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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As Fotos do António Passarinho (I)





Embora todos os rostos me sejam familiares, apenas consigo identificar o Vítor Verdasca, 2º a contar da esquerda, atrás, o Passarinho, que está à sua frente, e o último, que julgo ser o Oliveira (a quem encontrei muitas vezes no Porto de Lisboa, onde era manobrador de empilhadores) . Todos eram condutores-auto.

Em Lucunga, as viaturas em condições de circular eram em número reduzido, pelo que a alguns condutores-auto da CArt 738 foram atribuidas tarefas que nada tinham a ver com a sua especialidade. Ao Passarinho, que era um desses condutores-auto, coube, juntamente com o camarada de especialidade, Daniel Ferreira, a nobre tarefa de pôr – e de manter – operacional a messe de oficiais e sargentos. O Daniel cozinhava, enquanto o Passarinho o apoiava, ao mesmo tempo que se encarregava, de forma irrepreensível, do serviço nas salas de refeições.

Podem ter-se perdido dois bons condutores-auto, mas garanto, sem receio de contraditório, que ganhámos dois excelentes “profissionais” do ramo da restauração, que, sob a supervisão do furriel-vagomestre Vaz, nos tiveram sempre bem alimentados.

Cumprindo uma promessa que me tinha feito, o Passarinho enviou-me algumas fotos desse tempo, cuja publicação inicio hoje, com duas fotos tiradas em Novo Redondo, no dia em que completámos dois anos de comissão.

Curiosamente, nessa data encontrava-me em Luanda, onde me tinha deslocado por duas razões.

Em Agosto de 1966, durante um jogo de futebol realizado no campo do quartel, fui atingido com violência no olho esquerdo, por uma bola chutada à queima-roupa por um dos jovens moradores da sanzala Sétima, de que resultou uma lesão permanente, com perda de visão, que viria a ser avaliada em 10% pelos médicos militares, mas que oftalmologistas civis avaliaram em 30%. Um dos motivos da minha estadia em Luanda, devia-se a uma consulta no Hospital Militar de Luanda, marcada para aquela data, que se destinava a avaliar o evoluir da lesão.

Nesta foto identifico o Oliveira (?), 2º a contar da esquerda, a seguir o enfermeiro, Espanhol, o 5º é o Lionídio Torcato, o 8º o Passarinho, e o 9º, mais abaixo, o Verdasca. Não me lembro dos nomes dos outros.

Aproveitando essa viagem, o capitão Carvalho encarregou-me (juntamente com um cabo e um soldado – de quem já não recordo os nomes –, bem como do condutor do Land Rover que nos transportou), de conduzir um dos nossos militares à Casa de Reclusão de Luanda, para cumprir uma pena de 3 anos de prisão a que a justiça militar o tinha condenado, por se recusar a casar com uma jovem com quem tinha mantido um relacionamento íntimo, quando ainda era civil.

Esta foi uma das tarefas mais espinhosas que desempenhei, não só durante os quatro anos e meio em que prestei serviço militar, mas também em toda a minha vida. Foi um momento muito penoso aquele em que o deixámos na prisão e nos despedimos dele.


Era um jovem educado, e na Companhia todos lamentávamos a sorte que o esperava (causada por uma situação que, a acontecer hoje, não passaria de uma nota de pé de página na sua vida), mas, embora alguns de nós tentássemos convencê-lo a evitar a prisão, casando, compreendíamos e respeitávamos as razões que o levaram a preferir o longo período de prisão (julgado num tribunal civil nunca teria sido condenado a mais de dois anos de reclusão, na pior das hipóteses). Não voltei a ter notícias dele.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

No quartel de Novo Redondo



Novo Redondo - Avenida Marginal

Em Novembro de 1966, os altos comandos militares tinham um problema bicudo para resolver: a escassez de efectivos ainda não tinha permitido que fosse efectuada a rendição do Batalhão que estava aquartelado em Nova Lisboa (salvo erro, o Batalhão de Artilharia 701), que já tinha completado 30 meses de comissão. O descontentamento do pessoal – que via os dias a passarem e eles sem embarcarem de regresso, como esperavam e era devido – era mais do que evidente, e receava-se que a situação se tornasse incontrolável.

Embora as comissões de serviço tivessem, oficialmente, a duração de 24 meses, na prática prolongavam-se por mais tempo. Era raro alguma unidade regressar antes de completados 26 meses, podendo mesmo continuar até aos 27 meses e, em casos excepcionais, até aos 28 meses. Trinta meses era um caso nunca visto.

