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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Desporto na Gabela



Equipas formadas antes do jogo de Andebol. Da equipa da Escola Técnica, identifico o João (o mais alto) e, à sua esquerda parece o Carioca; depois, o árbitro, Morais Soares, Simões da Silva, Pereira, Fagundes, Miranda Dias, Mourão, Vaz e Fonseca

À semelhança do que acontecia em Lucunga, também na Gabela a actividade desportiva constituia uma prática diária, embora com algumas condicionantes. Desde logo porque a área ocupada pelo quartel era muito diminuta em comparação com Lucunga. Por outro lado, porque os reduzidos terrenos planos disponíveis inviabilizavam a construção de espaços para a prática desportiva (um campo de Andebol, por exemplo), para complementar o pequeno campo de futebol existente que estava longe de possuir as dimensões mínimas, se bem que esta limitação acabasse por não ser inteiramente má. De facto, embora lá disputássemos renhidas partidas, raramente se encontravam disponíveis jogadores em número suficiente para se formarem equipas com onze de cada lado. Muitas vezes, para jogarmos sete contra sete, ou oito contra oito, incluiamos jovens moradores das sanzalas vizinhas.

A falta de futebolistas, em contraste com a realidade de Lucunga, justificava-se porque apenas dois pelotões estavam aquartelados na Gabela (o 4º pelotão fora colocado logo de início em Porto Amboim, e o 3º cedo foi para Vila Nova de Seles, tendo mais tarde sido deslocado para o Calulo), além de uma parte do pessoal estar ocupada com os diversos serviços indispensáveis ao funcionamento da Companhia, ou em serviço externo.


Antes do jogo. De pé: Mourão, Simões da Silva, Pereira e Fagundes; em baixo: Fonseca e Miranda Dias
(Falta aqui o Vaz)

Todavia, estas limitações não impediam que tomássemos parte nas diversas actividades desportivas da comunidade local.

Além de termos seis futebolistas integrados na equipa do principal clube local – ARA-Associação Recreativa do Amboim – que na época anterior tinha ascendido ao principal escalão do futebol angolano, disputámos durante o ano em que permanecemos na cidade, pelo menos, dois torneios de futebol de 5 (a que hoje se chama futsal, e que tem regras um pouco diferentes), apresentando duas equipas – uma constituida por cabos e soldados, que ganhou os dois torneios, e outra por oficiais e sargentos, que ficou em segundo lugar – que competiram com equipas de várias empresas. Porém, os jogos mais badalados eram os que nos opunham às equipas da Escola Técnica ou do Colégio Infante de Sagres. Quando jogávamos com estas equipas, o ambiente era de grande rivalidade desportiva, pelo que havia sempre grande afluência de público.


Fase do jogo de Voleibol. Da CArt 738: ao fundo, Fonseca; a bater a bola, Morgado; de costas, Simões da Silva
Do Colégio, apenas identifico o Rui Amaral, em segundo plano

Para lá destas competições, tinham lugar, às vezes, tardes desportivas isoladas, isto é, sem estarem integradas num qualquer torneio.

Foi o que aconteceu num fim de semana, cuja data não consigo precisar, mas que situo em Maio ou Junho, visto que das equipas fazia parte o tenente Simões da Silva, que era então o comandante de Companhia. No campo de jogos da Escola Técnica, disputámos um jogo de Andebol, tendo como oponente uma equipa constituida por alunos da referida Escola, e outro jogo, de Voleibol, em que defrontámos um conjunto do Colégio Infante de Sagres.


Campo onde se disputavam os jogos de Futebol de 5, propriedade da ARA 

Vencemos os dois jogos, e não fizemos mais do que a nossa obrigação, principalmente no que se refere ao Andebol, pois faziam parte da equipa dois jogadores que, antes de serem incorporados no serviço militar, eram praticantes da modalidade, jogando em equipas de topo: o alferes Fagundes, que era andebolista do Benfica, e o furriel Miranda Dias, que pertencia ao Belenenses, que para este jogo se deslocaram de Porto Amboim, onde estavam colocados.

