Pesquisar neste blogue

sábado, 16 de julho de 2011

Morreu o Vaz


(Clique na foto para aumentar)

O Vaz no convívio do Batalhão em 2010 

O Alves, que era 1º-cabo clarim da CArt 738, telefonou-me há cerca de uma hora para me comunicar a morte, durante a última noite, do José Fernando da Silva Pereira Vaz, que foi o nosso  vagomestre.

Tinha-lhe sido diagnosticado um cancro no estômago, no início deste ano, motivo porque não compareceu ao nosso almoço, a que faltou pela primeira vez.

Na sequência de vários meses de tratamento, foi sujeito a uma intervenção cirúrgica na última segunda-feira, para procederem à ablação do estômago e, nos dias seguintes, o seu estado parecia estar a evoluir com normalidade.

Fui tendo informações telefónicas diárias, na última das quais, ontem a meio da tarde, a esposa me informou que hoje lhe seriam retirados os drenos e os tubos, pelo que talvez já pudesse falar com ele. Não pude, infelizmente.

Quando a esposa deixou o hospital ontem, pelas 21 horas, tudo parecia normal, o Vaz já não estava entubado e parecia animado e bem disposto. Esta manhã o pessoal de serviço encontrou-o já sem vida.

Sobre o Vaz, sobre a sua quase permanente calma e boa disposição, sobre a nossa amizade, há muito para escrever. Não nesta hora, em que até escrever estas poucas linhas me está a ser extremamente penoso.

Que descanse em paz!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

In Memoriam - Fernando Babo



Antes de um jogo de futebol; de calções, o Babo

Em finais de Março de 2010 fui surpreendido pela notícia de que o Fernando Babo nos tinha deixado, no ano anterior.

Encontrei-me pela primeira vez com o Fernando Babo – Fernando Pinto da Rocha Babo, de seu nome completo – quando, em Setembro de 1964, me apresentei no RAL 1, para integrar o BArt 741.

Quis o acaso que ficássemos a pertencer à mesma Companhia (a CArt 738) acabando por desenvolver uma sã camaradagem, que com o tempo se transformou em amizade. De resto, não era difícil ser amigo do Babo. Estou certo de que não serei desmentido, ao afirmar que não havia um único militar da Companhia que não sentisse simpatia por aquele furriel-miliciano equilibrado e sensato.

A estas qualidades juntava-se uma esmerada educação, bem como uma apurada sensibilidade. Vou referir duas “histórias”, que confirmam isso mesmo.

É do conhecimento geral que nos quartéis era normal o uso de uma linguagem que não só não primava pela elegância, mas também ultrapassava, uma vez por outra, a fronteira da boa educação, não sendo invulgar o uso do palavrão. A excepção, na nossa Companhia, era o Fernando Babo. Quando achava que alguma das nossas brincadeiras estava a passar das marcas, utilizava uma expressão que nunca mais esqueci, e ao mesmo tempo que encarava o “abusador”, dizia-lhe na sua pronúncia muito característica (que creio que nunca perdeu): “Vai morder o S. João na pila!”. Note-se que não estou a adoçar a frase, usando um termo mais suave; era mesmo assim, com delicadeza, que se expressava.

A sua peculiar sensibilidade manifestou-se, por exemplo, na comemoração do seu aniversário, em Lucunga.

Tinha-se criado o hábito de cada oficial ou sargento oferecer um jantar com ementa melhorada – normalmente frango de churrasco - a todos os outros oficiais e sargentos.


Num convívio com a CCaç 715; o Babo está ao centro, com uma garrafa na mão

Era uma ocasião em que o comandante da Companhia, capitão Rubi Marques, afrouxava a rigidez do RDM (Regulamento de Disciplina Militar) pelo que oficiais e sargentos convíviam, incluindo, naturalmente, o próprio comandante. Por norma, cabia-lhe a missão de, em nome de todos, pronunciar algumas palavras na altura do brinde, o que também aconteceu no aniversário do Babo.

