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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Uma viagem atribulada


Já referi em textos anteriores, que a “simpatia” que o capitão Carvalho – que foi o 4º e último comandante da CArt 738 – tinha por mim o levava a encarregar-me de todas as missões de serviço que saíssem das habituais rotinas.

Se eu fosse um tipo crédulo ou convencido, poderia acreditar que essas tarefas me eram atribuídas porque envolviam “projectos especiais”, eventualmente de elevada responsabilidade. Não era o caso. A intenção, às vezes conseguida, era mesmo a de me chatear; uma espécie de castigo, com origens que nunca consegui descobrir, porque, em boa verdade, à excepção do episódio que já aqui contei, não houve qualquer ocorrência que justificasse a sua implicância comigo.


Ebo

Foi neste contexto que, mais uma vez, num fim de tarde de uma data que não consigo precisar – algures entre Julho e Outubro – me mandou chamar para me encarregar de um desses serviços “especiais”.

O administrador de posto do Ebo (?) comunicara que um militar do Regimento de Infantaria de Nova Lisboa (RINL), que tinha estado a gozar um período de férias naquela localidade, de onde era natural, não tinha regressado à sua unidade, pelo que resolvera detê-lo na prisão local. A minha tarefa consistia em ir buscá-lo e, sob prisão, conduzi-lo até ao RINL.



Nova Lisboa-Av. 5 de Outubro

Na manhã do dia seguinte, bem cedo, saí da Gabela, com um cabo e dois soldados, além do condutor do Land Rover com destino ao Ebo, onde recolhemos o jovem militar.

A meio da tarde chegámos a Nova Lisboa e, depois de procedermos à entrega do nosso passageiro, e de uma rápida volta pela cidade, que não conhecia (e que incluiu um ligeiro atrito – rapidamente resolvido – com uma patrulha da Polícia Militar), iniciámos o regresso à Gabela.

Alguns quilómetros depois, já a noite tinha caído, parámos no Alto Hama para jantar, desta vez num restaurante, já que a ementa do almoço, tinha constado das vitualhas embaladas na caixa da ração de combate. Despachados os bifes com batatas fritas, ovos estrelados e as indispensáveis Cucas, seguimos viagem.



Alto Hama

Poucas horas depois, o Land Rover deve ter-se sentido cansado e não andou mais. Ficámos algum tempo à espera até aparecer um camião a quem fizemos sinal de paragem. O motorista parou e com uma lanterna – que nós não tínhamos – foi espreitar o motor e ver se podia ajudar.

Quanto à reparação do motor nada pôde fazer; mas ajudou dando boleia a um dos meus companheiros de viagem até Santa Comba, no Colonato da Cela, onde estava aquartelada a CArt 740.

Durante a noite quase todos os condutores dos camiões que iam passando paravam, solidários, procurando ajudar-nos.

No dia seguinte, ao fim da manhã, e depois de uma noite mal dormida, chegaram os camaradas daquela Companhia, que, na impossibilidade de resolverem o problema no local, rebocaram a viatura avariada até Santa Comba.



Colonato da Cela

Há males que vêm por bem. Como a reparação do Land Rover acabou por demorar dois dias, aproveitei por conhecer a localidade e parte do Colonato.

E, numa loja local, que era uma mistura de livraria e discoteca (*), comprei dois discos: o Strangers in the night, do Frank Sinatra, que era (ainda é) um êxito editado nesse ano de 1966, e o Capri c'est fini, do Hervé Vilard, que embora fosse de 1965, continuava muito popular entre a juventude.

Dois dias depois regressei à Gabela. Os discos foram tão bem acolhidos que, tendo andado de mão em mão, entre civis e militares, acabaram por lá ficar, quando, em circunstâncias atribuladas, parti inesperadamente da cidade.


