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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Fotos do António Passarinho (III)




Termino hoje a publicação das fotos que o Passarinho me enviou, esperando que esta não tenha sido a sua última colaboração, que agradeço.

Na foto de cima abancam, bem dispostos, o Pereira, mais conhecido por Pinóquio, o Passarinho e o Daniel. Embora a chipala me pareça familiar, não consigo lembrar-me do nome do camarada que está de tronco nu.

Como já escrevi em texto anterior, o Passarinho e o Daniel “oficiavam” na messe, e aqui devem ter providenciado um petisco extra-programa.



Esta fotografia deve ter sido tirada a bordo de uma GMC. Não me lembro dos nomes de todos eles, pelo que ficarei grato se alguém com melhor memória vier em meu socorro.

Nas mão de um dos fotografados pode ver-se um dos garrafões de vinho verde a que me referi neste texto.

Aqui ficam os nomes de que me lembro (creio que todos eles eram  condutores-auto):

1 – Passarinho; 2 – Lobo (1325); 3 - (?); 4 – Daniel (?); 5 – Tavares;6 – Oliveira; 7 (?); 8- (?); 9(?);




Esta fotografia deixa-me um tanto intrigado. Parece-me identificar nela alguns dos militares da minha secção, mas não sou um dos retratados, nem sei em que circunstâncias foi tirada.

Em cima deste velho jipão da 2ª Grande Guerra, estão:

1- Nunes da Silva; 2 – Mourão; 3 – Passarinho; 4 – Morgado(?); 5 - (?); 6 - (?); 7 (?); 8 – João Silva (?); 9 – Cerqueira (?); 10 - (?); 11 - (?);




O Passarinho, e um camarada que não consigo identificar devem ter ido à caça.



No Rio Coji, que passava a poucos quilómetros do quartel, em Lucunga, abundavam quer os jacarés, quer os hipopótamos, que observávamos com frequência, sobretudo na margem direita do rio. Os hipopótamos pastavam; os jacarés talvez estivessem a apanhar sol, ou a tentar caçar alguma presa desprevenida.

Aqui, temos o Passarinho com uma cria de jacaré.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A Boleia do Chico Nazaré


Quibala

(Foto de autor desconhecido)

Depois de ter gozado dez dias de férias em Luanda, regressei à Gabela faz hoje 45 anos.

O transporte público entre a Gabela e Luanda consistia numa carreira diária de autocarro, que além de demorar muitas horas, era extremamente desconfortável.

Na véspera da viagem para Luanda, procurei encontrar alguém que estivesse para fazer a viagem e me desse boleia. Não consegui, mas, para minha surpresa, quando no Café Central perguntei se alguém iria viajar no dia seguinte, o Sr. Barradas, proprietário de um stand de máquinas agrícolas (creio que também vendia automóveis, mas não tenho a certeza), pegou nas chaves e nos documentos do seu carro e estendeu-mos, pondo-o à minha disposição.

Não aceitando, embora, a oferta, não deixou de me sensibilizar a disponibilidade demonstrada por alguém que conhecia socialmente, mas com quem não tinha grande proximidade.

No dia seguinte fui no jeep que todas as quintas-feiras ia até à Quibala levar o correio militar. A Quibala era uma espécie de entroncamento rodoviário, e foi fácil conseguir uma boleia até Luanda.


Ilha de Luanda

(Foto de Ivo Cardoso)

Na véspera do meu regresso, corri as capelinhas em Luanda, de novo à procura de uma boleia. Tive mais sorte do que dez dias antes; pouco depois de iniciar a busca encontrei o gabelense Chico Nazaré, filho de um comerciante que acumulava com o cultivo de café, e que se prontificou a dar-me boleia, combinando o encontro para o dia seguinte às 14 horas, no Hotel Katekero, onde estava hospedado.