Depois, foi a vez de o Babo tomar a palavra para agradecer. Ao referir o significado que para ele tinha aquele jantar, frisou que, para todos os efeitos, naquele dia tão especial nós constituíamos o lenitivo que, naquela data tão especial, substituia a sua família, forçadamente ausente, acentuando que, dadas as circunstâncias, o cap. Rubi Marques era uma espécie de segundo pai.

Foi então que, comovido, o nosso comandante – que tinha fama de ser um militar puro e duro – mostrou a sua faceta mais humanista. Comovido pela sensibilidade natural que o Fernando Babo pusera nas palavras que acabava de pronunciar, e não querendo chorar diante de todos nós, levantou-se, abandonou a sala, saltou para a bicicleta do sargento de dia que estava encostada à parede, e a pedalar vigorosamente saiu do quartel – e da protecção do arame farpado - pela estrada (picada) fora, perante a surpresa de todos.

Acabámos por ir buscar uma viatura e recolhê-lo mais à frente, por uma questão de segurança.

Era esta uma das formas como se manifestava a delicadeza tocante que o Babo produzia nos outros.


A bordo do "Vera Cruz"; o Babo é o segundo a contar da direita

Convivi com ele quase diariamente de Setembro de 1964 até Fevereiro de 1966, altura em que o BArt 741 foi transferido para o Quanza-Sul. A CArt 738 ficou aquartelada na Gabela, mas o 4º pelotão, a que pertencia a secção que o Babo comandava, foi colocada em Porto Amboim.

Nesse último ano de comissão, apenas convivíamos algumas horas, quando lhe cabia comandar a “coluna” que vinha à Gabela. A excepção foi o mês inteiro que estive em Porto Amboim, por troca com o Miranda Dias que, tendo a profissão de desenhador de contrução civil, esteve na Gabela a desenhar o projecto para a construção da Casa do Soldado. Voltariamos nessa altura a ter muitas horas de conversa, quase sempre sentados em frente ao mar. Era então que falávamos da lentidão na passagem dos dias e, já casado, ele se queixava das saudades que sentia da sua Fernanda.

Terminada a comissão, não voltou connosco. A chamado de familiares, viajou para Moçambique (com a esposa que, entretanto, se lhe tinha juntado em Luanda), onde ficaria até à independência daquele país.

Embora tivessemos falado algumas vezes ao telefone, só voltámos a encontrar-nos em 1994, no restaurante do José Alves, em Fafe, no decorrer de um almoço com um pequeno grupo de ex-militares da CArt 738, onde compareceu acompanhado pela esposa.

Com este texto quero homenagear um amigo, que era também um Homem bom.

sábado, 9 de julho de 2011

Gabela - Olh'ó Passarinho!

(Clique na imagem para aumentar)


1-(?); 2-Albino Marinho; 3-(?); 4-(?); 5-Manuel Magalhães; 6 a 11 (?); 12-Pedro; 13 a 16 (?); 17 Tarcísio Alves?; 18 e 19 (?); 20-Manuel Morgado; 21-Morais Soares; 22-Hilário Grilo; 23-Custódio; 24-João Silva; 25-Brandão Pacheco; 26 a 28(?); 29-António Passarinho; 30-Manuel Morais; 31-João Redondo; 32 e 33 (?); 34-Manuel Rato; 35 e 35-A (?);  36-José Alves; 37 (?); 38 - António Luzia; 39-Nunes da Silva; 40-Carlos Fonseca; 41 e 42 (?); 43-Armindo Boleto; 44-José Bastos; 45-Augusto C. Fernandes; 46-António Gomes; 47 (?); 48-António Sousa; 49-Manuel Dias; 50-Ferreira da Silva; 51-José Claudino; 52-Joaquim Ramalho; 53-Ivo Resende; 54-Leonídio Torcato;  55-José Oliveira; 56-João Magro; 57-Simões da Silva; 58-(?); 59-José Rodrigues; 60-(?); 61-Francisco Morgado; 62(?); 63-Manuel Lopes; 64-António Azevedo; 65 e 66(?); 67-Manuel Ferreira; 68(?); 69-Casimiro Cerqueira; 70-José Pereira; 71-(?); 72-Francisco Tavares; 73(?); 74-Pereira




