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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

CISMI - TAVIRA


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Fujo hoje ao tema deste blogue, que consiste, como sabe quem o frequenta habitualmente, no relato de pequenas histórias vividas durante a comissão de serviço que fiz em Angola de 1965 a 1967. Resolvi fazê-lo, em primeiro lugar, porque esta é também a história de como tudo começou. Em segundo lugar, porque me dá a oportunidade de referir as circunstâncias em que, por uma curiosa coincidência, ouvi falar pela primeira vez no primeiro comandante do Batalhão de Artilharia 741.

Tinha planeado publicar este texto em 9 de Agosto último, data em que se completaram 48 anos sobre a data em que me apresentei no CISMI (Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria), em Tavira, para iniciar o cumprimento do meu serviço militar obrigatório, que viria a terminar em 23 de Fevereiro de 1968, mais de quatro anos e meio depois.

Porém, encontrando-me naquela data ausente da minha residência habitual, concluí, tarde demais, que embora tivesse copiado para uma pen os ficheiros de que iria necessitar, tinha falhado a cópia da fotografia do meu pelotão da recruta, que considero ser um testemunho indispensável.

Na referida fotografia, que encima este post, estão os soldados-instruendos (também havia quem nos chamasse “soldados-milicianos”) que faziam parte do 2º pelotão, da 3ª Companhia.

Não me recordo do nome de todos (nem ando lá perto) e, para agravar a situação, lembro-me de nomes que não consigo ligar a nenhum destes rostos. Dos esquecidos destaco, lamentando o meu esquecimento, o Alberto Villaverde Cabral, não por ter sido uma figura pública com largo destaque na Comunicação Social a seguir ao 25 de Abril de 1974, mas por pertencer ao grupo que me era muito próximo.

Outro dos meus amigos “tavirenses” era o jovem que na foto aparece identificado com o nº 20. Respondia pelo nome de Mário Cabrita Gil (era fanático do “braço de ferro”, que praticávamos numa das longas mesas existentes no corredor da caserna), e nenhum de nós imaginava que o pai dele, de quem raramente falava, mas o suficiente para eu saber quem ele era, viria a ser o primeiro comandante do meu Batalhão, em Angola.

O Cabrita Gil saiu de Tavira no fim da recruta porque, para suprir a falta de oficiais, o Exército seleccionava os que mais se distinguiam - quer pelo aproveitamento teórico e desempenho físico, quer pela chamada “aptidão militar” - na recruta do Curso de Sargentos Milicianos, para frequentarem o Curso de Oficiais Milicianos. Creio que dos cerca de 900 recrutas do meu Curso não terão sido escolhidos mais de 20. Desses, dois pertenciam ao meu pelotão: o Cabrita Gil, e o jovem que identifico com o nº 32, um portuense cujo nome não recordo.


Tenente-Coronel Cabrita Gil

(Foto "rapinada" ao blogue do Batalhão)

A má língua da caserna (que aparece sempre nestas alturas, invariavelmente acompanhada pela inveja), murmurava que o Cabrita Gil tinha sido escolhido por influência do pai, e não por mérito próprio. Julgava então, e continuo a julgar hoje, que qualquer dos dois camaradas escolhidos o foram por mérito pessoal absoluto, não tendo havido qualquer espécie de favoritismo na sua selecção.

Depois de terminada a recruta, cada um foi à sua vida e não voltei a ter notícias do Mário, o que quer dizer que nunca pude devolver-lhe o livro de Almeida Garrett que me emprestara, e que não aceitou que lhe devolvesse, porque ainda não terminara a leitura. Ficava para depois, quando nos encontrássemos, dizia ele. Não houve depois, porque nunca mais o vi.

O nº 2 da fotografia é o Vacas (de Carvalho?), um jovem de Montemor-o-Novo que era pegador de touros no Grupo de Forcados da terra, e tinha fotos do Grupo que o comprovavam. Mas o Matos (nº 10) ,que era lá da zona, dizia, achávamos que para se meter com ele, que ele só se vestia de forcado para tirar o retrato.

Com o nº 5 na foto está o Carvalho, que logo no primeiro dia me perguntou se eu não tinha um aloquete a mais. Sabia lá eu que um aloquete era o mesmo objecto a que eu chamava cadeado! Mais tarde, em Janeiro de 1965, fizemos uma festa quando nos reencontrámos em Angola, na Missão do Bembe.