Compareci à hora marcada, mas do Chico nem sinal. O recepcionista informou-me que ele tinha regressado tarde na noite anterior, e que tinha pedido para o acordarem precisamente às 14 horas.

Meia hora depois desceu e convidou-me para ir comer qualquer coisa, para depois seguirmos.

Depois de comer chamou um táxi. E quando lhe perguntei onde tinha o carro, riu-se e respondeu que o tinha no Aeroporto. Ainda pensei que ele tivesse acabado lá a noite, no bar e, depois de bem bebido, tivesse voltado para o hotel de táxi, mas depois lembrei-me que ele tinha um pequeno avião, com o qual tinha disputado e ganho a Volta Aérea a Angola desse ano.



Luanda - Hotel Katekero

(Foto de autor desconhecido)

Chegados ao Aeroporto, lá estava o avião pronto para a viagem, que à excepção dos minutos que antecederam a aterragem, correu bem.

Sobrevoámos a reserva da Quiçama, onde ele desceu até uma altura que me deixou um bocado apreensivo, para que eu visse a fauna que ali abundava, mas que acabava por debandar espavorida com o barulho do motor.

Com o dia a avançar, e em África anoitece cedo e quase bruscamente, sem aquele anoitecer lento a que estamos habituados, ele receava que não fosse possível aterrar na Gabela por causa dos densos nevoeiros que cobriam a cidade com frequência. A alternativa era descermos em Porto Amboim, o que não me importava nada, já que aproveitava para abraçar os meus camaradas que ali estavam aquartelados.

Mas o dia estava suficientemente claro, e, depois de sobrevoar a cidade por duas vezes, dando sinal para o pai mandar uma viatura ao aeródromo, entreteve-se a dar umas cambalhotas, com o intuito de me fazer vomitar tudo o que eu tivesse no estômago. Ao pé daquilo, a montanha russa era uma brincadeira de meninos. Não conseguiu, todavia, os seus desígnios; fazendo das tripas coração, aguentei-me, não sei bem como, até o avião se imobilizar na pista. Mas ainda não estava bem parado e já eu saltava e corria para junto do hangar onde acabei por vomitar.


Gungas e Zebras na Reserva da Quiçama

(Foto de Ana Tendinha)

De qualquer forma, o Chico disse-me que eu tinha passado a prova.

Desta viagem tirei duas conclusões. Angola era mesmo um lugar especial. Em que lugar deste nosso Portugal poderia eu esperar, ainda por cima nessa época, que alguém com quem tinha relações meramente circunstanciais, pusesse o seu automóvel à minha disposição, ou que me desse uma boleia de avião?

Mas não deixei de ter um desapontamento nesse dia de S. Martinho: corri toda a cidade, mas não consegui encontrar uma loja onde houvesse castanhas à venda.

Lá se foi o projectado magusto às malvas!

domingo, 6 de novembro de 2011

Euclides Morais



O Morais Soares enviou-me recentemente quatro fotografias, cuja publicação inicio hoje, com a foto do Euclides Morais, que foi primeiro-cabo no 4º pelotão da CArt 738.

No texto que intitulei “Novas de Toronto” escrevi que ele tinha emigrado para o Canadá, onde o Morais Soares o tinha encontrado algumas vezes, embora não soubesse dele há muito tempo.

Entretanto, o Morais Soares contactou uma irmã do Euclides que o informou que este morrera há alguns anos, ao mesmo tempo que prometeu enviar-lhe uma fotografia do tempo em que esteve em Angola. É essa foto que encima este post.

Apesar da sua juventude, o Euclides Morais já era, na época em que prestou serviço militar, um profissional da construção civil de reconhecido mérito. Essas qualidades foram realçadas num comentário que o Sebastião Fagundes, que foi seu comandante de pelotão, fez ao texto acima referido:

Um viva pela chegada do Morais Soares. Dado o seu trato afável e normal boa disposição, penso que todos se lembram dele. Vamos folgar com a sua participação no próximo convívio.