(*) Nota para eventuais leitores mais jovens: nesse tempo as discotecas eram lojas que vendiam discos; os lugares onde nos divertíamos à noite, chamavam-se “boites”.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Porto Amboim



Vista panorâmica de Porto Amboim

Tinha planeado escrever hoje um texto sobre Porto Amboim onde estive durante um mês por troca com o Miranda Dias, que, tendo a profissão de desenhador da construção civil, foi para a Gabela para fazer o projecto para a construção da Casa do Soldado.

Escolhidas as fotografias para ilustrar o post, e chegada a hora de começar a escrever, descubro que o baú da minha memória está quase vazio no que se refere a essa estadia, com a agravante de que tenho consciência de que gostei de lá estar, e de ter sido muito bem recebido por todos os meus camaradas.

Sei que estive lá no tempo do cacimbo (portanto, entre Maio e Outubro de 1966), porque na praia não havia veraneantes durante os meus passeios de fim da tarde, quase diários, na companhia do Fernando Babo.


Porto Amboim - Ponte cais

Em Porto Amboim estava destacado, desde a nossa chegada ao Quanza-Sul, o 4º pelotão da CArt 738, sob o comando do alferes-miliciano Sebastião Fagundes, que tinha como comandantes de secção o segundo-sargento Ramiro, e os furriéis-milicianos Miranda Dias e Fernando Babo.

A localidade era, então, uma pacata vila piscatória onde, de vez em quando, aportavam navios da marinha mercante nacional, que fundeavam ao largo, por falta de cais acostável.

Lembro-me de ter ido, acompanhado pelo alferes Fagundes e pelo furriel Babo (creio que o Ramiro não foi), fazer uma visita de cortesia a uma família que fazia parte dos notáveis locais, constituida por um casal com uma filha ainda jovem, onde nos foi servido um chá, num requintado serviço de fina porcelana. Confesso que, na oportunidade, me teria sabido melhor uma ou duas Cucas fresquinhas.


Porto Amboim - Baía

Não me recordo do nome dessa família. Se não me falha a memória, o dono da casa era filho de um conhecido empresário da província do Quanza-Sul.

Durante essa estadia, durante um jogo de futebol de cinco, tive de sair do campo com uma violenta dor no peito do pé, que eu julgava fruto de algum choque ou entorse, coisa natural durante as incidências do jogo.

O alferes Fagundes sugeriu que fosse à “consulta” de um especialista local – um mulato chamado Quitério - que depois de apalpar o pé concluiu que eu tinha “as linhas do pé trocadas”, mas que ia remediar isso, o que fez massajando repetidamente com uma substância oleosa previamente aquecida.



Porto Amboim - Marginal

Senti algumas melhoras, mas não voltei a jogar durante a minha permanência em Porto Amboim, porque a recuperação foi lenta. O máximo que consegui, foi arbitrar dois ou três jogos, suficientes para perceber que a arbitragem não era a minha vocação, tantas foram as reclamações das equipas. Pelo menos era imparcial, já que errava para os dois lados.

E é tudo. Resta-me a esperança de que o Sebastião Fagundes leia isto, e faça um dos seus habituais comentários, que acabe por valorizar (e justificar) a publicação deste texto.

Ou então (e ainda melhor) que resolva escrever um ou mais textos, tendo Porto Amboim como tema, que terei todo o prazer em publicar. Fica o convite.


Vera Cruz no Cais da Rocha, em 9 de Janeiro de 1965, pouco antes da partida

P.S. - Em 9 de Janeiro de 1965 – completam-se hoje 47 anos – embarcaram no navio Vera Cruz, no Cais da Rocha Conde d' Óbidos, com destino a Angola, três Batalhões e algumas Companhias independentes, totalizando quase 3.000 militares.

Entre eles encontrava-se o Batalhão de Artilharia 741, de que fiz parte.

Nem todos os que embarcaram regressaram connosco, 27 meses depois, porque a morte abreviou a sua ainda curta vida.