Alguns meses mais tarde, disputámos desafios de Futebol de 5 e de Andebol, nas festas de Novo Redondo. Não me recordo do resultado do Andebol, embora pense que ganhámos, com forte oposição da equipa local, mas recordo-me que no futebol fomos claramente derrotados, para grande alegria dos nossos jovens adversários, tendo eu contribuido decisivamente para o resultado final, com a minha desastrosa actuação na defesa da baliza.


Da esq. para a dta.: Casimiro, Fonseca (que posição tão estranha!), Morgado, Pereira e Simões da Silva

(o Fagundes e o Miranda Dias, já deviam ir de volta para Porto Amboim)

Mas, pela satisfação que lhes proporcionei, valeu a pena a frangalhada que dei naquela noite. Aliás, se o comandante de Batalhão ainda fosse o tenente-coronel Cabrita Gil, quem sabe se ele não teria interpretado a minha actuação em benefício da população como uma forma de pôr em prática a Acção Psico-Social, e acabasse por me dar, no mínimo, um louvor.   

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A visita do Subsecretário de Estado



Vista aérea da Boa Entrada 

(Foto de Paula Bessa)
Encontrando-se de visita a Angola, o Subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino incluiu no seu périplo uma viagem ao Quanza-Sul, tendo-se deslocado, em 23 de Julho de 1966, à Gabela, Boa Entrada e Novo Redondo, acompanhado pelo Governador Geral de Angola, bem como pelo pelo Governador daquela Província, entre outras entidades.
Coube-me a tarefa de garantir a segurança da comitiva enquanto estivesse na zona de intervenção da nossa Companhia, e lá fui, com a minha secção, para o efeito reforçada com militares de outra secção.

Tudo corria normalmente, até que, na visita às instalações de descasque de café da CADA (que era, à época, uma das maiores companhias agrícolas do Mundo), na Boa Entrada, aconteceu o imprevisto.

Naquela data, e à mesma hora a que se realizava a visita, disputava-se em Inglaterra o jogo Portugal-Coreia do Norte, a contar para os quartos-de-final do Campeonato do Mundo, que estava a correr mal para as nossas cores. Decorridos 26 minutos, já o resultado era de 0-3, desfavorável a Portugal.
Achei que nada de mal aconteceria às ilustres figuras lá dentro e, depois de dar uma olhadela, saí, ficando à porta, na companhia de um grupo que, rodeando o portador de um rádio, ouvia ansiosamente o relato. Eis senão quando, Eusébio “abre o livro” e, dando início a uma exibição de luxo, marca o primeiro dos seus 4 golos que, com mais um de José Augusto, acabariam por inverter o resultado. Como estarão recordados, ganhámos por 5-3.
Porém, o insólito aconteceu quando Eusébio marcou o terceiro golo de Portugal. Cá fora, começámos a ouvir uma enorme gritaria proveniente do interior das instalações.

Portugal 5 - Coreia do Norte 3
Interroguei-me sobre o que teria acontecido e entrei rapidamente para identificar a origem daquele alarido. Acontecera que a solenidade que até aí tinha sido observada durante toda a visita, tinha ido para o brejo. Toda aquela gente, que minutos antes estava sisuda e cheia de cerimónias e salamaleques, pulava e gritava, trocando efusivos abraços.
Lá dentro, alguém tinha um pequeno rádio-transístor ligado e, embora o som estivesse baixo, foi tal o seu entusiasmo com o golo que estabeleceu o empate, que não se conteve e gritou “golo de Portugal”. Na prática, acabaria aí a visita oficial às instalações da Boa Entrada. Todas aquelas ilustres personalidades permaneceram no local, ouvindo o relato até terminar o jogo, altura em que se repetiram as manifestações de alegria.
No que me dizia respeito, depois de “entregar" a comitiva no limite da zona de acção da minha Companhia aos camaradas de Novo Redondo, voltei para a Gabela, onde se tinha formado um eufórico cortejo automóvel, com as pessoas a exteriorizarem a alegria que lhes ia na alma e que expressavam buzinando, cantando, gritando. Enfim, uma festa.