Gostei de ter notícias,embora parcas, do Euclides Morais. Era 1º Cabo do meu pelotão e da secção do Miranda Dias. Era um competente profissional da construção civil e, por isso, esteve intimamente ligado às obras de reconstrução de Lucunga e à construção do monumento da companhia e de um utilíssimo forno. Por esta actividade não militar era, por vezes, poupado a determinadas operações o que não era muito bem visto por alguns (poucos) camaradas. Era muito bom moço.”


Além da importância do seu trabalho na melhoria das nossas condições de alojamento em Lucunga, referida pelo Sebastião Fagundes, a sua intervenção foi igualmente determinante na construção da “Casa do Soldado”, na Gabela.

Embora o 4º pelotão estivesse aquartelado em Porto Amboim, o Euclides Morais foi requisitado pelo comandante de Companhia e, durante o tempo que duraram as obras, permaneceu na Gabela.

Com este texto, porventura modesto para os seus méritos, quero prestar a minha homenagem ao Euclides.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

As Fotos do António Passarinho - II (ou o 1º sargento Ramalho)


Desde que escrevi em textos anteriores que o capitão Carvalho não perdia uma oportunidade de me “premiar” encarregando-me do cumprimento das tarefas extraordinárias, e quase nunca agradáveis, que iam surgindo, que tinha a intenção de trazer ao blogue o nosso 1º Ramalho, que julgo ter estado na origem das manifestações de “simpatia” do comandante da Companhia para comigo.

O 1º sargento Ramalho aparece duas vezes em duas das fotografias que o António Passarinho me mandou, cuja publicação iniciei no último post, o que me serve de pretexto para escrever sobre ele.

Em Outubro de 1965, vim de férias à Metrópole, como então era designado o Portugal europeu nos territórios ultramarinos. Duas ou três semanas antes da viagem, o 1º Ramalho perguntou-me se eu não me importava de trazer uma lembrança para a filha (pré-adolescente à época), que residia com a mãe algures no Alentejo, fazendo-a seguir por via postal a partir de Lisboa.


Em Lucunga, na messe de sargentos, com militares de outra Companhia (CCaç.715?)
Apenas identifico o 1º sargento Ramalho, à esquerda, em 2º plano, o 2º sargento Ruas, à cabeceira da mesa, o Passarinho, de pé, por trás do Ruas, o 2º sargento Ramiro, à esquerda do Ruas. Na mesa mais próxima do fotógrafo, o civil que olha para a objectiva é o comerciante Santos. Na mesa do fundo, do lado direito, a olhar para o lado, está o furriel-miliciano Azevedo.
(Identificações obtidas com a ajuda do alferes-miliciano Fagundes e do furriel-miliciano Morais Soares, a quem agradeço)

Respondi que não me importava, desde que a “lembrança” respeitasse duas condições: que não fosse muito volumosa, porque a minha mala de viagem era de tamanho médio, e eu próprio queria comprar lembranças em Luanda, além de trazer parte da roupa civil, que tinha levado e que não me fazia lá falta; e que não fosse muito pesada, porque só tinha direito a 20 kgs. de bagagem, no avião.

Poucos dias antes de eu viajar, e sem termos voltado a falar no assunto (eu até pensava que ele tinha desistido), mandou o 1º cabo escriturário, Ismael ao meu quarto, com a “lembrança”, que consistia num pacote com um tapete decorativo, que ocupava três quartos do espaço da mala.

Mandei o tapete de volta, com o recado de que a “lembrança” não correspondia às condições combinadas. Se o nosso 1º a quisesse substituir por outra de dimensões e peso mais razoáveis, tudo bem; se não, nada feito.

Nem o Ismael voltou, nem o 1º Ramalho voltou a falar na encomenda.