Os nºs. 6 e 7 são os casapianos Olivério e Vítor, respectivamente.

Uma tarde, estávamos na esplanada do Imperial e eu tinha acabado de escrever uma carta, quando o Vítor me disse que eu devia gostar muito de escrever cartas, porque passava a vida a fazê-lo. O que lhe dava jeito, dizia ele, sem saber no que se metia, era que lhe escrevesse uma carta para a namorada, já que ele estava em falta e cheio de preguiça. Eu disse que o faria, mas que ela iria ver que não era a letra dele. “Escreve em maiúsculas”, respondeu ele. “Tudo bem”, retorqui, “mas tu não lês o que eu vou escrever”. “Quero lá saber!”

E eu escrevi. Passados quatro ou cinco dias veio ter comigo com uma encomenda postal na mão, a perguntar que raio é que eu tinha escrito, porque a namorada lhe tinha mandado um pacote com 20 maços de cigarros e uma nota de cinquenta escudos. Pagou-me o jantar no “Sofrutos”, que não era caro e onde se comia bom peixe.


O Quartel de Tavira, continua hoje como era há 48 anos. Mas já não é o CISMI. Hoje é o Regimento de Infantaria nº 1 (quase sem guarnição, ao que me dizem)

(Foto de António Alba)

O 8 era o Carlos Aparício (um viseense que era afilhado de um escritor que eu muito admirava, e admiro: Aquilino Ribeiro), artista de rara sensibilidade, que fez o meu retrato a carvão. Está de sapatilhas porque tinha ido a “doentes” , por ter bolhas de água nos pés (ir a “doentes”, muitas vezes era feito apenas para nos baldarmos aos extenuantes exercícios de Aplicação Militar. Mas, em contrapartida, doente ou não, ficava-se cinco dias a “convalescer”, sem poder sair do quartel).

O nº 12 era o Manuel Palma. Alentejano de Corte do Pinto (Mértola), residia com os pais em Campo de Ourique e, nesse 9 de Agosto, tinha família e amigos a despedirem-se dele no cais da Estação de Sul e Sueste. Quando vi tanta gente a despedir-se, cheguei ao pé dele e perguntei-lhe: “É pá, se isto é assim quando ainda só vais para Tavira, como é que vai ser quando fores para África?”

Ficámos unha com carne durante todo o Curso. 

O nº 13 sou eu.

Na fila do meio, além do Cabrita Gil, só consigo identificar o 21. Era o Carlos, de Meda, que na altura era professor primário em Murça.

Na fila de cima, com o nº 28 está o Alonso. Era um jovem endinheirado, de Vila Nova de Foz Coa, que de vez em quando alugava um táxi para ir ver a família.

Durante um exercício de campo, alguns de nós, entre os quais o Alonso, saltámos um muro para ir a um pomar apanhar laranjas, antes que apodrecessem. Despassarado como era, só quando chegou ao quartel é que o Alonso deu pela falta da baioneta, o que constituia uma falta grave. À noite, fomos em dois táxis, pagos por ele, e munidos com lanternas eléctricas, para o pomar, à procura da baioneta, que encontrámos, juntamente com mais algumas laranjas.

O comandante e instrutor do pelotão, aspirante (seria promovido a alferes pouco tempo depois) Silvério Jónatas, tem o nº 33. Já com o posto de major, andou nas páginas dos jornais pelo papel que teve em Timor, em 1975, durante as disputas entre a Fretilin e a UDT, e que lhe valeu uma precoce passagem à reserva.

À sua esquerda com o nº 34, o furriel-miliciano Moreira, monitor, que tinha uma paciência de santo para as nossas garotices.

Como se chamam os “esquecidos”? O que fazem hoje?

Não deixava de ter piada que alguns aqui viessem ter, de pára-quedas, e me respondessem.


sábado, 3 de setembro de 2011

As Patrulhas (Parte II)


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Mapa do Quanza-Sul, em 1966

A - Gabela; B - Zona de confluência entre os rios Longa e Nhia; C - Dala Cachibo; D - Quirimbo; E - Nascente do rio Longa; F - Nascente do rio Nhia;

A fazenda Longa Nhia, propriedade da CADA (Companhia Angolana de Agricultura) situava-se quase no limite do Distrito do Quanza-Sul, a Noroeste, onde começava o Distrito de Luanda, próximo da confluência dos rios Longa e Nhia.