Lembrá-los, nunca é demais. É o que faço, hoje, aqui. 


sábado, 31 de dezembro de 2011

O Baile Falhado


Vila Teixeira de Sousa - Rua Principal
(Foto de Armando Monteiro)

Em 1966, a passagem de ano na Gabela esteve longe de ser das festas mais animadas que por lá se viveram. Respirava-se por esses dias um clima de grande emoção e revolta em Angola, em consequência das notícias veiculadas pelos meios de comunicação, que davam conta do “nefando assalto” perpretado na noite de Natal por um grupo de terroristas da UNITA, à localidade Vila Teixeira de Sousa.

Abro um parêntesis para esclarecer que o ataque acabaria por fazer duas vítimas civis, entre os moradores locais (um civil e um agente da PIDE), e algumas dezenas entre os atacantes.

Segundo o testemunho de camaradas com quem conversei poucos dias depois, em Luanda, e que se encontravam no quartel que era o objectivo do ataque inimigo, os atacantes dificilmente poderiam ter sido mais desastrados no planeamento da “operação”.

De facto, além da Companhia a que pertenciam esses camaradas, que ia ser rendida por ter chegado ao fim da comissão de serviço, encontravam-se também no quartel os militares da unidade que os ia render. Isto é, havia segurança reforçada.

Por outro lado, a força atacante estaria mal armada e a maioria dos seus membros apresentava-se em manifesto estado de embriaguês.

Porém, a população angolana de origem europeia, que ignorava estes pormenores, ficou indignada, revoltada e também alarmada com as notícias dos jornais e das rádios, pelo que as manifestações de repúdio alastraram por todo o território, gerando um movimento de solidariedade para com a população de Teixeira de Sousa, que se concretizaria no envio de um comboio com os mais variados bens de consumo destinados às populações alvo do “ataque”.

Também na Gabela houve uma manifestação largamente participada, tendo as autoridades civis feito os habituais discursos de desagravo, seguidos da recolha de donativos.


Um dos morros que rodeiam a cidade da Gabela
(Foto recolhida na Internet, de autor desconhecido)
Por outro lado, ganhou corpo entre a população gabelense uma onda de receios, com origem em boatos, segundo os quais elementos subversivos vindos do exterior estariam a sublevar parte da população africana da zona que, sob a sua orientação, estaria a preparar um ataque à cidade na noite da passagem de ano.

De nada valeram as tentativas para acalmar os ânimos, explicando que nas informações recolhidas pelas nossas patrulhas que, naturalmente, se tinham intensificado, não havia o menor indício de que algo de anormal estivesse em preparação.

Perante estas circunstâncias, teve lugar uma reunião em que estiveram presentes as autoridades civis e militares, que decidiram pôr em prática um plano de defesa da cidade, que consistiu na criação de postos de vigilância fixos, constituídos por militares e civis em diversos locais dos morros que rodeavam a cidade, a que se juntaram patrulhas móveis. De reserva, no quartel, estava um piquete pronto para intervir.

Apesar dos receios existentes, não foi cancelado o habitual baile de fim de ano na ARA-Associação Recreativa do Amboim. Porém, em lugar de um conjunto musical (que, salvo erro, viria de Nova Lisboa), o baile que, ainda assim, teve alguma afluência, foi “abrilhantado” apenas com música gravada.


Gabela -Contacto 7  
(Conjunto formado por jovens estudantes do ensino secundário, formado em data posterior a 1966)

((Foto "roubada" ao Mazungue ( www.mazungue.com/ ))

Nessa noite eu fiquei incumbido de fazer a ronda aos postos de vigilância entre a meia-noite e as duas da madrugada. No entanto, não podia desperdiçar a ocasião de estrear o fato que tinha mandado fazer especialmente para este baile, pelo que não deixei de comparecer na ARA , onde dancei até à meia-noite menos um quarto. A essa hora, conforme combinado, tinha o jipe da ronda à porta, e fui ao quartel fardar-me e dar início ao “trabalho”.