Em Lucunga, na messe 
A contar da esquerda, sentados: 1º sargento Ramalho, 2º sargento Ruas, 2º sargento Ferreira da Silva, furriel-milº Morais Soares e 2º sargento Ramiro; de pé: Passarinho e Daniel

Não falou, mas não se esqueceu. As nossas relações que nunca tinham sido propriamente amistosas, pioraram, embora sem atritos visíveis por terceiros.

De qualquer modo, durante o comando dos dois primeiros substitutos do Capitão Rubi Marques - o capitão Hélio Nunes Xavier, primeiro, e o tenente Simões da Silva, depois, com os quais tive um bom relacionamento - não tive motivos para supor que ele tivesse procurado influenciá-los negativamente em relação a mim.


Pouco depois da chegada do capitão Carvalho, apercebi-me de que o novo comandante estava de pé atrás no que me dizia respeito, sem que eu percebesse porquê.

Como todos os meus camaradas, eu tinha tarefas diárias no quartel, que cumpria, como sempre tinha feito. Além de fazer os serviços da escala (sargento de dia à unidade e sargento da guarda), dava, todos os dias úteis, aulas regimentais aos militares que não tinham completado a 4ª classe. Nos últimos dois meses tive o importante apoio do director da escola primária local, onde, com aproveitamento, acabariam por fazer exame.

Complementarmente, era monitor de desporto da Companhia, tarefa que não me absorvia muito tempo. No essencial, tinha de fazer um relatório mensal das actividades desportivas, que seguia para o Batalhão, onde julgo que ninguém o lia.

Não via, por isso, razão para a secura com que o novo comandante me falava. Até que um dos meus camaradas me disse que tomasse cuidado, porque o 1º Ramalho andava a “emprenhar o capitão pelos ouvidos”.

Nesse segundo ano de comissão, foram poucos os camaradas que vieram de férias à Metrópole. Alguns, para pouparem, não foram para parte nenhuma e ficaram na Gabela, continuando alojados no quartel, sem qualquer problema.

Também era normal a antecipação da apresentação, por conveniência de entrar numa determinada ordem (mais favorável) na escala de serviço.

Em 1 de Novembro de 1966, entrei de férias, tendo viajado para Luanda, onde fiquei 10 dias, findos os quais regressei à Gabela, onde cheguei na tarde do dia 11. O resto das férias seriam passadas em casa de familiares que residiam numa fazenda a 15 Kms. da cidade, mas nessa noite fiquei no quartel, dado o adiantado da hora.


Em Lucunga, na messe (Convívio com camaradas da CCaç 715)
Em primeiro plano, à esquerda, o furriel-milº Miranda Dias, a seguir (?), de camisa branca o furriel-milº Sousa, ao fundo, a meter algo na boca, o furriel-milº Mourão (?), furriel-milº Fonseca, furriel-milº Carvalho (CCaç 715), e mais perto da objectiva, o furriel-milº Vaz; ao fundo de pé, o Passarinho;

No dia seguinte, depois do pequeno almoço, o 1º Ramalho veio ter comigo dizendo-me que o comandante não me autorizava a ficar alojado no quartel, por estar de férias. Disse-lhe que não iria ficar, mas perguntei por que razão outros podiam e eu não. Respondeu que não sabia e que eram ordens do comandante.

Três dias antes do fim do mês, interrompi as férias, entrando de serviço no dia seguinte, o que me deixaria livre na passagem do ano. Fui ao render da guarda, entrei de sargento de dia, e qual não foi o meu espanto, quando, estando na secretaria a conversar com o Nunes da Silva, já perto do meio-dia, entra o 1º sargento, que me disse que tinha ido falar com o comandante, e que este decidira que eu não podia interromper as férias, pelo que também não podia estar de serviço. Todavia, fazia-me o favor de me deixar ficar a dormir no quartel.

Deu-me uma fúria, tirei a pistola do coldre, peguei-lhe pelo cano e, se não fosse o Nunes da Silva e o 1º cabo escriturário agarrarem-me, tinha-lhe dado uma coronhada na cabeça, tal era a minha raiva.