Caminho que, a partir da estrada Gabela-Novo Redondo, conduzia à Boa Entrada



Lembrando-me dos princípios da política psico-social (tão cara aos nossos governantes e a algumas autoridades militares), segundo a qual nós, militares, deveríamos, não só apoiar as iniciativas da população, mas também colaborar nelas sempre que possível, não achei melhor forma de pôr em prática os “meus deveres” e decidi integrar no referido cortejo a nossa viatura (ou seriam dois jipes Land-Rover?).
Lamentavelmente, o capitão Soares de Carvalho, que era então o comandante de Companhia – o 4º que tivemos, e que, por motivos que ainda hoje desconheço, não simpatizava comigo – não tinha a mesma opinião. Depois de regressarmos ao quartel, e de eu me apresentar, presenteou-me com uma valente descompostura, que incluiu a citação das normas do Regulamento de Disciplina Militar (vulgo RDM) que eu teria infringido – e que pelos vistos eram, para ele, incompatíveis com a acção psico-social –, e a ameaça de uma “passa” na próxima vez que eu voltasse a pisar o risco.
Confesso que a “rabecada” pouca mossa me fez, depois dos excitantes acontecimentos do dia.
De resto, a noite acabaria em festa, em casa do civil Zeca Reais (um bom amigo, já falecido), onde eu e outros camaradas, o ajudámos a ver-se livre de alguns saborosos petiscos, acompanhados de um excelente “chá” da Escócia.

P.S. - Salvo erro, foi nessa noite que ouvi pela primeira vez o disco com a canção dos Beatles,  "Michelle".

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na Missão do Bembe




As fotografias que acompanham este texto foram-me enviadas pelo antigo furriel-miliciano da Companhia de Caçadores 715 (CCaç 715), Carlos Cristóvão.

Na mensagem que as acompanhava, o Cristóvão escreveu que não tinha a certeza se a foto acima era da nossa Companhia (CArt 738), tirada quando passámos pela primeira vez na Missão a caminho de Lucunga, ou se seria da Companhia que os foi render quando a CCaç 715 foi transferida para o Leste de Angola.

Apesar da distância a que se encontrava o fotógrafo, e da consequente má definição dos rostos, parece-me que a fotografia retrata o 2º e o 3º pelotões da CArt 738, e que teve realmente lugar nas circunstâncias referidas pelo Carlos Cristóvão, porque julgo que consigo identificar cinco dos retratados.

Assim, o militar assinalado com o nº 1, é o comandante de Companhia, capitão Rubi Marques. Apesar de se encontar de costas para a objectiva, quer a posição muito peculiar dos braços, quer a do corpo, bem como a inclinação da cabeça, eram características que permitem a sua identificação, quase como se fossem as suas impressões digitais.

Com o nº 2, identifico o alferes-miliciano Francisco Morgado, comandante do 2º pelotão. O nº 3 é o alferes-miliciano Vítor Casimiro (dono de uma excelente voz e especialista do fado de Coimbra), comandante do 3º pelotão. O nº 4 é o furriel-miliciano José Rodrigues, comandante da 2ª secção, do 2º pelotão. Finalmente, o sargento Ferreira da Silva, comandante da 1ª secção, do 2º pelotão, é o nº 5.

Ao fundo, podem ver-se alguns dos camiões onde, “confortavelmente”, viajámos de Luanda para Lucunga, durante dois dias.

Não consigo identificar mais nenhum dos meus antigos camaradas. Se algum dos leitores o conseguir e me quiser informar, agradeço.