Para resolver a embrulhada, foi decidido o alargamento parcial da área operacional de cada um dos Batalhões cujas zonas confrontavam com a zona de actuação do referido Batalhão, libertando desse modo aquela unidade, e possibilitando o seu regresso.

Em consequência dessa decisão, o comando do meu Batalhão (BArt 741), foi transferido para o Lobito, sendo substituido em Novo Redondo pelo comando da minha Companhia (Cart 738), conjuntamente com o 1º pelotão, ao qual eu pertencia.

Dificuldades logísticas impediram que a substituição do BArt 741 pelo comando da CArt 738 se fizesse simultaneamente, pelo que foi resolvido enviar uma secção reforçada com mais 5 elementos, mais o pessoal de apoio (cozinheiro, enfermeiro, condutor-auto, etc.), para ocupar o quartel provisoriamente.

A minha secção

Em baixo, a contar da esqª: João Palhares, Manuel Lopes, Brandão Pacheco e Albino Marinho;

Em cima (mesma ordem):Manuel Morgado, Carlos Fonseca, Casimiro Cerqueira e Armindo Pacheco;

Já aqui escrevi anteriormente como o capitão Carvalho, meu comandante de Companhia, gostava de me “premiar” com os serviços extraordinários que iam surgindo (a minha teoria sobre a origem dos seus “motivos” será objecto de outro texto). Também desta vez fui destacado para ir para Novo Redondo comandar este reduzido grupo. Tão reduzido, que nem sequer dava para colocar os habituais postos de sentinela. Durante o dia ficava um soldado de plantão à porta de armas. Durante a noite, a segurança duplicava: além do militar da porta de armas (já não de plantão, mas a fazer guarda normal, com rendição de 4 em 4 horas), colocava outro nas traseiras do quartel, com o mesmo regime de rendição, mas sem posto fixo.

Não me recordo durante quanto tempo durou esta situação um tanto ridícula (o comandante militar da capital do distrito era um furriel-miliciano), mas julgo que se terá prolongado por duas semanas, pelo menos.

Duas semanas que não foram inteiramente desagradáveis. O quartel ficava situado perto da praia (a distância não ultrapassaria os 400 metros), e todas as manhãs o pessoal que não tinha tarefas distribuidas, ia para a praia fazer exercício, dar uns pontapés na bola e, claro, tomar banho.

Foi numa dessas manhãs que teve lugar, na praia, o episódio com o tenente-coronel Soares, que contei aqui.


Em exercícios, na praia de Novo Redondo

Quando, finalmente, o comando da Companhia e o meu pelotão chegaram, já eu estava completamente ambientado à cidade. Não estava era preparado para a surpresa que me esperava. O primeiro-sargento Ramalho (meu “grande amigo” desde Lucunga) disse-me que o capitão Carvalho, tendo em consideração o grande número de amizades que eu tinha feito na Gabela, decidira fazer-me um favor, e transferira-me para o 2º pelotão, que permanecia naquela cidade, pelo que era melhor começar a arrumar as minhas coisas para fazer a viagem de regresso.

Não me valeu de nada ter ido falar com o comandante, que manteve a decisão, confirmando que pensava que era isso que eu preferia, mas que não podia alterá-la, pois o meu camarada que me iria substituir podia sentir -se prejudicado, já que tinha ficado muito satisfeito com a transferência para Novo Redondo.

Na realidade, o que me aborreceu mais não foi ter voltado para a Gabela, cidade de que gostava, e onde realmente tinha alguns amigos; do que não gostei mesmo foi de ter mudado de pelotão, apesar de não ter nada contra o seu comandante, alferes Morgado, nem contra os restantes camaradas, pois tinha um bom relacionamento com todos eles. Mas o meu pelotão era o 1º, onde estivera desde a sua formação, e no qual permaneci em espírito durante o resto da comissão.

Mas, como se dizia na tropa “El-Rei manda marchar, não manda chover!”

Então, mesmo sem chuva, marchei para a Gabela.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

CISMI - Convívio



Encontrei num jornal de Loulé a informação que acima reproduzo, no pressuposto de que possa interessar a algum dos leitores.

Confesso que desconhecia o facto da existência deste tipo de encontros naquele que, durante mais de quatro meses, foi também o meu quartel. Numa rápida pesquisa no Google concluí que este não é o primeiro convívio de antigos militares que ali tem lugar.