Acabei por abandonar o quartel, só voltei no fim da licença, e mais convencido fiquei da sua influência negativa (bem como da sua má consciência), quando constatei que do meu gesto impensado e grave não tinham resultado quaisquer consequências.

Depois de regressarmos, só encontrei o 1º Ramalho uma vez, em Lisboa, na Praça do Comércio. Estava colocado numa repartição do Ministério do Exército, e falou-me como se fôssemos amigos, sugerindo que, como eu trabalhava ali próximo, nos encontrássemos para almoçar. Deu-me, então, o seu contacto telefónico, que nunca utilizei.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As Fotos do António Passarinho (I)





Embora todos os rostos me sejam familiares, apenas consigo identificar o Vítor Verdasca, 2º a contar da esquerda, atrás, o Passarinho, que está à sua frente, e o último, que julgo ser o Oliveira (a quem encontrei muitas vezes no Porto de Lisboa, onde era manobrador de empilhadores) . Todos eram condutores-auto.

Em Lucunga, as viaturas em condições de circular eram em número reduzido, pelo que a alguns condutores-auto da CArt 738 foram atribuidas tarefas que nada tinham a ver com a sua especialidade. Ao Passarinho, que era um desses condutores-auto, coube, juntamente com o camarada de especialidade, Daniel Ferreira, a nobre tarefa de pôr – e de manter – operacional a messe de oficiais e sargentos. O Daniel cozinhava, enquanto o Passarinho o apoiava, ao mesmo tempo que se encarregava, de forma irrepreensível, do serviço nas salas de refeições.

Podem ter-se perdido dois bons condutores-auto, mas garanto, sem receio de contraditório, que ganhámos dois excelentes “profissionais” do ramo da restauração, que, sob a supervisão do furriel-vagomestre Vaz, nos tiveram sempre bem alimentados.

Cumprindo uma promessa que me tinha feito, o Passarinho enviou-me algumas fotos desse tempo, cuja publicação inicio hoje, com duas fotos tiradas em Novo Redondo, no dia em que completámos dois anos de comissão.

Curiosamente, nessa data encontrava-me em Luanda, onde me tinha deslocado por duas razões.

Em Agosto de 1966, durante um jogo de futebol realizado no campo do quartel, fui atingido com violência no olho esquerdo, por uma bola chutada à queima-roupa por um dos jovens moradores da sanzala Sétima, de que resultou uma lesão permanente, com perda de visão, que viria a ser avaliada em 10% pelos médicos militares, mas que oftalmologistas civis avaliaram em 30%. Um dos motivos da minha estadia em Luanda, devia-se a uma consulta no Hospital Militar de Luanda, marcada para aquela data, que se destinava a avaliar o evoluir da lesão.

Nesta foto identifico o Oliveira (?), 2º a contar da esquerda, a seguir o enfermeiro, Espanhol, o 5º é o Lionídio Torcato, o 8º o Passarinho, e o 9º, mais abaixo, o Verdasca. Não me lembro dos nomes dos outros.

Aproveitando essa viagem, o capitão Carvalho encarregou-me (juntamente com um cabo e um soldado – de quem já não recordo os nomes –, bem como do condutor do Land Rover que nos transportou), de conduzir um dos nossos militares à Casa de Reclusão de Luanda, para cumprir uma pena de 3 anos de prisão a que a justiça militar o tinha condenado, por se recusar a casar com uma jovem com quem tinha mantido um relacionamento íntimo, quando ainda era civil.

Esta foi uma das tarefas mais espinhosas que desempenhei, não só durante os quatro anos e meio em que prestei serviço militar, mas também em toda a minha vida. Foi um momento muito penoso aquele em que o deixámos na prisão e nos despedimos dele.


