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domingo, 6 de novembro de 2011

Euclides Morais



O Morais Soares enviou-me recentemente quatro fotografias, cuja publicação inicio hoje, com a foto do Euclides Morais, que foi primeiro-cabo no 4º pelotão da CArt 738.

No texto que intitulei “Novas de Toronto” escrevi que ele tinha emigrado para o Canadá, onde o Morais Soares o tinha encontrado algumas vezes, embora não soubesse dele há muito tempo.

Entretanto, o Morais Soares contactou uma irmã do Euclides que o informou que este morrera há alguns anos, ao mesmo tempo que prometeu enviar-lhe uma fotografia do tempo em que esteve em Angola. É essa foto que encima este post.

Apesar da sua juventude, o Euclides Morais já era, na época em que prestou serviço militar, um profissional da construção civil de reconhecido mérito. Essas qualidades foram realçadas num comentário que o Sebastião Fagundes, que foi seu comandante de pelotão, fez ao texto acima referido:

Um viva pela chegada do Morais Soares. Dado o seu trato afável e normal boa disposição, penso que todos se lembram dele. Vamos folgar com a sua participação no próximo convívio.

Gostei de ter notícias,embora parcas, do Euclides Morais. Era 1º Cabo do meu pelotão e da secção do Miranda Dias. Era um competente profissional da construção civil e, por isso, esteve intimamente ligado às obras de reconstrução de Lucunga e à construção do monumento da companhia e de um utilíssimo forno. Por esta actividade não militar era, por vezes, poupado a determinadas operações o que não era muito bem visto por alguns (poucos) camaradas. Era muito bom moço.”


Além da importância do seu trabalho na melhoria das nossas condições de alojamento em Lucunga, referida pelo Sebastião Fagundes, a sua intervenção foi igualmente determinante na construção da “Casa do Soldado”, na Gabela.

Embora o 4º pelotão estivesse aquartelado em Porto Amboim, o Euclides Morais foi requisitado pelo comandante de Companhia e, durante o tempo que duraram as obras, permaneceu na Gabela.

Com este texto, porventura modesto para os seus méritos, quero prestar a minha homenagem ao Euclides.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

As Fotos do António Passarinho - II (ou o 1º sargento Ramalho)


Desde que escrevi em textos anteriores que o capitão Carvalho não perdia uma oportunidade de me “premiar” encarregando-me do cumprimento das tarefas extraordinárias, e quase nunca agradáveis, que iam surgindo, que tinha a intenção de trazer ao blogue o nosso 1º Ramalho, que julgo ter estado na origem das manifestações de “simpatia” do comandante da Companhia para comigo.

O 1º sargento Ramalho aparece duas vezes em duas das fotografias que o António Passarinho me mandou, cuja publicação iniciei no último post, o que me serve de pretexto para escrever sobre ele.

Em Outubro de 1965, vim de férias à Metrópole, como então era designado o Portugal europeu nos territórios ultramarinos. Duas ou três semanas antes da viagem, o 1º Ramalho perguntou-me se eu não me importava de trazer uma lembrança para a filha (pré-adolescente à época), que residia com a mãe algures no Alentejo, fazendo-a seguir por via postal a partir de Lisboa.


Em Lucunga, na messe de sargentos, com militares de outra Companhia (CCaç.715?)
Apenas identifico o 1º sargento Ramalho, à esquerda, em 2º plano, o 2º sargento Ruas, à cabeceira da mesa, o Passarinho, de pé, por trás do Ruas, o 2º sargento Ramiro, à esquerda do Ruas. Na mesa mais próxima do fotógrafo, o civil que olha para a objectiva é o comerciante Santos. Na mesa do fundo, do lado direito, a olhar para o lado, está o furriel-miliciano Azevedo.
(Identificações obtidas com a ajuda do alferes-miliciano Fagundes e do furriel-miliciano Morais Soares, a quem agradeço)

Respondi que não me importava, desde que a “lembrança” respeitasse duas condições: que não fosse muito volumosa, porque a minha mala de viagem era de tamanho médio, e eu próprio queria comprar lembranças em Luanda, além de trazer parte da roupa civil, que tinha levado e que não me fazia lá falta; e que não fosse muito pesada, porque só tinha direito a 20 kgs. de bagagem, no avião.