Duas horas depois, voltei a vestir o fato e regressei à ARA. Desilusão: o baile já tinha acabado, num morno ambiente de fim de festa, segundo me contaram.

Por sugestão de um camarada, ainda fomos - quatro ou cinco - para a Boa Entrada, na esperança de que a festa no clube da CADA (Companhia Angolana de Agricultura) estivesse mais animada. Batemos com o nariz na porta, porque também por lá o clima não era diferente, e o pessoal já tinha ido dormir.


Clube da CADA

(Foto de Sofia Peixoto)

Foi assim a nossa festa, falhada, de passagem de ano, de 1966 para 1967, na Gabela.

É claro que, como prevíramos, ninguém atacou coisa nenhuma. Os supostos elementos subversivos, estavam era a divertir-se à grande nos seus batuques, até de manhã, que bem os ouvíamos nos nossos quartos.

Enfim, não perdi tudo, pois sempre estreei o fato de alpaca, feito pelo alfaiate local, Sr. Marchante.

E este seria o meu último baile na ARA. Uma semana antes do Carnaval sofri um grave acidente de viação e fui evacuado para Luanda. Uma história para contar mais tarde.

domingo, 27 de novembro de 2011

Fotografias do Morais Soares





O Morais Soares, que era o “patrão” das transmissões da CArt 738, enviou-me as fotografias que publico hoje, e que lhe agradeço.

A fotografia de cima mostra-nos a equipa de transmissões, que fazia milagres para conseguir que alguns dos velhos e cansados rádios, se mantivessem operacionais.

Da esquerda para direita, temos o primeiro-cabo operador cripto Dias, o "Setúbal", o furriel-miliciano Morais Soares, o primeiro-cabo Custódio, o primeiro-cabo Bastos (?), o primeiro-cabo Sousa, e o primeiro-cabo Nogueira (?).

Embora não me recorde deste local da povoação, não tenho dúvidas de que a fotografia foi tirada em Lucunga, porque o Morais Soares está de chinelos havaianos, devido a uma micose renitente, que o impediu durante muito tempo de reforçar a nossa equipa de futebol.



No intervalo do jogo de futebol a que me referi em “Um Domingo Singular”, o comandante do BArt 741 deixou-se fotografar na companhia de um grupo de militares da CArt 738.

Da esquerda para a direita, temos o furriel-miliciano Morais Soares, o furriel-miliciano Rodrigues, o segundo-sargento Ferreira da Silva, o furriel-miliciano Abreu, não sei quem é o fotografado seguinte, que não pertencia à CArt 738, depois, impecável na sua elegante farda de passeio, o primeiro-sargento Ramalho, o alferes-médico Salazar Leite, o comandante, tenente-coronel Soares, o alferes-miliciano Morgado, o alferes-miliciano Casimiro e o furriel-miliciano enfermeiro Fernandes.




Apesar de ser um dos fotografados, não sabia da existência desta foto, que foi feita na Gabela, como o comprova a indicação “Foto Branco” (que mencionei aqui) que aparece em baixo, à direita.

Não consigo identificar nem o local da cidade, nem o evento a que estávamos a assistir. À primeira vista parece ser um jogo de um dos torneios futebol de 5, e é essa a opinião do Morais Soares. Mas tenho dúvidas, sobretudo porque não me recordo de existir uma bancada parecida com esta no recinto de jogos na Sede do ARA.

Na foto apenas consigo identificar, assinalados com as letras A, B e C, o Vaz, eu próprio e o Morais Soares.

Os restantes espectadores são civis, residentes na cidade, mas, embora um ou outro rosto me pareça familiar, não consigo identificar nenhum deles.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

ARA-Associação Recreativa do Amboim



Sede da Associação Recreativa do Amboim, pós-independência, em ruinas


Sede do ARA, reconstruida

A Associação Recreativa do Amboim, habitualmente designada pela população como o ARA, era a principal agremiação associativa da Gabela, estando a sua actividade voltada, não só para a componente recreativa que justifica o seu nome, mas também, e não menos importante, para a desportiva.