A foto que encima este texto foi-me enviada pelo Morais Soares, e foi tirada no quartel da Gabela, em frente ao edifício do comando. Nela estão fotografados 75 militares da Cart 738, que constituiam um pouco menos de metade dos efectivos da Companhia.

Não sei a data exacta em que teve lugar a sessão fotográfica, mas presumo que tenha sido entre Março e Julho de 1966, visto que na fotografia também figura o então tenente Simões da Silva (57) (que já nos deixou, vítima de cancro), que foi nosso comandante de Companhia durante aquele período, mais semana, menos semana.


A razão para apenas figurarem na foto 75 elementos, sendo certo que o efectivo da Cart 738 era de 163 militares, radica no facto de apenas estarem aquartelados na Gabela dois pelotões, bem como os indispensáveis serviços de apoio (cozinheiros, operadores de transmissões, condutores-auto, enfermeiros, etc.). O 4º pelotão estava instalado em Porto Amboim desde o início da mudança para o Quanza-Sul, em Fevereiro, e o 3º pelotão, ou estava em Vila Nova de Seles – que hoje se chama Uku Seles – , para onde foi deslocado algum tempo depois de chegarmos à Gabela, ou já tinha seguido para o Calulo, onde foi substituir CArt 739, entretanto transferida daquela localidade para o Leste de Angola. Ainda assim faltam alguns dos camaradas que permaneciam na Gabela, ou porque estavam a desempenhar tarefas inadiáveis (serviço de guarda, por exemplo), ou por estarem de férias (o que seria, provavelmente, o caso dos furriéis Vaz e Mourão, que embora pertencessem à Gabela, não estão na fotografia).

Nenhum dos rostos dos camaradas fotografados me é estranho, mas não consigo juntar o nome ao rosto de todos. Solicito, por isso, aos poucos camaradas que visitam o blogue (a maior dos que o visitam não fizeram parte do Bart 741), que me ajudem a completar a legenda, enviando o nome dos que identificarem - ou corrigindo algum que esteja trocado -  para o endereço cart738@gmail.com.

Estou a lembrar-me, entre outros, do Mário Abreu, que, embora “escondido", figura como seguidor do blogue e com quem tentei contactar telefonicamente para o nº que me deu quando nos encontrámos no almoço do Batalhão que se realizou na Barragem da Aguieira, mas sem êxito.

E, se algum dos leitores tiver (e quiser) enviar fotos desse tempo para publicação – à semelhança do que já fizeram o Sebastião Fagundes, o Morais Soares e o Jorge Isidoro, este último furriel-miliciano da Companhia que nos rendeu na Gabela –, ficarei grato.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

Alex, o Fabuloso



Alex, em pose artística 
(Infelizmente para o Branco, a foto não foi tirada na "famosa" sessão)

Em 1966 (não me recordo da data exacta), apareceu na Gabela um circo que se exibiu durante 4 ou 5 dias, sempre com as bancadas da tenda bem compostas de público.

A particularidade que me leva a escrever sobre este circo consiste no facto de a grande atracção do espectáculo não ser nenhum dos artistas que normalmente ligamos à actividade circense: trapezistas, equilibristas, palhaços, contorcionistas, etc. A grande atracção era, neste caso, Alex, “o Fabuloso”, como era conhecido, por força da publicidade, o artista.

Alex era um cançonetista famoso em Angola que cantava, principalmente, canções românticas. Foi, mais do que uma vez, capa da revista “Notícia” - talvez o mais importante órgão da imprensa angolana daquele tempo, cujos números esgotavam com frequência, sobretudo nas cidades da província, como era o caso da Gabela. Eu reservava a minha todas as semanas, para não falhar.