Nunca tínhamos realizado nenhuma patrulha para aquelas longínquas bandas, quando me tocou, não me lembro se por escala, ou se na circunstância fui intencionalmente “premiado” (o que de vez em quando acontecia, depois de o comando da Companhia ter sido assumido pelo capitão Carvalho, que não escondia que tinha por mim uma especial “simpatia”) com uma patrulha de quatro dias, que incluía a passagem por aquela fazenda.

Uma patrulha com quatro dias de duração era normalmente uma estopada, mas não fiquei muito aborrecido. Embora não houvesse nenhum motivo razoável que o justificasse, sentia alguma atracção pela Longa Nhia. Talvez fosse a exótica sonoridade do nome. (Acontecia-me gostar de um local antes de o conhecer, só porque gostava do nome. Por exemplo, fui três vezes em patrulha a uma localidade chamada Dala Cachibo, porque o nome me caiu no goto. Por escala, só lá teria ido uma vez: a segunda. Das outras fui por troca com camaradas que não gostavam da viagem, porque a “estrada” era péssima. Para mim também era, mas o desconforto era compensado pela simpatia dos moradores. Além disso, comia-se lá muito bem).

No fim do primeiro dia de viagem a caminho da Longa Nhia – a viagem incluía, como era hábito, visitas a outras roças e a várias sanzalas –, jantámos e passámos a noite numa fazenda cujo proprietário nos recebeu tão bem, que acabámos por aceitar o insistente convite para voltar, e almoçar quando, no terceiro dia, regressássemos da Longa Nhia. Da ementa faria parte um leitão confeccionado pelo patrão, o que, a meu ver, justificava plenamente um ligeiro desvio de percurso.



Porém, os nossos planos acabaram por sair parcialmente furados. Quando seguíamos a caminho da Longa Nhia, ao chegar a hora do almoço, encontrávamo-nos numa zona onde havia três ou quatro sanzalas a curta distância umas das outras, e que tínhamos de visitar. O pequeno almoço, reforçado como era usual, tinha-nos atrasado, pelo que não tínhamos nenhum “restaurante” nas proximidades. Mas a fome também não era muita. Apesar disso, depois de o enfermeiro distribuir os habituais comprimidos aos doentes, e de fazer alguns pensos, resolvi fazer uma paragem para petiscarmos a ração de combate.

Alimentados, voltámos ao jeep para prosseguir viagem. O condutor pôs o motor a trabalhar sem qualquer problema, mas quando meteu a primeira para arrancar, as rodas não se moveram. As mudanças entravam, mas a  viatura continuava no mesmo sítio. Vendo que não havia solução no local, já que nenhum de nós sabia como resolver o problema, consultei a carta militar e concluí que a linha férrea Gabela-Porto Amboim não devia estar a mais de doze quilómetros do local onde nos encontrávamos, e que havia uma estação – creio que era o Quirimbo – que não ficava muito mais longe.

Ultrapassada a dificuldade em me fazer entender pelos moradores da sanzala – o Português não era muito falado por lá, e o meu quimbundo andava pelas ruas da amargura – lá consegui arranjar um guia que conduziu um dos meus camaradas até à estação. A 45 anos de distância não tenho a certeza se o responsável pela estação enviou uma mensagem para a Gabela, dando conta do sucedido, como julgo que terá acontecido, ou se o nosso camarada apanhou um comboio e foi pessoalmente dar conta do recado. Esta última hipótese parece-me pouco provável, porque à hora a que ele terá chegado à estação o mais natural era já ter passado o último comboio do dia.

O certo é que passámos a noite no meio de nada.

À hora do jantar apareceram uns quantos moradores da sanzala mais próxima, que, num gesto solidário, e sem saberem que possuíamos rações de combate, nos trouxeram espigas de milho, assadas, e água para beber. Foi uma atitude inesperada, que nos deixou sensibilizados. Pela nossa parte, retribuímos oferecendo algumas das nossas rações, que eles não conheciam, explicando-lhes em que consistia o seu conteúdo, além de dividirmos com eles parte da nossa provisão de cigarros, que para eles eram uma espécie de tesouro. Pareceram contentes com a nossa oferta e retiraram-se para a sanzala. Nós dormimos ao relento.


Rio Nhia

No dia seguinte, à hora em que devíamos estar a sentar-nos à mesa para comer o leitão, chegou um Land-Rover transportando o furriel-mecânico Sousa e o 1º cabo-mecânico Claudino (“Zé da Pipa” para os amigos), cujas mãos obravam milagres na resolução das mais variadas avarias. Para aquela não houve milagre. Segundo estes especialistas, o disco de embraiagem tinha-se “descravado” e não tinha reparação possível no local, pelo que não tivemos outro remédio senão levar o jeep a reboque do Land-Rover.