Quando a CArt 738 chegou ao quartel da Sétima, na Gabela, vivia-se na cidade um clima de grande euforia, porque a equipa de futebol do ARA tinha subido ao principal escalão do futebol angolano.

Dessa equipa faziam parte alguns militares da Companhia que fomos render, tendo ficado na Gabela e no ARA , depois de desmobilizados, três desses camaradas: o Cipriano, avançado-centro (como então se chamava ao actual ponta de lança) de grande qualidade, que era muito popular, sobretudo entre a juventude feminina local, o Júlio e o Carlos Afonso. Estes dois, além da ligação ao futebol do ARA, continuaram na Gabela por razões do coração, tendo o Júlio casado com uma moça gabelense, nesse ano de 1966.

Pouco depois de nos termos instalado, apareceu no quartel um dirigente do ARA, o Sr. Carpinteiro, responsável pela secção de futebol, que vinha convidar a equipa da Companhia para disputar com o ARA um jogo amigável, que serviria de treino, no campo da Aricanga, onde jogava o clube.

O que nós não sabíamos ao aceitar o convite, era que do desempenho nesse jogo – que o ARA venceu por 3-1 – viria a resultar um convite a metade da equipa da CArt 738, para fazer parte do quadro de jogadores do ARA.


Campo da Aricanga (esta bancada não existia em 1966)
(Foto de Rui Santos)

Apesar dos reforços, praticamente profissionais, que o clube tinha contratado para fazer face às exigências da nova realidade desportiva – com alguns nomes sonantes ao nível regional, dos quais se destacava além do Juca, um defesa-central, salvo erro do Portugal de Benguela, que tinha impressionado de tal modo os responsáveis da Académica de Coimbra contra quem jogou durante uma digressão desta equipa por Angola e Moçambique, que integrou a equipa durante os restantes jogos dos academistas, o guarda-redes Lima, do Sporting do Lobito – o Oliveira, o Rebelo e o Peixoto, eram presença efectiva nos jogos que o ARA disputou até ao fim da nossa comissão de serviço.

Além destes camaradas, fizeram parte da equipa, o guarda-redes Custódio – que na minha opinião (e não só) era melhor do que o Lima, mas havia que justificar o custo da transferência deste, bem como o seu vencimento mensal, enquanto o Custódio era totalmente amador – o Resende, o Brandão Pacheco, e eu próprio (para minha surpresa, que até saí, lesionado, durante a segunda parte do referido jogo-treino).

Nessa época, o ARA viria a fazer um campeonato surpreendente, com resultados inesperados, como, por exemplo, a vitória sobre o ASA – então o campeão crónico de Angola – em Luanda, ou empate, também em Luanda, com a forte equipa do Futebol Clube de Luanda.

Vivia-se, por isso, um período de grande euforia desportiva, na Gabela, com muitos gabelenses a encherem o campo da Aricanga, ou a acompanharem a equipa nas suas deslocações.


Ringue do ARA, situado nas traseiras da sede.
Aqui disputavam-se os jogos dos torneios de futebol de 5


A vertente recreativa do clube consistia, sobretudo, na realização de animados e concorridos bailes.

No ano de 1966 quase todos os bailes foram abrilhantados por um conjunto musical local, de cujo nome não me recordo, lamentavelmente. Mais lamentável ainda porque me recordo perfeitamente da depreciativa designação da autoria de um dos meus camaradas, quiçá injustamente, e pela qual passámos a nomeá-lo: “Toca toca, que hás-de aprender!”

Nem sequer o nome do seu simpático vocalista, me ficou, embora a minha perversa memória não tenha esquecido que lhe chamávamos “Conde de Mont'Ana”.

Irreverências que a juventude talvez ajudasse a explicar.

E, a propósito dos bailes do ARA, quero deixar expresso, como forma de reconhecimento, um exemplo da generosa hospitalidade com que fomos recebidos pelos gabelenses.