O cançonetista apresentava-se com um vestuário um tanto extravagante para os costumes da altura, usava cabelos loiros cujo comprimento fazia dos Beatles, cujo cabelo “à pagem” era então muito criticado por alguns sectores mais conservadores, meninos de coro, e em palco meneava-se num ritmo quase provocante.

Não tinha uma voz por aí além, mas sabia estar em palco e era capaz de entreter o público, com quem encetava diálogo se se proporcionasse a ocasião.


Capa de um disco
(Aqui, para me contrariar, de cabelo curto)

Foi o que aconteceu na noite de estreia do circo. Sempre que havia qualquer espectáculo a quebrar a vida rotineira da cidade, muitos de nós – militares sem mais nada para fazer – não falhávamos na assistência, como aconteceu naquela noite, com o “meu” grupo.

A dada altura da actuação, o Alex interpretou uma canção em que um dos versos dizia “Estou tão só”. Foi o bastante para que alguém do grupo – não me lembro quem foi, mas até posso ter sido eu - gritou lá para baixo qualquer coisa deste género: “Não estás nada só; só aqui estamos uma data deles”!

O artista interrompeu a canção e começou um diálogo bem humorado connosco, que se foi prolongando nos intervalos das canções, agora já por iniciativa dele, e a que nós íamos dando troco.

Nessa época, eu e mais três camaradas tinhamos deixado de comer na messe de sargentos, descontentes com a alimentação que, como escrevi noutro texto, pagávamos do nosso bolso, e tomávamos as nossas refeições a preço de amigo (embora mais caras do que na messe) no Hotel Guaraná, onde tinhamos ficado alojados quando chegámos à Gabela.

No dia seguinte ao espectáculo, quando entrámos na sala de jantar do Hotel, foi com surpresa que vimos o Alex a almoçar, sozinho, numa das mesas. Estava alojado no Hotel, mas nós não sabíamos. Fizemos um gesto de saudação e sentámo-nos na mesa habitual.

Quando acabámos de almoçar e saimos, ele estava sentado no bar, e nós dirigimo-nos a ele com a intenção de lhe pedir desculpa pela inconveniência da véspera. Respondeu a rir que até tinha tido piada e que se voltássemos, podiamos repetir a brincadeira, porque ajudava a animar a função.


O artista numa festa na Quinta do Conde, em 2009

Entretanto, a conversa prolongou-se, todos concordámos que a noite gabelense era parada e desinteressante e, já não sei como, alguém levantou a ideia de ele fazer uma sessão de fotos artísticas na Foto Branco – um dos dois “estúdios” de fotografia da Gabela, com cujo dono nos dávamos bem -, na noite seguinte, depois do espectáculo. Ele concordou, e nós ficámos de convencer o Branco a fazer uma noitada, que incluiria bebidas e petiscos, de nossa conta.

Nessa tarde, depois de sairmos do quartel, fomos falar com o fotógrafo. Era um homem ainda novo, que residia com a mulher e a filha bébé num primeiro (e último) andar, onde acumulava a residência com o estúdio de fotografia. O Branco mostrou-se reticente em fazer aquele trabalho – que era uma borla -, mas nós convencemo-lo, argumentando com a publicidade que ele teria quando começassem a aparecer as fotos artísticas do Alex por Angola fora, com a indicação “Foto Branco – Gabela”.

A sessão realizou-se mesmo, com um ou outro excesso, de reduzida importância, e o Alex, sensibilizado pela forma com que o tratámos (não era raro ser insultado aqui e ali, sobretudo por militares “machões”, como ele dizia), declarou-se nosso amigo para sempre.

Para sempre não terá sido, mas alguns dos meus camaradas que coincidiram com ele em Luanda, ainda foram algumas vezes a festas em sua casa, quando iam de licença àquela cidade. E que festas, segundo eles!

