, mas àquela hora, com a noite a cair, não havia visibilidade suficiente na pista para as manobras necessárias, pelo que a evacuação apenas teria lugar na manhã do dia seguinte.

As dores não me deixaram dormir durante toda a noite mas, provavelmente, mesmo sem dores não conseguiria dormir, preocupado com as consequências do sarilho em que me tinha metido.

Como em quase tudo na vida, há um aspecto positivo que, neste caso, quero realçar: a solidariedade de uma grande parte da população da cidade que, ao longo da noite, passou pelo meu quarto, interessando-se pelo meu estado e fazendo votos de rápida recuperação.

Apesar de ter uma relação cordial com muitos dos habitantes, não esperava uma manifestação solidária tão significativa, que nunca esquecerei. Foi uma boa surpresa.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Uma viagem atribulada


Já referi em textos anteriores, que a “simpatia” que o capitão Carvalho – que foi o 4º e último comandante da CArt 738 – tinha por mim o levava a encarregar-me de todas as missões de serviço que saíssem das habituais rotinas.

Se eu fosse um tipo crédulo ou convencido, poderia acreditar que essas tarefas me eram atribuídas porque envolviam “projectos especiais”, eventualmente de elevada responsabilidade. Não era o caso. A intenção, às vezes conseguida, era mesmo a de me chatear; uma espécie de castigo, com origens que nunca consegui descobrir, porque, em boa verdade, à excepção do episódio que já aqui contei, não houve qualquer ocorrência que justificasse a sua implicância comigo.


Ebo

Foi neste contexto que, mais uma vez, num fim de tarde de uma data que não consigo precisar – algures entre Julho e Outubro – me mandou chamar para me encarregar de um desses serviços “especiais”.

O administrador de posto do Ebo (?) comunicara que um militar do Regimento de Infantaria de Nova Lisboa (RINL), que tinha estado a gozar um período de férias naquela localidade, de onde era natural, não tinha regressado à sua unidade, pelo que resolvera detê-lo na prisão local. A minha tarefa consistia em ir buscá-lo e, sob prisão, conduzi-lo até ao RINL.



Nova Lisboa-Av. 5 de Outubro

Na manhã do dia seguinte, bem cedo, saí da Gabela, com um cabo e dois soldados, além do condutor do Land Rover com destino ao Ebo, onde recolhemos o jovem militar.

A meio da tarde chegámos a Nova Lisboa e, depois de procedermos à entrega do nosso passageiro, e de uma rápida volta pela cidade, que não conhecia (e que incluiu um ligeiro atrito – rapidamente resolvido – com uma patrulha da Polícia Militar), iniciámos o regresso à Gabela.

Alguns quilómetros depois, já a noite tinha caído, parámos no Alto Hama para jantar, desta vez num restaurante, já que a ementa do almoço, tinha constado das vitualhas embaladas na caixa da ração de combate. Despachados os bifes com batatas fritas, ovos estrelados e as indispensáveis Cucas, seguimos viagem.



Alto Hama

Poucas horas depois, o Land Rover deve ter-se sentido cansado e não andou mais. Ficámos algum tempo à espera até aparecer um camião a quem fizemos sinal de paragem. O motorista parou e com uma lanterna – que nós não tínhamos – foi espreitar o motor e ver se podia ajudar.

Quanto à reparação do motor nada pôde fazer; mas ajudou dando boleia a um dos meus companheiros de viagem até Santa Comba, no Colonato da Cela, onde estava aquartelada a CArt 740.

Durante a noite quase todos os condutores dos camiões que iam passando paravam, solidários, procurando ajudar-nos.

No dia seguinte, ao fim da manhã, e depois de uma noite mal dormida, chegaram os camaradas daquela Companhia, que, na impossibilidade de resolverem o problema no local, rebocaram a viatura avariada até Santa Comba.



Colonato da Cela

Há males que vêm por bem. Como a reparação do Land Rover acabou por demorar dois dias, aproveitei por conhecer a localidade e parte do Colonato.

E, numa loja local, que era uma mistura de livraria e discoteca (*), comprei dois discos: o Strangers in the night, do Frank Sinatra, que era (ainda é) um êxito editado nesse ano de 1966, e o Capri c'est fini, do Hervé Vilard, que embora fosse de 1965, continuava muito popular entre a juventude.