No primeiro baile, descobrimos, quando entrámos, que havia ceia, com acepipes que cada família trazia de casa, sendo as bebidas fornecidas pelo bar do clube.

Sem família, nem casa, eu e alguns dos meus camaradas presentes no baile, ocupámos uma mesa, onde, solitárias, apenas tínhamos as imprescindíveis Cuca ou Nocal, enquanto, em redor, as mesas se iam enchendo com as vitualhas confeccionadas nas cozinhas locais.

Mas a solidão das nossas cervejas duraria pouco. Não tardou que a mesa se fosse compondo, fruto da solidariedade geral, que acabou por encher a nossa mesa de petiscos em quantidade bem maior do que aquela que éramos capazes de consumir (apesar de, nesse tempo, o estômago de alguns de nós parecer furado. Sobretudo se nos agradava o que vinha para o prato.)

Este não foi um caso isolado. Sempre que havia baile, com ceia, já sabíamos que não precisávamos de forrar muito o estômago ao jantar. Havia que deixar espaço.


Mas o mais divertido era o baile propriamente dito, bem como o excepcional ambiente daqueles serões.

É certo que os nossos 23 ou 24 anos também ajudavam. E de que maneira!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Fotos do António Passarinho (III)




Termino hoje a publicação das fotos que o Passarinho me enviou, esperando que esta não tenha sido a sua última colaboração, que agradeço.

Na foto de cima abancam, bem dispostos, o Pereira, mais conhecido por Pinóquio, o Passarinho e o Daniel. Embora a chipala me pareça familiar, não consigo lembrar-me do nome do camarada que está de tronco nu.

Como já escrevi em texto anterior, o Passarinho e o Daniel “oficiavam” na messe, e aqui devem ter providenciado um petisco extra-programa.



Esta fotografia deve ter sido tirada a bordo de uma GMC. Não me lembro dos nomes de todos eles, pelo que ficarei grato se alguém com melhor memória vier em meu socorro.

Nas mão de um dos fotografados pode ver-se um dos garrafões de vinho verde a que me referi neste texto.

Aqui ficam os nomes de que me lembro (creio que todos eles eram  condutores-auto):

1 – Passarinho; 2 – Lobo (1325); 3 - (?); 4 – Daniel (?); 5 – Tavares;6 – Oliveira; 7 (?); 8- (?); 9(?);




Esta fotografia deixa-me um tanto intrigado. Parece-me identificar nela alguns dos militares da minha secção, mas não sou um dos retratados, nem sei em que circunstâncias foi tirada.

Em cima deste velho jipão da 2ª Grande Guerra, estão:

1- Nunes da Silva; 2 – Mourão; 3 – Passarinho; 4 – Morgado(?); 5 - (?); 6 - (?); 7 (?); 8 – João Silva (?); 9 – Cerqueira (?); 10 - (?); 11 - (?);




O Passarinho, e um camarada que não consigo identificar devem ter ido à caça.



No Rio Coji, que passava a poucos quilómetros do quartel, em Lucunga, abundavam quer os jacarés, quer os hipopótamos, que observávamos com frequência, sobretudo na margem direita do rio. Os hipopótamos pastavam; os jacarés talvez estivessem a apanhar sol, ou a tentar caçar alguma presa desprevenida.

Aqui, temos o Passarinho com uma cria de jacaré.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A Boleia do Chico Nazaré


Quibala

(Foto de autor desconhecido)

Depois de ter gozado dez dias de férias em Luanda, regressei à Gabela faz hoje 45 anos.

O transporte público entre a Gabela e Luanda consistia numa carreira diária de autocarro, que além de demorar muitas horas, era extremamente desconfortável.

Na véspera da viagem para Luanda, procurei encontrar alguém que estivesse para fazer a viagem e me desse boleia. Não consegui, mas, para minha surpresa, quando no Café Central perguntei se alguém iria viajar no dia seguinte, o Sr. Barradas, proprietário de um stand de máquinas agrícolas (creio que também vendia automóveis, mas não tenho a certeza), pegou nas chaves e nos documentos do seu carro e estendeu-mos, pondo-o à minha disposição.