Pelo contrário, abertos, tal como neste caso, a todos os militares que ali serviram, houve pelo menos outro em 2008.



CISMI – Vista parcial da Parada

Já em Maio deste ano, os militares do Curso de Sargentos Milicianos de 1961, ali comemoraram os 50 anos da sua incorporação.

Passam hoje 48 anos sobre a data do juramento de bandeira da 2ª incorporação de 1963, de que fiz parte.

Pouco me recordo da cerimónia, que teve lugar a uma sexta-feira. Apenas me lembro que, ao contrário do que esperávamos, não tivemos um período especial de folga antes de começarmos a especialidade. Na segunda-feira seguinte iniciávamos um novo ciclo. Nem o Villaverde Cabral, que se casou no dia seguinte, teve direito a licença de casamento.


Salto para o galho 
(a saltar de pernas abertas, este deve ter-se aleijado)

Embora dura e de grande exigência física, não tive especiais dificuldades durante a instrução, se exceptuar as primeiras experiências no pórtico.

Nem o salto para o galho, que era o papão com que os amigos mais experientes nos assustavam, foi difícil. Bastava termos cuidado e saltarmos de pés juntos, para não chocarmos no poste com partes mais sensíveis do corpo. O que paralisava alguns camaradas na plataforma, antes de saltar, era o medo de cair no vazio. Quando conseguiam o primeiro salto, não havia mais problemas. Se não conseguiam, passavam à categoria de “Amélias”.


Pórtico


O meu problema com o pórtico (que era também o problema de outros), era causado pelas vertigens que me apoquentavam quando subia a um ponto alto, sem apoio. Fazer ginástica e correr naquelas vigas a pelo menos 4 metros do chão e que não teriam mais de 40 centímetros de largura, era assustador.

Tive – eu e os outros – a sorte de ter a compreensão, e a paciência, do alferes Jónatas, que comandava o pelotão, que me deixou “ambientar” aos poucos. Quando, em Dezembro, acabei o CSM, as vertigens tinham desaparecido e eu corria e saltava lá em cima, sem qualquer problema.


CISMI - Porta de Armas

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Café Central (II)



O Café Central, numa foto de tempos mais recentes (como se pode comprovar pela falta de asfalto na rua), e com a cara lavada

O Café Central, que era habitualmente designado pelos gabelenses por Bar Central, dispunha de um espaço para jogos de cartas. Ficava situado do lado direito de quem entrava, ao fundo. Era muito utilizado pelos cartolas locais, que disputavam renhidas partidas, não necessariamente a feijões.

As cartas eram fornecidas pelo Café, contra pagamento do correspondente “barato” (em rigor, o “barato” era uma percentagem sobre os ganhos do jogo, que era paga ao dono da casa. Neste caso, tinha um custo fixo, e funcionava como uma espécie de aluguer das cartas).

Uma noite, eu e mais três camaradas resolvemos “armar aos cágados” e sentámo-nos numa das mesas para jogarmos king (a um centavo o ponto, para dar mais animação ao jogo).

Quando resolvemos dar por findo o serão, chamámos o empregado para recolher as cartas e cobrar o “barato”, cujo custo desconhecíamos, porque, por manifesta imprevidência, não nos tínhamos informado previamente. Para nosso espanto, pediu-nos vinte escudos por cabeça. Ficámos autenticamente atordoados, pois nunca pensámos que a jogatana nos ficasse por mais de dez escudos, em vez dos oitenta que foram cobrados.

Hoje, vinte escudos não dariam para comprar nada. Mas, para fazerem uma ideia, em 1966 , que era o ano em questão, um almoço no restaurante do Hotel Praia-Mar, em Novo Redondo, composto por entrada, prato de peixe, prato de carne, sobremesa, vinho, pão e café, ficava-nos por doze escudos e cinquenta centavos. E o serviço era de primeira qualidade.

Pagámos, mas, furiosos por nos julgarmos logrados pelo elevado preço dispendido, ficámos a fazer planos de desforra. E, se não nomeei os meus parceiros, foi porque a “vingança” que arquitectámos – e que levámos a cabo, sem medir as consequências –, não nos daria nenhum louvor se chegasse ao conhecimento da hierarquia militar.

