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sábado, 3 de setembro de 2011

As Patrulhas (Parte II)


(Clicar para aumentar)


Mapa do Quanza-Sul, em 1966

A - Gabela; B - Zona de confluência entre os rios Longa e Nhia; C - Dala Cachibo; D - Quirimbo; E - Nascente do rio Longa; F - Nascente do rio Nhia;

A fazenda Longa Nhia, propriedade da CADA (Companhia Angolana de Agricultura) situava-se quase no limite do Distrito do Quanza-Sul, a Noroeste, onde começava o Distrito de Luanda, próximo da confluência dos rios Longa e Nhia.

Nunca tínhamos realizado nenhuma patrulha para aquelas longínquas bandas, quando me tocou, não me lembro se por escala, ou se na circunstância fui intencionalmente “premiado” (o que de vez em quando acontecia, depois de o comando da Companhia ter sido assumido pelo capitão Carvalho, que não escondia que tinha por mim uma especial “simpatia”) com uma patrulha de quatro dias, que incluía a passagem por aquela fazenda.

Uma patrulha com quatro dias de duração era normalmente uma estopada, mas não fiquei muito aborrecido. Embora não houvesse nenhum motivo razoável que o justificasse, sentia alguma atracção pela Longa Nhia. Talvez fosse a exótica sonoridade do nome. (Acontecia-me gostar de um local antes de o conhecer, só porque gostava do nome. Por exemplo, fui três vezes em patrulha a uma localidade chamada Dala Cachibo, porque o nome me caiu no goto. Por escala, só lá teria ido uma vez: a segunda. Das outras fui por troca com camaradas que não gostavam da viagem, porque a “estrada” era péssima. Para mim também era, mas o desconforto era compensado pela simpatia dos moradores. Além disso, comia-se lá muito bem).

No fim do primeiro dia de viagem a caminho da Longa Nhia – a viagem incluía, como era hábito, visitas a outras roças e a várias sanzalas –, jantámos e passámos a noite numa fazenda cujo proprietário nos recebeu tão bem, que acabámos por aceitar o insistente convite para voltar, e almoçar quando, no terceiro dia, regressássemos da Longa Nhia. Da ementa faria parte um leitão confeccionado pelo patrão, o que, a meu ver, justificava plenamente um ligeiro desvio de percurso.



Porém, os nossos planos acabaram por sair parcialmente furados. Quando seguíamos a caminho da Longa Nhia, ao chegar a hora do almoço, encontrávamo-nos numa zona onde havia três ou quatro sanzalas a curta distância umas das outras, e que tínhamos de visitar. O pequeno almoço, reforçado como era usual, tinha-nos atrasado, pelo que não tínhamos nenhum “restaurante” nas proximidades. Mas a fome também não era muita. Apesar disso, depois de o enfermeiro distribuir os habituais comprimidos aos doentes, e de fazer alguns pensos, resolvi fazer uma paragem para petiscarmos a ração de combate.

Alimentados, voltámos ao jeep para prosseguir viagem. O condutor pôs o motor a trabalhar sem qualquer problema, mas quando meteu a primeira para arrancar, as rodas não se moveram. As mudanças entravam, mas a  viatura continuava no mesmo sítio. Vendo que não havia solução no local, já que nenhum de nós sabia como resolver o problema, consultei a carta militar e concluí que a linha férrea Gabela-Porto Amboim não devia estar a mais de doze quilómetros do local onde nos encontrávamos, e que havia uma estação – creio que era o Quirimbo – que não ficava muito mais longe.

Ultrapassada a dificuldade em me fazer entender pelos moradores da sanzala – o Português não era muito falado por lá, e o meu quimbundo andava pelas ruas da amargura – lá consegui arranjar um guia que conduziu um dos meus camaradas até à estação. A 45 anos de distância não tenho a certeza se o responsável pela estação enviou uma mensagem para a Gabela, dando conta do sucedido, como julgo que terá acontecido, ou se o nosso camarada apanhou um comboio e foi pessoalmente dar conta do recado. Esta última hipótese parece-me pouco provável, porque à hora a que ele terá chegado à estação o mais natural era já ter passado o último comboio do dia.

O certo é que passámos a noite no meio de nada.

À hora do jantar apareceram uns quantos moradores da sanzala mais próxima, que, num gesto solidário, e sem saberem que possuíamos rações de combate, nos trouxeram espigas de milho, assadas, e água para beber. Foi uma atitude inesperada, que nos deixou sensibilizados. Pela nossa parte, retribuímos oferecendo algumas das nossas rações, que eles não conheciam, explicando-lhes em que consistia o seu conteúdo, além de dividirmos com eles parte da nossa provisão de cigarros, que para eles eram uma espécie de tesouro. Pareceram contentes com a nossa oferta e retiraram-se para a sanzala. Nós dormimos ao relento.


Rio Nhia

No dia seguinte, à hora em que devíamos estar a sentar-nos à mesa para comer o leitão, chegou um Land-Rover transportando o furriel-mecânico Sousa e o 1º cabo-mecânico Claudino (“Zé da Pipa” para os amigos), cujas mãos obravam milagres na resolução das mais variadas avarias. Para aquela não houve milagre. Segundo estes especialistas, o disco de embraiagem tinha-se “descravado” e não tinha reparação possível no local, pelo que não tivemos outro remédio senão levar o jeep a reboque do Land-Rover.

E foi assim que ao fim da tarde chegámos, não à Gabela, mas à fazenda onde devíamos ter almoçado, encontrando o respectivo proprietário muito preocupado pela nossa demora. Porém, o petisco continuava à nossa espera, agora com mais dois comensais.