E foi assim que ao fim da tarde chegámos, não à Gabela, mas à fazenda onde devíamos ter almoçado, encontrando o respectivo proprietário muito preocupado pela nossa demora. Porém, o petisco continuava à nossa espera, agora com mais dois comensais.

O leitão, temperado a preceito, tinha ido ao forno com um recheio de arroz e miúdos e, depois de voltar ao forno para ser aquecido, foi devidamente apreciado por todos.

Sou um apreciador de leitão, sobretudo quando assado à moda da Bairrada, mas, talvez induzido por aquelas circunstâncias tão especiais, continuo a achar que nunca mais comi um leitão que me soubesse tão bem.

No dia seguinte chegámos à Gabela, à hora do almoço. E eu nunca cheguei a ir à fazenda Longa Nhia. Mas fiquei com pena.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

As Patrulhas (Parte I)



Roça de café

Não havendo na Gabela acções de guerrilha, as nossas tarefas no exterior eram completamente diferentes das que desenvolvíamos em Lucunga. As batidas, as emboscadas, ou os assaltos aos acampamentos da FNLA (tanto quanto me recordo, o MPLA não actuava na zona de acção da nossa Companhia), levados a cabo por um ou mais pelotões e, de vez em quando, por secções, no caso de algumas emboscadas, deram lugar às patrulhas, que habitualmente envolviam um jeep Willys, o respectivo condutor, e mais três elementos: um furriel, um cabo ou um soldado e, quase sempre, um enfermeiro.

A presença do enfermeiro, portador da mala de primeiros socorros, devidamente apetrechada a contar com a numerosa “freguesia”, prendia-se com a assistência que era dada aos moradores das sanzalas por onde passávamos (pondo em prática a política de Acção Psico-Social), e onde havia sempre alguém a necessitar de ajuda. Às vezes até faziam fila alguns que não sofriam de qualquer maleita.

Ao percorrermos intensivamente a nossa zona de acção, estávamos também a passar a mensagem de que estávamos atentos a qualquer tentativa de sublevação por parte de movimentos independentistas (embora neste campo a acção dos agentes da PIDE, bem como da sua rede de informadores, fosse bem mais relevante). Por outro lado, a mensagem tinha também como alvo a outra parte da população, sobretudo a que vivia isolada nas fazendas, ou em localidades de menor dimensão, e que muitas vezes mostrava, nas conversas que mantínhamos, alguma apreensão.

Durante a semana de sobreposição, os camaradas da Companhia que fomos render informaram-nos que na maior parte das fazendas por onde iriamos passar, seriamos acolhidos por pessoas hospitaleiras, que, frequentemente, insistiriam não só para que aceitássemos partilhar a sua mesa, mas também para que pernoitássemos em suas casas, no caso de a patrulha se prolongar por dois, ou mais dias.





Jeep Willys

E ficámos igualmente a saber que nessas ocasiões era costume as refeições serem melhoradas, relativamente às ementas do dia a dia, sendo de realçar a primeira refeição da manhã, que não se limitava ao nosso habitual café com leite e pão com manteiga.

Desta forma, não estranhei quando, na minha primeira patrulha de dois dias, recebi o convite, que aceitei, para jantar e pernoitar numa fazenda de café. O programa começou por se desenrolar de acordo com as informações que já tinha. Embora não me recorde do que foi servido, sei que jantámos bem, e que dormimos confortavelmente. A surpresa surgiu quando, na manhã seguinte, chegámos à sala de jantar e, para meu espanto, vi em cima da mesa umas chávenas pequenas, café, e um prato com bolachas.

Alguém me tinha enganado. Afinal, onde estava o tal pequeno almoço substancial?

O dono da casa fez-nos companhia no mata-bicho do café e das bolachas do nosso desapontamento (já estava mentalizado para parar uns quilómetros à frente, a fim de tomarmos o pequeno almoço da ração de combate que levavámos, que nos alimentaria melhor do que o café e as bolachas) e, quando eu me preparava para agradecer a hospitalidade e seguir viagem (não sem antes verificar as condições de alojamento dos trabalhadores, cuja qualidade tinha que mencionar no relatório da patrulha), convidou-me para dar uma volta com ele pela fazenda. Isso ia atrasar-me um pouco, mas acedi e lá fomos.