Não aceitando, embora, a oferta, não deixou de me sensibilizar a disponibilidade demonstrada por alguém que conhecia socialmente, mas com quem não tinha grande proximidade.

No dia seguinte fui no jeep que todas as quintas-feiras ia até à Quibala levar o correio militar. A Quibala era uma espécie de entroncamento rodoviário, e foi fácil conseguir uma boleia até Luanda.


Ilha de Luanda

(Foto de Ivo Cardoso)

Na véspera do meu regresso, corri as capelinhas em Luanda, de novo à procura de uma boleia. Tive mais sorte do que dez dias antes; pouco depois de iniciar a busca encontrei o gabelense Chico Nazaré, filho de um comerciante que acumulava com o cultivo de café, e que se prontificou a dar-me boleia, combinando o encontro para o dia seguinte às 14 horas, no Hotel Katekero, onde estava hospedado.

Compareci à hora marcada, mas do Chico nem sinal. O recepcionista informou-me que ele tinha regressado tarde na noite anterior, e que tinha pedido para o acordarem precisamente às 14 horas.

Meia hora depois desceu e convidou-me para ir comer qualquer coisa, para depois seguirmos.

Depois de comer chamou um táxi. E quando lhe perguntei onde tinha o carro, riu-se e respondeu que o tinha no Aeroporto. Ainda pensei que ele tivesse acabado lá a noite, no bar e, depois de bem bebido, tivesse voltado para o hotel de táxi, mas depois lembrei-me que ele tinha um pequeno avião, com o qual tinha disputado e ganho a Volta Aérea a Angola desse ano.



Luanda - Hotel Katekero

(Foto de autor desconhecido)

Chegados ao Aeroporto, lá estava o avião pronto para a viagem, que à excepção dos minutos que antecederam a aterragem, correu bem.

Sobrevoámos a reserva da Quiçama, onde ele desceu até uma altura que me deixou um bocado apreensivo, para que eu visse a fauna que ali abundava, mas que acabava por debandar espavorida com o barulho do motor.

Com o dia a avançar, e em África anoitece cedo e quase bruscamente, sem aquele anoitecer lento a que estamos habituados, ele receava que não fosse possível aterrar na Gabela por causa dos densos nevoeiros que cobriam a cidade com frequência. A alternativa era descermos em Porto Amboim, o que não me importava nada, já que aproveitava para abraçar os meus camaradas que ali estavam aquartelados.

Mas o dia estava suficientemente claro, e, depois de sobrevoar a cidade por duas vezes, dando sinal para o pai mandar uma viatura ao aeródromo, entreteve-se a dar umas cambalhotas, com o intuito de me fazer vomitar tudo o que eu tivesse no estômago. Ao pé daquilo, a montanha russa era uma brincadeira de meninos. Não conseguiu, todavia, os seus desígnios; fazendo das tripas coração, aguentei-me, não sei bem como, até o avião se imobilizar na pista. Mas ainda não estava bem parado e já eu saltava e corria para junto do hangar onde acabei por vomitar.


Gungas e Zebras na Reserva da Quiçama

(Foto de Ana Tendinha)

De qualquer forma, o Chico disse-me que eu tinha passado a prova.

Desta viagem tirei duas conclusões. Angola era mesmo um lugar especial. Em que lugar deste nosso Portugal poderia eu esperar, ainda por cima nessa época, que alguém com quem tinha relações meramente circunstanciais, pusesse o seu automóvel à minha disposição, ou que me desse uma boleia de avião?

Mas não deixei de ter um desapontamento nesse dia de S. Martinho: corri toda a cidade, mas não consegui encontrar uma loja onde houvesse castanhas à venda.

Lá se foi o projectado magusto às malvas!