Dois dias depois regressei à Gabela. Os discos foram tão bem acolhidos que, tendo andado de mão em mão, entre civis e militares, acabaram por lá ficar, quando, em circunstâncias atribuladas, parti inesperadamente da cidade.


(*) Nota para eventuais leitores mais jovens: nesse tempo as discotecas eram lojas que vendiam discos; os lugares onde nos divertíamos à noite, chamavam-se “boites”.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Porto Amboim



Vista panorâmica de Porto Amboim

Tinha planeado escrever hoje um texto sobre Porto Amboim onde estive durante um mês por troca com o Miranda Dias, que, tendo a profissão de desenhador da construção civil, foi para a Gabela para fazer o projecto para a construção da Casa do Soldado.

Escolhidas as fotografias para ilustrar o post, e chegada a hora de começar a escrever, descubro que o baú da minha memória está quase vazio no que se refere a essa estadia, com a agravante de que tenho consciência de que gostei de lá estar, e de ter sido muito bem recebido por todos os meus camaradas.

Sei que estive lá no tempo do cacimbo (portanto, entre Maio e Outubro de 1966), porque na praia não havia veraneantes durante os meus passeios de fim da tarde, quase diários, na companhia do Fernando Babo.


Porto Amboim - Ponte cais

Em Porto Amboim estava destacado, desde a nossa chegada ao Quanza-Sul, o 4º pelotão da CArt 738, sob o comando do alferes-miliciano Sebastião Fagundes, que tinha como comandantes de secção o segundo-sargento Ramiro, e os furriéis-milicianos Miranda Dias e Fernando Babo.

A localidade era, então, uma pacata vila piscatória onde, de vez em quando, aportavam navios da marinha mercante nacional, que fundeavam ao largo, por falta de cais acostável.

Lembro-me de ter ido, acompanhado pelo alferes Fagundes e pelo furriel Babo (creio que o Ramiro não foi), fazer uma visita de cortesia a uma família que fazia parte dos notáveis locais, constituida por um casal com uma filha ainda jovem, onde nos foi servido um chá, num requintado serviço de fina porcelana. Confesso que, na oportunidade, me teria sabido melhor uma ou duas Cucas fresquinhas.


Porto Amboim - Baía

Não me recordo do nome dessa família. Se não me falha a memória, o dono da casa era filho de um conhecido empresário da província do Quanza-Sul.

Durante essa estadia, durante um jogo de futebol de cinco, tive de sair do campo com uma violenta dor no peito do pé, que eu julgava fruto de algum choque ou entorse, coisa natural durante as incidências do jogo.

O alferes Fagundes sugeriu que fosse à “consulta” de um especialista local – um mulato chamado Quitério - que depois de apalpar o pé concluiu que eu tinha “as linhas do pé trocadas”, mas que ia remediar isso, o que fez massajando repetidamente com uma substância oleosa previamente aquecida.



Porto Amboim - Marginal

Senti algumas melhoras, mas não voltei a jogar durante a minha permanência em Porto Amboim, porque a recuperação foi lenta. O máximo que consegui, foi arbitrar dois ou três jogos, suficientes para perceber que a arbitragem não era a minha vocação, tantas foram as reclamações das equipas. Pelo menos era imparcial, já que errava para os dois lados.

E é tudo. Resta-me a esperança de que o Sebastião Fagundes leia isto, e faça um dos seus habituais comentários, que acabe por valorizar (e justificar) a publicação deste texto.

Ou então (e ainda melhor) que resolva escrever um ou mais textos, tendo Porto Amboim como tema, que terei todo o prazer em publicar. Fica o convite.


Vera Cruz no Cais da Rocha, em 9 de Janeiro de 1965, pouco antes da partida

P.S. - Em 9 de Janeiro de 1965 – completam-se hoje 47 anos – embarcaram no navio Vera Cruz, no Cais da Rocha Conde d' Óbidos, com destino a Angola, três Batalhões e algumas Companhias independentes, totalizando quase 3.000 militares.

Entre eles encontrava-se o Batalhão de Artilharia 741, de que fiz parte.

Nem todos os que embarcaram regressaram connosco, 27 meses depois, porque a morte abreviou a sua ainda curta vida.