Cafeeiro

Quando regressámos, convidou-nos a subir de novo para a sala de jantar, onde encontrámos a mesa posta para o verdadeiro pequeno almoço, que de pequeno não tinha nada: frango de churrasco, com batatas fritas e arroz. Para “empurrar”, cerveja gelada.

Assim estava melhor, e era bastante mais do que estávamos à espera.

De uma maneira geral, era assim que éramos acolhidos, acontecendo que, às vezes, uma recusa – que só acontecia se já tínhamos um compromisso anterior – era tomada quase como se fosse uma desconsideração. A excepção a estes acolhimentos “sibaríticos” verificava-se nas fazendas pertencentes a empresas, que eram geridas por empregados, onde éramos bem recebidos, mas sem tantas mordomias.


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Desporto na Gabela



Equipas formadas antes do jogo de Andebol. Da equipa da Escola Técnica, identifico o João (o mais alto) e, à sua esquerda parece o Carioca; depois, o árbitro, Morais Soares, Simões da Silva, Pereira, Fagundes, Miranda Dias, Mourão, Vaz e Fonseca

À semelhança do que acontecia em Lucunga, também na Gabela a actividade desportiva constituia uma prática diária, embora com algumas condicionantes. Desde logo porque a área ocupada pelo quartel era muito diminuta em comparação com Lucunga. Por outro lado, porque os reduzidos terrenos planos disponíveis inviabilizavam a construção de espaços para a prática desportiva (um campo de Andebol, por exemplo), para complementar o pequeno campo de futebol existente que estava longe de possuir as dimensões mínimas, se bem que esta limitação acabasse por não ser inteiramente má. De facto, embora lá disputássemos renhidas partidas, raramente se encontravam disponíveis jogadores em número suficiente para se formarem equipas com onze de cada lado. Muitas vezes, para jogarmos sete contra sete, ou oito contra oito, incluiamos jovens moradores das sanzalas vizinhas.

A falta de futebolistas, em contraste com a realidade de Lucunga, justificava-se porque apenas dois pelotões estavam aquartelados na Gabela (o 4º pelotão fora colocado logo de início em Porto Amboim, e o 3º cedo foi para Vila Nova de Seles, tendo mais tarde sido deslocado para o Calulo), além de uma parte do pessoal estar ocupada com os diversos serviços indispensáveis ao funcionamento da Companhia, ou em serviço externo.


Antes do jogo. De pé: Mourão, Simões da Silva, Pereira e Fagundes; em baixo: Fonseca e Miranda Dias
(Falta aqui o Vaz)

Todavia, estas limitações não impediam que tomássemos parte nas diversas actividades desportivas da comunidade local.

Além de termos seis futebolistas integrados na equipa do principal clube local – ARA-Associação Recreativa do Amboim – que na época anterior tinha ascendido ao principal escalão do futebol angolano, disputámos durante o ano em que permanecemos na cidade, pelo menos, dois torneios de futebol de 5 (a que hoje se chama futsal, e que tem regras um pouco diferentes), apresentando duas equipas – uma constituida por cabos e soldados, que ganhou os dois torneios, e outra por oficiais e sargentos, que ficou em segundo lugar – que competiram com equipas de várias empresas. Porém, os jogos mais badalados eram os que nos opunham às equipas da Escola Técnica ou do Colégio Infante de Sagres. Quando jogávamos com estas equipas, o ambiente era de grande rivalidade desportiva, pelo que havia sempre grande afluência de público.


Fase do jogo de Voleibol. Da CArt 738: ao fundo, Fonseca; a bater a bola, Morgado; de costas, Simões da Silva
Do Colégio, apenas identifico o Rui Amaral, em segundo plano

Para lá destas competições, tinham lugar, às vezes, tardes desportivas isoladas, isto é, sem estarem integradas num qualquer torneio.

Foi o que aconteceu num fim de semana, cuja data não consigo precisar, mas que situo em Maio ou Junho, visto que das equipas fazia parte o tenente Simões da Silva, que era então o comandante de Companhia. No campo de jogos da Escola Técnica, disputámos um jogo de Andebol, tendo como oponente uma equipa constituida por alunos da referida Escola, e outro jogo, de Voleibol, em que defrontámos um conjunto do Colégio Infante de Sagres.