Poucos dias antes de eu viajar, e sem termos voltado a falar no assunto (eu até pensava que ele tinha desistido), mandou o 1º cabo escriturário, Ismael ao meu quarto, com a “lembrança”, que consistia num pacote com um tapete decorativo, que ocupava três quartos do espaço da mala.

Mandei o tapete de volta, com o recado de que a “lembrança” não correspondia às condições combinadas. Se o nosso 1º a quisesse substituir por outra de dimensões e peso mais razoáveis, tudo bem; se não, nada feito.

Nem o Ismael voltou, nem o 1º Ramalho voltou a falar na encomenda.


Em Lucunga, na messe 
A contar da esquerda, sentados: 1º sargento Ramalho, 2º sargento Ruas, 2º sargento Ferreira da Silva, furriel-milº Morais Soares e 2º sargento Ramiro; de pé: Passarinho e Daniel

Não falou, mas não se esqueceu. As nossas relações que nunca tinham sido propriamente amistosas, pioraram, embora sem atritos visíveis por terceiros.

De qualquer modo, durante o comando dos dois primeiros substitutos do Capitão Rubi Marques - o capitão Hélio Nunes Xavier, primeiro, e o tenente Simões da Silva, depois, com os quais tive um bom relacionamento - não tive motivos para supor que ele tivesse procurado influenciá-los negativamente em relação a mim.


Pouco depois da chegada do capitão Carvalho, apercebi-me de que o novo comandante estava de pé atrás no que me dizia respeito, sem que eu percebesse porquê.

Como todos os meus camaradas, eu tinha tarefas diárias no quartel, que cumpria, como sempre tinha feito. Além de fazer os serviços da escala (sargento de dia à unidade e sargento da guarda), dava, todos os dias úteis, aulas regimentais aos militares que não tinham completado a 4ª classe. Nos últimos dois meses tive o importante apoio do director da escola primária local, onde, com aproveitamento, acabariam por fazer exame.

Complementarmente, era monitor de desporto da Companhia, tarefa que não me absorvia muito tempo. No essencial, tinha de fazer um relatório mensal das actividades desportivas, que seguia para o Batalhão, onde julgo que ninguém o lia.

Não via, por isso, razão para a secura com que o novo comandante me falava. Até que um dos meus camaradas me disse que tomasse cuidado, porque o 1º Ramalho andava a “emprenhar o capitão pelos ouvidos”.

Nesse segundo ano de comissão, foram poucos os camaradas que vieram de férias à Metrópole. Alguns, para pouparem, não foram para parte nenhuma e ficaram na Gabela, continuando alojados no quartel, sem qualquer problema.

Também era normal a antecipação da apresentação, por conveniência de entrar numa determinada ordem (mais favorável) na escala de serviço.

Em 1 de Novembro de 1966, entrei de férias, tendo viajado para Luanda, onde fiquei 10 dias, findos os quais regressei à Gabela, onde cheguei na tarde do dia 11. O resto das férias seriam passadas em casa de familiares que residiam numa fazenda a 15 Kms. da cidade, mas nessa noite fiquei no quartel, dado o adiantado da hora.


Em Lucunga, na messe (Convívio com camaradas da CCaç 715)
Em primeiro plano, à esquerda, o furriel-milº Miranda Dias, a seguir (?), de camisa branca o furriel-milº Sousa, ao fundo, a meter algo na boca, o furriel-milº Mourão (?), furriel-milº Fonseca, furriel-milº Carvalho (CCaç 715), e mais perto da objectiva, o furriel-milº Vaz; ao fundo de pé, o Passarinho;

No dia seguinte, depois do pequeno almoço, o 1º Ramalho veio ter comigo dizendo-me que o comandante não me autorizava a ficar alojado no quartel, por estar de férias. Disse-lhe que não iria ficar, mas perguntei por que razão outros podiam e eu não. Respondeu que não sabia e que eram ordens do comandante.