A outra fotografia, que o Cristóvão diz referir-se aos preparativos para uma operação onde intervieram várias Companhias, entre as quais teria estado a CArt 738, deixa-me alguma perplexidade, porque ele escreveu que os militares que se encontram à esquerda, “equipados” com capacetes de ferro, pertenciam à minha Companhia, e que os capacetes teriam sido motivo para algum gozo por parte do pessoal das outras unidades .

Ora, acho improvável que seja pessoal da CArt 738, não só porque nunca, antes ou depois, estive em nenhuma operação em que tivessemos usado capacetes (que, de resto, eram completamente inadequados ao tipo de actividades que levávamos a cabo), mas também porque nem sequer me lembro de alguma vez ter visto aquele material na nossa Companhia. Não estou a afirmar que não existiam, apenas digo que não tenho a menor ideia da sua existência (também neste particular, uma ajuda será bem-vinda).

Durante o período que estive em tratamento a uma fractura, no Hospital Militar, em Luanda, que coincidiu parcialmente com a estação seca, a CArt 738 esteve envolvida em várias operações conjuntas com outras unidades e, nalgumas, foram utilizados helicópteros para transporte de pessoal, como foi o caso desta, que pode ter coincidido com o referido período, o que explicaria que, se de facto lá esteve o nosso pessoal, eu não me recorde dela (mas, tendo ouvido relatos de outras operações dessa época, principalmente se o meu pelotão teve intervenção nelas, é estranho que não me falassem desta).

Há por aí alguém disponível para fazer luz sobre esta minha dúvida?

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A Piscina




Piscina da Gabela

Das janelas do corredor das traseiras que davam acesso aos quartos do Hotel Guaraná, onde, com alguns colegas, fiquei alojado na primeira semana de permanência na Gabela, avistava-se uma piscina vazia, de razoáveis dimensões, dotada de uma torre com duas pranchas de saltos, e com todo o ar de estar votada ao abandono.

Na recepção do hotel informaram-nos que a piscina era propriedade da Câmara, mas que já não funcionava há muito tempo.


Da esq, para a dta.: Alves (?), Fonseca, Vaz, Mourão e Sousa

Parecendo-nos um desperdício que, encontrando-se a cidade a cerca de 95 quilómetros da praia mais próxima, se desaproveitasse aquele equipamento público, resolvemos sugerir ao nosso comandante, capitão Hélio Xavier, que pusessemos a piscina a funcionar, com a concordância das autoridades municipais (estando o fornecimento de água incluido na anuência), ficando a limpeza e posterior manutenção a cargo de militares da Companhia (na base do voluntariado).

Tendo recebido luz verde do capitão Xavier, uma pequena delegação deslocou-se ao edifício da Câmara, a fim de solicitar a marcação de uma data para falarmos com o presidente (que, salvo erro, tinha como apelido, Correia). Não foi preciso marcar data porque o edil, tendo-se apercebido da nossa presença, imediatamente nos convidou para entrar no seu gabinete, disponibilizando-se para nos ouvir.

Apresentámos a nossa proposta, frisando o benefício de que toda a população – e aqui falámos com especial ênfase no elevado número de jovens residentes - passaria a usufruir, com custos mínimos para a edilidade.

Julgávamos que a sua decisão ficaria para mais tarde, mas ele disse-nos logo que por ele até concordava, mas que havia um senão: a piscina não dispunha de quaisquer equipamentos para tratamento da água.


O autor do blogue

Perante este óbice, ficámos desapontados e embatucámos. No entanto, na continuação da conversa, alguém (não me recordo quem foi) sugeriu que à falta de melhor se optasse por uma renovação contínua da água. Parecia uma proposta de doidos, mas a verdade é que foi, tanto quanto me lembro, parcialmente posta em prática: durante o dia havia um tubo de borracha de pequenas dimensões a debitar água para a piscina, ao mesmo tempo que do lado oposto a água era escoada para um curso de água que passava junto à piscina.