Campo onde se disputavam os jogos de Futebol de 5, propriedade da ARA 

Vencemos os dois jogos, e não fizemos mais do que a nossa obrigação, principalmente no que se refere ao Andebol, pois faziam parte da equipa dois jogadores que, antes de serem incorporados no serviço militar, eram praticantes da modalidade, jogando em equipas de topo: o alferes Fagundes, que era andebolista do Benfica, e o furriel Miranda Dias, que pertencia ao Belenenses, que para este jogo se deslocaram de Porto Amboim, onde estavam colocados.

Alguns meses mais tarde, disputámos desafios de Futebol de 5 e de Andebol, nas festas de Novo Redondo. Não me recordo do resultado do Andebol, embora pense que ganhámos, com forte oposição da equipa local, mas recordo-me que no futebol fomos claramente derrotados, para grande alegria dos nossos jovens adversários, tendo eu contribuido decisivamente para o resultado final, com a minha desastrosa actuação na defesa da baliza.


Da esq. para a dta.: Casimiro, Fonseca (que posição tão estranha!), Morgado, Pereira e Simões da Silva

(o Fagundes e o Miranda Dias, já deviam ir de volta para Porto Amboim)

Mas, pela satisfação que lhes proporcionei, valeu a pena a frangalhada que dei naquela noite. Aliás, se o comandante de Batalhão ainda fosse o tenente-coronel Cabrita Gil, quem sabe se ele não teria interpretado a minha actuação em benefício da população como uma forma de pôr em prática a Acção Psico-Social, e acabasse por me dar, no mínimo, um louvor.   

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A visita do Subsecretário de Estado



Vista aérea da Boa Entrada 

(Foto de Paula Bessa)
Encontrando-se de visita a Angola, o Subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino incluiu no seu périplo uma viagem ao Quanza-Sul, tendo-se deslocado, em 23 de Julho de 1966, à Gabela, Boa Entrada e Novo Redondo, acompanhado pelo Governador Geral de Angola, bem como pelo pelo Governador daquela Província, entre outras entidades.
Coube-me a tarefa de garantir a segurança da comitiva enquanto estivesse na zona de intervenção da nossa Companhia, e lá fui, com a minha secção, para o efeito reforçada com militares de outra secção.

Tudo corria normalmente, até que, na visita às instalações de descasque de café da CADA (que era, à época, uma das maiores companhias agrícolas do Mundo), na Boa Entrada, aconteceu o imprevisto.

Naquela data, e à mesma hora a que se realizava a visita, disputava-se em Inglaterra o jogo Portugal-Coreia do Norte, a contar para os quartos-de-final do Campeonato do Mundo, que estava a correr mal para as nossas cores. Decorridos 26 minutos, já o resultado era de 0-3, desfavorável a Portugal.
Achei que nada de mal aconteceria às ilustres figuras lá dentro e, depois de dar uma olhadela, saí, ficando à porta, na companhia de um grupo que, rodeando o portador de um rádio, ouvia ansiosamente o relato. Eis senão quando, Eusébio “abre o livro” e, dando início a uma exibição de luxo, marca o primeiro dos seus 4 golos que, com mais um de José Augusto, acabariam por inverter o resultado. Como estarão recordados, ganhámos por 5-3.
Porém, o insólito aconteceu quando Eusébio marcou o terceiro golo de Portugal. Cá fora, começámos a ouvir uma enorme gritaria proveniente do interior das instalações.

Portugal 5 - Coreia do Norte 3
Interroguei-me sobre o que teria acontecido e entrei rapidamente para identificar a origem daquele alarido. Acontecera que a solenidade que até aí tinha sido observada durante toda a visita, tinha ido para o brejo. Toda aquela gente, que minutos antes estava sisuda e cheia de cerimónias e salamaleques, pulava e gritava, trocando efusivos abraços.
Lá dentro, alguém tinha um pequeno rádio-transístor ligado e, embora o som estivesse baixo, foi tal o seu entusiasmo com o golo que estabeleceu o empate, que não se conteve e gritou “golo de Portugal”. Na prática, acabaria aí a visita oficial às instalações da Boa Entrada. Todas aquelas ilustres personalidades permaneceram no local, ouvindo o relato até terminar o jogo, altura em que se repetiram as manifestações de alegria.
No que me dizia respeito, depois de “entregar" a comitiva no limite da zona de acção da minha Companhia aos camaradas de Novo Redondo, voltei para a Gabela, onde se tinha formado um eufórico cortejo automóvel, com as pessoas a exteriorizarem a alegria que lhes ia na alma e que expressavam buzinando, cantando, gritando. Enfim, uma festa.