Lembrá-los, nunca é demais. É o que faço, hoje, aqui. 


sábado, 31 de dezembro de 2011

O Baile Falhado


Vila Teixeira de Sousa - Rua Principal
(Foto de Armando Monteiro)

Em 1966, a passagem de ano na Gabela esteve longe de ser das festas mais animadas que por lá se viveram. Respirava-se por esses dias um clima de grande emoção e revolta em Angola, em consequência das notícias veiculadas pelos meios de comunicação, que davam conta do “nefando assalto” perpretado na noite de Natal por um grupo de terroristas da UNITA, à localidade Vila Teixeira de Sousa.

Abro um parêntesis para esclarecer que o ataque acabaria por fazer duas vítimas civis, entre os moradores locais (um civil e um agente da PIDE), e algumas dezenas entre os atacantes.

Segundo o testemunho de camaradas com quem conversei poucos dias depois, em Luanda, e que se encontravam no quartel que era o objectivo do ataque inimigo, os atacantes dificilmente poderiam ter sido mais desastrados no planeamento da “operação”.

De facto, além da Companhia a que pertenciam esses camaradas, que ia ser rendida por ter chegado ao fim da comissão de serviço, encontravam-se também no quartel os militares da unidade que os ia render. Isto é, havia segurança reforçada.

Por outro lado, a força atacante estaria mal armada e a maioria dos seus membros apresentava-se em manifesto estado de embriaguês.

Porém, a população angolana de origem europeia, que ignorava estes pormenores, ficou indignada, revoltada e também alarmada com as notícias dos jornais e das rádios, pelo que as manifestações de repúdio alastraram por todo o território, gerando um movimento de solidariedade para com a população de Teixeira de Sousa, que se concretizaria no envio de um comboio com os mais variados bens de consumo destinados às populações alvo do “ataque”.

Também na Gabela houve uma manifestação largamente participada, tendo as autoridades civis feito os habituais discursos de desagravo, seguidos da recolha de donativos.


Um dos morros que rodeiam a cidade da Gabela
(Foto recolhida na Internet, de autor desconhecido)
Por outro lado, ganhou corpo entre a população gabelense uma onda de receios, com origem em boatos, segundo os quais elementos subversivos vindos do exterior estariam a sublevar parte da população africana da zona que, sob a sua orientação, estaria a preparar um ataque à cidade na noite da passagem de ano.

De nada valeram as tentativas para acalmar os ânimos, explicando que nas informações recolhidas pelas nossas patrulhas que, naturalmente, se tinham intensificado, não havia o menor indício de que algo de anormal estivesse em preparação.

Perante estas circunstâncias, teve lugar uma reunião em que estiveram presentes as autoridades civis e militares, que decidiram pôr em prática um plano de defesa da cidade, que consistiu na criação de postos de vigilância fixos, constituídos por militares e civis em diversos locais dos morros que rodeavam a cidade, a que se juntaram patrulhas móveis. De reserva, no quartel, estava um piquete pronto para intervir.

Apesar dos receios existentes, não foi cancelado o habitual baile de fim de ano na ARA-Associação Recreativa do Amboim. Porém, em lugar de um conjunto musical (que, salvo erro, viria de Nova Lisboa), o baile que, ainda assim, teve alguma afluência, foi “abrilhantado” apenas com música gravada.


Gabela -Contacto 7  
(Conjunto formado por jovens estudantes do ensino secundário, formado em data posterior a 1966)

((Foto "roubada" ao Mazungue ( www.mazungue.com/ ))

Nessa noite eu fiquei incumbido de fazer a ronda aos postos de vigilância entre a meia-noite e as duas da madrugada. No entanto, não podia desperdiçar a ocasião de estrear o fato que tinha mandado fazer especialmente para este baile, pelo que não deixei de comparecer na ARA , onde dancei até à meia-noite menos um quarto. A essa hora, conforme combinado, tinha o jipe da ronda à porta, e fui ao quartel fardar-me e dar início ao “trabalho”.

Duas horas depois, voltei a vestir o fato e regressei à ARA. Desilusão: o baile já tinha acabado, num morno ambiente de fim de festa, segundo me contaram.

Por sugestão de um camarada, ainda fomos - quatro ou cinco - para a Boa Entrada, na esperança de que a festa no clube da CADA (Companhia Angolana de Agricultura) estivesse mais animada. Batemos com o nariz na porta, porque também por lá o clima não era diferente, e o pessoal já tinha ido dormir.