Três dias antes do fim do mês, interrompi as férias, entrando de serviço no dia seguinte, o que me deixaria livre na passagem do ano. Fui ao render da guarda, entrei de sargento de dia, e qual não foi o meu espanto, quando, estando na secretaria a conversar com o Nunes da Silva, já perto do meio-dia, entra o 1º sargento, que me disse que tinha ido falar com o comandante, e que este decidira que eu não podia interromper as férias, pelo que também não podia estar de serviço. Todavia, fazia-me o favor de me deixar ficar a dormir no quartel.

Deu-me uma fúria, tirei a pistola do coldre, peguei-lhe pelo cano e, se não fosse o Nunes da Silva e o 1º cabo escriturário agarrarem-me, tinha-lhe dado uma coronhada na cabeça, tal era a minha raiva.

Acabei por abandonar o quartel, só voltei no fim da licença, e mais convencido fiquei da sua influência negativa (bem como da sua má consciência), quando constatei que do meu gesto impensado e grave não tinham resultado quaisquer consequências.

Depois de regressarmos, só encontrei o 1º Ramalho uma vez, em Lisboa, na Praça do Comércio. Estava colocado numa repartição do Ministério do Exército, e falou-me como se fôssemos amigos, sugerindo que, como eu trabalhava ali próximo, nos encontrássemos para almoçar. Deu-me, então, o seu contacto telefónico, que nunca utilizei.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As Fotos do António Passarinho (I)





Embora todos os rostos me sejam familiares, apenas consigo identificar o Vítor Verdasca, 2º a contar da esquerda, atrás, o Passarinho, que está à sua frente, e o último, que julgo ser o Oliveira (a quem encontrei muitas vezes no Porto de Lisboa, onde era manobrador de empilhadores) . Todos eram condutores-auto.

Em Lucunga, as viaturas em condições de circular eram em número reduzido, pelo que a alguns condutores-auto da CArt 738 foram atribuidas tarefas que nada tinham a ver com a sua especialidade. Ao Passarinho, que era um desses condutores-auto, coube, juntamente com o camarada de especialidade, Daniel Ferreira, a nobre tarefa de pôr – e de manter – operacional a messe de oficiais e sargentos. O Daniel cozinhava, enquanto o Passarinho o apoiava, ao mesmo tempo que se encarregava, de forma irrepreensível, do serviço nas salas de refeições.

Podem ter-se perdido dois bons condutores-auto, mas garanto, sem receio de contraditório, que ganhámos dois excelentes “profissionais” do ramo da restauração, que, sob a supervisão do furriel-vagomestre Vaz, nos tiveram sempre bem alimentados.

Cumprindo uma promessa que me tinha feito, o Passarinho enviou-me algumas fotos desse tempo, cuja publicação inicio hoje, com duas fotos tiradas em Novo Redondo, no dia em que completámos dois anos de comissão.

Curiosamente, nessa data encontrava-me em Luanda, onde me tinha deslocado por duas razões.

Em Agosto de 1966, durante um jogo de futebol realizado no campo do quartel, fui atingido com violência no olho esquerdo, por uma bola chutada à queima-roupa por um dos jovens moradores da sanzala Sétima, de que resultou uma lesão permanente, com perda de visão, que viria a ser avaliada em 10% pelos médicos militares, mas que oftalmologistas civis avaliaram em 30%. Um dos motivos da minha estadia em Luanda, devia-se a uma consulta no Hospital Militar de Luanda, marcada para aquela data, que se destinava a avaliar o evoluir da lesão.

Nesta foto identifico o Oliveira (?), 2º a contar da esquerda, a seguir o enfermeiro, Espanhol, o 5º é o Lionídio Torcato, o 8º o Passarinho, e o 9º, mais abaixo, o Verdasca. Não me lembro dos nomes dos outros.