Caminho que, a partir da estrada Gabela-Novo Redondo, conduzia à Boa Entrada



Lembrando-me dos princípios da política psico-social (tão cara aos nossos governantes e a algumas autoridades militares), segundo a qual nós, militares, deveríamos, não só apoiar as iniciativas da população, mas também colaborar nelas sempre que possível, não achei melhor forma de pôr em prática os “meus deveres” e decidi integrar no referido cortejo a nossa viatura (ou seriam dois jipes Land-Rover?).
Lamentavelmente, o capitão Soares de Carvalho, que era então o comandante de Companhia – o 4º que tivemos, e que, por motivos que ainda hoje desconheço, não simpatizava comigo – não tinha a mesma opinião. Depois de regressarmos ao quartel, e de eu me apresentar, presenteou-me com uma valente descompostura, que incluiu a citação das normas do Regulamento de Disciplina Militar (vulgo RDM) que eu teria infringido – e que pelos vistos eram, para ele, incompatíveis com a acção psico-social –, e a ameaça de uma “passa” na próxima vez que eu voltasse a pisar o risco.
Confesso que a “rabecada” pouca mossa me fez, depois dos excitantes acontecimentos do dia.
De resto, a noite acabaria em festa, em casa do civil Zeca Reais (um bom amigo, já falecido), onde eu e outros camaradas, o ajudámos a ver-se livre de alguns saborosos petiscos, acompanhados de um excelente “chá” da Escócia.

P.S. - Salvo erro, foi nessa noite que ouvi pela primeira vez o disco com a canção dos Beatles,  "Michelle".

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na Missão do Bembe




As fotografias que acompanham este texto foram-me enviadas pelo antigo furriel-miliciano da Companhia de Caçadores 715 (CCaç 715), Carlos Cristóvão.

Na mensagem que as acompanhava, o Cristóvão escreveu que não tinha a certeza se a foto acima era da nossa Companhia (CArt 738), tirada quando passámos pela primeira vez na Missão a caminho de Lucunga, ou se seria da Companhia que os foi render quando a CCaç 715 foi transferida para o Leste de Angola.

Apesar da distância a que se encontrava o fotógrafo, e da consequente má definição dos rostos, parece-me que a fotografia retrata o 2º e o 3º pelotões da CArt 738, e que teve realmente lugar nas circunstâncias referidas pelo Carlos Cristóvão, porque julgo que consigo identificar cinco dos retratados.

Assim, o militar assinalado com o nº 1, é o comandante de Companhia, capitão Rubi Marques. Apesar de se encontar de costas para a objectiva, quer a posição muito peculiar dos braços, quer a do corpo, bem como a inclinação da cabeça, eram características que permitem a sua identificação, quase como se fossem as suas impressões digitais.

Com o nº 2, identifico o alferes-miliciano Francisco Morgado, comandante do 2º pelotão. O nº 3 é o alferes-miliciano Vítor Casimiro (dono de uma excelente voz e especialista do fado de Coimbra), comandante do 3º pelotão. O nº 4 é o furriel-miliciano José Rodrigues, comandante da 2ª secção, do 2º pelotão. Finalmente, o sargento Ferreira da Silva, comandante da 1ª secção, do 2º pelotão, é o nº 5.

Ao fundo, podem ver-se alguns dos camiões onde, “confortavelmente”, viajámos de Luanda para Lucunga, durante dois dias.

Não consigo identificar mais nenhum dos meus antigos camaradas. Se algum dos leitores o conseguir e me quiser informar, agradeço.



A outra fotografia, que o Cristóvão diz referir-se aos preparativos para uma operação onde intervieram várias Companhias, entre as quais teria estado a CArt 738, deixa-me alguma perplexidade, porque ele escreveu que os militares que se encontram à esquerda, “equipados” com capacetes de ferro, pertenciam à minha Companhia, e que os capacetes teriam sido motivo para algum gozo por parte do pessoal das outras unidades .

Ora, acho improvável que seja pessoal da CArt 738, não só porque nunca, antes ou depois, estive em nenhuma operação em que tivessemos usado capacetes (que, de resto, eram completamente inadequados ao tipo de actividades que levávamos a cabo), mas também porque nem sequer me lembro de alguma vez ter visto aquele material na nossa Companhia. Não estou a afirmar que não existiam, apenas digo que não tenho a menor ideia da sua existência (também neste particular, uma ajuda será bem-vinda).