As instalações do café eram amplas e tinham uma espécie de balcão-vitrina a dividir a sala ao meio. Nessa vitrina, a cujo interior se acedia através de portas de correr, envidraçadas e sem fechadura, estavam expostos vários produtos, entre os quais caixas de bombons e tabletes de chocolate.

E foram as tabletes o alvo da nossa “operação”, para a qual contámos com a colaboração de outros camaradas no papel de figurantes e de biombos. Ocupando mesas de um lado e de outro da vitrina, aproveitávamos as ocasiões mais propícias e subtraiamos algumas tabletes, que distribuiamos entre todos.

Estes “golpes de mão” tiveram lugar três ou quatro vezes, com intervalos mínimos de uma semana, para não darmos nas vistas, tendo terminado quando nos considerámos ressarcidos do que achávamos ter sido uma espoliação abusiva, e com a intenção de nos afastar do local de jogo, talvez com receio de que viessemos a revelar os valores envolvidos.

Sem que isso sirva de justificação, nem é esse o meu propósito, a nossa juventude bem como as circunstâncias especiais em que nos encontrávamos, ajudam a explicar os disparates que fazíamos, e de que este é um exemplo, mas não o único.

E, por falar em disparates, qualquer dia conto a história dos cabritos que pediam boleia.

domingo, 25 de setembro de 2011

Café Central (I)

(Clique na imagem para aumentar)

Da esq. para a dta.: Azevedo, Nunes da Silva, o autor do blogue e o Vaz;
Ao fundo, o Café Central; à dta., onde vai a passar um civil, a linha férrea que ligava a Gabela a Porto Amboim;

O Café Central, o maior e o melhor café da Gabela, era frequentado pela nata da sociedade gabelense, principalmente na sua componente masculina.

Não era raro, sobretudo quando a chuva chegava no tempo conveniente, e a colheita de café se adivinhava frutuosa, ver os fazendeiros amesendados, a despacharem travessas de camarão (às vezes, no que poderia parecer uma manifestação de novo-riquismo, regadas a uísque).

Mas, se trago hoje o Café Central ao blogue é para relatar o primeiro de dois episódios, em que fui um dos intervenientes, e que ali tiveram lugar.

No grupo de fazendeiros acima referidos, tentava (e aos poucos ia conseguindo) introduzir-se um jovem, que andaria pelos trinta anos, e que tinha sido “graduado” em fazendeiro, por ter caido nas boas graças (e na cama) da patroa, viúva recente, cuja mocidade já passara há muito, e que o promovera a gerente do negócio.

Embora os outros o gozassem quando se encontrava ausente, iam-no tolerando, talvez como prémio pelos esforços que fazia para lhes agradar, que incluiam com alguma frequência o pagamento dos lanches.

Numa dessas tardes, entrei no café com dois camaradas, e sentámo-nos perto da mesa onde o nosso homem estava, com o grupo, sentado de costas para nós.

Nesse ano de 1966, estávamos já longe da euforia com que foram saudados os primeiros batalhões chegados a Luanda, em 1961, recebidos apoteoticamente pela população civil, que, borrada de medo, os acolheu festivamente, proporcionando-lhes bastas mordomias (incluindo hospitaleiros convites para as suas residências, nalguns casos com consequências inesperadas). Em suma, eram uns heróis ainda antes de irem para o mato (e, se não chegaram a ser heróis, demonstraram pelo menos uma enorme capacidade de sacrifício, em condições particularmente adversas).

Cinco anos depois, em 1966, e já com as costas quentes, uma parte da população branca dizia, à boca pequena que se a guerra ainda não tinha terminado, era por conveniência dos militares, que queriam prolongá-la porque ganhavam bom dinheiro com o conflito.

É certo que em determinadas situações e graduações, havia quem abichasse fartos proventos. Mas essa não era a regra e, tal como eu, a esmagadora maioria da tropa estava lá por obrigação.

Foi neste contexto, que o nosso jovem “fazendeiro”, que não se tinha apercebido da nossa entrada, afirmava, alto e bom som, que se as autoridades angolanas dessem carta branca à população civil, e mandasse embora os chulos que os andavam a sugar, há muito que o terrorismo tinha acabado.

Não gostando do que ouvimos, resolvemos que um de nós iria pedir-lhe satisfações pelo que estava a dizer. Não chegando a acordo sobre qual de nós iria, pois todos queríamos ir, recorremos ao velho jogo da “porra”.