Aproveitando essa viagem, o capitão Carvalho encarregou-me (juntamente com um cabo e um soldado – de quem já não recordo os nomes –, bem como do condutor do Land Rover que nos transportou), de conduzir um dos nossos militares à Casa de Reclusão de Luanda, para cumprir uma pena de 3 anos de prisão a que a justiça militar o tinha condenado, por se recusar a casar com uma jovem com quem tinha mantido um relacionamento íntimo, quando ainda era civil.

Esta foi uma das tarefas mais espinhosas que desempenhei, não só durante os quatro anos e meio em que prestei serviço militar, mas também em toda a minha vida. Foi um momento muito penoso aquele em que o deixámos na prisão e nos despedimos dele.


Era um jovem educado, e na Companhia todos lamentávamos a sorte que o esperava (causada por uma situação que, a acontecer hoje, não passaria de uma nota de pé de página na sua vida), mas, embora alguns de nós tentássemos convencê-lo a evitar a prisão, casando, compreendíamos e respeitávamos as razões que o levaram a preferir o longo período de prisão (julgado num tribunal civil nunca teria sido condenado a mais de dois anos de reclusão, na pior das hipóteses). Não voltei a ter notícias dele.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

No quartel de Novo Redondo



Novo Redondo - Avenida Marginal

Em Novembro de 1966, os altos comandos militares tinham um problema bicudo para resolver: a escassez de efectivos ainda não tinha permitido que fosse efectuada a rendição do Batalhão que estava aquartelado em Nova Lisboa (salvo erro, o Batalhão de Artilharia 701), que já tinha completado 30 meses de comissão. O descontentamento do pessoal – que via os dias a passarem e eles sem embarcarem de regresso, como esperavam e era devido – era mais do que evidente, e receava-se que a situação se tornasse incontrolável.

Embora as comissões de serviço tivessem, oficialmente, a duração de 24 meses, na prática prolongavam-se por mais tempo. Era raro alguma unidade regressar antes de completados 26 meses, podendo mesmo continuar até aos 27 meses e, em casos excepcionais, até aos 28 meses. Trinta meses era um caso nunca visto.

Para resolver a embrulhada, foi decidido o alargamento parcial da área operacional de cada um dos Batalhões cujas zonas confrontavam com a zona de actuação do referido Batalhão, libertando desse modo aquela unidade, e possibilitando o seu regresso.

Em consequência dessa decisão, o comando do meu Batalhão (BArt 741), foi transferido para o Lobito, sendo substituido em Novo Redondo pelo comando da minha Companhia (Cart 738), conjuntamente com o 1º pelotão, ao qual eu pertencia.

Dificuldades logísticas impediram que a substituição do BArt 741 pelo comando da CArt 738 se fizesse simultaneamente, pelo que foi resolvido enviar uma secção reforçada com mais 5 elementos, mais o pessoal de apoio (cozinheiro, enfermeiro, condutor-auto, etc.), para ocupar o quartel provisoriamente.

A minha secção

Em baixo, a contar da esqª: João Palhares, Manuel Lopes, Brandão Pacheco e Albino Marinho;

Em cima (mesma ordem):Manuel Morgado, Carlos Fonseca, Casimiro Cerqueira e Armindo Pacheco;

Já aqui escrevi anteriormente como o capitão Carvalho, meu comandante de Companhia, gostava de me “premiar” com os serviços extraordinários que iam surgindo (a minha teoria sobre a origem dos seus “motivos” será objecto de outro texto). Também desta vez fui destacado para ir para Novo Redondo comandar este reduzido grupo. Tão reduzido, que nem sequer dava para colocar os habituais postos de sentinela. Durante o dia ficava um soldado de plantão à porta de armas. Durante a noite, a segurança duplicava: além do militar da porta de armas (já não de plantão, mas a fazer guarda normal, com rendição de 4 em 4 horas), colocava outro nas traseiras do quartel, com o mesmo regime de rendição, mas sem posto fixo.

Não me recordo durante quanto tempo durou esta situação um tanto ridícula (o comandante militar da capital do distrito era um furriel-miliciano), mas julgo que se terá prolongado por duas semanas, pelo menos.