Durante o período que estive em tratamento a uma fractura, no Hospital Militar, em Luanda, que coincidiu parcialmente com a estação seca, a CArt 738 esteve envolvida em várias operações conjuntas com outras unidades e, nalgumas, foram utilizados helicópteros para transporte de pessoal, como foi o caso desta, que pode ter coincidido com o referido período, o que explicaria que, se de facto lá esteve o nosso pessoal, eu não me recorde dela (mas, tendo ouvido relatos de outras operações dessa época, principalmente se o meu pelotão teve intervenção nelas, é estranho que não me falassem desta).

Há por aí alguém disponível para fazer luz sobre esta minha dúvida?

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A Piscina




Piscina da Gabela

Das janelas do corredor das traseiras que davam acesso aos quartos do Hotel Guaraná, onde, com alguns colegas, fiquei alojado na primeira semana de permanência na Gabela, avistava-se uma piscina vazia, de razoáveis dimensões, dotada de uma torre com duas pranchas de saltos, e com todo o ar de estar votada ao abandono.

Na recepção do hotel informaram-nos que a piscina era propriedade da Câmara, mas que já não funcionava há muito tempo.


Da esq, para a dta.: Alves (?), Fonseca, Vaz, Mourão e Sousa

Parecendo-nos um desperdício que, encontrando-se a cidade a cerca de 95 quilómetros da praia mais próxima, se desaproveitasse aquele equipamento público, resolvemos sugerir ao nosso comandante, capitão Hélio Xavier, que pusessemos a piscina a funcionar, com a concordância das autoridades municipais (estando o fornecimento de água incluido na anuência), ficando a limpeza e posterior manutenção a cargo de militares da Companhia (na base do voluntariado).

Tendo recebido luz verde do capitão Xavier, uma pequena delegação deslocou-se ao edifício da Câmara, a fim de solicitar a marcação de uma data para falarmos com o presidente (que, salvo erro, tinha como apelido, Correia). Não foi preciso marcar data porque o edil, tendo-se apercebido da nossa presença, imediatamente nos convidou para entrar no seu gabinete, disponibilizando-se para nos ouvir.

Apresentámos a nossa proposta, frisando o benefício de que toda a população – e aqui falámos com especial ênfase no elevado número de jovens residentes - passaria a usufruir, com custos mínimos para a edilidade.

Julgávamos que a sua decisão ficaria para mais tarde, mas ele disse-nos logo que por ele até concordava, mas que havia um senão: a piscina não dispunha de quaisquer equipamentos para tratamento da água.


O autor do blogue

Perante este óbice, ficámos desapontados e embatucámos. No entanto, na continuação da conversa, alguém (não me recordo quem foi) sugeriu que à falta de melhor se optasse por uma renovação contínua da água. Parecia uma proposta de doidos, mas a verdade é que foi, tanto quanto me lembro, parcialmente posta em prática: durante o dia havia um tubo de borracha de pequenas dimensões a debitar água para a piscina, ao mesmo tempo que do lado oposto a água era escoada para um curso de água que passava junto à piscina.

E, tanto quanto sei, o ”estratagema” resultou, porque não houve notícia de alguém ter sido vítima de nenhuma das doenças habitualmente ligadas à frequência de piscinas. É claro que, em princípio, ninguém entrava na água sem passar previamente, quer pelo duche, quer pelo lava-pés. É certo que, embora a afluência de civis fosse razoável, não podemos falar de enchentes. Em boa verdade, éramos nós, militares, os principais utilizadores daquele espaço, acompanhados por um punhado de jovens, e um ou outro civil adulto (habitualmente jovens mães com os filhos). Boa parte da população preferia fazer quase 200 quilómetros (ida e volta) e, ao domingo, ia até à praia de Novo Redondo.


Praia de Novo Redondo

É certo que a ocasião era igualmente aproveitada para fazer um almoço especial – incluindo, muitas vezes, lagosta a um preço acessível -, ao mesmo tempo que desfrutavam de uma excelente praia. Por outro lado, a estrada, que tinha sido recentemente asfaltada, era boa, se exceptuarmos as curvas do morro da Gabela, onde em Fevereiro de 1967 sofri um grave acidente, sobre o qual escreverei mais tarde.

Acabámos por passar bons momentos, dentro e fora da água, com alguns episódios interessantes.