Clube da CADA

(Foto de Sofia Peixoto)

Foi assim a nossa festa, falhada, de passagem de ano, de 1966 para 1967, na Gabela.

É claro que, como prevíramos, ninguém atacou coisa nenhuma. Os supostos elementos subversivos, estavam era a divertir-se à grande nos seus batuques, até de manhã, que bem os ouvíamos nos nossos quartos.

Enfim, não perdi tudo, pois sempre estreei o fato de alpaca, feito pelo alfaiate local, Sr. Marchante.

E este seria o meu último baile na ARA. Uma semana antes do Carnaval sofri um grave acidente de viação e fui evacuado para Luanda. Uma história para contar mais tarde.

domingo, 27 de novembro de 2011

Fotografias do Morais Soares





O Morais Soares, que era o “patrão” das transmissões da CArt 738, enviou-me as fotografias que publico hoje, e que lhe agradeço.

A fotografia de cima mostra-nos a equipa de transmissões, que fazia milagres para conseguir que alguns dos velhos e cansados rádios, se mantivessem operacionais.

Da esquerda para direita, temos o primeiro-cabo operador cripto Dias, o "Setúbal", o furriel-miliciano Morais Soares, o primeiro-cabo Custódio, o primeiro-cabo Bastos (?), o primeiro-cabo Sousa, e o primeiro-cabo Nogueira (?).

Embora não me recorde deste local da povoação, não tenho dúvidas de que a fotografia foi tirada em Lucunga, porque o Morais Soares está de chinelos havaianos, devido a uma micose renitente, que o impediu durante muito tempo de reforçar a nossa equipa de futebol.



No intervalo do jogo de futebol a que me referi em “Um Domingo Singular”, o comandante do BArt 741 deixou-se fotografar na companhia de um grupo de militares da CArt 738.

Da esquerda para a direita, temos o furriel-miliciano Morais Soares, o furriel-miliciano Rodrigues, o segundo-sargento Ferreira da Silva, o furriel-miliciano Abreu, não sei quem é o fotografado seguinte, que não pertencia à CArt 738, depois, impecável na sua elegante farda de passeio, o primeiro-sargento Ramalho, o alferes-médico Salazar Leite, o comandante, tenente-coronel Soares, o alferes-miliciano Morgado, o alferes-miliciano Casimiro e o furriel-miliciano enfermeiro Fernandes.




Apesar de ser um dos fotografados, não sabia da existência desta foto, que foi feita na Gabela, como o comprova a indicação “Foto Branco” (que mencionei aqui) que aparece em baixo, à direita.

Não consigo identificar nem o local da cidade, nem o evento a que estávamos a assistir. À primeira vista parece ser um jogo de um dos torneios futebol de 5, e é essa a opinião do Morais Soares. Mas tenho dúvidas, sobretudo porque não me recordo de existir uma bancada parecida com esta no recinto de jogos na Sede do ARA.

Na foto apenas consigo identificar, assinalados com as letras A, B e C, o Vaz, eu próprio e o Morais Soares.

Os restantes espectadores são civis, residentes na cidade, mas, embora um ou outro rosto me pareça familiar, não consigo identificar nenhum deles.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

ARA-Associação Recreativa do Amboim



Sede da Associação Recreativa do Amboim, pós-independência, em ruinas


Sede do ARA, reconstruida

A Associação Recreativa do Amboim, habitualmente designada pela população como o ARA, era a principal agremiação associativa da Gabela, estando a sua actividade voltada, não só para a componente recreativa que justifica o seu nome, mas também, e não menos importante, para a desportiva.

Quando a CArt 738 chegou ao quartel da Sétima, na Gabela, vivia-se na cidade um clima de grande euforia, porque a equipa de futebol do ARA tinha subido ao principal escalão do futebol angolano.

Dessa equipa faziam parte alguns militares da Companhia que fomos render, tendo ficado na Gabela e no ARA , depois de desmobilizados, três desses camaradas: o Cipriano, avançado-centro (como então se chamava ao actual ponta de lança) de grande qualidade, que era muito popular, sobretudo entre a juventude feminina local, o Júlio e o Carlos Afonso. Estes dois, além da ligação ao futebol do ARA, continuaram na Gabela por razões do coração, tendo o Júlio casado com uma moça gabelense, nesse ano de 1966.