E, tanto quanto sei, o ”estratagema” resultou, porque não houve notícia de alguém ter sido vítima de nenhuma das doenças habitualmente ligadas à frequência de piscinas. É claro que, em princípio, ninguém entrava na água sem passar previamente, quer pelo duche, quer pelo lava-pés. É certo que, embora a afluência de civis fosse razoável, não podemos falar de enchentes. Em boa verdade, éramos nós, militares, os principais utilizadores daquele espaço, acompanhados por um punhado de jovens, e um ou outro civil adulto (habitualmente jovens mães com os filhos). Boa parte da população preferia fazer quase 200 quilómetros (ida e volta) e, ao domingo, ia até à praia de Novo Redondo.


Praia de Novo Redondo

É certo que a ocasião era igualmente aproveitada para fazer um almoço especial – incluindo, muitas vezes, lagosta a um preço acessível -, ao mesmo tempo que desfrutavam de uma excelente praia. Por outro lado, a estrada, que tinha sido recentemente asfaltada, era boa, se exceptuarmos as curvas do morro da Gabela, onde em Fevereiro de 1967 sofri um grave acidente, sobre o qual escreverei mais tarde.

Acabámos por passar bons momentos, dentro e fora da água, com alguns episódios interessantes.

domingo, 31 de julho de 2011

As Emboscadas

Em primeiro plano, o autor do blogue; No jeep, o furriel-miliciano mecânico Sousa e o soldado clarim do 2º pelotão, Gomes

Segundo uma nota que escrevi no verso, esta fotografia foi tirada pouco depois de eu ter regressado de uma emboscada. Não tenho mais pormenores. Não sei, por isso, nem a data, nem as circunstâncias da operação em causa.

Tenho o cabelo cortado curto, como usei sempre durante o tempo que estive em Lucunga, e há um detalhe na foto que me intriga: que diabo fazia a caneta (ou esferográfica) que se vê no bolso esquerdo da camisa, numa emboscada? Será que levei um bloco e aproveitei o longo tempo de inacção para pôr a escrita em dia? É uma dúvida que não vai ter solução.

A fotografia deve ter sido feita nos primeiros meses da nossa permanência em Lucunga, porque nela aparece a bandeira nacional, hasteada, mas não mostra o “monumento” da Companhia que entretanto foi construido, e que devia aparecer neste enquadramento.

As emboscadas, em que procurávamos surpreender o inimigo, tinham uma duração que variava de um até quatro dias, e eram uma estopada de todo o tamanho, sobretudo quando tinham uma duração superior a um dia. Ficávamos ali, quietos, em silêncio, ou se necessário falando num murmúrio, a comer ração de combate (excepto se ficássemos apenas um dia, caso em que levávamos sanduíches feitas com meio pão casqueiro, para cada refeição – quase sempre com atum -, que era também a ementa para batidas de curta duração), com água racionada, já que não tínhamos como reabastecer os cantis, numa espera enervante pela chegada de “convidados” que, na maior parte das vezes, tinham a “deselegância” de não comparecer ao encontro.

A primeira emboscada que fizemos, pouco depois da chegada a Lucunga, envolveu todo o pelotão (mais tarde houve ocasiões, em que a operação envolvia apenas uma secção), e ainda hoje estou convencido de que não havia previsão de passagem de nenhum grupo adverso. Aquela primeira noite que passámos na mata, destinar-se-ia antes a uma espécie de habituação ao meio. Penso que poucos terão pregado olho; e os que dormiram, acordaram sobressaltados durante a madrugada, com um tiro disparado por um dos camaradas que estava de guarda. Alarme falso: ele deve ter-se assustado com a aproximação de algum animal, que tomou por um “turra” (para usar a terminologia da época).