Era um jovem educado, e na Companhia todos lamentávamos a sorte que o esperava (causada por uma situação que, a acontecer hoje, não passaria de uma nota de pé de página na sua vida), mas, embora alguns de nós tentássemos convencê-lo a evitar a prisão, casando, compreendíamos e respeitávamos as razões que o levaram a preferir o longo período de prisão (julgado num tribunal civil nunca teria sido condenado a mais de dois anos de reclusão, na pior das hipóteses). Não voltei a ter notícias dele.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

No quartel de Novo Redondo



Novo Redondo - Avenida Marginal

Em Novembro de 1966, os altos comandos militares tinham um problema bicudo para resolver: a escassez de efectivos ainda não tinha permitido que fosse efectuada a rendição do Batalhão que estava aquartelado em Nova Lisboa (salvo erro, o Batalhão de Artilharia 701), que já tinha completado 30 meses de comissão. O descontentamento do pessoal – que via os dias a passarem e eles sem embarcarem de regresso, como esperavam e era devido – era mais do que evidente, e receava-se que a situação se tornasse incontrolável.

Embora as comissões de serviço tivessem, oficialmente, a duração de 24 meses, na prática prolongavam-se por mais tempo. Era raro alguma unidade regressar antes de completados 26 meses, podendo mesmo continuar até aos 27 meses e, em casos excepcionais, até aos 28 meses. Trinta meses era um caso nunca visto.

Para resolver a embrulhada, foi decidido o alargamento parcial da área operacional de cada um dos Batalhões cujas zonas confrontavam com a zona de actuação do referido Batalhão, libertando desse modo aquela unidade, e possibilitando o seu regresso.

Em consequência dessa decisão, o comando do meu Batalhão (BArt 741), foi transferido para o Lobito, sendo substituido em Novo Redondo pelo comando da minha Companhia (Cart 738), conjuntamente com o 1º pelotão, ao qual eu pertencia.

Dificuldades logísticas impediram que a substituição do BArt 741 pelo comando da CArt 738 se fizesse simultaneamente, pelo que foi resolvido enviar uma secção reforçada com mais 5 elementos, mais o pessoal de apoio (cozinheiro, enfermeiro, condutor-auto, etc.), para ocupar o quartel provisoriamente.

A minha secção

Em baixo, a contar da esqª: João Palhares, Manuel Lopes, Brandão Pacheco e Albino Marinho;

Em cima (mesma ordem):Manuel Morgado, Carlos Fonseca, Casimiro Cerqueira e Armindo Pacheco;

Já aqui escrevi anteriormente como o capitão Carvalho, meu comandante de Companhia, gostava de me “premiar” com os serviços extraordinários que iam surgindo (a minha teoria sobre a origem dos seus “motivos” será objecto de outro texto). Também desta vez fui destacado para ir para Novo Redondo comandar este reduzido grupo. Tão reduzido, que nem sequer dava para colocar os habituais postos de sentinela. Durante o dia ficava um soldado de plantão à porta de armas. Durante a noite, a segurança duplicava: além do militar da porta de armas (já não de plantão, mas a fazer guarda normal, com rendição de 4 em 4 horas), colocava outro nas traseiras do quartel, com o mesmo regime de rendição, mas sem posto fixo.

Não me recordo durante quanto tempo durou esta situação um tanto ridícula (o comandante militar da capital do distrito era um furriel-miliciano), mas julgo que se terá prolongado por duas semanas, pelo menos.

Duas semanas que não foram inteiramente desagradáveis. O quartel ficava situado perto da praia (a distância não ultrapassaria os 400 metros), e todas as manhãs o pessoal que não tinha tarefas distribuidas, ia para a praia fazer exercício, dar uns pontapés na bola e, claro, tomar banho.

Foi numa dessas manhãs que teve lugar, na praia, o episódio com o tenente-coronel Soares, que contei aqui.