Quando o “premiado” chegou ao pé dele, lhe tocou no ombro, e lhe perguntou se se importava de o acompanhar até à rua para terem um particular sobre o que ele acabava de afirmar, o homem ficou branco. Perante o silêncio expectante dos outros, tartamudeou que devia haver um mal entendido, que não pretendia ofender ninguém, muito menos a nós, militares, por quem tinha a maior consideração e respeito, e que a “última coisa que queria era ofender o senhor furriel”, pelo que não havia motivo para brigas.

A resposta foi de que não havia briga nenhuma. O que haveria, se sonhássemos que ele alguma vez voltava a levantar calúnias a nosso respeito, era um “focinho” partido. O dele.

Ganhámos” um amigo que, fazendo das tripas coração, de cada vez que nos encontrava se desfazia em cumprimentos e mesuras. E, quando no Natal seguinte inaugurámos a Casa do Soldado, teve a gentileza de oferecer uma caixa de bebidas para o bar.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Cine Amboim


O Cine Amboim em dia de enchente

A sala de espectáculos da Gabela – o Cine-Amboim – apresentava sessões de cinema às terças, quintas, sábados e domingos. Ao domingo havia duas sessões, e o filme era o mesmo que tinha passado no sábado.

Como não tínhamos muitas distracções, quando o filme era bom (ou nós, talvez críticos pouco exigentes, achávamos que era) iamos ao cinema no sábado e no domingo.

Além da apresentação de filmes, tinham periodicamente lugar espectáculos musicais – hoje chamar-se-iam concertos – onde actuavam artistas em digressão por Angola. Nestes casos, não se tratava de artistas contratados para actuarem expressamente para as Forças Armadas. O espectáculo destinava-se a todos, e todos pagavam bilhete, incluindo naturalmente os militares que quisessem assistir.

Recordo-me de terem actuado na Gabela durante o ano de 1966, entre outros, Tony de Matos, Luís Piçarra, Paula Ribas e o Trio Odemira. À excepção do Trio Odemira que se auto-acompanhava, o acompanhamento musical era feito com música gravada, o que, uma vez ou outra, dava lugar a alguma descoordenação entre o cantor e o operador que nos bastidores ligava e desligava o gravador. Mas tudo se resolvia rapidamente e o espectáculo continuava, habitualmente com a sala cheia.

A apresentação em palco era feita pelo Francisco Morgado, alferes-miliciano da Cart 738. O alferes Morgado tinha experiência da função por ser locutor da Rádio Ribatejo. Aficionado da tauromaquia, foi durante muitos anos (não sei se ainda é) a voz que comentava as corridas de touros transmitidas pela RTP.

O Cine-Amboim não tinha balcão, mas dispunha de um pequeno número de frisas – oito ou dez – num patamar um pouco mais elevado, antecedendo a plateia. À frente, junto ao palco e à tela, dispunha de duas filas de bancos corridos.


Alferes-miliciano Francisco Morgado
(Foto "roubada" ao Veterano)

Espectador novato do Cine-Amboim, e tendo-me sentado na última fila, não me apercebi logo da existência dos bancos corridos. Daí a minha surpresa quando vi começarem a entrar por uma porta situada ao fundo, do lado esquerdo do palco, numerosos espectadores, que se sentaram nos referidos bancos. Eram todos negros que, vim a saber depois, pagavam um preço inferior ao dos espectadores que se sentavam na plateia ou nas frisas.

Racismo descarado, pensei eu, surpreendido, quer pela forma evidente como se apresentava, quer por sê-lo à vista de toda a gente, contrariando o que era a política oficial vigente, anunciada aos quatro ventos, incluindo os areópagos internacionais.

Não era apenas por serem negros que aqueles espectadores eram relegados para os bancos corridos.

(António Almeida, era provavelmente o mais importante empresário da Gabela, e era negro, o que não impedia que, se fosse ao cinema, ficasse comodamente instalado numa frisa, juntamente com a sua família. O Administrador do Concelho – de cujo nome não me recordo – era um negro, cabo-verdiano, que, acompanhado pela esposa, ocupava habitualmente uma das frisas.)


Luís Piçarra canta "Morena da Raia"

Os negros que residiam nas sanzalas, e que iam para os bancos corridos, eram duplamente segregados. Sentavam-se ali, não só por serem negros, como antes afirmei, mas também porque, além de serem negros, eram pobres. Era uma espécie de racismo social, que de resto, também se manifestava com frequência no Portugal europeu, no modo como eram tratados os mais pobres.