Duas semanas que não foram inteiramente desagradáveis. O quartel ficava situado perto da praia (a distância não ultrapassaria os 400 metros), e todas as manhãs o pessoal que não tinha tarefas distribuidas, ia para a praia fazer exercício, dar uns pontapés na bola e, claro, tomar banho.

Foi numa dessas manhãs que teve lugar, na praia, o episódio com o tenente-coronel Soares, que contei aqui.


Em exercícios, na praia de Novo Redondo

Quando, finalmente, o comando da Companhia e o meu pelotão chegaram, já eu estava completamente ambientado à cidade. Não estava era preparado para a surpresa que me esperava. O primeiro-sargento Ramalho (meu “grande amigo” desde Lucunga) disse-me que o capitão Carvalho, tendo em consideração o grande número de amizades que eu tinha feito na Gabela, decidira fazer-me um favor, e transferira-me para o 2º pelotão, que permanecia naquela cidade, pelo que era melhor começar a arrumar as minhas coisas para fazer a viagem de regresso.

Não me valeu de nada ter ido falar com o comandante, que manteve a decisão, confirmando que pensava que era isso que eu preferia, mas que não podia alterá-la, pois o meu camarada que me iria substituir podia sentir -se prejudicado, já que tinha ficado muito satisfeito com a transferência para Novo Redondo.

Na realidade, o que me aborreceu mais não foi ter voltado para a Gabela, cidade de que gostava, e onde realmente tinha alguns amigos; do que não gostei mesmo foi de ter mudado de pelotão, apesar de não ter nada contra o seu comandante, alferes Morgado, nem contra os restantes camaradas, pois tinha um bom relacionamento com todos eles. Mas o meu pelotão era o 1º, onde estivera desde a sua formação, e no qual permaneci em espírito durante o resto da comissão.

Mas, como se dizia na tropa “El-Rei manda marchar, não manda chover!”

Então, mesmo sem chuva, marchei para a Gabela.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

CISMI - Convívio



Encontrei num jornal de Loulé a informação que acima reproduzo, no pressuposto de que possa interessar a algum dos leitores.

Confesso que desconhecia o facto da existência deste tipo de encontros naquele que, durante mais de quatro meses, foi também o meu quartel. Numa rápida pesquisa no Google concluí que este não é o primeiro convívio de antigos militares que ali tem lugar.

Pelo contrário, abertos, tal como neste caso, a todos os militares que ali serviram, houve pelo menos outro em 2008.



CISMI – Vista parcial da Parada

Já em Maio deste ano, os militares do Curso de Sargentos Milicianos de 1961, ali comemoraram os 50 anos da sua incorporação.

Passam hoje 48 anos sobre a data do juramento de bandeira da 2ª incorporação de 1963, de que fiz parte.

Pouco me recordo da cerimónia, que teve lugar a uma sexta-feira. Apenas me lembro que, ao contrário do que esperávamos, não tivemos um período especial de folga antes de começarmos a especialidade. Na segunda-feira seguinte iniciávamos um novo ciclo. Nem o Villaverde Cabral, que se casou no dia seguinte, teve direito a licença de casamento.


Salto para o galho 
(a saltar de pernas abertas, este deve ter-se aleijado)

Embora dura e de grande exigência física, não tive especiais dificuldades durante a instrução, se exceptuar as primeiras experiências no pórtico.

Nem o salto para o galho, que era o papão com que os amigos mais experientes nos assustavam, foi difícil. Bastava termos cuidado e saltarmos de pés juntos, para não chocarmos no poste com partes mais sensíveis do corpo. O que paralisava alguns camaradas na plataforma, antes de saltar, era o medo de cair no vazio. Quando conseguiam o primeiro salto, não havia mais problemas. Se não conseguiam, passavam à categoria de “Amélias”.