Em exercícios, na praia de Novo Redondo

Quando, finalmente, o comando da Companhia e o meu pelotão chegaram, já eu estava completamente ambientado à cidade. Não estava era preparado para a surpresa que me esperava. O primeiro-sargento Ramalho (meu “grande amigo” desde Lucunga) disse-me que o capitão Carvalho, tendo em consideração o grande número de amizades que eu tinha feito na Gabela, decidira fazer-me um favor, e transferira-me para o 2º pelotão, que permanecia naquela cidade, pelo que era melhor começar a arrumar as minhas coisas para fazer a viagem de regresso.

Não me valeu de nada ter ido falar com o comandante, que manteve a decisão, confirmando que pensava que era isso que eu preferia, mas que não podia alterá-la, pois o meu camarada que me iria substituir podia sentir -se prejudicado, já que tinha ficado muito satisfeito com a transferência para Novo Redondo.

Na realidade, o que me aborreceu mais não foi ter voltado para a Gabela, cidade de que gostava, e onde realmente tinha alguns amigos; do que não gostei mesmo foi de ter mudado de pelotão, apesar de não ter nada contra o seu comandante, alferes Morgado, nem contra os restantes camaradas, pois tinha um bom relacionamento com todos eles. Mas o meu pelotão era o 1º, onde estivera desde a sua formação, e no qual permaneci em espírito durante o resto da comissão.

Mas, como se dizia na tropa “El-Rei manda marchar, não manda chover!”

Então, mesmo sem chuva, marchei para a Gabela.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

CISMI - Convívio



Encontrei num jornal de Loulé a informação que acima reproduzo, no pressuposto de que possa interessar a algum dos leitores.

Confesso que desconhecia o facto da existência deste tipo de encontros naquele que, durante mais de quatro meses, foi também o meu quartel. Numa rápida pesquisa no Google concluí que este não é o primeiro convívio de antigos militares que ali tem lugar.

Pelo contrário, abertos, tal como neste caso, a todos os militares que ali serviram, houve pelo menos outro em 2008.



CISMI – Vista parcial da Parada

Já em Maio deste ano, os militares do Curso de Sargentos Milicianos de 1961, ali comemoraram os 50 anos da sua incorporação.

Passam hoje 48 anos sobre a data do juramento de bandeira da 2ª incorporação de 1963, de que fiz parte.

Pouco me recordo da cerimónia, que teve lugar a uma sexta-feira. Apenas me lembro que, ao contrário do que esperávamos, não tivemos um período especial de folga antes de começarmos a especialidade. Na segunda-feira seguinte iniciávamos um novo ciclo. Nem o Villaverde Cabral, que se casou no dia seguinte, teve direito a licença de casamento.


Salto para o galho 
(a saltar de pernas abertas, este deve ter-se aleijado)

Embora dura e de grande exigência física, não tive especiais dificuldades durante a instrução, se exceptuar as primeiras experiências no pórtico.

Nem o salto para o galho, que era o papão com que os amigos mais experientes nos assustavam, foi difícil. Bastava termos cuidado e saltarmos de pés juntos, para não chocarmos no poste com partes mais sensíveis do corpo. O que paralisava alguns camaradas na plataforma, antes de saltar, era o medo de cair no vazio. Quando conseguiam o primeiro salto, não havia mais problemas. Se não conseguiam, passavam à categoria de “Amélias”.


Pórtico


O meu problema com o pórtico (que era também o problema de outros), era causado pelas vertigens que me apoquentavam quando subia a um ponto alto, sem apoio. Fazer ginástica e correr naquelas vigas a pelo menos 4 metros do chão e que não teriam mais de 40 centímetros de largura, era assustador.

Tive – eu e os outros – a sorte de ter a compreensão, e a paciência, do alferes Jónatas, que comandava o pelotão, que me deixou “ambientar” aos poucos. Quando, em Dezembro, acabei o CSM, as vertigens tinham desaparecido e eu corria e saltava lá em cima, sem qualquer problema.


CISMI - Porta de Armas