Jangada do rio Coji
(Cortesia do antigo furriel-miliciano da CCaç 1495,  Jorge Isidoro)

Com o passar dos meses, e com algum imprudente excesso de confiança, as emboscadas, embora não se transformassem num arraial, passaram a ser mais descontraidas. Recordo-me, por exemplo, que quando o Vitória de Setúbal ganhou a Taça de Portugal ao Benfica, na final de 1965, um pequeno grupo, de que fiz parte, afastou-se um pouco para ouvir o relato, embora com o som muito baixo.

E, quando as emboscadas (ao nível de secção) tinham lugar na margem do rio Coji, próximo da jangada, havia quem improvisasse uma cana de pesca, fio, anzol e isco, e pescasse alguns peixes, que eram assados, tão discretamente quanto possível.

Ao menos por uma vez, espero bem que o coronel Rubi Marques não seja leitor deste blogue (julgo que os alferes, comandantes de pelotão, também não tinham conhecimento da façanha).

domingo, 24 de julho de 2011

Uma soneca dispendiosa


Avião da DTA a levantar voo no Aeroporto de Luanda 


Muitos militares mobilizados para Angola – sobretudo oficiais e sargentos (neste caso, sobretudo milicianos, que os sargentos do quadro, geralmente já com responsabilidades familiares, queriam fazer poupanças) – aproveitavam os 30 dias de férias anuais para, pelo menos uma vez durante a comissão, viajar para Portugal, a fim de matarem saudades de familiares, namoradas, madrinhas de guerra e amigos, não necessariamente por esta ordem.

Havia uma agência em Luanda – a Confabril, do Grupo CUF – que se especializou na venda de passagens, com facilidades de pagamento, e onde quase todos comprávamos as nossas viagens.

Quem vinha de férias para o “puto”, gozava sempre mais do que os 30 dias da ordem, porque o período de licença começava a contar na data do embarque em Luanda, terminando, se a memória não me falha, no dia em que desembarcava no mesmo Aeroporto. O tempo da viagem desde o quartel até Luanda, e a estadia naquela cidade até ao embarque, não contavam.

Quem queria gozar mais uns dias em Luanda, marcava as férias de forma a que o período entre a data da chegada a Luanda do voo de ligação da DTA, que fazia as rotas internas, e a data do embarque para Lisboa, fosse o mais dilatado possível. Este truque também funcionava aquando do regresso, claro.

Quando a escala de férias das Companhias era mais “apertada”, a artimanha era outra, só funcionava no regresso de férias, e custava dinheiro.

Toda a gente, ou quase toda, sabia que adiantando umas notas ao funcionário certo da DTA (e se fossem notas do Banco de Portugal, em vez das do Banco de Angola, melhor), ele punha um carimbo no passaporte indicando que o voo onde o interessado pretendia viajar estava esgotado. Porém, o tal funcionário só aceitava entrar neste esquema uma única vez por viajante.



Nota do Banco de Angola



Vem esta introdução a propósito de um episódio vivido, em Setembro de 1965, pelos alferes Pereira e Salazar Leite (médico), e pelo furriel Vaz, que regressaram de férias no mesmo voo, e que deviam viajar no avião da DTA, para o Toto (de onde seguiriam para Lucunga por via rodoviária) no dia seguinte ao da chegada a Luanda.

Como queriam ficar mais uns dias em Luanda (os voos para o Toto realizavam-se à terça e quinta-feira), avançaram com a quantia “tabelada” para o bolso do funcionário, e viram averbado o desejado carimbo, que lhes dava uns dias de férias extra.

Na véspera do embarque, que já não podiam falhar, despediram-se da animada noite de Luanda, regressando ao Hotel Luso, onde estavam hospedados, já os relógios marcavam três horas da madrugada, tendo, no entanto, o cuidado de pedir ao funcionário da recepção - o sempre prestável Manuel – que os acordasse às seis horas em ponto (e mesmo assim tinham que se apressar). Para não perderem tempo pela manhã, tomaram duche e vestiram a farda com que seguiriam viagem, antes de se deitarem. De manhã, era só lavar os olhos ainda ensonados, e ala para o Aeroporto.