Pórtico


O meu problema com o pórtico (que era também o problema de outros), era causado pelas vertigens que me apoquentavam quando subia a um ponto alto, sem apoio. Fazer ginástica e correr naquelas vigas a pelo menos 4 metros do chão e que não teriam mais de 40 centímetros de largura, era assustador.

Tive – eu e os outros – a sorte de ter a compreensão, e a paciência, do alferes Jónatas, que comandava o pelotão, que me deixou “ambientar” aos poucos. Quando, em Dezembro, acabei o CSM, as vertigens tinham desaparecido e eu corria e saltava lá em cima, sem qualquer problema.


CISMI - Porta de Armas

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Café Central (II)



O Café Central, numa foto de tempos mais recentes (como se pode comprovar pela falta de asfalto na rua), e com a cara lavada

O Café Central, que era habitualmente designado pelos gabelenses por Bar Central, dispunha de um espaço para jogos de cartas. Ficava situado do lado direito de quem entrava, ao fundo. Era muito utilizado pelos cartolas locais, que disputavam renhidas partidas, não necessariamente a feijões.

As cartas eram fornecidas pelo Café, contra pagamento do correspondente “barato” (em rigor, o “barato” era uma percentagem sobre os ganhos do jogo, que era paga ao dono da casa. Neste caso, tinha um custo fixo, e funcionava como uma espécie de aluguer das cartas).

Uma noite, eu e mais três camaradas resolvemos “armar aos cágados” e sentámo-nos numa das mesas para jogarmos king (a um centavo o ponto, para dar mais animação ao jogo).

Quando resolvemos dar por findo o serão, chamámos o empregado para recolher as cartas e cobrar o “barato”, cujo custo desconhecíamos, porque, por manifesta imprevidência, não nos tínhamos informado previamente. Para nosso espanto, pediu-nos vinte escudos por cabeça. Ficámos autenticamente atordoados, pois nunca pensámos que a jogatana nos ficasse por mais de dez escudos, em vez dos oitenta que foram cobrados.

Hoje, vinte escudos não dariam para comprar nada. Mas, para fazerem uma ideia, em 1966 , que era o ano em questão, um almoço no restaurante do Hotel Praia-Mar, em Novo Redondo, composto por entrada, prato de peixe, prato de carne, sobremesa, vinho, pão e café, ficava-nos por doze escudos e cinquenta centavos. E o serviço era de primeira qualidade.

Pagámos, mas, furiosos por nos julgarmos logrados pelo elevado preço dispendido, ficámos a fazer planos de desforra. E, se não nomeei os meus parceiros, foi porque a “vingança” que arquitectámos – e que levámos a cabo, sem medir as consequências –, não nos daria nenhum louvor se chegasse ao conhecimento da hierarquia militar.

As instalações do café eram amplas e tinham uma espécie de balcão-vitrina a dividir a sala ao meio. Nessa vitrina, a cujo interior se acedia através de portas de correr, envidraçadas e sem fechadura, estavam expostos vários produtos, entre os quais caixas de bombons e tabletes de chocolate.

E foram as tabletes o alvo da nossa “operação”, para a qual contámos com a colaboração de outros camaradas no papel de figurantes e de biombos. Ocupando mesas de um lado e de outro da vitrina, aproveitávamos as ocasiões mais propícias e subtraiamos algumas tabletes, que distribuiamos entre todos.

Estes “golpes de mão” tiveram lugar três ou quatro vezes, com intervalos mínimos de uma semana, para não darmos nas vistas, tendo terminado quando nos considerámos ressarcidos do que achávamos ter sido uma espoliação abusiva, e com a intenção de nos afastar do local de jogo, talvez com receio de que viessemos a revelar os valores envolvidos.

Sem que isso sirva de justificação, nem é esse o meu propósito, a nossa juventude bem como as circunstâncias especiais em que nos encontrávamos, ajudam a explicar os disparates que fazíamos, e de que este é um exemplo, mas não o único.