Das fotos artísticas que ele levou é que não houve mais notícias, nem proveito para o Branco. Mas ele nunca pareceu aborrecido. E também ficou com a recordação de um serão diferente e bem interessante.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Um Domingo Singular


                               

Em baixo, da esq. para a dta.: Pedro (?), Resende, Brandão Pacheco, 
Carnaças e Vaz;

Em cima: Fonseca, Peixoto, Rebelo,  Pereira. ten-cor. Soares, ten. Simões da Silva, Oliveira, ?, Custódio;


Na Gabela, os fins de semana de Maio e Junho de 1966, foram ocupados com a realização de um torneio de futebol, com jogos disputados entre as Companhias do Batalhão. Os jogos efectuavam-se - um em cada fim-de-semana - no Campo da Aricanga, propriedade da ARA-Associação Recreativa do Amboim, graciosamente cedido. 

Aos espectadores era solicitada uma contribuição monetária, revertendo as receitas obtidas para as obras da Casa do Soldado que, como já referi anteriormente, estava a ser construída no quartel por iniciativa da Delegação local do Movimento Nacional Feminino, com recurso à mão de obra do pessoal da CArt 738 (excepto em trabalhos que exigiam maior especialização).

Sendo embora a obtenção de receitas o objectivo principal, estes encontros serviam também para uma sã confraternização dos militares que, embora pertencendo ao mesmo Batalhão, apenas tinham contactos esporádicos, atendendo às distâncias das localidades onde se encontravam instaladas as respectivas unidades.


Calulo

Para um dos domingos de Junho, estava programado o jogo entre a equipa da CArt 739, aquartelada no Calulo (embora tivesse o 4º pelotão destacado em Mussende), e a da CCS, que vinha de Novo Redondo.

A meio da manhã, com a chegada das delegações visitantes, instalou-se a animação no quartel, tendo-se formado vários grupos em entusiasmadas conversas, que continuaram durante o almoço.

O "balde de água gelada", caiu-nos em cima quando, ia a refeição a meio, surgiu uma mensagem que, de súbito, transformou o alegre convívio num triste e pesado silêncio. A referida mensagem determinava que a delegação da CArt 739 deveria regressar de imediato ao Calulo, porque a Companhia tinha recebido ordem de transferência para o Leste de Angola.


Igreja de Mussende

Quarenta e cinco anos depois, ao escrever este texto, ainda sinto um arrepio na pele, como se estivesse, de novo, a viver aquela situação. Parecia-nos a todos – independentemente da Companhia a que pertencíamos - que estávamos a viver um pesadelo.

O almoço acabou rapidamente, e os militares da CArt 739 partiram de regresso à sua unidade sem chegarem a disputar a partida de futebol, num ambiente de grande consternação, partilhado por todos.

Essa consternação tinha razão de ser. Depois dos treze meses de permanência no Norte, onde a CArt 739 já tinha sofrido com a morte de dois camaradas, voltava agora para uma zona onde o inimigo se encontrava igualmente activo, e onde voltaria a ser flagelada pela morte em combate de mais um dos seus homens, o soldado Artur Santos (Palhaço), a quem o Veterano, seu comandante de pelotão, aqui prestou a merecida homenagem. 

A fim de não defraudar os espectadores que se deslocaram ao campo, acabou por se realizar um jogo em que, frente à equipa da CCS, se apresentou uma formação mais ou menos improvisada da CArt 738. A verdade é que jogámos todos por obrigação e completamente desmotivados. Basta atentar nos sintomáticos rostos fechados de quase todos.

 Parafraseando uma velha "máxima" militar, cabia aqui dizer que "El-Rei manda jogar, não manda chorar"!

Não me recordo dos números finais, mas recordo-me que venceu a CCS.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Só Roupa, ou Roupa e Pés?


Gabela - Lavadeiras no rio Mazungue


Tanto quanto me recordo, em Lucunga não haveria mais que cinco ou seis lavadeiras a tratar da nossa roupa.