O primeiro a acordar, que já não me lembro qual foi, ficou varado quando olhou para o relógio e viu que eram seis horas e vinte minutos. Foi acordar os outros, desceram à recepção, onde o Manuel dormia o sono dos justos, deram-lhe uma descasca rápida, que não havia tempo a perder, e meteram-se num táxi para o Aeroporto, de onde o avião havia de descolar, às sete horas.

E descolou, que eles ainda o viram a ganhar altura, quando sairam do táxi.



O pequeno avião estacionado na pista do Aeroporto de Luanda poderia ser o táxi aéreo referido neste texto


Conhecendo o comandante de Companhia – capitão Rubi Marques – que já devia estar fulo por não se terem apresentado na data devida, não faltou muito para entrarem em pânico. Sobretudo o alferes Pereira e o furriel Vaz; o alferes-médico Salazar Leite, embora também estivesse preocupado, talvez fosse o mais calmo por “beneficiar" de um estatuto especial. E foi ele quem sugeriu que alugassem um táxi aéreo, que os levaria directamente até à pista de Lucunga.


Embora cientes de que a sua bolsa levaria um rombo significativo, quer o furriel Vaz, quer o alferes Pereira, concordaram que era a melhor solução. E lá seguiram num pequeno teco-teco de quatro lugares, que aterraria em Lucunga cerca de duas horas mais tarde.

Mas nem o avultado “prejuizo” dos três acalmou o capitão Rubi Marques, que os presenteou com uma monumental descompostura (talvez também com a ameaça do célebre "auto das passas"), como só ele era capaz de proporcionar quando tinha que descascar em alguém. 

Os meus camaradas da Cart 738 sabem do que falo.

Nota final: Esta “estória” - de que todos tivemos conhecimento, na altura em que aconteceu – foi-me contada pormenorizadamente mais tarde, quer pelo furriel Vaz, quer pelo alferes Pereira, em ocasiões diferentes. Prometi que a contaria aqui. Infelizmente não cumpri a promessa a tempo de ser lida pelo Vaz. E lamento-o. Não por ele não a ter lido, que não perdeu grande coisa, mas por nos ter deixado tão prematuramente.

sábado, 16 de julho de 2011

Morreu o Vaz


(Clique na foto para aumentar)

O Vaz no convívio do Batalhão em 2010 

O Alves, que era 1º-cabo clarim da CArt 738, telefonou-me há cerca de uma hora para me comunicar a morte, durante a última noite, do José Fernando da Silva Pereira Vaz, que foi o nosso  vagomestre.

Tinha-lhe sido diagnosticado um cancro no estômago, no início deste ano, motivo porque não compareceu ao nosso almoço, a que faltou pela primeira vez.

Na sequência de vários meses de tratamento, foi sujeito a uma intervenção cirúrgica na última segunda-feira, para procederem à ablação do estômago e, nos dias seguintes, o seu estado parecia estar a evoluir com normalidade.

Fui tendo informações telefónicas diárias, na última das quais, ontem a meio da tarde, a esposa me informou que hoje lhe seriam retirados os drenos e os tubos, pelo que talvez já pudesse falar com ele. Não pude, infelizmente.

Quando a esposa deixou o hospital ontem, pelas 21 horas, tudo parecia normal, o Vaz já não estava entubado e parecia animado e bem disposto. Esta manhã o pessoal de serviço encontrou-o já sem vida.

Sobre o Vaz, sobre a sua quase permanente calma e boa disposição, sobre a nossa amizade, há muito para escrever. Não nesta hora, em que até escrever estas poucas linhas me está a ser extremamente penoso.

Que descanse em paz!