E, por falar em disparates, qualquer dia conto a história dos cabritos que pediam boleia.

domingo, 25 de setembro de 2011

Café Central (I)

(Clique na imagem para aumentar)

Da esq. para a dta.: Azevedo, Nunes da Silva, o autor do blogue e o Vaz;
Ao fundo, o Café Central; à dta., onde vai a passar um civil, a linha férrea que ligava a Gabela a Porto Amboim;

O Café Central, o maior e o melhor café da Gabela, era frequentado pela nata da sociedade gabelense, principalmente na sua componente masculina.

Não era raro, sobretudo quando a chuva chegava no tempo conveniente, e a colheita de café se adivinhava frutuosa, ver os fazendeiros amesendados, a despacharem travessas de camarão (às vezes, no que poderia parecer uma manifestação de novo-riquismo, regadas a uísque).

Mas, se trago hoje o Café Central ao blogue é para relatar o primeiro de dois episódios, em que fui um dos intervenientes, e que ali tiveram lugar.

No grupo de fazendeiros acima referidos, tentava (e aos poucos ia conseguindo) introduzir-se um jovem, que andaria pelos trinta anos, e que tinha sido “graduado” em fazendeiro, por ter caido nas boas graças (e na cama) da patroa, viúva recente, cuja mocidade já passara há muito, e que o promovera a gerente do negócio.

Embora os outros o gozassem quando se encontrava ausente, iam-no tolerando, talvez como prémio pelos esforços que fazia para lhes agradar, que incluiam com alguma frequência o pagamento dos lanches.

Numa dessas tardes, entrei no café com dois camaradas, e sentámo-nos perto da mesa onde o nosso homem estava, com o grupo, sentado de costas para nós.

Nesse ano de 1966, estávamos já longe da euforia com que foram saudados os primeiros batalhões chegados a Luanda, em 1961, recebidos apoteoticamente pela população civil, que, borrada de medo, os acolheu festivamente, proporcionando-lhes bastas mordomias (incluindo hospitaleiros convites para as suas residências, nalguns casos com consequências inesperadas). Em suma, eram uns heróis ainda antes de irem para o mato (e, se não chegaram a ser heróis, demonstraram pelo menos uma enorme capacidade de sacrifício, em condições particularmente adversas).

Cinco anos depois, em 1966, e já com as costas quentes, uma parte da população branca dizia, à boca pequena que se a guerra ainda não tinha terminado, era por conveniência dos militares, que queriam prolongá-la porque ganhavam bom dinheiro com o conflito.

É certo que em determinadas situações e graduações, havia quem abichasse fartos proventos. Mas essa não era a regra e, tal como eu, a esmagadora maioria da tropa estava lá por obrigação.

Foi neste contexto, que o nosso jovem “fazendeiro”, que não se tinha apercebido da nossa entrada, afirmava, alto e bom som, que se as autoridades angolanas dessem carta branca à população civil, e mandasse embora os chulos que os andavam a sugar, há muito que o terrorismo tinha acabado.

Não gostando do que ouvimos, resolvemos que um de nós iria pedir-lhe satisfações pelo que estava a dizer. Não chegando a acordo sobre qual de nós iria, pois todos queríamos ir, recorremos ao velho jogo da “porra”.

Quando o “premiado” chegou ao pé dele, lhe tocou no ombro, e lhe perguntou se se importava de o acompanhar até à rua para terem um particular sobre o que ele acabava de afirmar, o homem ficou branco. Perante o silêncio expectante dos outros, tartamudeou que devia haver um mal entendido, que não pretendia ofender ninguém, muito menos a nós, militares, por quem tinha a maior consideração e respeito, e que a “última coisa que queria era ofender o senhor furriel”, pelo que não havia motivo para brigas.

A resposta foi de que não havia briga nenhuma. O que haveria, se sonhássemos que ele alguma vez voltava a levantar calúnias a nosso respeito, era um “focinho” partido. O dele.

Ganhámos” um amigo que, fazendo das tripas coração, de cada vez que nos encontrava se desfazia em cumprimentos e mesuras. E, quando no Natal seguinte inaugurámos a Casa do Soldado, teve a gentileza de oferecer uma caixa de bebidas para o bar.