Na Gabela, o caso mudou de figura. Pode dizer-se que cada um dos interessados podia escolher uma lavadeira com carácter de exclusividade.

Tínhamos sido postos ao corrente desta particularidade, logo nos primeiros contactos com os camaradas que estavam de partida, por terem terminado a comissão de serviço.

De facto, logo no segundo dia apareceram no quartel várias mulheres, a maior parte com pouco mais de vinte anos, quase todas moradoras na sanzala Sétima, a oferecer os serviços da sua especialidade.

Antecipadamente prevenidos, não ficámos surpreendidos quando, ao negociarmos o valor da mensalidade a pagar pelo trabalho, a resposta era antecedida pela pergunta sacramental:

É só para lavar a roupa, ou o meu furriel quer roupa e pés?”


Novo Redondo - Lavadeiras no rio N'Gunza

Normalmente, a quantia a desembolsar pela “lavagem de roupa e pés” era sensivelmente o dobro da simples lavagem de roupa, o que não impediu que um significativo número de camaradas optasse pelo “serviço” completo. Aliás, havia meses em que o valor acordado tinha que ser reforçado, quando a lavadeira aparecia no quartel a entregar a roupa e dizia que já não tinha dinheiro para comprar mais carvão. E lá iam mais uns trocos. Merecidos, de resto, que as roupas andavam sempre impecáveis.

Num blogue bem comportado, como é o caso deste, não é fácil explicar em que consistia a “lavagem de pés”. Porém, para quem leu o post que aqui publiquei, oportunamente, elucido que, grosso modo, se tratava de uma função muito semelhante à da “Lisette”.

Também desta vez, o nosso “Mendonça” foi protagonista de um momento de humor, que resultou de um compreensível equívoco. Quando chamou uma das lavadeiras e lhe perguntou quanto queria receber para lhe lavar a roupa, ela, por sua vez, perguntou-lhe com o ar mais inocente deste mundo:

É só para lavar a roupa, ou quer roupa e pés?”

Não tenho, nem o engenho nem a arte necessários para descrever com realismo a expressão meio espantada, meio envergonhada, do “Mendonça” quando, de rosto vermelho e muito atrapalhado, respondeu:

Não! Não! Nem pensar! Só roupa, eu sou casado!”

Escusado será dizer que as gargalhadas dos circunstantes estalaram de imediato, e o episódio foi motivo para as mais diversas piadas, nos dias seguintes.

Coisas do género: “ Ó “Mendonça” tens os pés sujos?”


Nota: Embora o episódio relatado seja verídico, “Lisette” e “Mendonça” são nomes fictícios

sábado, 18 de junho de 2011

Gabela - Primeiros contactos



Vista aérea da Gabela

O quartel da Gabela ficava “entalado”entre duas sanzalas: a poente, ficava a Sétima, que a separava da cidade branca; a nascente, o Cateco, que se estendia até ao rio Mazungue.
O quartel estava instalado em edifícios que pertenceram, em tempos, a uma missão católica e residência paroquial (*), entretanto adaptados para acolher militares.

Não tinha muros e, tal como em Lucunga, era delimitado por uma cerca de arame farpado.

No edifício principal ficou instalado o comando da Companhia, os alojamentos dos oficiais, a caserna dos praças e a cantina. Nas traseiras funcionava a secretaria, a meias com o alojamento do primeiro-sargento Ramalho (o “Maravilhas” para os “clientes” da messe de sargentos), bem como a cozinha do rancho geral. A sul, ficava o refeitório dos praças, que durante a manhã era utilizado como sala das aulas regimentais, obrigatoriamente frequentadas por quem não tivesse completado a instrução primária. Finalmente, a norte, ficava a messe de sargentos (quartos e “sala” de jantar).

Havia ainda um campo de futebol, que no primeiro contacto nos deixou desapontados devido às suas reduzidas dimensões, o que não impedia que se disputassem renhidas partidas, normalmente com menos de onze de cada lado, e muitas vezes com a colaboração de jovens das sanzalas vizinhas.