O leitão, temperado a preceito, tinha ido ao forno com um recheio de arroz e miúdos e, depois de voltar ao forno para ser aquecido, foi devidamente apreciado por todos.

Sou um apreciador de leitão, sobretudo quando assado à moda da Bairrada, mas, talvez induzido por aquelas circunstâncias tão especiais, continuo a achar que nunca mais comi um leitão que me soubesse tão bem.

No dia seguinte chegámos à Gabela, à hora do almoço. E eu nunca cheguei a ir à fazenda Longa Nhia. Mas fiquei com pena.


sábado, 18 de junho de 2011

Gabela - Primeiros contactos



Vista aérea da Gabela

O quartel da Gabela ficava “entalado”entre duas sanzalas: a poente, ficava a Sétima, que a separava da cidade branca; a nascente, o Cateco, que se estendia até ao rio Mazungue.
O quartel estava instalado em edifícios que pertenceram, em tempos, a uma missão católica e residência paroquial (*), entretanto adaptados para acolher militares.

Não tinha muros e, tal como em Lucunga, era delimitado por uma cerca de arame farpado.

No edifício principal ficou instalado o comando da Companhia, os alojamentos dos oficiais, a caserna dos praças e a cantina. Nas traseiras funcionava a secretaria, a meias com o alojamento do primeiro-sargento Ramalho (o “Maravilhas” para os “clientes” da messe de sargentos), bem como a cozinha do rancho geral. A sul, ficava o refeitório dos praças, que durante a manhã era utilizado como sala das aulas regimentais, obrigatoriamente frequentadas por quem não tivesse completado a instrução primária. Finalmente, a norte, ficava a messe de sargentos (quartos e “sala” de jantar).

Havia ainda um campo de futebol, que no primeiro contacto nos deixou desapontados devido às suas reduzidas dimensões, o que não impedia que se disputassem renhidas partidas, normalmente com menos de onze de cada lado, e muitas vezes com a colaboração de jovens das sanzalas vizinhas.

Lamentavelmente, não tenho nenhuma fotografia do quartel. De resto, cheguei à conclusão (para a qual não encontro explicação) de que tenho muito menos fotos dos tempos da Gabela do que dos de Lucunga.



Estação de caminho de ferro, em foto com poucos anos. Em 1966 estava pintada de amarelo

Como escrevi no post anterior, o dia seguinte à nossa chegada coincidiu com o dia de Carnaval. Talvez por isso, saímos cedo do quartel e o grupo de que eu fazia parte foi ao hotel, tomar um duche e vestir traje civil, depois do que nos sentámos na esplanada a beber a nossa primeira cerveja “gabelense”, antes de partirmos para o reconhecimento da cidade e dos seus “bares”.


Ainda na esplanada, começámos a ouvir o que nos parecia ser o rufar de tambores, acompanhados de apitos ritmados. Pouco depois, começava a subir a rua um grupo de algumas dezenas de foliões, negros, que tocavam, cantavam e dançavam, dirigindo-se para o centro da cidade.

A Gabela era uma cidade pequena. Recordo que na primeira carta que escrevi para casa, dizia aos meus pais que na “Metrópole”, seria, quando muito, uma vila sede de concelho. Fui percebendo com o tempo que, independentemente da sua dimensão, era uma terra bem interessante.


Sede do ARA em ruínas, anos depois da independência

Os seus moradores dispunham entre outras coisas de um hospital, uma Escola Industrial e Comercial, um Colégio particular (interno e externo) onde era ministrado o ensino liceal, uma escola primária com várias salas de aula, uma estação de Correios, duas farmácias, uma papelaria/livraria, três hóteis, dois clubes (embora um, o Sporting do Amboim, estivesse inactivo, apenas funcionando o bar. O outro, a que todos chamavam “o” ARA (impropriamente, já que sendo o seu nome, ARA-Associação Recreativa do Amboim, devia ser “a” ARA. Mas a instituição ARA merece ter, mais tarde, um post exclusivo), uma igreja católica, uma esquadra da PSP, além de inúmeros estabelecimentos comerciais, dos quais destaco a Londrina (que também era conhecida por A Ladroína, devido aos preços dos artigos) do Sr. David, onde comprei roupa e sapatos, de que me encontrava desfalcado, porque quando vim de férias trouxe, e deixei em casa, quase toda a roupa civil que tinha levado, convencido de que iria fazer toda a comissão no mato.



Sede do ARA depois das obras de reabilitação

Seria imperdoável esquecer a estação e as oficinas do Caminho de Ferro do Amboim, que era um caminho de ferro de via estreita, e que, além de passageiros, servia para o transporte de café - cuja cultura era a principal actividade da região - entre a Gabela e os navios que ancoravam em Porto Amboim.


Nesse dia de Carnaval de 1966, ainda fomos, à noite, espreitar o animado baile que teve lugar no ARA. O salão estava cheio de gente jovem (e menos jovem), incluindo alunos e alunas do Colégio, sendo que estas eram “escoltadas” por pessoal do colégio, sob o olhar atento do prefeito Oliveira e da esposa. Novos no lugar, limitámo-nos a observar o ambiente. A nossa estrondosa entrada no salão de baile teria lugar no baile seguinte. Mas disso talvez venha a escrever mais tarde, ou não.

A nossa noite terminaria no Bar Tropical, à volta de uns pregos no prato, acompanhados das indispensáveis imperiais (que julgo que lá se chamavam finos).


(*) Aquando da publicação deste texto a informação que eu tinha era a de que os edifícios tinham pertencido ao Colégio Santa Isabel, e foi isso que inicialmente escrevi.

Entretanto, o comentador António Fernandes, gabelense que me merece todo o crédito, esclareceu em comentário que os antecessores da tropa eram outros.


Fica a correcção, com os meus agradecimentos.