Pouco depois de nos termos instalado, apareceu no quartel um dirigente do ARA, o Sr. Carpinteiro, responsável pela secção de futebol, que vinha convidar a equipa da Companhia para disputar com o ARA um jogo amigável, que serviria de treino, no campo da Aricanga, onde jogava o clube.

O que nós não sabíamos ao aceitar o convite, era que do desempenho nesse jogo – que o ARA venceu por 3-1 – viria a resultar um convite a metade da equipa da CArt 738, para fazer parte do quadro de jogadores do ARA.


Campo da Aricanga (esta bancada não existia em 1966)
(Foto de Rui Santos)

Apesar dos reforços, praticamente profissionais, que o clube tinha contratado para fazer face às exigências da nova realidade desportiva – com alguns nomes sonantes ao nível regional, dos quais se destacava além do Juca, um defesa-central, salvo erro do Portugal de Benguela, que tinha impressionado de tal modo os responsáveis da Académica de Coimbra contra quem jogou durante uma digressão desta equipa por Angola e Moçambique, que integrou a equipa durante os restantes jogos dos academistas, o guarda-redes Lima, do Sporting do Lobito – o Oliveira, o Rebelo e o Peixoto, eram presença efectiva nos jogos que o ARA disputou até ao fim da nossa comissão de serviço.

Além destes camaradas, fizeram parte da equipa, o guarda-redes Custódio – que na minha opinião (e não só) era melhor do que o Lima, mas havia que justificar o custo da transferência deste, bem como o seu vencimento mensal, enquanto o Custódio era totalmente amador – o Resende, o Brandão Pacheco, e eu próprio (para minha surpresa, que até saí, lesionado, durante a segunda parte do referido jogo-treino).

Nessa época, o ARA viria a fazer um campeonato surpreendente, com resultados inesperados, como, por exemplo, a vitória sobre o ASA – então o campeão crónico de Angola – em Luanda, ou empate, também em Luanda, com a forte equipa do Futebol Clube de Luanda.

Vivia-se, por isso, um período de grande euforia desportiva, na Gabela, com muitos gabelenses a encherem o campo da Aricanga, ou a acompanharem a equipa nas suas deslocações.


Ringue do ARA, situado nas traseiras da sede.
Aqui disputavam-se os jogos dos torneios de futebol de 5


A vertente recreativa do clube consistia, sobretudo, na realização de animados e concorridos bailes.

No ano de 1966 quase todos os bailes foram abrilhantados por um conjunto musical local, de cujo nome não me recordo, lamentavelmente. Mais lamentável ainda porque me recordo perfeitamente da depreciativa designação da autoria de um dos meus camaradas, quiçá injustamente, e pela qual passámos a nomeá-lo: “Toca toca, que hás-de aprender!”

Nem sequer o nome do seu simpático vocalista, me ficou, embora a minha perversa memória não tenha esquecido que lhe chamávamos “Conde de Mont'Ana”.

Irreverências que a juventude talvez ajudasse a explicar.

E, a propósito dos bailes do ARA, quero deixar expresso, como forma de reconhecimento, um exemplo da generosa hospitalidade com que fomos recebidos pelos gabelenses.

No primeiro baile, descobrimos, quando entrámos, que havia ceia, com acepipes que cada família trazia de casa, sendo as bebidas fornecidas pelo bar do clube.

Sem família, nem casa, eu e alguns dos meus camaradas presentes no baile, ocupámos uma mesa, onde, solitárias, apenas tínhamos as imprescindíveis Cuca ou Nocal, enquanto, em redor, as mesas se iam enchendo com as vitualhas confeccionadas nas cozinhas locais.

Mas a solidão das nossas cervejas duraria pouco. Não tardou que a mesa se fosse compondo, fruto da solidariedade geral, que acabou por encher a nossa mesa de petiscos em quantidade bem maior do que aquela que éramos capazes de consumir (apesar de, nesse tempo, o estômago de alguns de nós parecer furado. Sobretudo se nos agradava o que vinha para o prato.)

Este não foi um caso isolado. Sempre que havia baile, com ceia, já sabíamos que não precisávamos de forrar muito o estômago ao jantar. Havia que deixar espaço.


Mas o mais divertido era o baile propriamente dito, bem como o excepcional ambiente daqueles serões.

É certo que os nossos 23 ou 24 anos também ajudavam. E de que maneira!