No fundo, quase todos nós o praticávamos, às vezes sem disso nos apercebermos, o que não serve de desculpa, formas de racismo.

Mas também é certo que, responsáveis ou não, acabámos, directa ou indirectamente, por pagar um elevado preço por esse comportamento.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Coronel José Francisco Soares


Coronel José Francisco Soares

(Foto de Veterano)


Passou ontem um ano sobre a data da morte do coronel José Francisco Soares, que foi, sucessivamente, segundo-comandante, ainda com o posto de major, e, já tenente-coronel, comandante do Batalhão de Artilharia 741.


Na ausência do tenente-coronel Cabrita Gil, que na altura exercia as funções de segundo-comandante de um Batalhão colocado em Zala – à época uma das zonas operacionais mais difíceis e perigosas do Norte de Angola – coube ao então major Soares a árdua tarefa de coordenar o treino operacional dos militares do BArt 741, durante os meses que antecederam o nosso embarque.


Dadas as muito diferentes funções e postos que tínhamos no Batalhão, não tive um relacionamento próximo com ele, quer antes de embarcarmos, quer durante a permanência do comando no Vale do Loge.


No entanto, não pude deixar de registar que, nos contactos que mantinha com os militares do Batalhão, independentemente da sua graduação, vinham ao de cima os valores humanistas que marcavam a sua forma de estar. Como sabem os que, pelo menos nesse tempo, fizeram o serviço militar, essa não era a prática corrente dos oficiais superiores.

Para não tornar demasiado longo este texto, vou aqui deixar dois dos episódios em que fui interveniente, e que de alguma forma ilustram o que acima escrevi.


De uma das vezes em que me desloquei em serviço a Novo Redondo, onde se situava a sede do Batalhão, sentei-me numa esplanada daquela cidade acompanhado por dois furriéis da CCS, e enquanto iamos conversando sobre “a chuva e o bom tempo”, aproveitámos para beber uns “finos”, antes de eu regressar à Gabela.


A dada altura vimos o tenente-coronel Soares que se aproximava do lugar onde estávamos. Depois de nos levantarmos e de fazermos a saudação da ordem, mandou-nos sentar e sentou-se também na nossa mesa, ficando connosco, numa conversa amena, enquanto esperava pela esposa, que se encontrava num cabeleireiro, localizado em frente.

Quantos oficiais com o seu posto e responsabilidades de comando eram capazes de um gesto semelhante? 


Alguns meses mais tarde, o comando do Batalhão foi transferido para o Lobito, quase de um dia para o outro. Não podendo o quartel de Novo Redondo ficar desocupado, foi decidido que a minha Companhia enviaria para lá um pequeno destacamento (cerca de 20 militares), enquanto o comando da Companhia não se mudasse para lá. Claro que, como sempre acontecia quando apareciam estes serviços extraordinários (e não era prémio, embora neste caso tenha sido, se bem que involuntário), lá fui eu comandar esse pequeno grupo.


Durante a nossa estadia, cerca de metade do pessoal estava ocupado com o serviço de funcionamento do quartel. Para que os outros não ficassem sem fazer nada, resolvi que o melhor seria levá-los para a praia, que ficava a 300 ou 400 metros do quartel, e dar-lhes instrução (de banhos marinhos e de muito trabalho para o bronze).

Num desses dias, a meio da manhã, estava eu a nadar quando ouço alguém a chamar-me e, quando olho, vejo à beira da água o motorista do tenente-coronel Soares, dizendo que o comandante estava à minha espera na Marginal, junto ao Land-Rover, depois de ter ido ao quartel e de lhe terem dito que eu estava na praia.

Lá vim eu a correr e a escorrer água, enquanto ia engrolando uma justificação qualquer, que o nosso comandante não se mostrou interessado em ouvir. O que ele pretendia era que eu assinasse a guia de marcha, comprovando que “o Exmo. Comandante passou por esta unidade”. O que fiz em cima do capot. E ele seguiu viagem, desejando-me “boa praia”, com um sorriso.

Não creio que houvesse muitos, pelo menos dos que conheci, que no seu lugar se tivessem mostrado tão tolerantes.



Que descanse em paz, este Homem bom!



P.S. - Na altura da sua morte, o Veterano homenageou o nosso comandante com um texto que pode ser lido aqui.