Lamentavelmente, não tenho nenhuma fotografia do quartel. De resto, cheguei à conclusão (para a qual não encontro explicação) de que tenho muito menos fotos dos tempos da Gabela do que dos de Lucunga.



Estação de caminho de ferro, em foto com poucos anos. Em 1966 estava pintada de amarelo

Como escrevi no post anterior, o dia seguinte à nossa chegada coincidiu com o dia de Carnaval. Talvez por isso, saímos cedo do quartel e o grupo de que eu fazia parte foi ao hotel, tomar um duche e vestir traje civil, depois do que nos sentámos na esplanada a beber a nossa primeira cerveja “gabelense”, antes de partirmos para o reconhecimento da cidade e dos seus “bares”.


Ainda na esplanada, começámos a ouvir o que nos parecia ser o rufar de tambores, acompanhados de apitos ritmados. Pouco depois, começava a subir a rua um grupo de algumas dezenas de foliões, negros, que tocavam, cantavam e dançavam, dirigindo-se para o centro da cidade.

A Gabela era uma cidade pequena. Recordo que na primeira carta que escrevi para casa, dizia aos meus pais que na “Metrópole”, seria, quando muito, uma vila sede de concelho. Fui percebendo com o tempo que, independentemente da sua dimensão, era uma terra bem interessante.


Sede do ARA em ruínas, anos depois da independência

Os seus moradores dispunham entre outras coisas de um hospital, uma Escola Industrial e Comercial, um Colégio particular (interno e externo) onde era ministrado o ensino liceal, uma escola primária com várias salas de aula, uma estação de Correios, duas farmácias, uma papelaria/livraria, três hóteis, dois clubes (embora um, o Sporting do Amboim, estivesse inactivo, apenas funcionando o bar. O outro, a que todos chamavam “o” ARA (impropriamente, já que sendo o seu nome, ARA-Associação Recreativa do Amboim, devia ser “a” ARA. Mas a instituição ARA merece ter, mais tarde, um post exclusivo), uma igreja católica, uma esquadra da PSP, além de inúmeros estabelecimentos comerciais, dos quais destaco a Londrina (que também era conhecida por A Ladroína, devido aos preços dos artigos) do Sr. David, onde comprei roupa e sapatos, de que me encontrava desfalcado, porque quando vim de férias trouxe, e deixei em casa, quase toda a roupa civil que tinha levado, convencido de que iria fazer toda a comissão no mato.



Sede do ARA depois das obras de reabilitação

Seria imperdoável esquecer a estação e as oficinas do Caminho de Ferro do Amboim, que era um caminho de ferro de via estreita, e que, além de passageiros, servia para o transporte de café - cuja cultura era a principal actividade da região - entre a Gabela e os navios que ancoravam em Porto Amboim.


Nesse dia de Carnaval de 1966, ainda fomos, à noite, espreitar o animado baile que teve lugar no ARA. O salão estava cheio de gente jovem (e menos jovem), incluindo alunos e alunas do Colégio, sendo que estas eram “escoltadas” por pessoal do colégio, sob o olhar atento do prefeito Oliveira e da esposa. Novos no lugar, limitámo-nos a observar o ambiente. A nossa estrondosa entrada no salão de baile teria lugar no baile seguinte. Mas disso talvez venha a escrever mais tarde, ou não.

A nossa noite terminaria no Bar Tropical, à volta de uns pregos no prato, acompanhados das indispensáveis imperiais (que julgo que lá se chamavam finos).


(*) Aquando da publicação deste texto a informação que eu tinha era a de que os edifícios tinham pertencido ao Colégio Santa Isabel, e foi isso que inicialmente escrevi.

Entretanto, o comentador António Fernandes, gabelense que me merece todo o crédito, esclareceu em comentário que os antecessores da tropa eram outros.


Fica a correcção, com os meus agradecimentos.